abreu, isabel de

D. Isabel de Abreu nasceu em data incerta entre o final do séc. XV e início do séc. XVI, provavelmente no Arco da Calheta. Os seus pais eram João Fernandes de Andrade, também conhecido como João Fernandes do Arco, e Beatriz ou Brites de Abreu, filha de Rui de Abreu, alcaide-mor de Elvas. Este casal de fidalgos foi efetivamente o primeiro povoador das terras designadas por Arco da Calheta. Entre os seus irmãos e irmã contam-se Águeda de Abreu, esposa do famoso João Esmeraldo, dono da Lombada da Ponta do Sol, Aleixo de Abreu e António de Abreu. Estes dois últimos ficaram conhecidos por participarem valorosamente nas aventuras portuguesas além-mar, nomeadamente nas praças africanas e na Índia.

D. Isabel de Abreu esteve envolvida num episódio muito célebre da história do concelho da Calheta e da Ponta do Sol. Este acontecimento é relatado com entusiasmo por Gaspar Frutuoso no segundo livro da sua obra As Saudades da Terra, escrito entre os anos de 1586 e 1590. Frutuoso dá-nos a conhecer que D. Isabel de Abreu terá sido casada com João Rodrigues de Noronha, capitão-mor do mar da Índia e, capitão de Ormuz desde 1521, data possível do casamento entre ambos. Em virtude da morte do marido, em data indeterminada, e também do pai, Isabel de Abreu acaba por herdar muitas terras e fortuna. Esta é a circunstância em que tem lugar o episódio de 1531 relatado por Gaspar Frutuoso.

António Gonçalves da Câmara, bisneto de João Gonçalves Zarco, desejava casar-se com D. Isabel a fim de alargar o seu domínio naquela terra. Desta forma, decide invadir-lhes as propriedades para a obrigar a contrair matrimónio; porém, D. Isabel consegue dissuadi-lo de o fazer e pede-lhe que retorne no dia seguinte. Quando António Gonçalves da Câmara regressa, com 50 cavaleiros da Ribeira Brava e Ponta do Sol, encontra Isabel barricada com as suas gentes. Este incidente causa-lhe desonra e António Gonçalves da Câmara parte para Lisboa. Anos depois volta à ilha da Madeira e, quando um dia D. Isabel de Abreu se encontra perto da sua propriedade a montar a cavalo, pega-lhe nas rédeas do cavalo e obriga-a a entrar em sua casa, onde a mantém prisioneira.

O ouvidor do Funchal, ao inteirar-se do acontecido, comparece na Calheta com uma força armada. De forma a evitar um confronto, António Gonçalves da Câmara e D. Isabel de Abreu aparecem à varanda e declaram ter chegado a acordo. Seguidamente, a pedido da sua futura esposa, António Gonçalves da Câmara convida o ouvidor e demais presentes a entrar e comer antes de partirem novamente. D. Isabel de Abreu vê ali uma oportunidade de salvação e pede auxílio ao ouvidor, que parte com ela a caminho do Funchal. Por ser tarde D. Isabel vê-se obrigada a pernoitar numa das propriedades de seu cunhado, João Esmeraldo. Por sua vez, António Gonçalves da Câmara reúne uma grande força e monta um cerco a D. Isabel e seus parentes, que dura um total de oito dias. No final desses oito dias, os familiares de D. Isabel de Abreu decidem que a realização do casamento seria melhor do que um possível massacre resultante da luta entre os dois lados. Assim sendo, D. Isabel de Abreu e António Gonçalves da Câmara regressam juntos às suas fazendas, onde se dá a boda.

Apesar da concretização do casamento, Águeda de Abreu não ficou de todo satisfeita com a maneira como todo este episódio decorreu e fez queixa ao monarca. Este enviou à Ilha o desembargador Gaspar Vaz, o que resultou na condenação e desterro de vários dos envolvidos no cerco. António Gonçalves da Câmara consegue, ainda assim, fugir para as Canárias e depois para África, onde presta serviços à Coroa. Na sua ausência, D. Isabel fica internada no convento de S.ta Clara, no Funchal. António Gonçalves da Câmara, devido à intervenção de sua mãe, Joana de Eça, camareira-mor da rainha, consegue, anos depois, um perdão real e retorna à Madeira, onde vive com a esposa, D. Isabel de Abreu, até à morte desta, que terá ocorrido antes de 1555, data do segundo casamento de António Gonçalves da Câmara.

Bibliog.: manuscrita: ANTT, Chancelaria Régia, Chancelaria de D. Manuel I, liv. 13, A Rui De Abreu, Fidalgo da Casa Del-Rei e Alcaide-Mor de Elvas, Mercê, do Primeiro de Janeiro de 1500 em Diante, da Tença de 100, 1500, fl. 2v.; impressa: FRUTUOSO, Gaspar, Saudades da Terra, 6 vols., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2005; SILVA, Fernando Augusto da, A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira, Funchal, Ed. do Autor, 1933; Id. e MENESES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., vol. i, Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1978; SOUSA, João José Abreu de, “D. Isabel de Abreu e António Gonçalves da Câmara. Mito, poesia e história”, Islenha, n.º 21, jul.-dez. 1997, pp. 59-62.

Amanda Coelho

(atualizado a 09.09.2016)