açores, relações com os

As relações da Madeira com os Açores marcaram momentos importantes da história de ambos os arquipélagos, sendo muito evidentes as influências que daí resultaram para ambos os espaços. O facto de a Madeira ter sido o primeiro arquipélago a merecer ocupação efetiva no império português, no qual se estabeleceram formas de governo, estruturas institucionais e sociais, assim como as orientações económicas e os produtos que definiram a economia agrícola, permitiu este relacionamento entre os dois arquipélagos. Também houve a ação de alguns madeirenses, a partir da déc. de 70 do séc. XV, nomeadamente nas ilhas Terceira, Pico e São Miguel. Datam daqui os principais vínculos genealógicos que ligam as famílias dos dois arquipélagos. Depois, na segunda metade do séc. XIX, as ligações marítimas entre os Açores e o continente implicavam uma escala regular no Funchal, o que permitiu a muitos açorianos que utilizaram esta rota conhecerem a Madeira e estabelecerem vínculos de familiaridade com ela. Esta situação só se alterou com as mudanças políticas de 1974 e com a plena afirmação do transporte aéreo.

Desde o início da ocupação europeia destes espaços insulares abriram-se as portas para o necessário e estreito relacionamento entre os dois arquipélagos. Por parte dos Açores, geraram-se vínculos de carácter comercial por causa da obrigação imposta pela coroa de as ilhas açorianas abastecerem a Madeira com cereais a partir do último quartel do séc. XV. Esta obrigação nem sempre foi pacífica, mas prolongou as relações comerciais entre os dois arquipélagos no tempo. Atente-se ainda na função da Madeira como porto de escala nas viagens entre os Açores e as Canárias, nos sécs. XVI e XVII, a qual favoreceu ainda mais este relacionamento. A partir da segunda metade do séc. XIX, e até ao 25 de abril de 1974, estabeleceu-se outra vinculação estreita entre os dois arquipélagos, quando as ligações marítimas dos Açores com a metrópole passaram a ser feitas com escala obrigatória no Funchal. Esta situação mudou com as convulsões políticas de 1974 e com a plena afirmação do transporte aéreo, que acabou com esta rota.

Os açorianos que se deslocaram à metrópole passando pela Madeira acabaram por conhecer a Ilha, ainda que de forma fugaz, e nenhum terá ficado indiferente à visão da baía do Funchal e da sua encosta sobranceira. Muitos açorianos registaram esse encontro com a Madeira na sua memória, mas poucos passaram-no à escrita como Vitorino Nemésio, que nos deixou os registos das suas passagens de 1966 e 1973. O mesmo não se poderá dizer dos madeirenses, que raras vezes tiveram oportunidade de pisar solo açoriano, fazendo-o, apenas, para uma escala no porto de Ponta Delgada e, mais tarde, no aeroporto de Santa Maria, rumo ao continente americano.

Durante o Estado Novo, já na déc. de 70, aconteceram cimeiras nos dois arquipélagos. Com o advento da autonomia regional, pensou-se na possibilidade de um estreitamento de laços entre si. No entanto, os meandros da política partidária vieram a tornar difusa esta solidariedade e a possibilidade de fazer crescer uma comunidade política insular.

Entre 1440 e 1450, o infante D. Henrique deu início à posse das áreas do senhorio na Madeira com a doação das capitanias de Machico, Porto Santo e Funchal. A 8 de maio de 1440, lançou a base da nova estrutura, ao conceder a Tristão Vaz a carta de capitão de Machico. Este ficou como seu representante na parte da ilha que lhe fora atribuída, governando-a de acordo com as atribuições exaradas na carta. O que há de mais significativo nesta estrutura institucional da Madeira é ela ter servido de modelo para a estrutura institucional no espaço atlântico.

SONY DSC

O monarca insistiu, nas cartas de doação de capitanias posteriores às madeirenses, na fidelidade ao sistema traçado para a Madeira. A primeira referência surge, em 1450, na doação da capitania da ilha Terceira a Jácome de Bruges, na qual o infante referiu que quanto à jurisdição e direitos se faça “assim como nas ditas ilhas da Madeira e Porto Santo” (Arquivo dos Açores, I, 104-105). Também na carta de 1474 a Antão Martins, a mesma ideia é clara: “tenha a capitania e governação da dita ilha, como o tem por mim João Gonçalves Zargo na ilha da Madeira na parte do Funchal e Tristão na parte de Machico e Perestrelo no Porto Santo, meus cavaleiros” (ARRUDA, 1977, 80). A transposição institucional foi também extensiva à estrutura municipal e da Fazenda Real: nos Açores vingaram os regimentos municipais do almoxarifado. Por isso, a Madeira firmou-se, nos sécs. XV e XVI, como o principal fundamento do corpus legislativo da nova estrutura institucional que legitimou o quadro institucional do Atlântico português.

A par da vinculação histórica, estamos perante arquipélagos com afinidades diversas nas suas relações com a metrópole mas que quase sempre estiveram de costas voltadas, sendo raras as vezes em que foi notória uma conjugação de esforços. Assim, durante o Estado Novo, a questão política referente à autonomia dos distritos insulares conduziu a que se estabelecesse algum intercâmbio político através das cimeiras realizadas em ambos os arquipélagos, mas pouco mais se avançou e tão pouco favoreceram a unidade política em torno do combate pelos ideais autonómicos. Esta prática teve continuidade nos primeiros anos da autonomia política, após 1976, entrando, depois, numa situação de quase completa rotura ou alheamento.

A história dos dois arquipélagos revela que o relacionamento existente entre eles ao longo dos tempos foi uma consequência lógica do processo histórico, o qual a nenhum dos arquipélagos se mostrou proveitoso. Primeiro, os Açores reclamavam das medidas impositivas da coroa para que fossem o celeiro da Madeira, impedindo o comércio especulativo do produto. Depois, foi a Madeira, a partir do séc. XIX, a reclamar da concorrência dos vinhos e aguardentes dos Açores, mesmo dentro da baía do Funchal, sob a forma de contrabando. A questão das aguardentes dos Açores chega até déc. de 80 do séc. XIX, e é outro problema que as autoridades madeirenses terão de enfrentar. Raras são as vezes em que os destinos de ambos os arquipélagos se cruzam, o que obriga os madeirenses a reforçarem os laços com as Canárias, situação que nunca foi do agrado das autoridades do reino, como era o caso do infante D. Fernando.

Ao longo dos séculos nunca foi fácil definir uma complementaridade para os mercados açoriano e madeirense, nem tão pouco construir e manter um sistema de trocas que fosse favorável a ambas as partes. Os madeirenses queixam-se insistentemente de que a balança comercial pende sempre para os portos açorianos. Ora, isto já sucedia no séc. XV e continua a ser constatado em 1971. Apenas e só a necessidade de provimento de cereais, por parte da Madeira, e a intervenção das autoridades obrigaram a classe mercantil de ambos os arquipélagos a conformar-se com esta rota, que assentava fundamentalmente no abastecimento de trigo e, mais tarde, também de milho, tendo na ilha de São Miguel o principal fornecedor.

Mobilidades

A mobilidade social foi uma característica das sociedades insulares. O madeirense desiludido com a Ilha procurou melhor fortuna nos Açores ou nas Canárias e depositou, mais tarde, na costa africana, as prometedoras esperanças comerciais.

A Madeira, pela posição charneira entre os Açores e as Canárias e pela anterioridade no povoamento, foi, desde meados do séc. XV, um importante viveiro fornecedor de povoadores para estes arquipélagos e elo de ligação entre eles; funcionou mais como polo de emigração para estas ilhas do que como área recetora de imigrantes. Se excetuarmos o caso dos escravos guanches e a vinda de alguns dos conquistadores de Lanzarote, podemos afirmar que o fenómeno de imigração é quase nulo, não obstante, no séc. XVI, os açorianos surgirem com alguma expressão no Funchal.

Foram os madeirenses que deram o arranque definitivo à ocupação da terra açoriana. Os filhos-segundos da aristocracia madeirense, desapossados da terra pelo sistema sucessório, procuraram adquirir nos Açores e, depois, nas restantes áreas de ocupação portuguesa, aquilo que lhes foi negado na Madeira. É disso exemplo Rui Gonçalves da Câmara, ao trocar, em 1474, as terras na Ponta de Sol pela capitania da ilha de São Miguel. O mesmo sucedeu com Álvaro de Ornelas, ao adquirir a capitania da ilha do Pico, como com Diogo de Teive a da Terceira. Com estes vieram outros aristocratas, na esperança de adquirir maior número de dadas de terras, como é o caso de alguns membros da família Bettencourt, dos descendentes de Gonçalo Aires Ferreira, dos Furtado de Mendonça de Castela, do Martim Mendes de Vasconcelos, dos Tavares, dos Cantos e dos Barcelos. Todos eles receberam dadas de terra em São Miguel, na Terceira e em Santa Maria, tornando-se influentes nos locais de fixação.
SONY DSC

Nos Açores, a promoção de novas culturas, como a cana sacarina e a vinha, também está ligada aos madeirenses. Ainda se destaca o nível religioso, pois a presença madeirense foi fundamental na implantação de diversos conventos. Foram as clarissas madeirenses que fundaram, em 1522, o Mosteiro de N. S.a da Conceição do Vale de Cabaços, o Mosteiro de Jesus na Praia na Terceira (1534) e o Mosteiro de Jesus na Ribeira Grande (1555).

O movimento migratório no sentido inverso foi pouco frequente e só teve lugar a partir dos princípios do séc. XVI. Para este movimento deverá ter contribuído a frequência dos contactos comercias entre os dois arquipélagos provocada pelo comércio de cereais e as crises sísmicas que assolaram as ilhas açorianas, com especial relevo para os anos de 1522 e 1563. O retorno dos açorianos só se justificava quando a manutenção do comércio interinsular o justificava. Ao longo dos sécs. XVI e XVII, deparamos com a permanência temporária de açorianos na Madeira, na maioria originários das ilhas que mantinham contactos assíduos com o Funchal, como é o caso de São Miguel e Terceira. No período de 1539 a 1600, segundo Luís Mello, os açorianos representavam 9 % da imigração madeirense. Os açorianos surgiram na Madeira só a partir da déc. de 30, atingindo, em finais do século, um lugar de muito relevo na população da freguesia de Sé‚ do Funchal.

No decurso do séc. XIX, os Açores funcionaram como um porto de passagem para a emigração de madeirenses rumo ao continente americano. Algumas das rotas de navegação retiravam esta possibilidade ao porto do Funchal, obrigando a uma escala nos Açores ou em Lisboa. Na déc. de 50 do séc. XX, com o advento da navegação área, a ilha de Santa Maria também funcionará como uma escala na rota da emigração madeirense para os EUA.

No quadro das migrações madeirenses nos sécs. XIX e XX para lugares variados, como o continente, Açores, Cabo Verde, Angola e Brasil, devemos assinalar a intervenção de vários fatores. O fator económico não foi o único que propiciou esta a saída de população, pois muitos madeirenses foram forçados a sair da sua terra também por causa das suas convicções políticas ou religiosas.

As transformações políticas resultantes da Revolução Liberal de 1820 criaram uma nova situação para a vida política portuguesa. O processo político liberal sofreu um recuo, em 1823, com a Vila-Francada. As Cortes foram suspensas e a Constituição foi abolida. A Madeira aderiu à nova situação aclamando rei, a 13 de junho, o príncipe D. Miguel. O governador Manuel de Noronha foi substituído por Manuel de Portugal e Castro. Este fez-se acompanhar de um Regimento de Infantaria e de uma alçada de seis magistrados para comandar a repressão aos liberais madeirenses. As consequências da mudança foram imediatas, ocorrendo as primeiras perseguições, no funcionalismo público, com a expurga dos liberais e mações, enquanto os demais foram obrigados a assinar um compromisso de não filiação a nenhuma sociedade secreta. A hostilidade na vida política iniciou um processo de emigração de algumas personalidades, como foi o caso de Nicolau Caetano Pitta, editor do primeiro jornal madeirense, O Patriota Funchalense, que teve de se fixar na Terceira, onde veio a falecer. Esta conjuntura forçou, igualmente, a fuga de famílias comprometidas com D. Pedro para a Inglaterra, Brasil e América do Norte. Por sentença de 26 de outubro, foram condenados 24 indivíduos, na sua maioria pertencentes às lojas maçónicas União, Fidelidade e Constância, entre os quais se contavam padres, morgados, militares e intelectuais. Numa segunda sindicância, foram presos 56 membros da Grande Loja Maçónica, como o morgado João de Carvalhal Esmeraldo, Francisco de Paula Medina de Vasconcelos, Nicolau de Bettencourt Pitta, entre outros, sendo deportados para a ilha Terceira, Lisboa e Angola.

Personalidades

Das figuras mais marcantes da mobilidade dos madeirenses deveremos relevar a figura de Rui Gonçalves da Câmara pelo facto de pertencer à família do capitão do Funchal e pelo impulso que deu, a partir da déc. de 70 do séc. XV, ao povoamento da ilha de São Miguel. Outras figuras se seguiram, mas não vamos enumerá-las todas. A convulsão política que sucedeu à Revolução Liberal conduziu a que madeirenses e açorianos se refugiassem num e noutro arquipélago, conforme as conveniências políticas. Um dos casos mais evidentes foi o de Nicolau de Bettencourt Pitta (1788-1857), criador d’O Patriota Funchalense, que se exilou na Terceira, em 1823, onde desenvolveu importante ação como médico e político.

Foi com estes homens e mulheres, que se movimentaram entre ambos os arquipélagos, que se construíram formas de intercâmbio permanentes. Apesar desse intercâmbio de pessoas entre os dois arquipélagos, ter-se-á verificado, desde o início da ocupação das ilhas, alguma animosidade entre os povoadores de um e de outro arquipélago, não obstante uma parte significativa dos povoadores dos Açores serem oriundos da Madeira. Há necessidade, por parte do senhorio, de chamar a atenção para uma maior proximidade dos dois arquipélagos, que não é comungada por açorianos e madeirenses. Na verdade, o infante D. Fernando é claro, na sua estratégia protecionista do espaço do seu senhorio, ao declarar, em 1466, “que tão bom trato é das minhas ilhas dos Açores e tão bom retorno haverem e melhor que de Canaria se em ele quiserem entrar” (Arquivo Histórico da Madeira, XV, 1972, 40).

As divergências acentuam-se ao longo do processo histórico e levam a que a partilha e o intercâmbio sejam conseguidos, muitas vezes, a muito custo por alguns interventores, cuja iniciativa resulta quase sempre de um projeto individual, acabando por cair no esquecimento. Recorde-se a iniciativa de Maria Trindade Mendonça (1916-1997), açoriana, que foi uma das principais promotoras do intercâmbio entre os dois arquipélagos, desde a déc. de 30 do séc. XX até à sua morte. A sua ligação à Madeira estabelece-se a partir de Lisboa, por amigos da Madeira e pela situação de penhora do jornal Eco do Funchal, cujas dívidas aceita cobrir para dar continuidade à sua publicação, assumindo a direção a 25 de março de 1951, onde se manteve durante 34 anos. Foi ainda proprietária do jornal Re-nhau-nhau e de uma editora e uma importante promotora da atividade cultural na Madeira, de que merece referência o Pátio Restaurante, como um verdadeiro cenáculo de escritores, poetas e artistas.

Atente-se a que a déc. de 50 do séc. XX foi um momento promissor de intercâmbio entre os dois arquipélagos, tendo-se criado, em janeiro de 1951, no Funchal, o Círculo de Amizade Madeira-Açores e, em Ponta Delgada, o equivalente Círculo de Amizade Açores-Madeira. Ao abrigo destas estruturas, fizeram-se excursões, intercâmbios de grupos folclóricos, de bandas de música, de clubes desportivos, como as digressões dos clubes de futebol União, Nacional e Marítimo, da parte da Madeira, e do Lusitânia, da parte dos Açores. Salientamos ainda a criação nos Açores da Casa da Madeira, que partiu da iniciativa de um grupo de madeirenses residentes em Ponta Delgada, na maioria ligados à Universidade dos Açores. A Casa da Madeira funcionou como um polo de atração de madeirenses que se encontravam em Ponta Delgada na condição de estudantes universitários ou de residentes.

Com a autonomia política, lançaram-se novas formas de relacionamento, sendo de considerar as geminações de municípios dos dois arquipélagos, de que merece referência a do município de São Vicente na Madeira com o do Nordeste em São Miguel, que contou também com a mediação da nordestina Maria Trindade Mendonça, com protocolo assinado a 20 de maio de 1989.
SONY DSC

Produtos e comércio

A Madeira, mercê da posição privilegiada entre os Açores e as Canárias, apresentava melhores condições para o estabelecimento e manutenção do comércio interinsular. O trigo foi, sem dúvida, o principal móbil das conexões interinsulares, tendo na Madeira, nos sécs. XVI a XVIII, o principal destino. O comércio do cereal das Canárias firmou-se através da regularidade dos contactos com a Madeira, sendo apenas prejudicado pelos embargos temporários, enquanto o dos Açores foi imposto pela coroa, uma vez que a burguesia e aristocracia açorianas, nomeadamente de São Miguel, não se mostravam interessadas em manter este negócio. Todo o empenho dos açorianos estava canalizado para o comércio especulativo com o reino ou para os contratos de fornecimento das praças africanas. A permanência desta rota de abastecimento de cereais implicou o alargamento das trocas comerciais, uma vez que ao comércio do cereal se associaram outros produtos como contrapartida favorável às trocas.

Aos Açores, os madeirenses tinham para oferecer vinho, açúcar, conservas, madeiras, eixos e aduelas de pipa, assim como a reexportação de artefactos e outros produtos de menor importância. Às Canárias, vinho, fruta e manufaturas de importação. As ilhas açorianas foram, no séc. XVI, um consumidor preferencial do vinho madeirense e canário. Tal sucedeu pela necessidade que os açorianos tinham de encontrar uma contrapartida rentável ao comércio de cereais e pelo facto de o vinho que produziam ser de menor qualidade.
SONY DSC

A partir de 1461, as dificuldades sentidas no provimento de cereal desde a Madeira até ao espaço atlântico ditaram as profundas alterações da economia madeirense e conduziriam a uma inversão do comércio de cereal, passando a Madeira a depender do comércio externo. As tentativas do infante D. Fernando, em 1461 e 1466, para manter a dominante cerealífera na economia madeirense e as consequentes rotas de escoamento esbarraram com a alta rendibilidade e valorização da cultura do açúcar. Deste modo, o impulso da safra açucareira e o aumento populacional implicaram uma insuficiência da produção cerealífera e a necessidade de definir um mercado fornecedor.

Devido àqueles fatores, a Madeira precisou de dispor de várias áreas capazes de fornecer o cereal de que a ilha carecia. Assim sucedeu a partir de 1483, com a definição das ilhas vizinhas como provedoras do trigo necessário ao consumo madeirense. Para atrair o produto, estipulou-se, em 1508, a isenção da dízima de entrada; a partir de 1527, foram mesmo custeados os encargos com a descarga, sacos e armazenamento. O celeiro açoriano passou a ter capacidade para cobrir as necessidades do reino, da Madeira e das praças marroquinas. A concretização deste plano só se efetuaria mediante uma permanente intervenção régia por meio de ordenações e regimentos.

A abertura e permanência da rota de abastecimento de cereal açoriano dificultavam a intervenção das autoridades dos dois arquipélagos, uma vez que estão na origem de acesa contestação e permanente boicote dos vizinhos açorianos e de entraves criados pelos funcionários régios e locais. Esta contestação aumentou em momentos de penúria, dificultando o abastecimento de cereais na Madeira. Nos Açores, proprietários e mercadores, com intervenção ativa nos municípios, boicotavam a rota, procurando furtar-se ao encargo do abastecimento obrigatório dos madeirenses. Perante isso, a coroa teve de intervir por diversas vezes, apelando às autoridades açorianas a fim de que não pusessem qualquer impedimento ao envio de cereais para a Madeira.

Mediante a ação especulativa dos grandes produtores, o Rei estipulou a obrigatoriedade de todo o carregamento se fazer mediante procuração da comarca do Funchal e com o preço estabelecido em auto. Em todas as recomendações e ordenações, o monarca fundamenta a sua intervenção no facto de a Ilha não ter “outro pão salvo o que mandão comprar às ditas ilhas” (ABM, avulsos, cx. II, doc. 198, ordenação de 13 nov. 1565). O cereal de importação na Madeira provinha, de modo variado, das ilhas vizinhas e da Europa, sendo muito importante a posição das ilhas com 49 %. No caso dos Açores, o trigo entrado no porto do Funchal era, na sua maioria, oriundo do Faial, de Santa Maria e de São Miguel.

A rota do cereal açoriano abriu algumas portas ao vinho madeirense. Aliás, a primeira referência ao comércio nos Açores surge nos inícios do séc. XVI, na altura em que era vendido na Ribeira Grande a oito reais a canada. O tabelamento do preço de venda ao público pelas vereações de Angra, Ribeira Grande e Velas também atesta a importância que o vinho adquiriu no mercado local. Em 1574, o vinho da Madeira representava 42 % do vinho que entrava no porto de Ponta Delgada, enquanto o do continente ficava apenas por 8 % e o da Terceira e outras ilhas representava 50 %. A primeira referência ao envio de vinho da Madeira para os Açores surge em 1544, no testamento do mercador Afonso Alvarez, em que se refere ter ele enviado, ao Faial, seis pipas de vinho. O Faial foi um porto importante de destino do vinho madeirense, dedicando-se a isso alguns mercadores como Francisco João, falecido em 1620. O comércio do vinho nesta praça, tão próxima das ilhas produtoras do bom vinho açoriano (Pico e São Jorge) resulta, sem dúvida, da contrapartida favorável ao comércio dos cereais. Em Angra, o vinho da Madeira era transacionado com muita frequência, quer para consumo local, quer para redistribuição pelas ilhas vizinhas, Graciosa e São Jorge. As únicas notícias do comércio na cidade surgiram em 1552, 1561 e 1594. Saliente-se, por outro lado, que, em 1564, António Pires do Canto entregara a Pedro Ribeiro 17 pipas de vinho da Madeira para vender nas ilhas de baixo, comprometendo-se o último a entregar ao primeiro, em troca, 20 pipas de vinho da Madeira.

DSC00106

A partir do séc. XVII, a cultura da vinha foi incrementada nas ilhas do Pico, Faial e São Jorge. Muitos dos vinhos produzidos eram transformados em aguardente, que era facilmente exportado para o Brasil, negócio em que se especializou a ilha Graciosa. Apenas as ilhas de São Jorge e do Pico apresentavam vinho com qualidade adequada à exportação. António Cordeiro afirma mesmo a superior qualidade da malvasia do Pico em relação à madeirense. Desde o séc. XVI, o vinho da Madeira era usado em cerimónias e festas religiosas nos Açores, situação que perdurou ainda no séc. XVIII e que fazia deste o chamado vinho de missa. A mesma situação verificou-se em outras ilhas, como as de Cabo Verde.

A baldeação externa com o vinho dos Açores e Canárias parece que foi prática corrente entre 1783 e 1810, anos de maior procura do vinho produzido na Madeira. A Junta da Fazenda havia permitido a entrada de vinho do continente e ilhas para o consumo das tabernas, o que foi aproveitado pelas praças estrangeiras para a falsificação do vinho. Como a situação gerava desconfiança sobre a qualidade do vinho exportado, os negociantes decidiram tirar certidões autênticas para desvanecer os boatos.

O vinho dos Açores surge no Funchal em 1800, num pedido de Domingos Oliveira Júnior em que era solicitado o desembarque de 80 pipas de vinho do Faial, transportadas no bergantim Bom Nome, apresentando, como justificação, as descargas permitidas, em 1796, dos vinhos das Canárias e de Clarete. Senado, nobreza, povo e comerciantes nacionais e estrangeiros, a Junta da Fazenda e o Governador levantaram-se, em uníssono, contra a importação de vinhos de qualidade inferior para depois serem exportados como procedentes da Madeira, argumentando que isso arruinaria o comércio dos vinhos da Ilha. A documentação diz-nos que os vinhos, quer das Canárias e Açores, quer de Málaga e Catalunha, foram admitidos, atingindo-se a receção de 200 pipas. Em 1810, desembarcaram no calhau, por contrabando, algumas pipas de vinho da ilha Terceira. O senado da Câmara Municipal do Funchal ordenou que o referido vinho fosse derramado na Pç. do Pelourinho, em 9 de março de 1810.

As ilhas de São Miguel, da Graciosa, do Faial e da Terceira abasteciam a Madeira do milho que, a partir de meados do séc. XIX, se transformou na principal fonte da dieta alimentar madeirense. Os dados da importação deste cereal e do trigo, para o ano de 1861, revelam que as ilhas açorianas continuam a garantir mais de metade da importação de cereal ao mercado madeirense, não obstante a concorrência de outros mercados, como América do Norte, Mazagão ou Cabo Verde. A par disso, os Açores forneciam, com assiduidade, queijo, ananás, laranja e batata. A partir de 1866, os portos de Mazagão, Safim e Mogador assumiram uma posição dominante no abastecimento de milho à Madeira, perdendo-a, depois para os portos norte-americanos.

O trigo açoriano continuava a ser uma mercadoria dominante nestas transações porque também eram vendidos em preço mais em conta. Assim, para 1883, temos que o moio deste cereal, quando da terra, custava 49.000 réis, enquanto o americano custava 50.000 réis e o açoriano ficava por 39.000 réis. Um outro fator propiciador deste comércio prende-se com o facto de algumas embarcações com origem e destino na Inglaterra contemplarem na sua rota uma escala nos Açores.

Os Açores continuaram a ter na Madeira um mercado importante para as suas produções. Aos cereais adveio a valorização do tabaco, do gado e da carne, da laranja e do queijo. No decurso do séc. XX, foi muito evidente a função dos Açores como mercado fornecedor de gado vacum e porcino para abate ou cria. A Madeira tinha para oferecer banana, tendo recebido, em maio de 1959, 22.290 kg.

Política e políticos

Tanto no passado como no presente, os espaços insulares nunca estiveram em consonância quanto aos objetivos políticos ou quaisquer outros, no sentido de uma maior capacidade de intervenção e reivindicação nas instâncias nacionais. Desde o séc. XV que se nota uma situação de afrontamento entre os dois arquipélagos e de falta de consonância em objetivos comuns, ditada, em certa medida, por processos históricos e económicos distintos. A Revolução Liberal e o debate político vieram, depois, determinar o resto, e estão na origem de um fosso entre ambos os arquipélagos. A atribuição de autonomia a alguns distritos açorianos, em 1894, sem que fosse dada à Madeira foi um dos primeiros rastilhos para o distanciamento no plano político.

A par disso, o quase secular desentendimento ficaria por aqui se acaso não fosse usado para usufruto de dividendos políticos e económicos junto das autoridades metropolitanas. Em 1822, O Patriota Funchalense insiste na ideia de a Madeira ter sido a primeira ilha a aderir à causa liberal e a ter assento na Assembleia Constituinte, mas a última a ser atendida. Na segunda metade do séc. XIX, são insistentes as referências a um favorecimento dado aos Açores, expresso em apoios financeiros materializados em obras públicas, quando a Madeira apresentava um esforço financeiro mais relevante nas finanças nacionais, não conseguindo, no entanto, alcançar qualquer retorno. A este propósito, convém referenciar o protagonismo de madeirenses e açorianos nos mais altos cargos da nação, na qualidade de ministros, presidentes da República ou outras situações que permitissem uma ação consentânea com os interesses da sua terra natal. Em relação a estes madeirenses, não há notícia de que tenham assumido alguma posição de favorecimento da Madeira, mesmo em condições especiais. Já no caso dos Açores, são conhecidas as atitudes polémicas Hintze Ribeiro e as acusações de favorecimento do arquipélago, por muitos sectores políticos madeirenses e pela imprensa (DN, 21 jun. 1887; DN, 4 jan. 1894; DN, 5 jan. 1894; DN, 25 jan. 1894; DN, 21 nov. 1894), que insiste na ideia de que os Açores usufruem de privilégios e regalias financeiras. Não é apenas a atitude de Hintze Ribeiro que é criticada, mas, acima de tudo, aquilo que é considerado como o insistente favorecimento dos Açores, situação que persiste no tempo.

SONY DSCInúmeras vezes, entre o último quartel do séc. XIX e a proclamação da república em 1910, ecoou esta reclamação face à diferente atitude do Estado para com os dois arquipélagos. Apuram-se os dados da receita e despesas, fazem-se comparações e conclui-se que o Estado favorecia os Açores. São múltiplas as vozes madeirenses que se levantaram contra esta situação. Entre elas, refira-se a de Manuel José Vieira, em discurso proferido na Câmara dos Deputados, na sessão de 13 de fevereiro de 1884, em que pede maior equidade na distribuição do dinheiro entre os dois arquipélagos.

Por fim, registe-se que, desde 1821, foram raras as vezes em que os deputados da Madeira e dos Açores estiveram de acordo no estabelecimento de medidas comuns para ambas as regiões no Parlamento nacional. Madeira e Açores, embora arquipélagos com estatuto semelhante, raras vezes se entenderam e se uniram na luta por objetivos comuns.

Bibliog.: manuscrita: ABM, avulsos, cx. II, doc. 198, ordenação de 13 nov. 1565; impressa: AGOSTINHO, José, “Diogo de Teive povoador da ilha Terceira, descobridor das ilhas das Flores e do Corvo, explorador dos mares do Ocidente, não foi o responsável pelo desaparecimento de Jácome de Bruges”, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, n.º 1, 1943, pp. 50-59; ARAÚJO, M. B., “Considerações em torno da economia da Madeira e dos Açores (séculos XV-XVIII)”,  Portuguliae Historica, 2.ª série, vol. I, 1991, pp. 279-314; Arquivo dos Açores, vol. 1, Ponta Delgada, Instituto Universitário dos Açores, 1980; Arquivo Histórico da Madeira, vol. XV, Funchal, Arquivo Distrital do Funchal, 1972; ARRUDA, Manuel Monteiro Velho, Colecção de Documentos Relativos ao Descobrimento e Governo dos Açores, Ponta Delgada, s.n., 1977; DIAS, F. S., “As relações comerciais entre a Madeira e S. Miguel, 1800 a 1831”, in I Congresso Internacional de História da Madeira, vol. II, Funchal, DRAC, 1990, pp. 966-991; FERNANDES, José Manuel, “Algumas considerações sobre a casa urbana nas ilhas do Atlântico: Madeira, Açores, Canárias, Cuba (séculos XVI-XVIII)”, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. XLIX, 1991, pp. 511-527; LEITE, José Guilherme Reis, “A autonomia das ilhas atlânticas, os Açores e a Madeira. A experiência açoriana do século XIX”, Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira, vol. I, Funchal, DRAC, 1989; MELLO, Luís de Sousa, “Contribuição açoriana na formação da população madeirense no século XVI”, Girão, n.º 7, 1991, pp. 327-331; Id., “A presença açoriana (ilhas do grupo central) nos registos paroquiais da Sé e S. Pedro do Funchal: 1760-1859”, in O Faial e a Periferia Açoriana nos Sécs. XV a XIX, Horta, Núcleo Cultural da Horta, 1995; Id., “A presença açoriana nos registos paroquiais do Funchal (1767-1860)”, História das Ilhas Atlânticas, vol. II, Funchal, CEHA, 1997; OLIVEIRA, Ernesto V. de, Moinhos de Vento. Açores e Porto Santo, Lisboa, Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, 1965; REIS, Célia, “Os Correios nas ilhas atlânticas: Notas sobre a sua existência na primeira metade do séc. XIX”, Islenha, n.º 9, 1991, pp. 70-75; Id., A Revolta da Madeira e Açores (1931), Lisboa, Livros Horizonte, 1990; RIBEIRO, João Adriano, “As relações sócio-económicas Funchal-Açores na segunda metade do século XVIII, numa panorâmica notarial madeirense”, in Actas do Colóquio Os Açores e a Expansão Europeia, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. XLIX, Angra do Heroísmo, 1991, pp. 147-172; SERRÃO, Joel, “Le blé des îles atlantiques. Madère et Açores aux xve et xvie siècles”, in Temas Históricos Madeirenses, Funchal, CEHA, 1992, pp. 67-75; SOUSA, João José Abreu de, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810. Alguns Aspectos, Funchal, DRAC, 1989; VERÍSSIMO, Nelson, “O alargamento da autonomia insular: O contributo açoriano no debate de 1922-1923”, Islenha, n.º 16, 1995, pp. 22-30; Id., “O alargamento da autonomia dos distritos insulares: O debate na Madeira (1922-1923)”, Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira, s.l., Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1990; VIEIRA, Alberto, “O comércio de cereais dos Açores para a Madeira no século XVII”, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. XLI, 1983, pp. 651-677; Id., O Comércio Inter-Insular nos Séculos XV e XVI. Madeira, Açores e Canárias (Alguns Elementos para o Seu Estudo), Funchal, CEHA, 1987; Id., Portugal y las Islas, Madrid, Mapfre, 1992.

Alberto Vieira

(atualizado a 25.11.2016)