afonseca, luís vicente de

Natural da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, nasceu no dia 11 de junho de 1803 e foi batizado no dia 19 na igreja paroquial de N.ª S.ª da Graça, tendo sido seu padrinho Francisco José de Sousa, residente na mesma freguesia, que tudo leva a crer que fosse seu tio, e em cuja residência teria nascido. O registo de batismo dá-o como filho de pais incógnitos, tendo a situação sido regularizada a 6 de março de 1818, em que é dado como filho de Domingos João de Afonseca, solteiro, natural e residente na freguesia de S. Pedro do Funchal, e de Joana Rosa, na altura solteira, natural da freguesia de S.ta Maria Madalena, filha de Manuel João de Sousa e de sua mulher Antónia.

Largo do Patim - Est. Câmara de Lobos. 1925 - Revista Girão
Largo do Patim – Est. Câmara de Lobos. 1925 – Revista Girão

A paternidade de Luís Vicente de Afonseca é reafirmada em 1840, em acórdão do Tribunal do Funchal, dado na sequência do pedido de anulamento do testamento deixado por seu pai natural, pois Carolina Júlia Afonseca, filha legítima de Domingos João de Afonseca, assumiu-se como única herdeira, não reconhecendo Luís Vicente de Afonseca como irmão.

Luís Vicente já se havia formado em Medicina pela Universidade de Coimbra, no que teria tido, por certo, o apoio do pai, exercendo a sua profissão de médico, mas destacava-se sobretudo como político. Fazia parte, na Madeira, com Lourenço José Moniz (1789-1857) e Sérvulo Drumond de Meneses (1802-1867) (Meneses, Sérvulo Drumond de), entre outros, do chamado grupo dos amigos de D. Pedro (Partidos políticos), elementos apoiantes da Carta Constitucional (Carta Constitucional). Nos anos seguintes faria parte do Partido Cartista (ou Cabralista, dado ter como líder nacional Bernardo da Costa Cabral (1803-1889)). Dissolvidas as Cortes a 25 de fevereiro de 1840, e convocadas as assembleias eleitorais, em finais de abril, Luís Vicente de Afonseca seria eleito deputado pela Madeira, lugar que ocuparia durante 34 anos, o que mais ninguém conseguiu até aos inícios do séc. XXI.

Reeleito em junho de 1842, foi assim um dos elementos a quem se recorreu em Lisboa, a 3 de janeiro de 1843, para colmatar os terríveis estragos da aluvião de 24 de outubro de 1842.

Estragos da aluvião de 1842. Major José Júlio Guerra. 1844_GEAEM_1340_1  12-15
Estragos da aluvião de 1842. Major José Júlio Guerra. 1844_GEAEM_1340_1 12-15

Integraria depois, com os mesmos companheiros de 1840, o Partido Reformista, conhecido por Popular, dado usar como órgão o periódico O Popular, de distribuição livre, sendo sempre eleito, mesmo quando o partido se encontrava na oposição. A sua grande austeridade de caráter, a comprovada abnegação e o desinteresse com que sempre tratava as questões da Madeira no Parlamento, os créditos que alcançou como homem culto e de inteligência superior, granjearam-lhe a mais merecida reputação, gozando, por isso, do maior prestígio entre todas as camadas sociais. Referem os autores do Elucidário que a sua tarefa não foi fácil, tendo mesmo de sustentar lutas encarniçadas contra inimigos políticos, “que não hesitaram em deturpar as suas mais nobres e puras intenções, sofrendo vexames e ultrajes, que somente os desvarios dum estreito e faccioso partidarismo podem cabalmente explicar” (SILVA e MENESES, 1998, I, 18).

Tendo levado sempre uma vida austera, simples e modesta, teria chegado a passar dificuldades económicas em Lisboa e, depois de uma vida de lutas e trabalhos, veio aí a morrer, em dezembro de 1878, com 75 anos, pobre e na obscuridade. Referem os autores do Elucidário que, em data que não puderam precisar, fez uma viagem ao Brasil, onde se demorou algum tempo e onde teve um filho: Zéu de Afonseca, que foi poeta e jornalista de muito merecimento, mas sobre o qual não foi possível encontrar mais dados.

Bibliog. manuscrita: ABM, Governo Civil, livs. 5 e 93; ABM, Registos Paroquiais, Estreito de Câmara de Lobos, Batismos, liv. 10, fl. 44; impressa: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. VII, Funchal, SREC, 2008; CLODE, Luiz Peter Clode, Registo Bio-bibliográfico de Madeirenses, Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; Flor do Oceano, 16 abr. 1840, p. 48; Flor do Oceano, 16 fev. 1861, p. 2; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, DRAC, 1998; digital: FREITAS, Manuel Pedro da Silva, “Afonseca, Luís Vicente”, in Câmara de Lobos – Dicionário Corográfico: http://www.concelhodecamaradelobos.com/dicionario/afonseca_luis_vicente.html (acedido a 16 jul. 2016).

Rui Carita

(atualizado a 14.09.2016)