alcoforado, francisco

O documento mais antigo sobre o “descobrimento” oficial da Madeira, pois que o conhecimento das ilhas atlânticas é muito anterior, deve ser a descrição de Francisco Alcoforado contida na sua Relação, testemunho onde o mesmo se declara “escudeiro do Senhor Infante D. Henrique” e “que foi a tudo presente” (MELO, 1975, 83). Esta Relação foi utilizada por Jerónimo Dias Leite (c. 1537-c. 1593) na História do Descobrimento da Ilha da Madeira e da Descendência Nobilíssima dos Seus Valorosos Capitães, cerca de 1587, trabalho que enviou a Gaspar Frutuoso (c. 1522-c. 1591) para as Saudades da Terra (1590), ainda que Dias Leite tenha afirmado tratar-se de um testemunho deixado por Gonçalo Aires e que fazia parte dos arquivos dos capitães do Funchal. O mesmo texto serviu depois a D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), nascido em Lisboa, mas com família nos Açores, para o “Descobrimento da Ilha da Madeira, Anno de 1420, Epanáfora Amorosa”, publicado em Epanaphoras de Varia Historia Portuguesa, Lisboa, 1666, que é um desenvolvimento dessa fonte, da qual o autor, na qualidade de descendente de João Gonçalves Zarco (c. 1390-1471), teria uma cópia “muito antiga”. Seria depois traduzida para francês, em 1671, e para inglês, em 1675, havendo igualmente edição de cópia existente no British Museum, em tradução inglesa, do ano de 1750.

A Relação de Francisco Alcoforado assenta na chegada inopinada à Madeira de um casal inglês: Ana de Arfet e Robert Machim. Refere o texto que, no tempo do rei Duarte de Inglaterra, (1312-1377), avô de D. Filipa de Lencastre (1360-1415), ou seja, entre 1327 e 1377, teria havido um nobre inglês, com fama de bom cavaleiro, cujo nome ou alcunha era Machim, que se enamorou de uma dama da alta nobreza, Ana de Arfet, sendo correspondido. Descoberto o enredo e dada a diferença de estatuto social, os parentes dela, com o consentimento do rei, pretenderam acertar o seu matrimónio com um nobre de Bristol. Perante esta situação, os dois namorados resolveram fugir, tomando uma nau com destino à costa de França, país com o qual Inglaterra se encontrava em guerra. Com medo de serem perseguidos, rumaram para as costas da Gasconha, acabando por passar ao lado da Península Ibérica e por ir parar a “uma terra brava, toda coberta de arvoredo” (MELO, 1975, 89), que era a ilha da Madeira. Ana aportaria já doente, falecendo poucos dias após a chegada; Machim faleceria alguns dias depois, sendo ambos ali enterrados. A informação teria chegado ao conhecimento de Zarco, então em serviço na armada do Algarve, e depois ao do infante D. Henrique (1394-1460), levando à tomada oficial da Ilha para a corte portuguesa. Os escudeiros do infante, Zarco e Tristão, ao chegarem à baía onde se encontrava enterrado o casal inglês, que ficou com a designação de “Machico”, celebraram a primeira missa em terra sobre as suas sepulturas, feitas pelos companheiros antes de abandonarem a ilha.

Logo em 1873, o historiador Álvaro Rodrigues de Azevedo (1825-1898) colocou dúvidas à autenticidade da Relação nas suas anotações às Saudades da Terra. O mesmo fez posteriormente o historiador Ernesto Gonçalves (1898-1982) nas páginas de Das Artes e da História da Madeira, apontando inúmeras incongruências na estrutura do documento – a efabulação do caso de Ana e Roberto Machim, a fundação das igrejas, o posterior incêndio do arvoredo – e salientando a aparente inexatidão dos companheiros do malogrado inglês que, pensando tratar-se de uma terra nova, a foram pedir aos “reis de Espanha”; entende o historiador que “nunca um português os chamaria de Espanha, a não ser demitindo-se do seu pundonor patriótico” (GONÇALVES, 1960, 6). Tal apreciação leva-o a situar o texto em 1580 e em plena crise política provocada pela morte sem descendência do rei e cardeal D. Henrique (1512-1580); coloca então a hipótese de que o autor do texto tenha sido, inclusivamente, Jerónimo Dias Leite. Manuel Pita Ferreira (1912-1963) defende a Relação, também em Das Artes e da História da Madeira, argumentando que foi seguida por quase todos os historiadores anteriores e já se encontrava na posse dos Câmaras nos inícios do séc. XVI; e invalida a questão dos “reis de Espanha”, observando que o uso do plural indica os reis que governassem uma parte da península e fossem senhores da Ilha, ou seja Portugal, Castela ou Aragão. O problema da autenticidade parece resolvido com a posterior descoberta de uma versão datável de cerca de 1500 e que não parece muito provável que tenha sido falsificada; ainda que tal não invalide as inúmeras incongruências de pormenor da Relação, torna-as perfeitamente aceitáveis num vago escudeiro das primeiras décadas do séc. XV, que não seria propriamente um cronista nem um abalizado letrado.

O texto não foi, pois, bem aceite entre os historiadores dos finais do séc. XIX até aos meados do século XX, essencialmente por abrir com a lenda de Roberto Machim e Ana de Arfet, dando os ingleses como tendo chegado à Madeira antes dos escudeiros do infante D. Henrique. A dificuldade da articulação das datas também jogava contra a veracidade do documento, pois a viagem dos ingleses terá ocorrido, o mais tardar, em 1377 (último ano do reinado de Eduardo III de Inglaterra), data em que o infante ainda não era vivo. De facto, D. Henrique, nascido em 1395, só se fixou no Algarve depois do descerco de Ceuta, ou seja, em 1419, tendo recebido a nomeação de grão-mestre da Ordem de Cristo apenas em maio de 1420. No entanto, a lenda é mencionada por quase todos os autores que posteriormente escreveram sobre a expansão portuguesa, nomeadamente Valentim Fernandes (1507-1508), Duarte Pacheco Pereira (Esmeraldo de Situ Orbis, 1505/1508), António Galvão (Tratado dos Descobrimentos, 1563) e o italiano Giulio Landi (1574), em texto depois transcrito pelo madeirense Manuel Constantino, na Insulae Materiae Historia (Roma, 1599), embora aqui de forma mais esbatida. Como dissemos, a aceitação do desembarque anterior a Zarco e aos seus companheiros punha em questão a prioridade de descoberta do arquipélago por parte dos portugueses, o que era impensável para os historiadores da primeira metade do séc. XX, desencadeando acesa polémica nacionalista por esses anos. Acresce ainda que, desde os inícios e meados de Oitocentos, o comerciante inglês Robert Page (1775-1829) tinha desenvolvido uma ampla campanha de defesa dos interesses britânicos sobre a Madeira, não se coibindo, inclusivamente, de forjar uma cruz de madeira, supostamente pertencente às velhas sepulturas de Machim e Ana de Arfet; de facto, as condições climatéricas da área, a sequência de aluviões, etc., tornam perfeitamente impensável a sobrevivência de tal objeto, enterrado no leito da ribeira de Machico durante cerca de 500 anos, sobretudo, apresentando inscrições pintadas.

De acordo com os dados disponíveis no princípio do séc. XXI, e aceitando-se o conhecimento anterior da existência do arquipélago pelos navegadores portugueses, e não só, não repugna de forma alguma o desembarque de uma qualquer Ana de Arfet e de um Roberto Machim antes do reconhecimento oficial das ilhas da Madeira e do Porto Santo. Aliás, as visitas de navegadores portugueses a estas ilhas eram de tal forma frequentes que, na segunda viagem de Zarco, apareceram no Porto Santo uns frades franciscanos, salvos de um naufrágio que ocorrera algum tempo antes, quando rumavam às Canárias. Colocam-se, naturalmente, dúvidas em relação à possibilidade de os factos terem acontecido no tempo de Eduardo III de Inglaterra e de a notícia chegar tão depressa a Zarco; na verdade, o desembarque dos ingleses deverá ter ocorrido bastante tempo depois, até porque, em 1420 e segundo o escrito de Alcoforado, as suas campas ainda se encontravam junto da ribeira.

O argumento de que não há qualquer referência à existência de um Francisco Alcoforado no séc. XV, e no Funchal, também foi superado, pois o apelido não era desconhecido na região nesse tempo. Manuel Pita Ferreira refere mesmo a existência de um Pero Vaz Alcoforado (FERREIRA, 1957, 122), provavelmente seu descendente ou familiar, relacionado com um hospital fundado por sua mulher e de que era procurador João de Canha, mencionado nas vereações da Câmara Municipal do Funchal de 6 de junho de 1471. Portanto, os Alcoforados estiveram na ilha.

A cópia da Relação de Francisco Alcoforado existente na Biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa data, em princípio, de cerca de 1500, e, embora com todas as características de relato oral, organizado internamente por locuções temporais (“no tempo de”, “neste tempo”, “então”, etc.) e algumas incoerências nos pormenores de tempo de viagem, não se afasta de outros documentos coevos, pelo que não parece haver qualquer dúvida em aceitar a sua autenticidade. Em linhas gerais, todos os aspetos respeitantes ao infante D. Henrique e a Zarco, bem como ao reconhecimento e ao povoamento da Madeira, se enquadram perfeitamente na época e correspondem às restantes informações disponíveis, devendo ter servido de base para os cronistas seguintes; se não para todos os nacionais, que terão recorrido também a outras fontes, pelo menos para os regionais, como Dias Leite e Gaspar Frutuoso, entre outros.

Obras de Francisco Alcoforado: An Historical Account of the Discovery of the Island of Madeira, Abridged from the Portuguese Original: To Which is Added, An Account of the Present State of the Island in a Letter to a Friend, 1750.

Bibliog.: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. 1, Funchal, SRE, 1999; COSTA, José Pereira da, Vereações da Câmara do Funchal, Funchal, CEHA, 1995; FERREIRA, Manuel Juvenal Pita, Notas para a História da Ilha da Madeira, Funchal, s.n., 1957; Id., O Arquipélago da Madeira: Terra do Senhor Infante, Funchal, JGDAF, 1959; Id., “A Relação de Francisco Alcoforado”, Das Artes e da História da Madeira, n.º 31, 1961, pp. 17-40; FONTVIEILLE, Jean, “A Lenda de Machim: Une Découverte Bibliographique à la Bibliothèque-Musée du Palais de Bragance à Vila Viçosa (Portugal)”, in Actas do Congresso Internacional de História dos Descobrimentos, vol. 3, Lisboa, Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1961, pp. 197-238; FRUTUOSO, Gaspar, As Saudades da Terra, anotações de Álvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2007; GALVÃO, António, Tratado que Compôs o Nobre & Notauel Capitão Antonio Galuão, dos Diuersos & Desuayrados Caminhos, Por Onde nos Tempos Passados a Pimenta & Especearia Veyo da India às Nossas Partes, & Assi de Todos os Descobrimentos Antigos & Modernos, que São Feitos até a Era de Mil & Quinhentos & Cincoenta, Lisboa, Impressa em casa de Ioam da Barreira, 1563; id., Tratado dos Descobrimentos Antigos e Modernos de António Galvão, Lisboa, Oficina Ferreiriana, 1731; GONÇALVES, Ernesto, “Estudo da ‘Relação de Francisco Alcoforado’”, Das Artes e da História da Madeira, n.º 30, 1960, pp. 1-8 e 60-68; Id.., “Algo mais acerca da ‘Relação de Francisco Alcoforado’”, Ibid., n.º 31, 1961, pp. 10-16 e 57-59; LEITE, Jerónimo Dias, História do Descobrimento da Ilha da Madeira e da Descendência Nobilíssima dos Seus Valorosos Capitães, Coimbra, FLUC, 1949; LEITE, Jerónimo Dias, Descobrimento da Ilha da Madeira, Lisboa, Alfa, 1989; MACHADO, João Franco, A Relação de Francisco Alcoforado, Lisboa, 1936; MELO, Francisco Manuel de, Epanaphoras de Varia Historia Portuguesa, Lisboa, Officina de Henrique Valente de Oliueira, 1666; id., Epanaphoras de Varia Historia Portuguesa, Lisboa, Antonio Craesbeeck de Mello, 1676; id., Epanáfora Amorosa: Descobrimento da Ilha da Madeira: Ano de 1420, [Braga], J. Castro, [1975]; NASCIMENTO, João Cabral do, “O Manuscrito de Gonçalaires”, in Apontamentos de História Insular, Funchal, Tipografia Madeirense Editora, Lda., 1927; PEREIRA, Duarte Pacheco, Esmeraldo de Situ Orbis, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892; RODRIGUES, António Gonçalves Rodrigues et al., D. Francisco Manuel de Melo e o Descobrimento da Madeira, Lisboa, Bíblion, 1935; SILVA, Fernando Augusto da, e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998.

Rui Carita

(atualizado a 10.12.2015)