alferes – mor

A designação “alferes” indica um oficial que leva a bandeira, representando o posto imediatamente abaixo de tenente e de capitão. Na Idade Média e até à criação do cargo de condestável do reino, o alferes-mor era também comandante-chefe dos exércitos reais. A partir de então, passou a porta-bandeira real, cargo que se tornou, no séc. XVI, essencialmente honorífico, cabendo-lhe o desenrolar da bandeira para a aclamação de novos reis. A sua presença na Madeira aparece apenas na pessoa de Tristão Gomes de Castro (1539-1611), não havendo, contudo, documentação específica relativa à sua nomeação e sendo referido exclusivamente pelo genealogista Henrique Henriques de Noronha (1667-1730), que por ele nutria grande admiração, até por ser também escritor e seu parente.

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Possivelmente a Imagem de Tristão Gomes de Castro, Arqui. Rui Carita.

Tristão Gomes de Castro era filho de Cristóvão Martins de Agrilhão e Vargas, fidalgo da casa do duque D. Jaime de Bragança, tal como seu pai, que viera para Portugal na comitiva de D. Leonor de Mendonça, filha dos duques de Medina Sidónia, quando a mesma casou com o duque de Bragança. Com o assassinato da duquesa D. Leonor pelo marido, Cristóvão Martins de Agrilhão e Vargas, natural de Sevilha, passou pelo Peru, mais especificamente pelas Índias de Castela, onde teria feito fortuna, indo dali para a Madeira. Casou no Funchal com Joana Gomes de Castro, filha de Bárbaro Gomes (c. 1480-1544), que fora vedor da sé do Funchal. Consta que estava de novo no Peru quando nasceu o seu filho e que, tendo a sua mulher morrido no parto, não terá já voltado à Madeira.

O filho terá nascido como Francisco, mas mudar-lhe-iam o nome, alguns dias depois do falecimento de sua mãe, para Tristão, de acordo com a tradição familiar citada por Henrique Henriques de Noronha (NORONHA, 1948, 313-314). Este viria a ser criado em Portugal continental, servindo no paço e tendo tido o hábito de Cristo e foro de fidalgo. Casou em Lisboa com Isabel de Andrade (c. 1540-1568), dama da rainha D. Catarina, filha de Rui Gonçalves de Andrade e Isabel Rodrigues Berenguer (Ibid.). Deve ter sido após o casamento com tal dama da rainha pertencente a uma das mais importantes famílias madeirenses da época que acabou por fixar residência no Funchal, tendo, por certo, dado o importante património de que era herdeiro, sido agraciado com o título honorífico de alferes-mor.

Por volta de 1590, Gaspar Frutuoso refere-o como residindo na R. do Sabão, numas casas ricas de dois sobrados, com poço dentro e portas de serventia com muitos “abrolhos de ferro da banda de fora”, descrição que deve indicar as decorações das grades de ferro ao gosto sevilhano que lembram plantas espinhosas. Não o refere pelo nome completo, mas somente como “um Tristão Gomes, que chamam o Peru” (FRUTUOSO, 1968, 112-113), nome que, por essa época, também se estende à rua, por vezes referida como R. do Peru ou R. dos Perus. Tristão Gomes de Castro deixou alguns livros de cavalaria, com especial destaque para Argonáutica da Cavalaria, recentemente localizado e estudado.

Bibliog.: DÍAZ-TOLEDO, Aurélio Vargas, “Apontamentos sobre um Livro de Cavalarias Desconhecido: A Argonáutica da Cavalaria de Tristão Gomes de Castro, escritor madeirense do século XVI”, Islenha, n.º 43, Funchal, DRAC, jul.-dez. 2008, pp. 5-22; FRUTUOSO, Gaspar, Saudades da Terra, Livro II, Ponta Delgada, ICPD, 1968; NORONHA, Henrique Henriques, Nobiliário Genealógico das Famílias que Passarão a Viver a esta Ilha da Madeira Depois do seu Descobrimento, que foi no Ano de 1420, São Paulo, Revista Genealógica Brasileira, 1948; Id., Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, Funchal, CEHA/DRAC, 1997.

Rui Carita

(atualizado a 07.03.2016)