almeida, gabriel de

A partir da morte de D. Jerónimo Fernando, ocorrida em março de 1650, entrou o bispado do Funchal em período efetivo de sé vacante, o que, a somar aos quase 10 anos em que o anterior bispo exercera funções a partir do reino, acabaria por totalizar um período de cerca de 30 anos em que não houve prelado residente na Diocese. Durante esse intervalo, esteve o governo eclesiástico entregue ao deão, Dr. Pedro Moreira, que protagonizou, em 1668, um incidente de grave dissidência com o governador, D. Francisco de Mascarenhas, do qual resultou a prisão desse mesmo governador. O desentendimento ocorrido teve por base uma intromissão do governador na esfera da justiça eclesiástica, pois D. Francisco de Mascarenhas tinha solicitado ao cabido uma devassa ao procedimento do deão, a quem acusava de obstaculizar a sua ação, e, tendo os capitulares aceitado o repto, procedeu-se a um sequestro dos bens do Dr. Pedro Moreira, a quem foi, igualmente, imposta residência fora da cidade. Em reação a estas determinações, o governador do bispado, auxiliado por alguns eclesiásticos, desencadeou uma sedição da qual resultou o aprisionamento do governador militar, a sua substituição por D. Aires de Ornelas de Vasconcelos e a restituição ao Dr. Pedro Moreira dos cargos de provisor e vigário geral. Informada a corte de tão insólita situação, rapidamente se puseram em marcha processos de averiguação, dos quais resultou a condenação dos promotores da amotinação e a prisão de vários dos intervenientes, entre os quais o deão, Pedro Moreira, o qual foi encarcerado por ordem do novo governador, João de Saldanha e Albuquerque, sem que a autoridade eclesiástica tivesse sido auscultada.

Foi no rescaldo de toda esta turbulência que D. Fr. Gabriel de Almeida, o novo prelado e homem já idoso, veio encontrar a Diocese para a qual fora provido nos fins de 1670, depois de ultrapassado o diferendo em que a guerra de independência com Espanha tinha mergulhado as relações de Portugal com a Santa Sé, e que privara as dioceses do reino de bispos por um período de cerca de 20 anos.

Mas quem era, então, D. Fr. Gabriel de Almeida e porque motivos viu ser-lhe atribuída a titularidade da mitra do Funchal? Nascido em Moimenta da Beira, bispado de Lamego, de “nobres progenitores”, Pedro de Almeida, de seu nome de batismo, ingressou nos monges de Cister a 17 de Dezembro de 1625, tendo aí feito profissão a 6 de Janeiro de 1627 (BARBOSA, 1747, II, 308). Naturalmente inclinado para o estudo, desenvolveu carreira académica, na qual pontificaram a docência universitária, iniciada em 1643, como substituto da cadeira de Durando, e a propriedade do estatuto de lente de Escritura Grande, em 1664. Em paralelo com a atividade docente, Fr. Gabriel fora ainda em 1654, eleito abade do Colégio de S. Bernardo, em Coimbra, e em 1660 tornara-se abade geral dos Cistercienses. Para além destas ocupações, fora também agraciado, em 1660, com o cargo de esmoler-mor da regente Dona Luísa de Gusmão, ao qual se seguiu, no ano imediato, o lugar de capelão mor.

A sua escolha para prelado do Funchal enquadra-se nos rumos que, no início da regência de D. Pedro, presidiram à indigitação de antístites e que se caracterizaram por uma cuidadosa distribuição de mitras por uma grande diversidade de Ordens religiosas, tendo em vista preservar equilíbrios e prevenir uma eventual hegemonia de um instituto religioso sobre outros; esta pode, inclusivamente, ser a justificação da opção por um Cisterciense, ordem que há 200 anos não era convocada para o exercício do ministério episcopal.

Sagrado bispo em 1671, logo passou à sua Diocese, onde entrou a 4 de março desse mesmo ano, vendo-se de imediato envolvido no rescaldo da sedição de 1668, até porque o príncipe regente lhe tinha recomendado que castigasse o clero por se ter metido a “desautorizar, descompor e prender a um Governador e Capitão General que representa a mesma pessoa de Sua Alteza” (BNP, Reservados, Cód. 6999, fl. 42v). Mas se do bispo se esperava punição de eclesiásticos, também o governador João de Saldanha não escapou a ela, uma vez que igualmente se viu objeto da censura episcopal, por ter ousado mandar prender o deão Pedro Moreira sem a necessária aquiescência das justiças religiosas. Porém, e porque o governador agira de acordo com instruções régias, foi o prelado repreendido pelo príncipe regente e, segundo Sarmento, esta repreensão fê-lo sentir-se “tão molestado que dentro em pouco se finou” (SARMENTO, 1947, II, 94).

Antes que falecesse, no entanto, teve ainda tempo para se incompatibilizar com os Franciscanos, por duas ordens de razões. Por um lado, entre os frades e as suas irmãs de Santa Clara grassavam discórdias que muito escandalizavam a população, assunto para o qual o príncipe regente já havia alertado o governador, João de Saldanha, mas que também tocava ao prelado, que envidou esforços no sentido de serenar os ânimos entre as duas comunidades seráficas. Por outro, e no tocante apenas aos frades, houve problemas relacionados com o mau comportamento de dois destes em cerimónias na Sé, onde aproveitavam o púlpito mais para mutuamente se descomporem do que para divulgar a palavra de Deus. Desgostoso com aquelas atitudes, D. Fr. Gabriel informou o padre comissário da Ordem de que não voltaria a tolerar a presença daqueles dois pregadores, nem na Catedral, nem em qualquer outra igreja da Diocese. A fim de se não repetirem circunstâncias idênticas, advertia ainda o bispo ao comissário que mandasse vir de outros conventos “religiosos de melhor talento para pregarem nesta sé”, para o que lhe concedia um prazo de 15 dias; caso não respeitasse o período estabelecido, o prelado se encarregaria de prover o púlpito de sujeitos “com mais exemplo e aproveitamento” (CARITA, 1992, III, 327). Segundo Fernando Augusto da Silva, esta dissensão acabou por alastrar até à determinação episcopal de proibir os Franciscanos de pregar e confessar em toda a Diocese, o que, naturalmente, não poderia deixar de elevar a tensão em que o idoso prelado teria de viver, e poderá ter contribuído para que a morte lhe sobreviesse dentro de pouco tempo.

Apesar de tantos problemas para resolver e da idade que já lhe pesava, em 1672, D. Fr. Gabriel de Almeida agiu com dureza no Seixal contra os que, tendo prometido esmolas, as não pagaram, devendo por isso ser “cortados dos Ofícios Divinos”, e propôs um adiamento das celebrações da festa do orago mais para a frente do ano, “quando o tempo for mais conveniente” (ACDF, Prov. Seixal, fl. 60); e ainda arranjou tempo e energia para se deslocar, em 1673, ao Porto Santo, em visitação, tendo igualmente visitado as restantes paróquias da Ilha. Em Ponta Delgada, as preocupações episcopais centraram-se mais no gasto excessivo com os pagamentos a pregadores vindos de fora e com o contributo dos fregueses e do pároco para o arranjo da igreja. O bispo também não deixou de fazer o esforço de visitar pessoalmente os territórios rurais da Diocese, não se eximindo de tomar as medidas que considerou necessárias, apesar de por vezes duras. Fez, nessas como noutras ocasiões, jus às apreciações que as Monstruosidades do Tempo e da Fortuna – uma obra que tinha como subtítulo: “Diário de factos mais interessantes que sucederam no reino de 1662 a 1680” e que portanto reportava ao reinado de D. Afonso VI – dele faziam, considerando-o “de seu natural áspero e desabrido no trato” e com dificuldade, portanto, em concitar simpatias (SILVA, 1946, 208).

A 12 de julho de 1674, D. Fr. Gabriel de Almeida falecia, no Funchal, vindo a ser sepultado na capela-mor da Sé. Foi o segundo prelado a falecer e ter sepultura na Diocese.

Bibliog. manuscrita: ACDF, Livro de Provimentos do Seixal, 1591-1640; ARM, Arquivo do Paço Episcopal do Funchal, l. 113, Registo dos Provimentos das Visitações a Ponta Delgada, 1587-1694; BNP, reservados, cód. 6999, fl. 42v.; impressa: ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, 2.ª ed., vol. II, Coimbra, Livraria Civilização, 1968; CARITA, Rui, História da Madeira, vol. III, Funchal, SRE, 1992; MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca Lusitana, Histórica, Critica e Cronológica na qual se Comprehende a Noticia dos Autores Portuguezes e das Obras que Compuzerão desde o Tempo da Promulgação da Ley da Graça até ao Prezente, vol. II, Lisboa, Oficina de António Isidoro da Fonseca, 1747; NORONHA, Henrique Henriques, Memorias Seculares e Ecclesiasticas para a Composição da Historia da Diocesi do Funchal na Ilha da Madeira, Funchal, s.n., 1993; PAIVA, José Pedro, Os Bispos de Portugal e do Império, 1495-1777, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006; SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha Terra, vol. II, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1947; SILVA, Fernando Augusto, Subsídios para a História da Diocese do Funchal, Funchal, s.n., 1946; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Funchal, DRAC, 2000.

Ana Cristina Machado Trindade

(atualizado a 15.09.2016)