aluviões

De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, o termo “aluvião” pode significar inundação muito grande, grande cheia ou enxurrada. Este é o significado atribuído na ilha da Madeira.

A rede hidrográfica da Madeira, composta por ribeiras que se desenvolvem da cordilheira montanhosa central para a costa, em vales profundos, estreitos e de declive acentuado, com regime de escoamento intermitente e torrencial, quando associada a eventos de precipitação intensa dá origem a inundações repentinas designadas por aluviões, correntes de detritos ou debris flow. Estas cheias caracterizam-se por concentrações elevadas de material sólido, incluindo blocos de grandes dimensões, que conferem ao escoamento um enorme poder destrutivo.

As características geológicas e geomorfológicas das bacias hidrográficas, e das respetivas ribeiras, potenciam a ocorrência de fluxos muito significativos de materiais sólidos, os quais constituem o componente mais perigoso das aluviões. Esta produção de sedimentos é desencadeada pela ação da precipitação e da consequente ocorrência de escoamentos líquidos que mobilizam grandes quantidades de material sólido com elevado potencial geomórfico. A produção dos fluxos de material sólido resulta de diferentes processos, tais como a erosão distribuída nas vertentes, a erosão em sulco e ravinamento, movimentos de massa, e a erosão fluvial nos fundos e margens dos leitos das ribeiras.

Segundo a bibliografia, ocorreram no arquipélago da Madeira, desde o início do séc. XVII até 2013, 42 aluviões de intensidade significativa, constituídas por cheias rápidas e violentas com transporte de concentrações elevadas de material sólido. É de destacar, neste contexto, o ano de 1803, no qual se verificaram inundações catastróficas em toda a Ilha, particularmente na região sudeste, entre o Funchal e Machico, tendo perecido cerca de 1000 pessoas. Em consequência desta aluvião, as ribeiras da cidade do Funchal foram canalizadas, sob a direção do Brig. Reinaldo Oudinot, entre 1804 e 1806, continuando uma considerável extensão desta obra a cumprir, no início do séc. XXI, a sua função de canalização dos cursos de água.

Já no séc. XXI, merece destaque o dia 20 de fevereiro de 2010, em que, na sequência de um prolongado período chuvoso na ilha da Madeira, aliado a um cenário meteorológico adverso, se gerou uma aluvião excepcional que atingiu, com elevada intensidade, alguns concelhos da vertente Sul da Ilha, em particular o Funchal e a Ribeira Brava. São de lamentar 51 vítimas mortais, bem como os elevados danos materiais e a destruição de muitas infraestruturas públicas e privadas. O quadro que apresentamos (fig. 1) compila os registos históricos de aluviões ocorridas no arquipélago da Madeira entre o início do séc. XVII e o ano de 2013, e as suas principais consequências.

DataZonaConsequências
Várias, anteriores a 1601Toda a IlhaDestruição de pontes e casas. Provavelmente mortes.
1611FunchalNotáveis estragos.
1707Toda a IlhaConsideráveis prejuízos.
18 de novembro de 1724Machico, Santa Cruz e Funchal26 mortes; vila de Machico destruída; Santa Cruz e Funchal parcialmente destruídos.
18 de novembro de 1765Funchal1 morte; várias pontes destruídas.
9 de outubro de 1803Costa sul da IlhaCerca de 1000 mortes; Funchal, Santa Cruz e Machico destruídos; muitas perdas no comércio do Funchal e perdas de muitos terrenos agrícolas.
26 de outubro de 1815Toda a Ilha, mas em especial no FunchalVárias mortes (e.g., 2 mortes no Estreito de Câmara de Lobos); muitos danos no Funchal e perda de vários terrenos agrícolas e gado.
24 de outubro de 1842FunchalInundação e destruição de parte da cidade.
17 a 20 de novembro de 1848SantanaPerda de várias benfeitorias; morte de várias pessoas.
5 e 6 de janeiro de 1856Costa sul (Paul do Mar, Funchal) e São VicenteInundações e destruição de infra-estruturas.
14 e 15 de março de 1856Costa sul (Paul do Mar, Funchal)Inundações.
1 de janeiro de 1876Madalena do MarPrejuízos notáveis.
2 e 3 de outubro de 1895Costa norte (Seixal, Boaventura); Calheta e Ribeira BravaVárias mortes; destruição de casas, pontes e terrenos agrícolas; inundações e desalojamentos.
8 e 9 de novembro de 1901FunchalInundações e desabamentos.
29 de novembro de 1901Funchal e Machico9 mortes numa derrocada em Machico; inundações e desabamentos nas duas povoações.
25 e 26 de fevereiro de 1920Toda a Ilha5 mortes; importantes prejuízos e inundações.
5 e 6 de março de 1921Toda a Ilha, em especial na parte oriental4 mortes; inundações e danos na agricultura.
15 de dezembro de 1926Costa sulMorte de gado.
6 de março de 1929São Vicente32 mortes; várias casas, terrenos, currais e palheiros destruídos; muito gado morto.
2 e 3 de outubro de 1931FunchalInundações nas partes baixas da cidade.
30 de dezembro de 1939Madalena do Mar4 mortes; destruição de terrenos, casas e currais; morte de gado.
14 e 15 de outubro de 1945Madalena do Mar e FunchalInundações e destruição de casas.
11 de fevereiro de 1956Curral das Freiras2 mortes.
3 de novembro de 1956Machico e Santa Cruz6 mortes; destruição de terrenos de cultivo, estradas, pontes e casas; muito gado morto.
3 a 6 de janeiro de 1963Ribeira Brava e Serra d'Água5 mortes.
9 de janeiro de 1970Ribeira Brava e Serra d'Água6 mortes; inundações e destruição de pontes e habitações na Ribeira Brava.
8 de março de 1970Porto Santo1 morte; danos em estradas e habitações.
21 de setembro de 1972Santo António (Funchal)3 mortes; destruição de casas e de um bairro de lata.
20 de dezembro de 1977Zonas altas do Funchal e Câmara de Lobos4 mortes; destruição de casas e terrenos.
20 a 24 de janeiro de 1979Toda a Ilha14 mortes; inundações e destruição de casas, terrenos, caminhos e outras infraestruturas.
1 e 2 de março de 1984Toda a Ilha1 morte; derrocada da ponte do Faial.
27 de setembro de 1989Funchal, Santa Cruz e MachicoInundações.
18 de setembro de 1990Funchal2 mortes; inundações e derrocadas.
24 de outubro de 1991Machico e SantanaInundações e derrocadas.
29 de outubro de 1991Funchal, Caniço e MachicoInundações e derrocadas.
29 de outubro de 1993Toda a Ilha8 mortes; inundações e derrocadas; destruição de casas e infraestruturas, em especial na cidade do Funchal.
19 e 20 de outubro de 1997FunchalDestruição da antiga ponte dos Socorridos e da ponte da Levada dos Tornos.
1 de fevereiro de 1998Câmara de Lobos, Funchal e Caniço1 morte; destruição de casas, estradas, carros e infraestruturas.
5 e 6 de março de 2001Curral das Freiras e São Vicente5 mortes (incluindo 4 turistas alemães); destruição de carros, estradas e casas.
22 de dezembro de 2009Madalena do Mar e São VicenteDestruição de vias de comunicação e habitações.
20 de fevereiro de 2010Costa sul da Ilha51 mortes; destruição de casas, caminhos, carros, sistemas de esgotos e águas pluviais; inundações, derrocadas e soterramentos; muitos danos em infraestruturas.
5 de novembro de 2011Costa noroesteDerrocadas e destruição de estradas, terrenos de cultivo e habitações; isolamento da Ribeira da Janela e vários feridos.
29 de novembro de 2013Costa nordesteDerrocadas e destruição de estradas, terrenos de cultivo e habitações.
Fig. 1 – Quadro com a indicação das principais aluviões, e respetivas consequências, registadas no arquipélago da Madeira entre o início do séc. xvii e o ano de 2013 ((1) SILVA E MENESES (1965); (2) QUINTAL (1999); (3) PROENÇA DE OLIVEIRA et al. (2011)).

Sucessivos eventos da mesma natureza têm ocorrido por toda a ilha da Madeira desde o início da sua história geológica, há cerca de sete milhões de anos, até a atualidade. Testemunhos de fluxos concentrados ou torrentes de escoamento bifásico com uma fase sólida muito abundante são visíveis em todos os complexos vulcânicos que constituem a Ilha. Como diz Susana Nascimento, “trata-se de espessos depósitos de enxurrada, bastante compactados e cimentados que se encontram intercalados nos complexos vulcânicos. […] Formado em clima caracterizado por abundantes e concentradas chuvadas, estes depósitos conglomerático-brechóides, são constituídos por, aproximadamente, 95 % de clastos, em geral mal calibrados, com dimensões que vão, desde escassos milímetros, até cerca de 2 metros” (NASCIMENTO, 1990, 36).

O fenómeno das aluviões na Madeira tem sido referenciado em vários trabalhos de carácter mais ou menos científico. Ao abordar os cursos de água da ilha da Madeira, Eduardo Pereira, em Ilhas de Zargo, sublinha a quase ausência de caudal das ribeiras na estação do verão, sendo que no inverno

“crescem torrencialmente, transbordam das margens e arrastam das montanhas toneladas de penedos, rolando-os e batendo uns contra os outros num ruído sinistro e aterrador, ao mesmo tempo que arrebatam terrenos de cultura, derrubam pontes e chegam por vezes a causar enormes prejuízos em habitações, pessoas, terras e animais” (PEREIRA, 1989, I, 283)

Orlando Ribeiro, ao comentar o regime das águas na ilha da Madeira, refere algumas “inundações catastróficas” que assolaram a Ilha. Tais calamidades estão associadas a

chuvas excepcionais […] frequentemente desastrosas, que enchem as ribeiras, arrastam blocos com algumas centenas de quilos, destroem pontes, danificam casas, inundando a parte baixa das aglomerações situadas à beira-mar, e pondo em perigo bens e pessoas” (RIBEIRO, 1985, 33).

Merece ainda destaque a descrição feita por Cecílio Silva de um cenário de aluvião num texto intitulado “Eu Tive Um Sonho”, publicado no Diário de Notícias da Madeira. Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da ilha da Madeira, nomeadamente da região a norte do Funchal, que constitui a cabeceira das bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para a capital, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma dessas ribeiras (Santa Luzia), o mundo dos seus sonhos, frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira, descreve:

Tive um sonho […], subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu… […] De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. […] Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. […] As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. […] Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer…” (SILVA, DN, 13 jan. 1985).

O impacto que as aluviões têm no imaginário coletivo dos madeirenses é por demais evidente, ou não fossem estas um dos principais perigos naturais que os habitantes da Ilha enfrentam, sendo responsáveis pela maioria dos prejuízos, humanos e materiais, provocados por catástrofes desde o início da ocupação humana.

Bibliog.: impressa: BRUM DA SILVEIRA, António et al., Notícia Explicativa da Carta Geológica da Madeira, na Escala 1:50.000, Folhas (A) e (B), Funchal, Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais da RAM, 2010; NASCIMENTO, Susana, Estudo Hidrogeológico do Paul da Serra (Ilha da Madeira), Dissertação de Mestrado em Geologia Económica e Aplicada apresentada à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Lisboa, texto policopiado, 1990; PEREIRA, Eduardo, Ilhas de Zargo, 4.ª ed., 2 vols., Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1989; QUINTAL, Raimundo, “Aluviões da Madeira. Séculos XIX e XX”, Territorium: Revista de Geografia Física Aplicada ao Ordenamento do Território e Gestão de Riscos Naturais, n.º 6, 1999, pp. 31-48; RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até Meados do Século XX – Estudo Geográfico, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1985; SILVA, Cecílio G., “Eu tive um sonho”, DN, Funchal, 13 jan. 1985; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, 3.ª ed., 3 vols., Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1965-1966; digital: PROENÇA DE OLIVEIRA, Rodrigo et al., “Avaliação do risco de aluviões na ilha da Madeira”, ResearchGate: https://www.researchgate.net/publication/244994405_Avaliacao_do_risco_de_aluvioes_na_Ilha_da_Madeira (acedido a 22 set. 2016).

Susana Prada

Celso Figueira

(atualizado a 14.12.2016)