álvares, padre manuel

Padre Manuel Álvares
Busto do Pe. Manuel Álvares, da autoria de Amândio de Sousa, no adro da igreja da Ribeira Brava. Fotografia do autor.

Manuel Álvares, natural da Ribeira Brava, povoação do sul da ilha da Madeira a oeste do Funchal, é provavelmente o humanista e filólogo madeirense mais famoso à escala universal. Através de notícias de antigos nobiliários madeirenses, sabemos que o seu ascendente Álvares Columbreiro, natural de uma povoação próxima de Sevilha, foi um dos primeiros habitantes da Ribeira Brava e foi o fundador das capelas de Sta Catarina e S. Bento. Os ascendentes diretos de Manuel Álvares terão sido Brígida Gonçalves, neta de Columbreiro, e João Malheiro, ambos com estatuto de fidalgos.

Nascido em 1526, Manuel Álvares era filho de Sebastião Gonçalves e Beatriz Álvares, vindo a falecer em Évora a 30 de dezembro de 1583. De acordo com os seus biógrafos e com a Synopsis Annalium Societatis Jesu in Lusitania, entrou para o colégio da Companhia de Jesus, em Coimbra, a 4 de julho de 1546, tendo 20 anos. O estabelecimento do ano do seu nascimento é aferido, precisamente, com base neste dado relativo à entrada na Companhia, uma vez que, à data, não era prática regular o registo dos nascimentos no assento paroquial.

Há notícias de que Manuel Álvares tomou conhecimento da Companhia de Jesus pela visita a um enfermo jesuíta que aportara ao Funchal por motivos de doença, quando viajava para a Índia, para saber notícias de um antigo condiscípulo. O futuro autor da Ars revelou, desde cedo, uma especial predileção pelo latim, grego e hebraico, vindo a ser considerado um notável latinista. Tinha também grande conhecimento das línguas siro-caldaica e árabe, sabendo ainda outras línguas orientais. Além da De Institutione Grammatica Libri Tres, o gramático foi o autor de outras obras importantes, embora de menor relevo: De Ponderibus et Numeris e Discursos e Poemas Latinos. Foi também responsável pela edição de Epigrammaton Libri xiiij de Marcial (Cultura Clássica). Outras obras permaneceram inéditas.

Desde novo, foi-lhe reconhecida uma acentuada vocação eclesiástica, e, como tal, foi examinado e ordenado ad primam clericalem tonsuram, em 11 de agosto de 1538, por D. Ambrósio Brandão, bispo de Rocina, que exercia temporariamente as funções episcopais na ilha da Madeira, nomeado representante de D. Martinho de Portugal (n. Évora, 1485 – m. Lisboa, 15 nov. 1547), arcebispo do Funchal, em 1538-1539, fazendo-se acompanhar por dois visitadores e examinadores, Jordão Jorge, ouvidor-geral do arcebispado do Funchal, e Álvaro Dias. À época, o vigário era o P.e Afonso Correia Cardoso.

Após a entrada na Companhia, teve uma rápida carreira como professor, ensinando, sete anos depois, em 1553, nas escolas públicas do Colégio de S.to Antão, em Lisboa, onde regeu as cadeiras de latim, grego e hebraico, sendo ainda professor das restantes 10 cadeiras do currículo do colégio. Dois anos depois, ocupou as cadeiras de humanidades do Colégio das Artes e ascendeu a reitor desta instituição, desempenhando a função entre 1561 e 1566. Antes de se tornar reitor do colégio e da Universidade de Évora, foi superior da Casa Professa de Lisboa (S. Roque). O jesuíta Leão Henriques (n. Ponta do Sol, séc. XVI – m. Lisboa, 8 abr. 1589) (Henriques, Leão), igualmente madeirense, indicou o P.e Manuel Álvares para seu sucessor como provincial de Portugal, proposta que obteve resposta positiva, a 3 de junho de 1574, da parte do padre italiano Everardo Mercurian (n. Marcourt, 1514 – m. Roma, 1 ago. 1580), por achar que o natural da Ribeira Brava seria efetivamente o jesuíta mais indicado para o cargo (Jesuítas).

A história do P.e Manuel Álvares e da sua De Institutione confunde-se, em parte, com a expansão do método de ensino da Companhia de Jesus, dado a sua obra constituir, precisamente, um dos alicerces do ensinamento do latim. Há muito que a Companhia procurava alguém capaz de escrever uma gramática latina que substituísse a de João Despautério (n. Ninove, c. 1480 – m. Komen, 1520), que unificou o ensino gramatical na Europa durante o séc. XVI, com as suas 400 edições.

Os elementos da Companhia tentaram a troca da obra de Despautério pelos trabalhos de André Fusio, Coudret e Ledesma. Porém, a fama de humanista atribuída a Manuel Álvares passara as fronteiras nacionais e chegara a Diego Laynez, segundo superior geral da Companhia de Jesus após S.to Inácio de Loyola, que fez questão de examinar atentamente os escritos do P.e Manuel Álvares sobre a gramática latina e respetivo ensino. Em Roma, nas instâncias do geral (18 set. 1564), conheceu-se o lento labor a que Manuel Álvares se consagrara ao compor uma gramática para as escolas portuguesas. Pensa-se que terão sido estes papéis a dar origem à edição de 1571, em Veneza, da De Constructione Octo Partium Oratonis, obra posteriormente registada pelo compilador da Bibliothèque de la Compagnie de Jésus (biblioteca da Companhia de Jesus), o padre jesuíta francês Carlos Sommervogel (n. Estrasburgo, 8 jan. 1834 – m. Paris, 4 maio 1902). Deste modo, os estudos de Manuel Álvares alcançaram um enorme interesse junto do duque de Gândia, o espanhol D. Francisco de Borja (n. Valência, 28 out. 1510 – m. Roma, 30 set. 1572), que dispensou o jesuíta madeirense de outros trabalhos para que se dedicasse inteiramente à elaboração da Ars, referência incontornável da pedagogia da Companhia durante séculos.

O debate iniciado em 1594 sobre o Ratio Studiorum (1585), o manual pedagógico do ensino jesuíta baseado no método do pedagogo romano Quintiliano, desenvolveu-se no sentido de oficializar a gramática do padre ribeirabravense como um dos pilares das escolas da Companhia, pela revolução que operava em muitos conceitos e preceitos gramaticais da época. Sendo uma firme aposta dos Jesuítas, em 1572, a De Institutione Grammatica Libri Tres, do P.e Manuel Álvares, acompanha a publicação de uma outra obra incontornável da produção humanística portuguesa, Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões. O sucesso do livro do madeirense pode ser objetivamente medido pelas cerca de 600 edições, totais ou parciais, e 14 traduções em vários idiomas. Depois d’Os Lusíadas, nenhuma obra de um autor português foi traduzida ou reeditada tantas vezes, existindo, inclusive, uma versão chinesa, que foi publicada em Xangai, em l869, perfazendo três séculos de vida da gramática alverasiana. O ex-libris do padre da Ribeira Brava valeu-lhe o reconhecimento universal da sua capacidade como latinista, tendo um peso considerável no método de ensino jesuíta.

Ao sucesso da Ars sucederam-se as críticas dos opositores aos métodos propostos pelo gramático madeirense. A base desta questão deveu-se ao intuito de reduzir a gramática latina às regras essenciais, devendo sujeitar-se-lhe as exceções como fenómenos desfigurados por omissão, transposição ou aumento dos elementos lógicos, indispensáveis à regra. Deste modo, justificou-se o aparecimento dos trabalhos de Kaspar Schoppe (n. Neumarkt, 27 maio 1576 – m. Pádua, 19 nov. 1649), os Rudimenta Grammaticae Philosophicae (1628), os Paradoxa Litteraria (1628) e o Auctorium ad Grammaticam Philosophicam (1629). Apesar da questão metodológica, o P.e Manuel Álvares era reconhecido, no seu tempo, como o primeiro entre os gramáticos antigos e modernos, espanhóis, franceses, alemães ou italianos.

Ao longo dos séculos de edição, a De Institutione Grammatica Libri Tres foi alvo de diversas críticas. Nicolau Orlando Pescentti, em 1609, insurgiu-se contra o método de Manuel Álvares, defendido na ocasião pelo P.e Sebastião Berecttaria. Em Portugal, houve alguma animosidade, iniciada pelo sargento-mor Manuel Coelho, em 1721, com a Explicação das Partes da Oração, em 1726, com o Resumo para os Principiantes da Explicação das Oito Partes da Oração, e, em 1729, com o Exame da Syntaxe e Reflexões sobre as suas Regras. A clivagem maior será patrocinada pela Congregação do Oratório que, devido ao seu alto interesse pelo ensino, no séc. XVIII, se opôs abertamente à Companhia de Jesus, detentora desse monopólio há cerca de 200 anos.

Abertas as hostilidades, não tardaram a aparecer novas propostas para o ensinamento da gramática latina. O Novo Methodo para se Aprender a Grammatica Latina, Ordenado para Uso das Escolas da Congregação do Oratório (1746) foi produzido pela mesma congregação, mas acabou por nem agradar aos próprios Oratorianos. A esta obra seguiu-se a edição do Verdadeiro Methodo de Estudar (1746), de Luís António Verney (n. Lisboa, 1713 – m. Roma, 1792), cuja oposição à De Institutione Grammatica Libri Tres veio a alimentar uma longa polémica, pró e contra Manuel Álvares.

Anos mais tarde, o P.e António Pereira de Figueiredo (n. 1725 – m. 1797) foi responsável pela reposição da fama do Oratório ao publicar o Novo Méthodo de Grammatica Latina para Uso das Escholas da Congregação do Oratório (1752) e a 2.ª parte de Syntaxe (1753), numa estratégia clara e aberta contra a Ars. O debate de oposição à obra-prima de Manuel Álvares decorreu até à reforma pombalina, que colocou um ponto final a esta polémica publicando um alvará régio, em 28 de junho de 1759, no qual se proibia o uso da De Institutione do padre da Ribeira Brava para o ensino da latinidade, dado contribuir para um ensino dificultoso.

A questão alvaresiana poderá ser encarada como uma falsa questão se for baseada apenas num ataque à figura do P.e Manuel Álvares. No seu cômputo e fundamento, parece enquadrar-se numa perspetiva de ataque ao ensino jesuíta. Versando a discussão ao nível da didática do latim e da teorização científica, com uma grande vertente política subjacente (recorde-se as linhas gerais da posição do Marquês de Pombal em relação à Companhia de Jesus), a proibição do ensino do método alvaresiano constitui um corte profundo com a escola jesuíta através do ataque à De Institutione Libri Tres.

Vejamos alguns dos aspetos questionados: a gramática foi redigida em latim, para obter uma rápida internacionalização, porque era a língua franca a nível científico, sendo logo uma língua viva para o seu autor; fazia-se, assim, a apologia do ensino do latim através de aulas ministradas em latim, independentemente da língua-mãe dos alunos e professores. Este último aspeto provocou uma celeuma entre os especialistas, porque o próprio Manuel Álvares defende, em determinadas passagens da sua obra, o uso de línguas vernáculas no início da aprendizagem da língua latina. Para os detratores, a questão expositivo-metodológica centrava-se no facto de os alunos desconhecerem aquela língua românica. Houve, no entanto, quem se opusesse aos críticos de Álvares, nomeadamente, Emilio Springhetti, ao defender o caráter moderno da obra. Para alguns linguistas esta é dotada de duas caraterísticas distintas: era descritiva e era racional, o usus e a ratio. Manuel Álvares atribuiu à sua gramática um cariz racional, com múltiplas explicações linguísticas, embora sem grande originalidade, porque fundamentava as suas teses em gramáticos anteriores. Na gramática, usou o método dedutivo, expondo as suas teorias, em primeiro lugar, e, depois, apresentando os exemplos a seguir. Mais didático do que racionalista, o P.e Manuel Álvares elaborou a sua gramática tendo em conta o usus sujeito a uma ratio. Deste modo, é indicado claramente que não há experiência sem razão, ou seja, o que a razão não admite não é passível de uso, seguindo mais a tradição latina do que a renascentista, já apontada no prefácio, onde fica assente que a autoridade linguística da De Institutione advém da leitura e estudo de gramáticos de renome universal: Varrão, Quintiliano, Aulo Gélio, Probo, Diomedes, Focas, Donato e Prisciano.

Durante dois séculos, os escritos de Manuel Álvares constituíram os manuais de ensino da língua latina em toda a Europa. No entanto, em Portugal, a edição dos trabalhos de António Pereira de Figueiredo e de Luís António Verney deram azo a muitas críticas, discussões e debates sobre o real valor da obra de Manuel Álvares. Compreende-se a controvérsia na ótica da evolução do estudo da língua, que fez com que os manuais do P.e Manuel Álvares fossem perdendo autoridade. A juntar a este facto, existiu a proibição feita pelo Marquês de Pombal de serem adotados os seus livros, quer no ensino público, quer no particular. Na Europa, as medidas pombalinas não tiveram eco e a De Institutione Grammatica Libri Tres continuou a granjear enorme prestígio, uma vez que, no segundo quartel do séc. XIX, se fizeram cerca de 20 edições da obra em diversos países do velho continente. A política de Pombal não sobreviveu ao valor da Ars e esta voltou a ser imprimida. Desde que a Ratio Studiorum a tornou extensiva a toda as instituições da Companhia de Jesus, as edições da De Institutione foram muitas e rivalizaram em Espanha e no México com Antonio Nebrija (n. Lebrija, 1444 – m. Alcalá de Henares, 5 jul. 1522), figura capital dos estudos gramaticais no panorama ibérico.

Sendo a obra de maior relevo da autoria de Manuel Álvares, a De Institutione Grammatica Libri Tres, como indica o título, estava dividida em três livros, correspondentes às três partes da gramática: etimologia, sintaxe e prosódia (ínfima, média e suprema).

Na primeira parte (etimologia), aprendiam-se os rudimentos, com as regras mais gerais da sintaxe latina, escolhendo-se para as preleções as epístolas de Cícero mais fáceis; na segunda parte (sintaxe), explorava-se toda a gramática, apesar do conhecimento imperfeito, e avançava-se pelas cartas familiares de Túlio e alguns textos de Ovídio; na terceira parte (prosódia), procurava-se o conhecimento completo dos preceitos e da elegância da latinidade. Um dos objetivos da Ars era expurgar a língua dos métodos e erros dos latinistas da decadência, correspondente ao período menos purista da Idade Média. Servindo-se e apoiando-se nos bons autores da Antiguidade Clássica, Manuel Álvares orientou para o ensino prático, escrito e falado.

Em relação às três partes da sua gramática, o primeiro livro, De Etymologia, corresponde à morfologia, apresentando a natureza e os acidentes ou flexões das palavras e a sua formação. Numa análise mais incisiva sobre a De Institutione Grammatica Libri Tres, aferimos que as palavras são divididas em oito classes: nomen, pronomen, verbum, participium, praepositio, adverbium, interjectio e conjunctio. As quatro primeiras são declinatur e as quatro segundas declinationes sunt expertes. É apresentada uma terceira divisão relacionada com as palavras que são declinadas pela sua natureza, com base nos princípios de Varrão: palavras que têm caso, mas não têm tempo (adjetivos); palavras que têm tempo, mas não têm caso (verbos); palavras que têm caso e tempo (particípios presentes); e, palavras (neutras) que não têm tempo nem caso, o que corresponde à significação gramatical, lógica e funcional que cada uma das palavras tem na oração.

No estudo sobre as partes orationis, além das influências de Nebrija e Despautério, há mais antigas, como Aristarco, Diomedes, Donato e, principalmente, Varrão, ao seguir o critério para a definição do número e respetivas designações e a tradição grega de as dividir em oito partes: nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, interjeição e conjunção, das quais quatro são variáveis e outras tantas indeclináveis. Continuando sobre algumas curiosidades da De Institutione, o nome é subdividido em cinco espécies: próprio, apelativo, coletivo, substantivo e adjetivo, sendo depois dividido em outras categorias. O pronome pode ser classificado como demonstrativo, relativo, possessivo e recíproco. O verbo pode ser analisado em dois géneros: pessoal (ativo, passivo, neutro, comum e depoente) e impessoal (ativo e passivo), e com outras formas, como os incoativos, perfeitos, meditativos, frequentativos e diminutivos. O particípio pode ser de tempo presente, pretérito ou futuro. A preposição pode reger acusativo, ablativo, acusativo ou ablativo. O advérbio pode ou não modificar a significação dos verbos. A interjeição tem várias formas e significações. A conjunção é classificada como copulativa, disjuntiva, adversativa, coletiva ou ilativa ou racional, causal e expletiva.

O livro II da De Institutione refere-se à sintaxe. Manuel Álvares segue o método dedutivo apresentado na etimologia. Expõe os preceitos de forma simplificada, acompanhados de explicações mais extensas, o que segue a linha de equilíbrio entre a ratio e o usus. A sintaxe é definida como a correta interligação entre as partes do discurso. O seu objeto de estudo é a oração, que classifica em duas categorias (transitiva e intransitiva), podendo estas ser justas (constructio iusta) ou figuradas (constructio figurata), o que dá lugar à sintaxe intransitiva, transitiva e figurada. A oração justa ou intransitiva é de realização perfeitamente acabada. Na oração figurada é necessário alterar ou acrescentar alguma parte do discurso para ficar com o sentido completo. A primeira parte deste livro é dedicada aos verbos intransitivos; a segunda, aos verbos transitivos; a terceira, aos verbos ativos; a quarta, aos verbos infinitos; a quinta, aos pronomes; a sexta, às preposições; a sétima, aos advérbios; a oitava, às interjeições; a nona, às conjunções; e, a décima, à sintaxe figurada.

Como há apenas duas classes de verbos, transitivos e intransitivos, deve haver apenas orações transitivas e intransitivas. O verbo intransitivo é aquele cuja realização sintática só precisa de um nome em nominativo, embora possa ser acrescentado um outro nome em nominativo. Todos os outros verbos são transitivos, quer sejam ativos, passivos ou neutros (ativo quando necessita complemento direto, passivo quando pela preposição «a» ou «ab» requer um ablativo); e é neutro quando os outros casos oblíquos (genitivo, dativo e ablativo, com outras preposições) operam a realização da natureza transitiva do verbo.

Para o gramático, não há verbos impessoais porque a oração exige sempre um nome em nominativo ou um nominativo elidido, caso contrário, não estamos perante uma oração. Do raciocínio conclui-se que a forma mais simples de uma frase é a oração justa e intransitiva, constituída por um nome em nominativo (função de sujeito) e o verbo intransitivo. O princípio que defende é que não pode haver oração apenas com verbo, sendo impreterível a presença de um nome, quer este se encontre expresso ou subentendido. Esta é uma posição próxima da corrente da semântica generativa, que encara a análise semântica da frase e não apenas a sintática.

O terceiro livro da De Institutione, «Prosodia», faz uma análise do alfabeto latino, as vogais, as consoantes, os ditongos, a quantidade das sílabas, por natureza e advindas do contexto linguístico, as partes do discurso, os pés métricos da poesia latina e das licenças poéticas (o extrapolar da linguagem através de recursos como a sinérese, sinalefa, diérese ou diálise, sístole, diástole ou ectasis), os versos latinos, e as cesuras (trocaica, heptemínera, bucólica ou tetrapodia). São ainda referidas outras figuras da escrita como: aprótese, epêntese, paragoge, aférese, síncope, apócope, antítese e metátese, a sinalefa, a epissinalefa, a diérese, a ectlipse, a sístole e diástole, um conjunto de metaplasmos que permitem ao poeta o uso exaustivo de construções consideradas incorretas, por necessidade métrica ou por uma questão de embelezamento textual. A parte final do livro III é dedicada aos acentos latino e grego.

Manuel Álvares não construiu uma nova teoria linguística porque usou muitas reflexões apoiadas nos gramáticos antigos e seus contemporâneos. A maior virtude desta obra é a sistematização de quase todas as questões linguísticas (apoiada no afastamento dos gramáticos latinos e medievais da decadência, no respeito e leitura pelos bons gramáticos da Antiguidade Clássica e no equilíbrio entre usus e ratio) e da influência exercida pelo facto de ter sido usada em todo o mundo, até por instituições fora da esfera da Companhia de Jesus.

Obras de Manuel Álvares: De Constructione Octo Partium Orationis (1571); De Institutione Grammatica Libri Tres (1572); De Ponderibus et Numeris (ou De Mensis et Ponderibus) (1754) e Obra Literária Completa, Esfera do Caos, APCA, (Org. e trad. de António Guimarães Pinto (2014)).

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Paulo Figueira

(atualizado a 03.06.2016)