andrade, francisco fulgêncio de

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Fig. 1: Busto de Francisco de Andrade, dos escultores Soares Branco e José Simão Castelo Branco.

Professor, pregador, jornalista, foi filho de Francisco de Andrade e de Maria Antónia de Jesus Andrade. Nasceu no sítio do Lombo, freguesia de Água de Pena, a 20 de fevereiro de 1889 e faleceu a 27 de julho de 1970. Estudou originalmente no seminário diocesano do Funchal, antes de ter frequentado, em 1909, a Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma, dedicando-se às áreas da Filosofia e da Teologia, onde, no ano de 1914, se doutorou. Foi ordenado presbítero, em Roma, a 19 de dezembro de 1914 e regressou ao Funchal em 1916.

Foi nomeado professor de Teologia, no seminário diocesano do Funchal, em 1917; pároco do Faial, em 1922; pároco de São Jorge, em 1923; e professor de Humanidades e Teologia, novamente no seminário diocesano do Funchal, em 1928, mantendo a função até ao final da vida.

Cónego da sé do Funchal, também em 1928, fez parte do colégio de consultores do bispo da Diocese e assumiu, por opção, a função de penitenciário da sé, enquanto a saúde lho permitiu, tendo exercido uma forte ação como assistente diocesano da Ação Católica, membro da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Funchal e docente do colégio lisbonense. Dedicou-se empenhadamente em trabalhos solidários, sendo assistente religioso do antigo asilo dos velhinhos do Funchal, junto ao convento de S.ta Clara.

Jornalista afincado, durante longos anos escreveu, fundamentalmente para o Jornal da Madeira, crónicas, editoriais e artigos de opinião sobre as mais diversas matérias – como «A revolução de Abril de 1974» –, criando, pela assiduidade e pertinência, um lugar próprio no jornalismo madeirense, tendo somente deixado de escrever quando as forças físicas lhe faltaram.

Um sobrinho seu, o Cón. Francisco Miguel Tomás de Andrade, ter-lhe-á seguido os passos na vida episcopal, tendo exercido um forte papel na fundação da paróquia de S. Francisco de Assis, em Alfornelos, em 1990, acabando por dirigi-la durante oito anos. Na senda do testemunho do seu tio, e sob a sua orientação, a vida pastoral daquela paróquia cresceu em diversos setores, entre os quais se salienta a adjudicação e construção da primeira fase do novo edifício do centro social de Alfornelos.

Fulgêncio de Andrade foi também comentador religioso no Posto Emissor de Radiodifusão do Funchal, mantendo uma rúbrica própria, transmitida aos domingos, durante largos anos, sob o nome «Cinco Minutos de Espiritualidade». Esta atividade reforçou-lhe o dom nato de pregador eminente, de que deu provas na sé do Funchal e em muitos púlpitos das igrejas madeirenses. Como notável orador, foi um ilustre conferencista, que abrilhantou algumas das principais solenidades da Diocese e da vida madeirense. Aliás, todos os seus sermões semanais, em diversas igrejas e capelas do Funchal, são reveladores do espírito crítico e inquieto pelo qual será recordado, marco complementar do seu impulso acérrimo e participação pró-ativa em diversos movimentos religiosos e culturais dentro da Diocese do Funchal.

Entre muitos outros, o seu texto sobre a exposição de ourivesaria sacra no convento de S.ta Clara é exemplar. Refira-se também a obra A Dupla Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à Madeira, um dos momentos mais descritivos e reflexivos do autor, que foi escrita com a hábil mestria de palavras sentidas, encarnando profundamente o acontecimento religioso, como que num apelo à fé, e elevando a chegada e a presença da imagem da Virgem Peregrina na Ilha, em 1948: «E eis que é chegada nesta primeira jornada, a hora da maior apoteose. A Virgem Senhora de Fátima no seu andor […]. No meio da exaltação suma, soltam-se vivas a Nossa Senhora, que recordam toda a epopeia gloriosa do Seu Padroado sobre a nossa terra […] com o episcopado português, a multidão ovaciona delirantemente […]. No entanto, longe de esmorecerem os cânticos, as palmas e as aclamações prosseguem com entusiasmo sempre crescente. Dizei-me, irmão, qual a razão da persistência invulgar destas manifestações apologéticas?» (ANDRADE, 1954, 46).

Distinto escritor e expansivo pensador, não se inibia nunca de manifestar publicamente opiniões pessoais, na maior parte das vezes sobre temas polémicos. O poder argumentativo da sua palavra era, sem dúvida, doutrina e manifestação do ser e do sentir. Tal ficou patente na conferência que proferiu, subordinada ao tema «Indissolubilidade matrimonial e o divórcio», assunto ainda delicado para a época. Escreveu e publicou diversos textos sobre assuntos religiosos e atuais, sempre a perspetivar a mudança, com vista a um futuro mais crente, esclarecido e mais humanamente liberto, questionando o verdadeiro conhecimento dos mistérios da vida.

Homem devoto, amante e respeitador das obras da vida, faleceu no hospital dos Marmeleiros, a 27 de julho de 1970, como se disse. Homenageado pela cidade, ergueu-se-lhe um busto em bronze, da autoria dos escultores Soares Branco (1925-2013) e José Simão Castelo Branco (1960-), no ano de 1998, que pode ser apreciado na R. da Sé. Para além disso, perpetua-se o seu nome numa rua, na freguesia de Água de Pena, no concelho de Machico, localidade que o viu nascer.

Obras de Francisco Fulgêncio de Andrade: «Indissolubilidade Matrimonial e o Divórcio» (1940); «Fátima na Madeira. E a Senhora Voltou! A Segunda Visita de Nossa Senhora de Fátima» (1948-1949); «A Exposição de Ourivesaria Sacra em Santa Clara» (1951); «A Igreja Defensora da Arte num Discurso de Pio XII» (1952); A Dupla Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à Madeira (1954); «A Revolução de Abril de 1974» (1990).

Bibliog.: ANAQUIM, Manoel, O Genio Portuguez aos Pés de Maria. Subsídios para a Bibliografia Mariana em Portugal, Lisboa, Livraria Ferreira, 1904; ANDRADE, Francisco F. de, A Dupla Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à Madeira, Funchal, s. n., 1954; CALDEIRA, Maria da Conceição de Oliveira, Miscelânea de Memórias: As Crónicas da Maria da Conceição Publicadas no Jornal da Madeira entre 1989-1993, s. l., Calcamar, 1999; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses, Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; MENEZES, Rufino Augusto de, Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima (A Virgem Peregrina), Versos Populares, Funchal, Tip. Empresa Madeirense, 1950; POMBO, Ruela, Portugal e a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, 2 vols., Lisboa, s. n., 1955; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, vol. 3, CMF, 1953; SILVA, Augusto da e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. 1, 1965; VIEIRA, Gilda França e FREITAS, António Aragão de, Madeira: Investigação Bibliográfica, Funchal, DRAC/Centro de Apoio de Ciências Históricas, 1981.

Helena Paula F. S. Borges

(atualizado a 13.06.2016)