andrade, francisco josé rodrigues de

D. Francisco de Andrade, que viria a ser o 22.º bispo da diocese do Funchal, nasceu em Lisboa, em 1761, segundo alguns autores (SILVA e MENESES, 1984, I, 67), ou em 1763, a 27 de fevereiro, segundo outro (SOUSA, 1991, 178). A sua formação académica iniciou-se na congregação dos Cónegos de S. João Evangelista, da qual veio, depois, a tornar-se membro. Ascendeu ao presbiterado a 25 de julho de 1827, rumando, depois, a Coimbra, a fim de completar os estudos, objetivo que alcançou com o doutoramento em teologia, em 1793. Trabalhou alguns anos como docente, após o que se veio fixar de novo em Lisboa, tornando-se pároco da freguesia de S. Nicolau. O bom desempenho deste cargo tornou-o notado e deu origem à sua indigitação e posterior ocupação do lugar de vigário capitular de Lisboa. Aí se encontrava quando, em 24 de setembro de 1821, foi confirmado pelo papa Pio VII para o lugar de prelado do Funchal, de que tomou posse por procuração, em março de 1822, e presencialmente a 1 de maio do mesmo ano.

D. Francisco de Andrade foi um bispo sugerido pelas forças liberais, então no governo de Portugal, devendo, por isso, esperar-se que comungasse dos ideais políticos dos seus proponentes. Na realidade, porém, este bispo terá o seu episcopado marcado por uma constante oscilação de posições, que foram variando ao sabor dos acontecimentos, razão que explica as suas sucessivas mudanças de opinião e de apoio às diferentes forças que ocuparam o governo português neste atribulado período de implantação do liberalismo.

Assim, tendo chegado à Madeira em maio de 1822, a 6 de setembro fez publicar uma pastoral na qual se declarava a favor da Constituição. O referido documento, publicado num livro de provimentos da Ponta Delgada (ARM, APEF, doc. 410, fls. 48v.-51), começava por sublinhar ser a obediência aos superiores um dos principais princípios que a religião defendia. Lembrava, depois, que a sociedade não podia ser outra coisa senão a união dos membros que a compõem “ligados pelos vínculos da subordinação”, razão pela qual se deviam dirigir as “nossas respeitosas atenções para a lei da monarquia, ou constituição, sabiamente ordenada para o governo deste Reino” (Ibid., fl. 49v.). Mais adiante, exortava os paroquianos a que não dessem ouvidos aos que “ensurdecidos à voz da verdade […] buscam o transtorno e perturbação da harmonia pública”, fazendo “vãs promessas ou lisonjeiras esperanças, que tendem à vossa ruína”. Lembrava ainda que, se alguém tivesse razões de queixa, tinha a nação autoridades incumbidas de fazer justiça, a quem deveriam ser apresentadas as reclamações, pois eram as depositárias do poder de Deus “a quem Ele não entregara debalde a espada” (Ibid., fls. 49v.-50). E terminava, apelando a que o povo mostrasse que era fiel observante da Constituição e respeitava as autoridades constituídas.

A invetiva à obediência manifestada nesta pastoral era, no entanto, um pouco desmentida pela ação do prelado que, a 26 de outubro do mesmo ano, se via interpelado pelo periódico O Patriota Funchalense, notório adepto do regime liberal, o qual lhe atribuía responsabilidades na falta de divulgação, junto do clero, das normas relativas ao método para fazer as listas de nomeação de vereadores. O Patriota chegava a acusar o bispo de não desempenhar o seu papel na promoção do bem público. Em resposta, D. Francisco enviou aos párocos uma circular publicada a 26 de outubro, o que logo lhe mereceu os elogios do referido periódico, que não perdeu tempo a noticiar a satisfação que sentia perante a “docilidade” com que o prelado tinha ouvido a voz do articulista, prestando-se a reconhecer o descuido “em que se considerou de antes não ter exortado os seus diocesanos para as eleições da câmara” (SOUSA, 1991, 181).

Dois meses mais tarde, porém, um outro autor, que assinava “Um Liberal Pacífico”, vinha a público lamentar que o bispo se fizesse rodear de pessoas pouco recomendadas, e aconselhava D. Francisco a escolher para seus conselheiros clérigos que o prevenissem contra os referidos descuidos, e que substituísse os dois cónegos que enquadravam o prelado e que não eram de todo bem vistos pela opinião pública, por serem contra o regime liberal. Dizia o articulista que se surpreendia por D. Francisco ter como secretário um indivíduo que “para tal emprego só tem o préstimo de escrever” e por conselheiros dois cónegos “sem letras nem virtudes”, sem atender a que “se tratasse com os liberais faria a mais excelentíssima reforma na sua casa” (Id., Ibid., 181).

A acrescentar a este descontentamento, juntava-se uma outra ação do bispo que caíra igualmente muito mal junto do povo. Tratava-se do pedido feito por D. Francisco de Andrade no sentido de receber a mercê dos “Caídos”, ou seja, os emolumentos que resultavam do período de sé vacante, o que O Patriota criticava com veemência, salientando que via com desgosto a pretensão de que “a Madeira pague ao seu Prelado o que ela sem violentar os seus filhos, não lhe pode dar”, afirmando adiante que aquela atitude equivalia a “querer assassinar a nossa Pátria”. Esta exigência tornava-se mais chocante se se tiver em conta que foi feita pouco tempo depois de o vigário de São Jorge, liberal convicto, eleito para as Cortes Ordinárias da Nação Portuguesa, se recusar a deslocar-se para Lisboa, alegando falta de saúde, mas também a vontade de que não se soubesse no Reino que “os párocos da Madeira morrem de fome!” (Id., Ibid., 176).

A falta de zelo episcopal voltava a ser assunto de O Patriota que, a 4 de janeiro de 1823, atacava de novo o bispo, desta vez acusando-o de viver encerrado no seu palácio, de visitar a sé como “um cometa”, de não ter até então honrado o seminário com uma visita, de ter pregado muito pouco, e de, “do fundo do seu gabinete”, solicitar rendas escandalosas, terminando com a apóstrofe “Mau filho, pior cidadão, péssimo Ministro se assim continua” (Id., Ibid., 184).

Perante a pressão exercida pela imprensa, D. Francisco terá considerado prudente sublinhar a sua fidelidade ao regime e, a 25 de abril de 1823, voltava a publicar outra pastoral, onde reforçava a sua adesão ao liberalismo, registando que “Nós todos prometemos na face do santuário, guardar e observar a mesma Constituição, e afirmámos esta promessa com juramento solene pelo qual nos constituímos responsáveis perante Deus e perante a Nação” (ARM, APEF, doc. 410, fl. 52).

A 16 de junho, contudo, chegava à Madeira a notícia do sucesso da Vila-Francada, e do concomitante regresso de D. João VI ao estatuto de monarca absoluto, o que iria obrigar a uma imediata mudança de posição política, para a qual o governador convocou a S. Lourenço, não só o prelado, mas todas as autoridades regionais, a fim de, juntos, assinarem um auto de aceitação da nova situação.

Para acompanhar o rumo dos acontecimentos, a 17 de julho o bispo dirigia-se novamente aos diocesanos, instando-os – à semelhança do que fizera nas pastorais anteriores – a obedecer às autoridades. Diferente, porém, é o tom do resto da carta, em que o bispo manifestava a sua satisfação com “Este feliz dia em que se realizou um sucesso tão admirável”, sendo “um dia de triunfo e glória, dia de júbilo, de prazer e de espiritual consolação” (ARM, APEF, fl. 57) – dia, ainda, que permitira à coroa repor os direitos “de que uma fação criminosa a havia tão ilegalmente esbulhado”. Um pouco mais à frente, apelava aos párocos para que se lhe associassem na divulgação “de tão importantes verdades em que está firmado todo o bem desta Monarquia” (Ibid., fl.57v.), atitude que não tomara em nenhuma das pastorais anteriores. O tom entusiástico deste texto não disfarça a adesão ideológica de D. Francisco ao regime absolutista, embora, até 1834 – ano em que abandonou a diocese – o bispo tenha tido de suportar outras orientações e alterações políticas.

Antes, contudo, da primeira dessas mudanças, registada em 1826, o bispo teve tempo para mandar aos párocos que, na estação da missa, divulgassem a necessidade da obediência e inteira submissão aos poderes constituídos, e, na sequência de uma carta régia, aspassem todos os documentos que obrigavam a obedecer a instituições políticas “opressivas e ilegais” (Ibid., fls. 62-63v. e 67v.-68). Esta última determinação foi, de facto, cumprida, e o Livro de Provimentos de Ponta Delgada tem aspadas as duas primeiras pastorais anteriormente referidas, sem que isso, no entanto, minimamente impeça a leitura das mesmas. A 16 de setembro, publicava-se outro edital, em que o prelado voltava a lembrar aos párocos a necessidade de alertar os fiéis para as “perniciosas doutrinas forjadas em associações secretas e mantidas por uma fação iníqua” que, debaixo de enganosas aparências, procuravam a ruína do “Trono e do Altar”, em contraposição às máximas saudáveis e verdadeiras dos Evangelhos, que se deviam difundir com cada vez maior insistência (Ibid., fl. 62v.), o que demonstra que D. Francisco não poupava esforços no sentido de uma progressiva interiorização popular dos valores do absolutismo, em estreita relação com o cristianismo.

A 15 de dezembro de 1823, outro edital, desta vez dedicado à correção dos abusos no vestuário eclesiástico detetados pelo prelado, admoestava o seu clero pela tendência de se vestir à moda secular. A vigorosa invetiva aos costumes dos clérigos também poderá ficar a dever-se ao facto de o clero madeirense ser, em geral, adepto do liberalismo, o que desagradaria ao bispo, que não deixaria de aproveitar todas as oportunidades para mostrar que estava vigilante. As críticas ao clero continuavam presentes na pastoral publicada a 17 de março de 1824, quando o prelado afirmava que “do seio do da mesma Igreja têm saído propagadores do erro espalhando doutrinas perversas para formar discípulos que sigam seus passos”. Lamentava, depois, que ainda aparecessem escritos a fazer a apologia do “maçonismo”, cujos ideais, na sua opinião, não andavam longe dos do liberalismo.

Apesar dos esforços de D. Francisco, o desempenho do clero madeirense continuava a não satisfazer os anseios episcopais, o que justificará o envio, para Lisboa, da missiva de 19 de janeiro de 1826, na qual o bispo se queixava dos efeitos da “pasmosa relaxação” que nos últimos tempos contagiara todas as instituições, designadamente o cabido, pelo que solicitava, tal como o fizera o seu antecessor, D. frei Joaquim de Ataíde, autorização para ser ele o responsável pela nomeação das dignidades da sé (CARITA, 2003, 417).

Com o advento da Carta Constitucional que, na Madeira, fora jurada a 8 de agosto, D. Francisco de Andrade tinha tido, mais uma vez, de fazer um esforço para se adaptar à nova conjuntura; mas em 1828, com o retorno de D. Miguel, a situação alterou-se outra vez. Ciente do que se passava na Corte, o governador Travassos Valdês decidiu autorizar a ida do bispo a Lisboa, mediante as razões de saúde invocadas, mas somente depois de este ter acedido a publicar uma pastoral onde se mostrasse fiel à Carta Constitucional. Acossado, D. Francisco de Andrade, que fora acusado de, nos campos, ter promovido a “sediciosa aclamação” de D. Miguel (Id., Ibid., 478), decidiu cumprir a exigência que lhe fora feita, em razão da qual se sujeitou a publicar o texto que saiu à luz em 28 de junho, no qual afirmava a condenação dos eclesiásticos que se tinham pronunciado a favor do absolutismo, e assumia ser D. Pedro IV o legítimo monarca português e D. Maria II a efetiva herdeira do trono.

Cumprida a obrigação, pôde D. Francisco de Andrade deslocar-se ao reino, onde chegou a 24 de julho, acompanhado pelo seu secretário, pelo secretário do governador e por mais uma dúzia de clérigos e frades, todos partidários do regime absoluto. Depois de a resistência oposta por Travassos Valdês à ocupação do trono por D. Miguel ter terminado por força do envio, por parte do rei, de uma esquadra que trazia o novo titular do cargo de governador, estavam criadas as condições para o regresso do prelado, o que veio a acontecer a 13 de outubro de 1828. Um pouco antes da sua chegada, porém, já o bispo tinha redigido outra carta pastoral, onde se retratava do que afirmara na anterior e assumia sem disfarce a sua anuência ao absolutismo e fidelidade a D. Miguel, a qual acabou por ser publicada na Madeira a 26 de outubro.

Não obstante ser-lhe favorável o regime agora implantado, o episcopado de D. Francisco de Andrade manteve-se com um registo atribulado, tendo continuado as “lutas e dissensões” (SILVA e MENESES, 1984, I, 68), situação que só viria a terminar com o abandono da diocese pelo bispo, a 12 de junho de 1834, sete dias após a proclamação do governo constitucional na Ilha.

Nessa altura, D. Francisco de Andrade foi refugiar-se em Génova, onde entrou para o convento de S. Bartolomeu de Fossato, na freguesia de Promontório, aí se conservando até à morte, ocorrida em 1838, a 2 de maio. Passados cerca de 50 anos do falecimento de D. Francisco, o vigário da paróquia de Promontório, na sequência de obras que efetuava na igreja, lembrou-se de assinalar o túmulo do prelado, para o que entrou em contacto com a diocese do Funchal, então na posse de D. Manuel Agostinho Barreto. Este encetou uma série de diligências com vista a reunir fundos para se conceder ao antigo bispo uma lápide condigna, e o bom sucesso desses esforços conduziu a que se tivessem mandado esculpir em mármore as armas de D. Francisco, acompanhadas por dizeres, em bronze, que identificam o túmulo.

Bibliog.: manuscrita: ARM, APEF, Registo dos provimentos das visitações pastorais da freguesia de Ponta Delgada, Livro 3.º, doc. 410; impressa: ALMEIDA, Fortunato, História da Igreja em Portugal, vol. III, Porto/Lisboa, Livraria Civilização Editora, 1971; CARITA, Rui, História da Madeira. As ocupações inglesas e as lutas liberais. O processo político (1801-1834), vol. VI, Funchal, Secretaria Regional de Educação, 2003; SILVA, Fernando Augusto, e MENESES, Carlos Azevedo, O Elucidário Madeirense, vol. I, Funchal, DRAC, 1984; SOUSA, Rui Fernando Nunes de, “Catolicismo e Liberalismo n’ «O Patriota Funchalense» (1821-1823)”, Lusitânia Sacra, 1991, pp. 155-214.

Ana Cristina Machado Trindade
Rui Carita

(atualizado a 26.08.2016)