andrade, manuel joaquim gonçalves de

Retrato de D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade,1828. Fonte - Museu de Arte Sacra de São Paulo.
Retrato de D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, 1828. Fonte – Museu de Arte Sacra de São Paulo.

D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade nasceu em 14 de março de 1767, na Quinta Grande, ilha da Madeira, freguesia de Campanário (Ribeira Brava). Era filho de Nicolau Gonçalves de Andrade e de Maria de Andrade, membros da nobreza local. Era neto, do lado paterno, de Francisco Gonçalves e Maria das Rosas e, do lado materno, de Manuel de Abreu Macedo e Maria de Andrade. Era também irmão do P.e Francisco Joaquim Gonçalves.

Iniciou a vida religiosa no Seminário do Funchal (Seminários), passando em seguida a frequentar o curso de Direito da UC (1789-1794). Dada a nomeação de seu tio, D. Mateus de Abreu Pereira, para a diocese de São Paulo, Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade solicitou ser ordenado fora do bispado do Funchal, obtendo a licença por meio do alvará de 17 de novembro de 1794. Em janeiro de 1795, recebeu o provimento de Ordens Menores e Sacras em Coimbra. Foi ordenado presbítero nessa mesma cidade em 8 de setembro de 1796, sendo o ofício presidido por D. Mateus de Abreu Pereira.

Seguiu para o Brasil, acompanhando D. Mateus de Abreu Pereira, que fora nomeado para bispo da diocese de São Paulo, chegando ao porto de Santos em 2 de maio de 1797. Pelos registos, foi acompanhante fiel do seu tio até à morte, passando a ter uma atuação mais intensa na vida política a partir da morte daquele, acompanhando de perto o processo de transformação da colónia brasileira em nação independente. Durante o mandado do seu tio, Gonçalves de Andrade, denunciado por acusações contra o governador António Manuel de Melo Castro de Mendonça, foi convocado a prestar esclarecimentos na metrópole. O religioso apresentou-se, defendeu-se, foi considerado inocente e retornou a São Paulo em 2 de dezembro de 1802.

D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade foi membro do Conselho de Governo, entre 1826 e 1834, e do Conselho Geral de Província, entre 1829 e 1832. Foi nomeado cónego em São Paulo, passando posteriormente a arcediago do cabido, sendo indicado por D. Pedro I para ocupar o cargo de bispo em 25 de junho de 1827. A confirmação do cargo foi feita pelo breve do papa Leão XII. Desta forma, sucedeu a seu tio, que fora bispo de São Paulo entre 1795 e 1824. Foi ordenado bispo em 28 de outubro de 1827 na cidade de São Paulo, sendo o ofício presidido por José Caetano da Silva Coutinho. Comandou a diocese de São Paulo entre 1827 e 1847.

Logo após a sua posse no bispado, dedicou-se à restauração do edifício da Igreja da Sé, conseguiu fazer ampliações para acomodar o cabido e construiu salas de aula. A fachada principal e a torre foram reformadas e o interior dos edifícios recebeu painéis de artistas e novas decorações. O porte da Igreja da Sé era modesto, destacando-se do conjunto a torre do sino e a decoração barroca, onde se distinguiam os retábulos em talha com algum douramento. A igreja era sombria e os fiéis sentavam-se no chão durante o culto, e os que possuíam mais recursos levavam cadeiras para assistirem às cerimónias mais longas. Localizada no centro da cidade, a construção chamava a atenção pela grande torre quadrada dos sinos. Na parte superior da porta principal, destacavam-se os brasões imperiais.

Naqueles idos, a cidade de São Paulo vivia um clima tenso, dadas as contestações contra as deliberações do imperador. Os ataques do Partido Liberal, tendo como porta-voz Giovanni Battista Libero Badaró, eram constantes. D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade foi um ardoroso defensor do imperador e da emancipação da Igreja Católica no Brasil relativamente à orientação doutrinária de Roma. As turbulências políticas fizeram com que este assumisse funções temporais. Foi vice-presidente da Província, exercendo o cargo de presidente de 18 de abril a 5 de outubro de 1828 e, depois, entre 15 de abril de 1830 e 5 de janeiro de 1831. Em 20 de novembro de 1830, o assassinato de Giovanni Battista Libero Badaró gerou grande comoção entre a população paulista. Gonçalves de Andrade agiu rapidamente para acalmar a população e alterou o nome da R. Nova de S. José para R. Libero Badaró, como homenagem ao defensor do ideário liberal. Deve-se registar que o jornal O Observador Constitucional, de propriedade de Libero Badaró, era um crítico da atuação do bispo, considerado extremamente conservador. Após a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade assumiu mais uma vez a presidência da Província, de 17 de abril a 20 de junho desse ano.

Foi deputado provincial da primeira legislatura da Assembleia Legislativa da Província de São Paulo, de 1835 a 1837, ocupando o cargo de primeiro secretário na mesa diretora de 1836 a 1837. Continuou a ocupar o cargo entre 1838 e 1845. Neste ano, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa Provincial; todavia, não pôde assumir o cargo por motivo de doença. Em 1846, o imperador D. Pedro II visitou São Paulo e conferiu ao religioso a comenda da Ordem de Cristo. Dentre as suas ações, destaca-se o empenho na construção de vias de comunicação entre São Paulo e outras localidades, em especial ao porto de Santos, a fim de favorecer a atividade comercial. Estimulou a construção da Estrada da Mata, que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul, e a construção do canal de Iguape para facilitar a comunicação do rio Ribeira de Iguape ao mar Pequeno.

Em 1841, o diretor interino da Faculdade de Direito, José Maria de Avelar Brotero, com a ajuda de alunos, desafiou-o ao sepultar no Lg. de S. Francisco o corpo do jovem professor luterano Julius Frank. O túmulo existe até hoje no lado esquerdo de quem entra pela porta principal. Após uma hábil negociação, D. Manuel deu-se por vencido, e em 1842 era construído um cemitério exclusivo aos protestantes. Nessa mesma época, D. Manuel teve que enfrentar a pressão de alguns religiosos, como o P.e António Diogo Feijó (regente do Império do Brasil entre 1835 e 1837), que defendiam ideias mais progressistas, como a abolição do celibato.

A Igreja da Sé, apesar de várias reformas no decorrer dos séculos, continuava precária naqueles idos. D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, ciente da ruína do edifício e da necessidade de recuperá-lo, nomeou o seu sobrinho, o arcediago Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade, responsável pelos trabalhos de reforma e ampliação do edifício. Os trabalhos foram realizados no decorrer do ano de 1846, sendo erguidas, do lado esquerdo do templo, acomodações para o cabido e para a primeira escola normal de São Paulo, fundada naquele local pela lei n.º 35 de 16 de março de 1846. Nesse ano, durante a Semana Santa, São Paulo recebeu a visita do imperador D. Pedro II e de sua esposa, a imperatriz Teresa Cristina, que assistiram à missa na Igreja do Colégio dos Jesuítas devido aos trabalhos que estavam em curso na Catedral da Sé.

D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade foi o primeiro presidente da Loja Maçónica Firmeza e Character, sendo conhecido pelo cognome Platão. Esta loja maçónica teve curta duração. Os trabalhos iniciaram-se em 1833 e foram interrompidos em 23 de junho de 1837. Contudo, o ideal foi preservado e retomado em 1874, quando ocorreu a fundação da Loja Maçônica Amor da Pátria.

Faleceu em 26 de maio de 1847, contando com 80 anos de idade. Em seu testamento deixou registado que, do montante de sua herança, fosse retirado o valor de 100 mil réis em favor dos presos que cumpriam pena na cadeia da cidade de São Paulo.

Bibliog.: Annaes da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo 1835-1836, São Paulo, Governo do Estado de São Paulo, s.d.; Annaes da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo 1837, São Paulo, Governo do Estado de São Paulo, s.d.; Annaes da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo 1844-1845, São Paulo, Governo do Estado de São Paulo, s.d.; GAETA, Caetano, Líbero Badaró – O Sacrifício de um Paladino da Liberdade, São Paulo, Estabelecimento Gráfico E. Cupolo, 1944; GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo (orgs.), O Brasil Imperial, vol. I, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2009; SOUZA, Françoise Jean de Oliveira, Do Altar à Tribuna: os Padres Políticos na Formação do Estado Nacional Brasileiro (1823-1841), Dissertação de Doutoramento em História Política apresentada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, texto policopiado, 2010; SOUZA, Ney de (org.). Catolicismo em São Paulo: 450 Anos de Presença da Igreja Católica em São Paulo (1554-2004), São Paulo, Paulinas, 2004; TSCHUDI, Johann Jakob von, Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1980; WERNET, Augustin, A Igreja Paulista no Século XIX: a Reforma de D. Antônio Joaquim de Melo (1851-1861), São Paulo, Ática, 1987.

Paulo de Assunção

(atualizado a 07.03.2016)