anticontinentalismo

A ilha define-se, desde o início, como o mundo do madeirense, símbolo da sua capacidade de vencer os desafios quotidianos e da sua afirmação perante mares e continentes. Desta forma, ela é o sonho, a imagem do paraíso terreal, enquanto o continente é a diabolização da terra. O Diabo e o Inferno são identificados com o continente e com tudo o que existe de mau. Já a ilha é o Paraíso, o local de repouso dos deuses. Na ilha, fala-se de continente e não de metrópole e esta utilização parece ter uma intencionalidade negativa.

Esta diabolização ganha forte expressão na imprensa, a partir da Revolução Liberal. Mais recentemente, no período conturbado de 1975, os continentais foram, de forma pejorativa, identificados como “cubanos”. Embora Cuba seja uma ilha, mas grande, aqui é identificada como uma expressão do continente que, em termos políticos, pretende copiar um regime político dessa outra ilha, em que a maioria das elites não se revê.

O continente é a negação da fruição da riqueza gerada pelos insulares, a rejeição da capacidade de autogoverno ou autonomia. Daí a expressão popular que diz: “do garajau para cá manda quem cá está”. E, segundo O Patriota Funchalense, a autonomia é um discurso de afrontamento à metrópole, simbolizada pelo Terreiro do Paço, onde se centravam as principais instituições do poder do Estado. Afirmava Nicolau Caetano Pita, em 1 de dezembro de 1821: “[…] a sorte da infeliz Madeira é a de enteados. A escravidão consiste em viver algum sujeito absolutamente à vontade de outrem; uma provincia, que deve sujeitar seus interesses aos da metrópole, que a seu termo a não interessa, deixa de ser provincia, é de facto colónia e vive escrava” (PITA, 1821, 1).

Manuel José Vieira, em intervenção no Parlamento, a 7 de maio de 1883, afirma: “Sabemos que fazemos parte do reino de Portugal única e exclusivamente para quinhoarmos nos encargos que se renovam ou batizam com nomes diferentes mas que sempre se acrescentam” (VIEIRA, 2014, 45). A 1 de fevereiro de 1888, o Diário de Notícias publicava: “A Madeira foi sempre para a metropole uma especie de mina cujos filões nem mesmo depois de esgotados deixaram de ser explorados sofregadamente” (“Assumptos Geraes”, DN, 1 fev 1888, 1). Porque afinal os discursos da autonomia, da antiautonomia e do anticontinentalismo são o do dinheiro.

No imaginário madeirense, esta necessidade de estabelecer um corte com o continente está bem clara em expressões e discursos, que, no caso da tribuna parlamentar, não deixam de ter pronta resposta, através da expressão de um pensamento negativo que apresenta os madeirenses como vivendo à custa do continente ou incapazes de dispor de formas de governo próprio, no quadro da descentralização política. Marcello Caetano afirmava que “para que haja descentralização é preciso existirem recursos financeiros e gente capaz de os gerir. O escol madeirense só agora começa a revelar alguns dirigentes dignos desse nome. Até aqui a política local era de puro estilo antigo, feita para consolidar influências à custa dos favores pessoais. […] Os caciques deixavam-se levar na torrente e arvoravam-se em procuradores de todos os descontentamentos junto do Poder Central.” E rematava: “O distrito do Funchal suporta, em tese, a autonomia, mas a sua grande carência é de escol dirigente […]” (ENES, 2005). Este debate ganhou dimensão na sociedade, alimentado por blogues e pelos espaços de opinião da maioria dos canais de informação.

Fica claro que o continente, tomado como sinónimo de Portugal continental, representa o mau que oprime e mantém cativos, que rouba a riqueza através dos impostos. O parlamentarismo, a partir de 1821, foi uma forma de os ilhéus darem expressão ao seu discurso anticontimental, tal como a imprensa que se publica de cariz regional. Aliás, o primeiro jornal, O Patriota Funchalense, publicado a partir de 2 de julho de 1821, é uma expressão disso. Aí ganham letra de forma as primeiras reivindicações autonomistas, como as acusações contra a exploração, de modo especial de âmbito financeiro, do “continente”. Desta forma, em 1869, José Silvestre Ribeiro encarna esse pensamento madeirense, ao afirmar no Parlamento que “Nós como portugueses estamos prontos e temos obrigação rigorosa de partilhar os encargos que pesam sobre o continente, mas não temos as vantagens, não temos os confortos, nem os melhoramentos que têm os habitantes do continente do reino” (VIEIRA, 2014, 42). Depois, em 1880, José Feliciano Teixeira volta a afirmar que “A Madeira, que tem os mesmos deveres que as 2rovíncias do continente, 2rovín podia e devia ter os mesmos direitos a entrar na comunhão dos mesmos gozos, no gozo dos mesmos bens que as outras 2rovíncias continentais” (VIEIRA, 2014, 44).

Em 1934, Oldemiro César, numa reportagem sobre a visita do ministro do Comércio, afirmava: “Depois, o regresso com muitas promessas e nenhumas certezas, que o tempo convertia em tristes desilusões, assim criando entre Portugal isolado no Atlântico e o Poder Central do continente um mal-estar contínuo e irritante que a ninguém aproveitava nem mesmo a processos e habilidades políticas de outros tempos” (CÉSAR, 1944, 148).

A ideia da descoberta associa-se sempre à de autonomia, sendo esta última considerada uma segunda descoberta que poderá significar o corte de laços negativos que ligam a ilha ao continente desde o séc. XV. O corte quererá significar que a ilha tem capacidade e condições de autogovernação. Mas, como se dizia em 1911, nas páginas do Diário de Noticias do Funchal, “A autonomia nunca se exerceu desassombrada de peias do poder central e muitos dos encargos permanentes foram creados por imposições dos governos da metrópol” (VIEIRA, 2014, 61).

Bibliog.: “Assumptos Geraes. Sem preambulos. Ao snr. Governador Civil”, in Diário de Notícias, Funchal, 1 de fevereiro de 1888, p. 1; Autonomia e História das Ilhas: Seminário Internacional, Funchal, CEHA, 2001; CÉSAR, Oldemiro, Terras de Maravilha: Os Açores e a Madeira, Lisboa, Ed. do autor, 1944; ENES, Carlos, “Açores e Madeira Vistos por Marcello Caetano em 1938”, Boletim do Núcleo Cultural da Horta, n.º 14, 2005, disponível em http://www.nch.pt/biblioteca-virtual/bol-nch14/n14-7.html (acedido a 15 maio 2015); FRANCO, José Eduardo, “Nacionalidade e Regionalidade. Processos de Mitificação e Estruturação Identitária (o caso da Nacionalidade Portuguesa e da Regionalidade da Madeira)”, Anuário do CEHA, n.º 1, 2009, pp. 73-80; GRAS, Christian, Régions et Regionalisme en France du XVIIIe Siécle à Nos Jours, Paris, s. n., 1977; HAUSER, H, Le Probléme du Regionalisme, Paris, PUF, 1924; JANES, Emanuel, Nacionalismo e Nacionalistas na Madeira nos Anos Trinta (1928-1936), Funchal, CEHA, 1997; LAFONT, Robert, La Révolution Régionaliste, Paris, Gallimard, 1967; NOREÑA SALTO, María Teresa, “Isla y Región. Una Perspectiva Histórica”, Aproximación a la Historia de Canarias, La Laguna, Universidad de La Laguna, 1989; PITA, Nicolau Caetano, “Aditamento”, Patriota Funchalense, 1 dez 1821, p. 1; REIS, M. Pestana, “Regionalismo/A Autonomia da Madeira/Falou Já o Sentimento; Fala Agora a Razão”, Correio da Madeira, 7 nov. 1922; RODRIGUES, Paulo Miguel, “Da Insularidade: Prolegómenos e Contributo para o Estudo dos Paradigmas da Madeirensidade (1910-1926)”, Anuário do CEHA, n.º 2, 2010, pp. 210-228; VIEIRA, Alberto, Livro das citações, Funchal, CEHA, 2014.

Alberto Vieira

(atualizado em 30.08.2016)