antroponimia primitiva da madeira (séculos xv e xvi)

O estudo da antroponímia primitiva da Madeira (sécs. XV e XVI) fundamenta-se no inventário dos nomes dos primeiros povoadores da Ilha, desabitada no momento do seu descobrimento e cujo povoamento se fez a partir de Portugal continental, nele participando igualmente, devido ao desenvolvimento da produção açucareira, muitos estrangeiros, comerciantes de toda a Europa, e escravos das Canárias e de África. Da documentação mais antiga produzida na Madeira, utilizaram-se cinco fontes documentais diretas: o “Livro dos Estimos do Ano de 1494” (RAU e MACEDO, 1962), as Vereações da Câmara Municipal do Funchal (COSTA, 1995), o Tombo Primeiro da Câmara Municipal do Funchal: Documentos dos Séculos XV e XVI, os Livros de Contas da Ilha da Madeira (COSTA, 1985 e 1989) e os Livros de Matrícula do Cabido da Sé do Funchal (COSTA, 1994). Utilizou-se ainda uma fonte indireta para o estudo da antroponímia dos escravos: o inventário dos nomes de escravos do arquipélago da Madeira, a partir de documentos inéditos, apresentado por Alberto Vieira (VIEIRA, 1991). As fontes utilizadas são constituídas por documentos de natureza notarial, eclesiástica, alfandegária e administrativa. Esta documentação permite obter uma amostragem representativa e fiel, do ponto de vista linguístico, da antroponomástica primitiva da ilha da Madeira.

Tal abordagem contribui para um melhor conhecimento da antroponomástica portuguesa, bem como da história da língua portuguesa, nomeadamente do português da época da Expansão, que foi transplantado para a ilha da Madeira. O material antroponímico dá-nos informações sobre unidades lexicais comuns, que apresentam, muitas vezes, as primeiras atestações na onomástica antiga ou medieval e moderna, e sobre traços linguísticos e dialetais. Os antropónimos podem, assim, fornecer informações linguísticas e culturais importantes sobre a época a que pertencem. As ocorrências dos antropónimos dependem de critérios geolinguísticos, de fatores históricos e culturais, da tradição cristã (nomes de inspiração religiosa) e pagã e da tendência inovadora (resultante da moda ou do gosto dominante na época).

Terminologia antroponomástica

Não se utilizará a terminologia tradicional de Leite de Vasconcelos (VASCONCELOS, 1928). Optou-se por uma terminologia posterior, que se julga mais adequada para melhor descrever e classificar as diferentes unidades antroponímicas: a terminologia proposta, a nível internacional, pelo projeto Patronímica Românica (PatRom) e pelo seu coordenador, o Prof. Doutor Dieter Kremer (KREMER, 1997). Segundo esta nova proposta terminológica, o termo “prenome” designa o primeiro nome, uma vez que o termo “nome próprio” não é o mais adequado, por não ser um termo específico, podendo apresentar um valor genérico não apelativo. O termo “prenome também não é o mais adequado para designar os títulos honoríficos, eclesiásticos e académicos, visto que não se trata de unidades antroponímicas propriamente ditas, que por isso podem ser denominadas simplesmente por títulos. Em vez do termo “sobrenome, usa-se o termo “prenome composto, por oposição a “prenome simples, para designar dois elementos antroponímicos que fazem parte do primeiro nome ou prenome, e.g., João Baptista, que, neste caso, é uma unidade fixa de origem religiosa. Os prenomes compostos podem ainda ser formados por um prenome seguido de um complemento onomástico, e.g., os nomes que parecem ser motivados por evocações marianas, do tipo Maria das Neves. Os prenomes têm um uso estritamente onomástico, embora esporadicamente possam ser de origem lexical (delexicais), pois podem formar-se a partir de lexemas comuns (e.g., o prenome feminino Branca), tal como alguns lexemas podem ser formados a partir de prenomes (deonomástica), e.g., manuelino, de Manuel.

A adoção do termo “prenome” para o primeiro nome leva a utilizar o termo “segundo nome”, em vez de “apelido, para designar a unidade antroponímica que segue o prenome. O termo “segundo nome” parece mais adequado, por ser simultaneamente mais específico e mais abrangente. O segundo nome tem a função de identificar o indivíduo no seu contexto social e está na base dos nomes de família posteriores, pois pode-se constatar que os segundos nomes individuais se tornaram nomes hereditários ou de família. Ao segundo nome podem seguir-se outros elementos apelativos ou identificativos do indivíduo, um terceiro nome e um quarto nome, que por vezes também se transformam em apelidos de família. Estas unidades constituem, inicialmente, elementos de identificação individual, pois ainda não se tinham fixado como nomes de família, daí ser mais adequada a designação de “segundo”, “terceiro” e “quarto nomes”. Trata-se de termos que permitem dar conta da posição e sequência das unidades antroponímicas na cadeia onomástica. Os segundos, terceiros e quartos nomes podem ser nomes constituídos por patronímicos (formados a partir dos prenomes), nomes geográficos ou nomes de origem, nomes étnicos, alcunhas e nomes de profissão. Estes últimos três tipos antroponímicos são nomes delexicais, ou seja, nomes retirados do léxico geral.

Os nomes

Podemos distinguir três tipos fundamentais de antropónimos: os prenomes e os patronímicos, os nomes geográficos e os nomes delexicais. Os patronímicos têm um interesse morfológico específico, pois prolongam os prenomes, indicando a filiação paterna ou materna (matronímicos). Os nomes de origem representam uma outra categoria de nome, pois são nomes de lugares – macrotoponímica (lugares identificados e habitados) e microtoponímia (designações toponímicas muito circunscritas). Os nomes delexicais integram lexemas étnicos, alcunhas e lexemas de profissões ou ofícios. Ao contrário dos prenomes, que têm a sua origem, geralmente, na tradição e que identificam uma pessoa na família, os nomes delexicais, retirados do vocabulário corrente, identificam e qualificam uma pessoa socialmente. Os nomes delexicais participam dos mesmos processos de formação do léxico comum, estabelecendo uma estreita ligação com ele. O grande grupo dos nomes próprios delexicais é um testemunho precioso da língua falada ou popular da respetiva época e frequentemente permite datar pela primeira vez esse elemento lexical, tendo grande interesse para a história da língua. No entanto, nem sempre é fácil definir o significado concreto de uma alcunha, pois, na maior parte das vezes, não conhecemos a motivação real da denominação e uma interpretação correta apenas pode indicar significações possíveis.

Deste modo, um nome de pessoa ou antropónimo pode ser constituído por várias unidades: nomes (prenomes e patronímicos), nomes de origem (topónimos) e nomes delexicais (nomes étnicos, alcunhas e nomes de profissão), formando uma cadeia onomástica complexa. Os nomes delexicais, por vezes, substituem os prenomes, o que mostra a grande importância sócio-onomástica destes nomes na identificação dos indivíduos, e.g., Galeguo, Framca, Bigode, Ouelheyro. Procuraremos conhecer, através dos antropónimos dos primeiros povoadores portugueses, dos estrangeiros e dos escravos, as unidades antroponímicas mais frequentes que ocorrem nas diferentes fontes consultadas como primeiro, segundo, terceiro e quarto nomes. Neste sentido, classificaremos estas unidades antroponímicas tendo em conta a sua posição, origem, função, motivação e o seu significado em patronímicos, nomes geográficos, nomes étnicos, alcunhas e nomes de profissão. Procederemos ainda à descrição da estrutura fonética, morfológica, sintática, semântica e lexical das unidades antroponímicas estudadas.

Homónimos e variantes

A recolha dos antropónimos nas fontes documentais foi feita com a citação completa da identificação do indivíduo e com a grafia original, procurando eliminar os antropónimos repetidos nos documentos para não falsear os resultados estatísticos; no entanto, conservamos as formas que parecem corresponder a homónimos. Nem sempre é fácil identificar os homónimos. O problema surge em relação a antropónimos como Joam Anes juiz e Joam Anes vereador. É difícil saber se se trata de um mesmo indivíduo que ora surge designado com um cargo ora com outro, ou se se trata de indivíduos diferentes. Como este nome era muito frequente na época, optamos pela segunda hipótese. O mesmo problema surge em relação aos antropónimos Fernam Gonçaluez e Fernando Gonçalvez, Bastiam Fernandez e Sebastiam Fernandez. No caso de Fernam/Fernando, pode tratar-se de variantes de um mesmo nome; mais delicado é o caso de Bastiam/Sebastiam. Coloca-se ainda o mesmo problema em relação aos antropónimos Gomez Vinagre, Gomez Vinagre procurador e Gomez Vinagre procurador do concelho, Joam Annes e Joam Annes barqueiro, em que temos antropónimos constituídos apenas pelo primeiro e segundo nomes, e surge um terceiro nome, que geralmente é um nome de profissão, para melhor identificar o indivíduo ou para o distinguir de outro indivíduo com o mesmo nome. Consideramos, nestes casos, tratar-se de homónimos, ou seja, de pessoas distintas, dada a pobreza antroponomástica dos prenomes masculinos e dos patronímicos correspondentes na época, donde a necessidade de identificação social dos indivíduos, neste caso, através do nome de profissão.

Interviemos em algumas formas linguísticas recolhidas nas fontes documentais para melhor descrever as unidades antroponímicas. Assim, passamos letras minúsculas para maiúsculas em formas que ocorrem como terceiros e quartos nomes, geralmente nomes étnicos e nomes de profissão, embora sabendo que estes nomes delexicais constituem uma identificação suplementar, não sendo antropónimos propriamente ditos, e separamos formas aglutinadas, e.g., dholiueira em d’Holiueira, detayde em de Tayde, Rodrujanes em Rodrigu’Janes, martimnhannes em Martimnh’Annes. No que se refere à representação gráfica, conservamos todas as variantes gráficas, incluindo as grafias j longo e u por v, que não têm valor fonético distintivo, e conservamos também a alternância entre grafias simples e duplas na representação de algumas consoantes.

Prenomes

A atribuição dos prenomes realiza-se com base em fatores extralinguísticos: tradição religiosa, tradição literária e tradição histórica. A preferência de determinado prenome em detrimento de outro varia com o tempo, segundo a moda e a popularidade dos nomes, fazendo com que alguns prenomes sejam muito frequentes, enquanto outros se tornam raros, podendo ser recuperados mais tarde.

Nos documentos consultados, predominam os prenomes de influência religiosa latino-cristãos, como João, Pedro, António, Manuel, Catarina, Isabel, Beatriz e Maria; seguidos dos prenomes de origem germânica, e.g., Rodrigo/Rui, Afonso, Álvaro, Fernando e Gonçalo, e dos prenomes de influência literária, nomeadamente Briolânia (variante gráfica de Briolanjia), Galláz, Rolam, Artur, Tristão, Policenas, Polinarda, Heitor, Helena, Iseu. Alguns destes nomes são prenomes correntes nos sécs. XV e XVI, devido aos romances de cavalaria. Muitos prenomes de origem literária ou erudita surgem da moda renascentista de recuperar nomes da Antiguidade Clássica.

Encontramos prenomes que parecem corresponder a segundos nomes, nomeadamente a forma Lyam, que tanto pode ser um prenome como um segundo nome que surge em vez do prenome. As formas Capellam e Cento surgem em posição de prenome seguidas de outra unidade antroponímica, mas parecem corresponder a segundos nomes de família italiana. A forma Angriote poderá também ser um segundo nome, significando “pequeno inglês”, designação atribuída a um estrangeiro e que surge em substituição do prenome.

A forma Mousen parece ser um título, como Mice, e não um prenome, enquanto a forma Senhorinha não é um título, como pode parecer, mas um prenome feminino muito antigo, típico de Portugal. Temos também um grupo de prenomes de origem e formação obscuras, nomeadamente a forma Anquesa, que parece apresentar o sufixo -esa com um radical de origem obscura. O sufixo -esa parece ser frequente na formação dos prenomes femininos da época. Outros prenomes de origem obscura são, e.g., Meliganda e Briones, formas que não sabemos interpretar, assim como a forma Belizarda (provavelmente com a mesma formação do lexema felizarda) – seriam prenomes medievais típicos da literatura popular já em extinção? No entanto, não encontramos referência a estas formas no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado. Quanto ao prenome feminino Mair, parece ser um nome judeu. A forma Alda parece ser uma forma breve do prenome feminino Aldonça, enquanto o prenome masculino Lopo é uma forma parcialmente latinizada. É importante referir a evolução separada do lexema lobo e da forma antroponímica Lopo > Lopes.

Os prenomes Adão e Eva, que raramente ocorrem na antroponímia desta época, surgem na antroponímia primitiva da Madeira, provavelmente motivados pela colonização do arquipélago, pois estes prenomes parecem ter sido atribuídos às primeiras crianças dos dois sexos nascidas na Ilha, no início do povoamento.

Formas masculinas e femininas

Das três grandes categorias antroponímicas, os prenomes oferecem um grande interesse morfológico, nomeadamente as formas masculinas e femininas. Estas resultam, geralmente, da adaptação morfológica dos prenomes masculinos ao género feminino. Consideram-se assim os prenomes masculinos terminados em -o que correspondem a prenome femininos com o morfema flexional -a, e.g., Francisco/Francisca, Justo/Justa, António/Antónia, Lourenço/Lourença, Ambrósio/Ambrósia, Bernardo/Bernarda, Jeronimo/Jeronima, Jacinto/Jacinta, Leonardo/Leonarda. No caso de Barbaro, a forma masculina é formada a partir do prenome feminino Barbara. Consideram-se também os prenomes masculinos que não terminam em -o e que correspondem a formas femininas com morfema flexional de género feminino -a, e.g., Felipe/Felipa, Andre/Andresa (a forma feminina é formada a partir da antiga forma masculina Andres), Luis/Luisa, Pascoal/Pascoala. O prenome feminino Bartolesa, correspondente à forma masculina Bartolomeu, parece surgir por analogia com formas como Andresa. As formas femininas Brasia e Tomasia parecem ser formadas a partir dos prenomes masculinos Bras e Tomas, respetivamente; quanto às formas Marcos e Marquesa, são dois nomes absolutamente distintos. E consideram-se, finalmente, os prenomes masculinos terminados em -ão que correspondem a formas femininas terminadas em -ana ou em -oa, e.g., Bastião/Bastiana, João/Joana, Julião/Juliana, Simão/Simoa.

Formas proclíticas

Os prenomes apresentam diferentes formas conforme surgem isolados ou em determinadas ligações sintáticas. A fonética sintática faz com que determinados prenomes, quando seguidos de patronímicos começados por consoante, se tornem formas proclíticas, isto é, formas tão estreitamente associadas à forma seguinte que perdem o seu acento próprio, sofrendo reduções. Assim, as formas proclíticas são formas reduzidas dos prenomes na sua forma plena, resultantes de fenómenos fonéticos de apócope ou síncope da palavra em próclise. Registamos as formas proclíticas Mem de Mendo, Fernam de Fernando, João de Joane, Rui de Rodrigo e Pero de Pedro. Um dos fenómenos de fonética sintática que ocorrem em posição proclítica é a queda da vogal final do prenome, quando seguido de um patronímico começado por vogal, e.g., Rodrigueannes de Rodrigu’Eannes. Observamos que a aglutinação ou contração do prenome com o segundo nome começado por vogal ocorre geralmente com a forma plena do prenome. Embora, em Pereannes e Perealuarez, tenhamos a forma proclítica Per’ em elisão com as formas patronímicas Eannes ou Annes e Aluarez, a par com a forma não aglutinada Pero Annes.

Formas divergentes

As formas divergentes dos prenomes são formas que, embora apresentando a mesma origem etimológica, sofreram evoluções diferentes, originando formas distintas. As formas divergentes são geralmente formas duplas, com uma forma arcaica por via popular e uma forma restaurada por via erudita. Assim, as formas Mor e Maior são formas divergentes: Mor é a forma popular, enquanto Maior é a forma latinizada ou erudita. É interessante constatar que, nos documentos consultados, registamos apenas a forma popular Mor.

As formas Tome/Thomas parecem ser formas divergentes, que vieram a corresponder a nomes diferentes. Tal como as formas Antam/Antonio que, embora tenham a mesma origem etimológica, são formas que sofreram evoluções distintas e passaram a existir como nomes independentes, que correspondem a santos diferentes. As formas Bastiam e Sebastião também parecem ser formas divergentes, sendo que Bastiam é a forma mais frequente; a forma Bastiana deriva seguramente da forma masculina Bastiam. Encontramos ainda as formas Adriano/Adrião, em que a forma Adriano parece ser a forma restaurada por influência erudita da forma popular Adrião, forma antiga do galego-português com síncope do -n- intervocálico e, consequentemente, nasalização da vogal anterior.

A forma Romão surge como prenome no antropónimo Romão de Frias. Esta forma parece ser uma forma divergente de Romano, que registamos como segundo nome nos antropónimos Cristiano Romano e Julyam Romano, e que também surge com a forma Romão, como terceiro nome, em Pero de Marne Romão. Este poderá ser um segundo nome étnico-geográfico, que indica a proveniência estrangeira do indivíduo (de Roma), pois pode tratar-se de um segundo nome que surge como prenome, mas também poderá ser um prenome independente que não corresponde ao segundo e terceiro nome referidos.

Consideramos também formas divergentes e não independentes os prenomes masculinos que apresentam duas formas: uma terminada pelo morfema flexional de género masculino -o e outra terminada pela desinência -s do caso nominativo latino. As formas que apresentam o -s parecem ser formas restauradas por influência culta ou literária, por oposição às formas vulgares ou populares sem -s, que são as mais frequentes, e.g., Allexo/Alexos, Aparicio/Aparicios, Domingo/Domingos, Giraldo/Giraldos, Gonçalo/Gonçalos, Joane/Joanes, Marco/Marcos, Mathia/Matias, Mateu/Mateus, Rodrigo/Rodrigos, Pallo/Pallos. As formas terminadas pela desinência -s, como Pallos, que parece ser a forma antiga de Paulo, tornaram-se arcaicas e acabaram por desaparecer, com a exceção da forma Domingos, que se generalizou, superando a forma Domingo. A forma do prenome feminino Domingas apresenta a terminação -s por analogia com a forma masculina, e a forma do prenome masculino Amados pode ser explicada a partir da forma Amado, por analogia com outras formas terminadas em -s. Os modelos das formas em –os não etimológicas parecem ser Domingos e Pa(u)llos.

Existem três outras formas divergentes dos prenomes: as formas terminadas em -im, por tradição culta de importação francesa ou espanhola (e.g., Martim, Agostim e as formas estrangeiras Janim, Anequim, Valentim), as formas em -ino de influência latina (e.g., Bernardino) e as formas em -inho de origem popular ou espontânea (e.g., Agostinho e Martinho). Deste modo, destaca-se a ocorrência das formas divergentes Martim/Martinho e Agostim/Agostinho. Como já se referiu, as formas terminadas em -im serão formas eruditas de importação francesa ou de origem espanhola, por oposição às formas populares portuguesas, terminadas em -inho (do sufixo latino -ino).

As formas Belchior e Melchior são formas divergentes, pois Belchior é a forma portuguesa da forma primitiva Melchior, que pertence ao grupo dos prenomes Gaspar e Baltazar, os três reis magos; estes prenomes são muitos frequentes naquela época, alternando a sua predominância. Estamos perante variantes em que a alternância entre os fonemas iniciais /m/ e /b/ está possivelmente relacionada com o facto de estes fonemas terem em comum o mesmo ponto e modo de articulação, pois são consoantes oclusivas bilabiais, embora a primeira seja nasal e a segunda oral. A forma Melchior apresenta ainda a variante fonética Melchioll, em que o /r/ final passa a l.

Prenomes compostos e duplos

Na antroponímia primitiva da Madeira, os prenomes compostos e duplos começam a desenvolver-se a partir de fins do séc. XVI e inícios do séc. XVII.

Os prenomes compostos são formados por um prenome associado a um complemento onomástico, que é geralmente um nome religioso. Predominam os prenomes compostos femininos que parecem ser evocações marianas, em que o prenome Maria apresenta uma grande flexibilidade combinatória. Assim, os prenomes femininos Esperança e Vitoria parecem corresponder a formas reduzidas dos nomes marianos Maria Vitoria e Maria Esperança, respetivamente de Maria da Vitoria e Maria da Esperança, que são prenomes compostos. Registamos ainda o prenome composto feminino Catarina da Paz, que não é um nome mariano. Quanto aos prenomes compostos masculinos, constatamos a predominância do nome Joam como elemento de composição, talvez por ser o prenome mais frequente na época. Registamos as seguintes formas: Joam dos Santos, Guabriel de Santo Antonio, Jorge de Sam Bernardino, Amador de Sam Francisco, Marcos de Sam Joam, Joam de Santiago, Joam de Santo Esteuom, Joam de Fe, Joam de Deus.

Encontramos apenas dois prenomes duplos femininos atribuídos a escravas, nomeadamente Barbara Francisca e Breitis Ines. Os prenomes duplos distinguem-se dos compostos por serem constituídos por duas unidades independentes. Quanto aos prenomes duplos masculinos que são menos frequentes, verificamos que não temos um elemento predominante na sua composição, embora o primeiro elemento do prenome duplo seja geralmente muito frequente. Apenas registamos como primeiro duplo masculino a forma Joam Bautista. Este prenome duplo de influência religiosa surge por vezes reduzido à forma Baptista, com elisão do primeiro elemento.

Frequência e caracterização das unidades antroponímicas em fontes documentais dos séculos XV e XVI da ilha da Madeira

Prenomes

No tratamento estatístico dos prenomes, no conjunto das fontes documentais estudadas, registamos 270 unidades antroponímicas diferentes, sendo 152 prenomes masculinos simples, 33 prenomes femininos simples, 64 segundos nomes que surgem como prenomes masculinos, 19 prenomes compostos masculinos, 1 prenome composto feminino e 1 prenome duplo masculino. Verificamos que o prenome masculino mais frequente é Joam, com 648 ocorrências (19,44 %), seguido do prenome Pero, com 336 ocorrências (10,08 %), e de Antonio, com 189 ocorrências (5,67 %); seguem-se os prenomes Diogo, com 187 ocorrências (5,61 %), Francisco, com 186 ocorrências (5,58 %), Gonçalo, com 163 ocorrências (4,89 %), Manuel, com 135 ocorrências (4,05 %), e Rodrigo, com 126 ocorrências (3,78 %).

Na origem da grande divulgação do prenome masculino Joam (com as variantes Johanne e Joham) parece estar o nome do santo e o nome do rei de Portugal. No entanto, a partir da segunda metade do séc. XVI, o prenome João apresenta um grande decréscimo. O estudo comparativo do uso dos prenomes por ordem cronológica mostra-nos que os prenomes Antonio, Francisco e Manuel se tornam cada vez mais frequentes, enquanto o prenome Afonso é pouco frequente a partir de meados do séc. XVI.

Os prenomes femininos mais frequentes, por ordem decrescente, são: Catarina, com 26 ocorrências (0,78 %), Isabel, com 20 ocorrências (0,60 %), Briatiz, com 17 ocorrências (0,51 %), Maria, com 13 ocorrências (0,39 %), Joana, com 9 ocorrências (0,27 %), Lianor, com 8 ocorrências (0,24 %), Ines, com 7 ocorrências (0,21 %), Mor e Ana, com 5 ocorrências cada (0,15 %), Fellypa, com 4 ocorrências (0,12 %), Crara, Francisca, Margarida, Branca, Meçia e Barbora, com 3 ocorrências cada (0,08 %). A predominância do prenome Catarina, juntamente com os prenomes Isabel e Briatiz, que parecem apresentar grande popularidade, poderá explicar-se certamente pela divulgação do nome de santas. Também é patente o elevado número de ocorrências do prenome feminino Maria, o que explica o desenvolvimento dos nomes marianos a partir do séc. XVI, tornando-se cada vez mais frequente e sendo atribuído a muitas escravas, ao contrário dos prenomes Constança e Viollamte, que são pouco frequentes, e Mor, que tende a desaparecer.

As percentagens indicadas para os prenomes femininos foram calculadas a partir do total de ocorrências na categoria prenomes (270 unidades antroponímicas diferentes). Na documentação da época, os nomes femininos ocorrem sempre em baixas percentagens, relativamente aos nomes masculinos de povoadores portugueses e estrangeiros, dado que as mulheres não tinham cargos administrativos e só aparecem nos registos históricos como proprietárias quando são viúvas. Apesar disso, esta recolha parece ser uma amostra representativa da onomástica feminina dos sécs. XV e XVI, no arquipélago da Madeira.

Segundos nomes

Os segundos nomes podem ser classificados em patronímicos, nomes geográficos, nomes étnicos, alcunhas e nomes de profissão, segundo a sua origem, função, motivação e significado. Apesar da grande variedade de nomes geográficos, nomes étnicos e nomes de profissão, predominam claramente, em número de frequência, os segundos nomes que são formas patronímicas.

Patronímicos – As formas patronímicas são formas derivadas dos prenomes, por isso são elementos com origem e função puramente antroponímicas. Os patronímicos apresentam as três formas seguintes:

Primeiro, formas patronímicas por sufixação, geralmente com o sufixo -ici > -izi > -iz > -ez > -es. Muito se tem discutido sobre a origem do sufixo patronímico -ici. Leite de Vasconcelos refere a origem pré-latina deste elemento morfológico, que substitui a tradicional forma genitiva latina de indicar a filiação. O sufixo -ici é característico das formas patronímicas desde a mais antiga tradição. Trata-se de uma forma que se tornou átona -ici > -iz(i), surgindo correntemente como -ez e ocasionalmente com a variante -az (Garcia > Garciaz e Garces) e -oz (Muñoz). Não há muitas formas em -az e cada uma tem a sua explicação: Dias (átono) < Didaci (genitivo); Vaz (< eventualmente do genitivo Vaasqui < Vaasco, não de Velasqui); Forjaz (< provavelmente do genitivo Froilanis). Leite de Vasconcelos defende ainda a existência de formas patronímicas que recebiam inicialmente os sufixos -uz e -oz, e.g., Domingoz do prenome latino Dominicus e Nunoz do prenome latino Nunnus, que foram substituídas por formas com o sufixo -ici, tendo dado as formas Nunes de Nun-ici e Domingues de Dominic-ici. No entanto, parece pouco provável que tenham existido formas patronímicas do tipo *Dominguz e *Nunoz, porque o sufixo -ici era de facto o mais usado para indicar a filiação, tanto nas formas resultantes de prenomes pré-latinos como nas resultantes de prenomes latinos e germânicos latinizados. Leite de Vasconcelos afirma que o sufixo -ici tende a introduzir-se mesmo nos casos em que a vogal final do prenome não o favorece, como em Guma > Gum-ici > Gum-izi > Gum-iz > Gum-ez > Gom-es. Contudo, parece pouco provável que esta seja uma forma derivada de Guma (que seria *Gumão, *Gumaz). Gomes é uma forma que surge simultaneamente como prenome e como patronímico e, por isso, não parece ser uma forma derivada com o sufixo patronímico -ici. A forma Aires (de Arias) é também uma forma não derivada que surge como prenome e como patronímico. Esta forma, ao contrário de Gomes, ainda no séc. XXI ocorre como prenome masculino.

Segundo, formas patronímicas, por posição, iguais aos prenomes. No caso do antropónimo Joham Afonso Moleiro, a forma Afonso parece ser uma forma patronímica por posição, mas também pode ser o segundo elemento de um prenome duplo Joham Afonso. Nos antropónimos femininos: Mor Lourença, Margarida Antonia, Catherina Simoa e Catherina Francisca, o segundo elemento destes nomes pode corresponder a formas patronímicas por posição feminizadas, que concordam em género com o prenome feminino. Mas trata-se, certamente, de prenomes duplos femininos, porque não nos parece usual, na época, a ocorrência de feminizações de formas patronímicas, e sabemos que na altura se desenvolvem as formas dos prenomes duplos. As formas Afonso, Duarte, Luis, Manuel, Vicente são formas patronímicas por posição, uma vez que não apresentam formas patronímicas correspondentes com o sufixo -ez. Registamos ainda as formas Garcia e Antonio, que também são formas patronímicas por posição, apresentando, no entanto, formas patronímicas correspondentes com o sufixo -es: Garces e Antunes, embora estas sejam formas pouco frequentes.

Terceiro, excecionalmente, uma forma patronímica constituída pelo prenome do pai com o sufixo diminutivo -inho, na forma Gonçaluinho, que parece indicar a filiação paterna, significando “filho de Gonçalo”.

Encontramos formas patronímicas duplas, nomeadamente Vaz/Vasques, Rodriguez/Ruiz, Eanes/Anes, Pires/Peres. A forma Vaz pode ser simplesmente a forma proclítica de Vasco que passa a apelido. A existência da forma patronímica Ruiz parece resultar da agregação da desinência patronímica à forma proclítica Rui (tratada como se fosse uma forma plena), enquanto as formas patronímicas duplas Eanes/Anes (que apresentam ainda a variante Enes) e Pires/Peres parecem resultar de alterações fonéticas de uma mesma unidade antroponímica.

De acordo com Leite de Vasconcelos, até ao séc. XII, o patronímico era suficiente para identificar os indivíduos, juntamente com o prenome. A partir de fins do séc. XII e inícios do séc. XIV, teria começado a desenvolver-se o recurso a nomes geográficos (nomes de origem), alcunhas (sobrenomes) e nomes de profissão para identificar os indivíduos, evitando a homonímia. A existência da homonímia devia-se, principalmente, à pobreza onomástica dos prenomes masculinos, que originava patronímicos comuns a diferentes indivíduos sem relação de parentesco entre si. A necessidade de recorrer a novos elementos identificativos surgiu, provavelmente, nos grandes centros populacionais. Em finais do séc. XV e inícios do séc. XVI, os patronímicos teriam já perdido o seu valor indicativo de filiação, passando a meros apelidos de família. Para melhor identificar um indivíduo, passou-se a juntar ao nome a indicação da sua terra ou proveniência, uma alcunha ou um nome de profissão, que com o tempo também se fixaram como apelidos ou nomes de família.

Na antroponímia primitiva da Madeira, predominam claramente os segundos nomes que correspondem a formas patronímicas. Estas apresentam um elevado número de ocorrências em comparação com a frequência das restantes formas, apesar de apenas se terem registado, no conjunto das fontes documentais, 46 unidades patronímicas diferentes, o que representa um número muito reduzido em relação à diversidade dos nomes geográficos, nomes étnicos, nomes de profissão e alcunhas. Assim, as ocorrências mais frequentes dos segundos nomes são todas formas patronímicas. Em primeiro lugar, temos o segundo nome Gonçaluez, com 196 ocorrências (9,80 %); em segundo lugar, o segundo nome Eannes, com 184 ocorrências (9,20 %); em terceiro, o segundo nome Fernandez, com 174 ocorrências (8,70 %); seguem-se as formas Afonso, com 152 ocorrências (7,60 %), Rodriguez, com 149 ocorrências (7,45 %), Aluarez, com 127 ocorrências (6,35 %), e Vaaz, com 107 ocorrências (5,35 %). Verifica-se que o segundo nome patronímico Eanes, muito frequente em finais do séc. XV, praticamente não ocorre nas fontes documentais a partir da segunda metade do séc. XVI. Este decréscimo do segundo nome Eanes parece acompanhar a redução da frequência do prenome João. Deste modo, os segundos nomes patronímicos Fernandez e Gonçaluez tornam-se mais frequentes do que a forma patronímica Eannes, nas fontes documentais da segunda metade do séc. XVI. Outros segundos nomes patronímicos registados como mais frequentes são: Diaz, Gomez, Lopez, Martjnz e Pirez.

Das 541 unidades antroponímicas diferentes que ocorrem como segundos nomes, em que, como se mostrou, predominam largamente as formas patronímicas, os segundos nomes não patronímicos mais frequentes são os nomes geográficos Ferreira e Porto, entre outros, e o nome étnico-geográfico Frances.

Nomes geográficos – Os nomes de origem geográfica ou toponímica indicam a naturalidade ou residência dos indivíduos. Na segunda metade do séc. XV, muitos nomes geográficos, que inicialmente indicavam a proveniência geográfica, teriam já sido fixados como nomes de família. Os nomes geográficos eram associados, frequentemente, aos nomes nobres, indicando posse de terra, e quando associados a nomes que não pertenciam à nobreza designavam naturalidade ou residência originária, permitindo identificar os indivíduos deslocados para novas povoações ou regiões, como é o caso do povoamento da ilha da Madeira.

Podemos classificar os nomes geográficos ou nomes de origem quanto à sua proveniência em três tipos:

Primeiro, nomes geográficos de proveniência estrangeira que indicam a naturalidade dos estrangeiros, e.g., Cremona, França, Florença, Castela.

Segundo, nomes geográficos de proveniência portuguesa que correspondem a topónimos do território continental português, fornecendo informações sobre a origem regional dos primeiros povoadores portugueses, e.g., Moura, Almada, Abrantes, Barcelos, Porto, Beja, Vila Viçosa, Braga, Vila Real.

Terceiro, nomes geográficos correspondentes a topónimos da ilha da Madeira, que parecem indicar a residência dos primeiros povoadores no arquipélago, e.g., Calheta, Funchal, Caniço, Machico, Camara de Lobos, Ribeira Brava, Fajãa d’Houelha, Ponta do Sol.

Os nomes geográficos são formas simples ou compostas que são geralmente precedidas da preposição de, porque, inicialmente, ocorriam como complementos locativos introduzidos por preposição, indicando a posse de terras dos nobres e a proveniência ou residência dos indivíduos. Mas, à medida que se vão fixando como nomes hereditários, os nomes geográficos têm tendência a perder a preposição. A omissão das preposições parece indicar a perda da noção de proveniência geográfica destes nomes, embora, em certos casos, a preposição tenha sido conservada até ao séc. XXI. Assim, um nome geográfico pode ocorrer sem preposição porque surge desde o início sem preposição ou porque a preposição desaparece em época muito antiga. Na antroponímia primitiva da Madeira, predominam os nomes de origem geográfica antecedidos de preposição, e.g., do Porto, de Moura, de Florença. Alguns nomes geográficos apresentam alternância entre ausência e presença de preposição, e.g., de Viveiros e Viveiros. Outros nomes de origem ocorrem sempre sem preposição, e.g., Carvalho, Pereira, Nogueira, Loredo, Tavares, estes são, geralmente, nomes de origem botânica, ou seja, nomes botânico-geográficos.

Nomes étnicos – Os nomes étnicos têm a mesma função que os nomes geográficos, ou seja, indicam geralmente a naturalidade dos indivíduos, mas distinguem-se morfologicamente, uma vez que eram primitivamente adjetivos étnico-geográficos. Leite de Vasconcelos classifica estes adjetivos como alcunhas geográficas, dado que morfologicamente os nomes étnicos se aproximam das alcunhas, pois recebem flexão em género e número e podem ser antecedidos de um artigo definido com valor individualizante. Optou-se por considerar os nomes étnicos como um grupo à parte, independente do grupo dos nomes geográficos e das alcunhas.

Nas fontes documentais consultadas, predominam os nomes étnico-geográficos atribuídos a estrangeiros que indicam a nacionalidade destes, substituindo muitos nomes próprios estrangeiros, e.g., Allemam, Bretam, Caluino, Castelhano/Castilhanha, Carmones, Escorcio/Escorcia, Framengo, Frolemtym, Frances, Galego/Gallega, Genoes, Lombardo, Imgres, Marcheno, Pisano, Romano, Toscana, Valenciano. Encontrou-se apenas um nome étnico-geográfico atribuído a um povoador português, que indica a sua proveniência regional dentro do território continental português: Algaruio. Aparecem alguns nomes étnicos atribuídos, principalmente, a escravos, que indicam a sua cor e a sua raça, e.g., Mourisquo, Mouro, Mulata/Mulato, Negro, Preta/Preto. Regista-se ainda o nome étnico Judeu, possivelmente atribuído a um estrangeiro.

Os nomes étnico-geográficos podem substituir o nome completo dos indivíduos, e.g., o Galego em vez de Joam Anes Galego. Nestes casos, o artigo definido individualizante antecede o nome, concordando com este em género. Temos também o caso do nome étnico-geográfico o Castelhano, que surge como terceiro nome, depois de um segundo nome, antecedido do artigo definido também com valor individualizante ou distintivo: Joam Afonso o Castelhano. Os nomes étnicos-geográficos, tal como as alcunhas, aceitam alteração morfológica em género, conforme o sexo dos indivíduos, e.g., nas formas: Galego/Galega, Mulato/Mulata, Preto/Preta. Os nomes étnico-geográficos constituem uma categoria especial, pois possibilitam pesquisas sócio-históricas como a proveniência regional dos povoadores portugueses, as diferentes etnias dos escravos e a nacionalidade dos estrangeiros residentes e estantes na ilha da Madeira.

Alcunhas – As alcunhas ou sobrenomes são, inicialmente, atributos individuais com pleno sentido, que identificam socialmente os indivíduos (Gentílicos e Alcunhas coletivasEstes elementos identificativos de origem popular podem ser efémeros (apodos) ou tornar-se fixos e hereditários, perdendo o seu significado inicial. As alcunhas apresentam uma grande riqueza e diversidade, surgindo como segundos, terceiros e quartos nomes. Nem sempre é fácil determinar, com rigor, qual o real significado das alcunhas, o que, por vezes, dificulta a sua classificação semântica. Não obstante, optou-se por classificar as alcunhas em cinco grupos:

Primeiro, as alcunhas propriamente ditas, alusivas a características físicas e morais dos indivíduos e a qualidades expressas indiretamente através de metáforas com animais e plantas, e.g., Barba, Belo, Bexigoso, Bicudo, Bigode, Delgado/Delgada, Feo/Fea, Manco, Matoso, Penteado, Pestana, Rosado, Casto, Folgado, Forrão, Leal, Mansinho, Maosinho, Camelo/Camela, Cordeiro/Cordeira, Leytam/Leytoa, Lobo, Pinto/Pinta, Raposo, Sardinha, Barbuzano, Botelho/Botelha, Castanheiro, Farinha, Leite, Nabo, Pimenta.

Segundo, as alcunhas alusivas aos hábitos de vestuário, origem social e outras particularidades individuais, e.g., Barreto, Calçado, Fidalgo/Fidalga, Agosto, Borralho, Caiado/Caiada, Gago, Homem, Riquo.

Terceiro, as alcunhas indicativas de relações de parentesco, estado civil e outras situações familiares, e.g., Bastardo, Colaço/Colaça, Furtado/Furtada, Neto, Sobrinho, Casado, Orfoom.

Quarto, as alcunhas provenientes de cognomes ou epítetos com valor distintivo, distinguindo geralmente dois membros de uma família com o mesmo nome, e.g., Grande, Moço, Novo, Pequeno, Velho.

Quinto, as alcunhas de significado obscuro, e.g., Abrea, Anrulho/Anrulha, Baldaia, Balmeidão, Barzuegas, Basantes, Borio, Cotiço, Cree, Cambalacho, Escoreio, Masa, Mayuto, Pigarro, Tyrytyro, Zuzuegues. Poder-se-ia ter optado por registar estas formas de classificação difícil numa lista à parte, mas elas foram incluídas no grupo das alcunhas por parecer provável que sejam formas que surgem originariamente como alcunhas.

As alcunhas são nomes delexicais, ou seja, nomes formados a partir do vocabulário comum. Sabemos que determinado nome pode ter, consoante o contexto linguístico, valor corrente ou valor antroponímico. Quanto ao valor semântico ou motivacional das alcunhas, apenas se podem levantar algumas hipóteses explicativas para a atribuição de certos nomes a determinados indivíduos. Assim, a alcunha proveniente do nome delexical Cabelo pode ter uma aplicação metafórica com o significado de delgado ou magro, mas pode também ter a ver com o aspeto do cabelo. No caso do nome Velho, a motivação parece ser mais simples e imediata, pois este nome apresenta o significado do lexema comum, podendo fazer referência à idade, ao aspeto físico e à sabedoria do portador, ou ainda à sua posição na genealogia familiar, quando dois indivíduos (e.g., pai e filho) são portadores do mesmo nome, opondo-se o Velho ao Moço ou Novo.

Em relação à sua estrutura morfológica e sintática, as alcunhas sofrem os mesmos processos de composição e derivação que o léxico geral (nomes e adjetivos), originando a formação de novas palavras. Assim, as alcunhas apresentam cinco estruturas morfossintáticas:

A primeira é concernente às alcunhas frásicas que são formas compostas, geralmente formadas por verbo mais objeto, e.g., Buscarroido, Brita Calçadas, Matassete.

A segunda, às alcunhas que são formas compostas, formadas por nome mais adjetivo, adjetivo mais nome ou nome mais complemento determinativo, e.g., Boom Viagem e Byco de Bulhefre.

A terceira, às alcunhas correspondentes a lexemas básicos, nominais ou adjetivais, e.g., Barba, Coxo, Velho, Neta, Furtada, Amo, Grande, Pequeno, Moço. Trata-se de cognomes ou epítetos que geralmente distinguem homónimos, sendo por isso originalmente antecedidos por um artigo definido com valor individualizante. Estas alcunhas também ocorrem em substituição do nome completo do individuo, e.g., o Coxo por João Rodrigues Coxo. A presença do artigo definido parece indicar que a alcunha ainda ocorre como atributo com significado pleno, enquanto a sua ausência pode ser um indicativo de que a alcunha já se tornou um segundo nome hereditário, pois os artigos tendem a ser suprimidos quando as designações deixam de ser individualizantes.

A quarta, às alcunhas com formas derivadas por sufixação, e.g., Barboso, Cochinho, Paginho, Bocarro, Peixoto, Chamiço. Trata-se de lexemas comuns, com o sufixo diminutivo -inho em Cochinho (forma derivada de Coxo), Paginho (que parece ser a forma diminutiva de Pagem), Mansinho (forma derivada de Manso) e Maosinho (forma derivada de Mau); o sufixo aumentativo -arro na forma Bocarro (que parece ser uma forma derivada de Boca); o sufixo -oto em Peixoto (que parece ser uma forma derivada de Peixe); o sufixo -iço em Chamiço (que parece ser uma forma derivada de Chama); e o sufixo -oso em Barboso, forma derivada de Barba, embora a sua classificação possa ser duvidosa.

A quinta, às alcunhas provenientes de construções sintáticas elípticas, geralmente introduzidas por uma preposição, e.g., dos Vinhos, dos Bois, das Vacas, dos Banhos, do Trauto. Contudo, é necessário distinguir expressões como da Mulata, da Rosa, da Neta, da Furtada, onde parece estar subentendida a palavra “filho”, indicando filiação materna.

As alcunhas sofrem adaptação morfológica segundo o sexo dos indivíduos aos quais são atribuídas. As formas femininas das alcunhas são geralmente nomes feminizados, que resultam da adaptação das alcunhas dos maridos que são atribuídas às mulheres. Assim, a Coelha é a mulher do Coelho; por isso, ainda no séc. XXI, o nome hereditário de família é a forma masculina e a forma feminina desapareceu. Ao morfema flexional de género masculino -o corresponde, normalmente, o morfema flexional de género feminino -a, e.g. nas formas: Camelo/Camela, Botelho/Botelha, Coelho/Coelha, Mourato/Mourata.

Nomes de profissão – Os nomes de profissão, tal como as alcunhas, são nomes delexicais que estabelecem uma íntima relação entre o léxico comum e os antropónimos. Assim, temos nomes de profissão ou ofício e de cargos que surgem como segundos, terceiros e quartos nomes, e.g., Adargueiro, Afilador, Alealdador, Alfaiate, Almotace, Almoxarife, Amo, Barbeiro, Boticairo, Calceteiro, Malheiro, Doceiro, Porqueiro, Sapateiro; e temos ainda, excecionalmente, nomes de objetos relacionados com o trabalho, ou seja, nomes associados a profissões, e.g., Caldeira, Machado/Machada.

Os nomes de profissão apresentam geralmente o sufixo -eiro, e.g., Albardeiro/Albardeira, Burziguieiro, Calceteiro, Canavieiro, Carcereiro, Carniceiro, Carpinteiro, Caldeireiro, Caixeiro, Carreiro, Carreteiro, Cerieiro, Columbreiro, Confeiteiro, Escumeiro, Ferreiro, Malheiro, Pedreiro, Picheleiro, Porqueiro, Quadrilheiro, Sapateiro, Serralheiro, Tanoeiro, Vinhateiro. As formas dos nomes de profissão com o sufixo -ador são menos frequentes, e.g., Ferrador e Serrador. Regista-se um caso de alternância entre os sufixos -eiro e -ador, nas formas Alealdadeiro e Alealdador.

Terceiros nomes

As ocorrências dos terceiros nomes são muito reduzidas em relação às ocorrências dos segundos nomes. Em terceira posição na cadeia antroponímica, predominam os nomes de profissão ou ofício e de cargos. Seguem-se as alcunhas, os nomes geográficos e os nomes étnicos. Ao contrário dos segundos nomes, em que predominam as formas patronímicas, apenas se encontraram três formas patronímicas que são terceiros nomes, com uma ocorrência cada: Diaz, Gonçalves e Soares. Trata-se de um número muito reduzido, quando comparado com o número de frequências das outras formas antroponímicas que surgem como terceiros nomes.

No tratamento estatístico dos terceiros nomes, no conjunto das fontes documentais, registam-se 371 unidades antroponímicas diferentes. Em primeiro lugar, por ordem de frequência, temos o terceiro nome Mercador, com 61 ocorrências (3,05 %); em segundo lugar, a forma Espriuam, com 51 ocorrências (2,55 %); em terceiro, a forma Alfaiate, com 27 ocorrências (1,35 %) e a forma Vendedeira, com o mesmo número de ocorrências; seguem-se as formas Sapateiro, com 26 ocorrências (1,30 %), Tabaliam, com 25 ocorrências (1,25 %), Vereador, com 22 ocorrências (1,10 %), Jujz, com 21 ocorrências (1,05 %), Moleiro e Barqueiro, com 19 ocorrências cada (0,95 %). Como se pode constatar, predominam claramente os terceiros nomes que correspondem a nomes de profissão ou ofício e a cargos.

Quartos nomes

Nas fontes documentais consultadas, apenas se encontram 36 unidades antroponímicas que ocorrem como quartos nomes, o que representa um número muito pequeno relativamente aos segundos e terceiros nomes. Trata-se de um resultado normal, uma vez que é pouco frequente, nos sécs. XV e XVI, a ocorrência de quartos nomes na cadeia antroponímica. Em primeiro lugar, em número de frequência, temos como quarto nome a forma Espriuam, com 8 ocorrências (11,95 %); em segundo lugar, a forma Mercador, com 6 ocorrências (8,96 %); em terceiro lugar, Allealdador, com 4 ocorrências (5,97 %). Verifica-se que os quartos nomes, quando ocorrem, correspondem geralmente a nomes de profissão ou ofício e de cargos, tal como os terceiros nomes. No entanto, é interessante constatar que o nome geográfico do Porto ocupa uma posição predominante, com 4 ocorrências, a par com o nome de profissão Allealdador. Temos ainda, como quarto nome mais frequente, o nome étnico-geográfico Genoves e a alcunha Velho, com duas ocorrências cada (2,99 %).

Procedeu-se, pois, à segmentação das cadeias antroponomásticas dos nomes dos primeiros povoadores portugueses, dos estrangeiros e dos escravos, em prenomes, segundos nomes, terceiros nomes e quartos nomes, apresentando as estatísticas por ordem decrescente de frequências das unidades antroponímicas predominantes. O tratamento estatístico dos prenomes masculinos e femininos nas diferentes fontes documentais permite observar que, em fins do séc. XV, predominam os prenomes masculinos Joam e Pero e os prenomes femininos Catarina e Isabell. A partir de meados do séc. XVI, Antonio e Francisco tornam-se os prenomes masculinos mais frequentes, sendo Maria o prenome feminino predominante, enquanto o prenome Mor parece cair em desuso.

No tratamento estatístico dos segundos nomes dos povoadores portugueses predominam claramente as formas patronímicas, sendo que os escravos apresentam geralmente os segundos nomes patronímicos dos seus proprietários. Seguem-se, em número de frequência, os nomes geográficos ou de origem, os nomes étnico-geográficos, sobretudo atribuídos aos estrangeiros, e as alcunhas. Quanto aos terceiros e quartos nomes, predominam os nomes de profissão, ofício ou cargo. Trata-se de nomes delexicais que identificam socialmente os indivíduos e que, muitas vezes, se fixam na cadeia antroponímica como nomes hereditários ou nomes de família.

Os nomes geográficos dos primeiros povoadores portugueses apresentam grande interesse linguístico, pois permitem identificar a proveniência regional e dialetal dos colonizadores do arquipélago da Madeira. Assim, verifica-se que no povoamento da ilha da Madeira participaram povoadores de todas as regiões de Portugal, mas principalmente do Norte, da região de Entre Douro e Minho. Esta constatação tem importantes implicações no estudo dos dialetos, da etnografia e da história madeirenses. Os segundos nomes dos estrangeiros que se fixaram na Ilha, sobretudo italianos (genoveses e florentinos), franceses, castelhanos e flamengos, mas também ingleses e alemães, atraídos pela riqueza do comércio açucareiro, também apresentam grande importância e interesse histórico e cultural, na medida em se tornaram nomes característicos de famílias da ilha da Madeira, nomeadamente Betencourt, Doria e Drumond.

A antroponomástica do arquipélago da Madeira começa a ser fixada definitivamente a partir do séc. XVI, com a criação dos primeiros registos paroquiais, que datam de 1539. Apesar de não haver registos paroquiais dos primórdios do povoamento da ilha da Madeira, verifica-se que a maior parte dos prenomes e nomes de família presentes no começo do séc. XXI já surge nos documentos mais antigos redigidos na Ilha, nos sécs. XV e XVI, fontes documentais que permitem conhecer a antroponímia primitiva da Madeira.

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Naidea Nunes Nunes

(atualizado a 06.07.2016)