apostolado/pastoral de rua

O evangelista S. João põe na boca de Jesus esta afirmação: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10, 11). Ao recorrer à bem conhecida figura do “pastor”, Jesus reivindica para Si este mesmo título e, em poucas palavras, sintetiza o sentido da sua ação e o horizonte da sua missão.

Mais tarde, após a ressurreição, o mesmo Jesus confiará a Simão Pedro, um dos seus discípulos, a mesma tarefa: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 16). Se tivermos em conta que aqui a pessoa de Pedro representa toda a Igreja, segue-se que a missão de “apascentar” não lhe foi confiada a ele como tarefa pessoal e exclusiva, mas na medida em que personifica a missão e a tarefa da Igreja inteira, testemunha e também continuadora da ação de Jesus Cristo.

Falar de “pastoral” é, pois, referir-se à tarefa fundamental da Igreja, na continuidade da única missão de Cristo, que é para os crentes a encarnação de Deus-pastor no meio do seu povo. Numa perspetiva cristã e eclesial, a “pastoral” refere-se antes de mais à ação que é chamada a tornar concreta em cada tempo a presença salvadora de Deus em Jesus Cristo. Trata-se de uma ação que não está reservada aos tradicionais “pastores”, no sentido de ministros ordenados (bispos, presbíteros e diáconos), mas, pelo contrário, diz respeito a todos os batizados, tornados participantes da única missão de Jesus Cristo.

Além disso, não é possível neste campo uma separação clara do sobrenatural das realidades naturais (terrenas). Na verdade, esta ação a que os cristãos são chamados não pode abstrair da história da humanidade nem da vida concreta das pessoas. Pelo contrário, ela tende a impregnar todas as suas dimensões.

É em razão desta atenção à vida concreta que habitualmente se acrescenta ao termo “pastoral” um qualificativo, que de alguma forma explicita o campo próprio em que uma ação eclesial se insere. Falamos, então, de “pastoral familiar”, “ pastoral catequética” ou “pastoral social”; na “pastoral social” incluímos a “pastoral operária”, a “pastoral da saúde”, a “pastoral sócio-caritativa”, a “pastoral da mobilidade humana” e ainda a “pastoral de rua”.

A Pastoral de Rua – expressão cunhada no Brasil – refere-se ao trabalho feito pela Igreja junto das populações que fazem da rua o local habitual e, por vezes, exclusivo do seu quotidiano. É o caso dos chamados sem-abrigo. Segundo os bispos brasileiros, “a Pastoral de Rua desenvolve a sua missão sendo presença junto à população de rua, reconhecendo a sua dignidade e descobrindo os sinais de Deus presente em sua história” (CNBB, 2001, 12).

No contexto português e madeirense, inclui-se no âmbito da Pastoral de Rua o trabalho da Igreja com as crianças e adolescentes da rua, bem como a pastoral junto das vítimas da prostituição, para além de outras possíveis situações. Trata-se de um vasto leque de pessoas, de ambos os sexos e de todas as idades, tendo em comum o facto de terem na rua o seu local habitual de vida e, muitas vezes, de trabalho. Trata-se de um fenómeno iniciado em finais do séc. XX e característico dos meios urbanos, sobretudo das cidades de grande e média dimensão, onde a solidariedade entre vizinhos e a experiência de proximidade quase desapareceram.

Para os que fazem da rua a sua morada habitual, tal facto revela e, ao mesmo tempo, amplia a experiência da exclusão. Este processo de exclusão manifesta-se em aspetos exteriores bem visíveis (sujidade, decadência física, perda de capacidades relacionais), mas também, e sobretudo, em profundas marcas interiores: “a exclusão afeta, sobretudo, a psicologia da pessoa, o seu mundo interior” (BUSQUETS, 2007, 9). Para o ser humano, não ter uma casa (ou tê-la perdido) é mais do que uma simples realidade exterior. Segundo o mesmo autor (cf. Id. Ibid., 13), pode-se mesmo apontar para uma tríplice dimensão de perda: a dimensão física (não ter um lugar onde abrigar-se), a dimensão afetiva (não ter um lugar onde ser reconhecido) e a dimensão simbólica (não ser de nenhum lugar).

Quando pensamos nos milhões de pessoas para quem a rua é o local habitual e muitas vezes único da vida, de imediato nos vem à memória o nome de duas personalidade marcantes do séc. XX, personalidades diversas entre si e no modo como enfrentaram este drama, mas que têm em comum o facto de colocarem no coração das suas preocupações e da sua ação humanitária precisamente estas “pessoas da rua”: Madre Teresa de Calcutá e Abbé Pierre.

Teresa de Calcutá (1910-1997), cujo nome de batismo era Agnes Gonxhe Bojaxhiu, foi uma religiosa católica de origem albanesa, nascida na cidade de Skopje e falecida em Calcutá, Índia. Ficou mundialmente conhecida pelo seu trabalho junto dos “últimos” da cidade de Calcutá: os leprosos e doentes de sida, entre outros, e os que eram abandonados ou literalmente despejados na rua (bebés, crianças, idosos, mulheres grávidas, moribundos). Aí fundou no ano de 1950 a Congregação das Missionárias da Caridade, aprovada pela Santa Sé em 1965, que depois se difundiu em todo o mundo. Em Portugal existiam, em 2015, três comunidades: uma em Setúbal – a primeira a ser fundada em Portugal, no ano de 1982, a convite do bispo local, D. Manuel Martins – e as outras duas em Lisboa e em Faro.

Quanto ao sacerdote francês Henri-Antoine Groués, universalmente conhecido como Abbé Pierre, nasceu em Lião (1912) e faleceu em Paris (2007). O seu nome está ligado ao Movimento de Emaús, que fundou em 1949 (embora afirmasse que não o fundara, apenas sabia quando tinha começado). Com efeito, em novembro desse ano, quando em Paris milhares de sem-abrigo e de vítimas da recente guerra tiritavam de frio, deu-se o encontro entre o Abbé Pierre e Georges Legay, um desesperado da vida e suicidário, a quem o primeiro disse: “Eu não posso ajudar-te, nem dar-te nada. Mas tu podes ajudar-me a ajudar os outros”. Deste encontro, nascerá uma profunda amizade entre ambos, que vai perdurar até à morte de George em 1966; e nasce também o Movimento Emaús, que depois se espalhou pelo mundo; em 2015, havia dois grupos deste movimento em Portugal: um no Porto e outro em Caneças, perto de Lisboa.

O nome escolhido é inspirado no episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24), os quais, no meio do desencanto e da dor que os consumia pelo que havia sucedido a Jesus, não deixam de acolher o desconhecido que os acompanhara: “Fica connosco, Senhor, porque anoitece” (v. 29). O acolhimento é a “marca da casa” dos Companheiros de Emaús, movimento aconfessional e apolítico, cuja finalidade última é ajudar a sair da solidão, da pobreza e da situação de exclusão.

No campo da Pastoral de Rua, há em Portugal três referências obrigatórias. Em primeiro lugar, a figura do P.e Américo Monteiro de Aguiar (1887-1956), conhecido simplesmente como P.e Américo, e a Obra da Rua (popularmente conhecida como Casa do Gaiato), por ele fundada em 1940, sob o lema: “Obra de rapazes, para rapazes, pelos rapazes”. É provável que a passagem do P.e Américo pela Madeira (antes ainda de ter entrado no seminário), onde trabalhou como empregado da Casa Blandy, lhe tenha permitido conhecer o trabalho do P.e Laurindo (ver mais adiante), e que tal facto o tenha inspirado à criação da sua Obra. O segundo grupo de relevo, pela dimensão e o alcance do trabalho realizado, é a Comunidade Vida e Paz; criada em 1989, em Lisboa, é uma associação que tem como missão acompanhar e ajudar, por diversas formas, os sem-abrigo da capital. A terceira referência vai para a associação O Ninho, que existe em Portugal desde 1967 (segundo o modelo da sua congénere francesa) e que tem por objetivo a promoção humana e social de mulheres vítimas de prostituição.

Centrando-nos agora na Pastoral de Rua na diocese do Funchal, vamos considerar o período que vai desde o último quartel do séc. XIX aos começos do séc. XXI. Começaremos com a obra da Ir. Wilson e concluiremos com uma referência aos grupos de apoio aos sem-abrigo da cidade do Funchal. Pelo meio, focamos a vida e obra do P.e Laurindo, e referiremos a importância do Movimento de Apostolado das Crianças (MAC).

Façamos um breve enquadramento histórico. No dia 15 de maio de 1891, o papa Leão XIII tornava pública a famosa encíclica Rerum Novarum, documento que é apontado como o ponto de partida da sistematização do pensamento social católico posterior e considerado um dos pilares da doutrina social da Igreja.

À época, a diocese do Funchal tinha como pastor D. Manuel Agostinho Barreto (bispo entre 1876 e 1911), que se empenhou na formação dos sacerdotes (reformulou o ensino do antigo seminário e mandou erguer o Seminário da Encarnação) e em outros campos da ação pastoral. Prestou igualmente grande atenção à educação e formação dos fiéis, particularmente das crianças: “a preocupação profunda pela educação do seu povo, desde a mais tenra infância, levou-o a criar uma rede escolar na diocese. Neste campo foi um autêntico pioneiro. Em muitos lugares, algumas vezes remotos e pobres, surgiram as escolinhas de São Francisco de Sales, onde milhares de crianças viriam a aprender as primeiras letras” (GOUVEIA, 2014, 23).

Poucos anos após a sua chegada à Madeira, desembarcava no Funchal Mary Jane Wilson, jovem enfermeira inglesa que acompanhava uma cidadã britânica vinda para a Madeira à procura de alívio para a enfermidade de que padecia. Tendo esta senhora regressado a Inglaterra algum tempo depois, a enfermeira permaneceu.

Mary Jane Wilson (1840-1916) nasceu na Índia, então colónia britânica, sendo batizada e educada religiosamente na Igreja Anglicana, até que, adolescente, foi para o Reino Unido. Por volta dos 17 anos, começa a questionar-se em matéria religiosa, acabando por se aproximar da Igreja Católica; e, a 11 de maio de 1733, aos 33 anos, na pequena cidade de Boulogne-sur-Mer, no norte da França, recebeu o batismo sob condição e foi plenamente aceite na Igreja Católica.

Para a plena adesão ao catolicismo, terá contribuído o encontro com uma senhora de Saboia, que a convidou a ler as obras de S. Francisco de Sales, bispo de Genebra do início do séc. XVII, sepultado na cidade de Annecy. Este santo notabilizou-se pelo cuidado na formação humana e espiritual do seu rebanho, num contexto de luta contra as doutrinas e as ideias saídas da Reforma Protestante, triunfante em Genebra, que tinha obrigado à clandestinidade, à fuga e por vezes à morte dos que quiseram permanecer católicos. Ora, o bispo do Funchal, ao criar as referidas “escolinhas”, vai colocá-las sob a proteção de S. Francisco de Sales. Por outro lado, D. Manuel Agostinho Barreto nota imediatamente que Mary Jane Wilson era a pessoa ideal para levar a bom termo o seu projeto de escolarização e de formação humana e espiritual da infância e da juventude madeirenses.

Refira-se que, desde a sua chegada à ilha em 26 de maio de 1881, se dá uma perfeita integração da jovem enfermeira, quer na Igreja, quer na sociedade madeirense. Por isso, Mary Jane irá tornar-se, aos poucos, a grande colaboradora do bispo diocesano. Na feliz síntese de D. Maurílio de Gouveia, esta conjugação de esforços é possível porque “o coração de Mary Jane está aberto aos mais variados problemas, a todo o género de sofrimentos materiais, espirituais, vocacionais e familiares” (Id. Ibid., 52).

Esta atividade pode ser considerada uma antecipação da pastoral de rua, no sentido em que já no final do séc. XIX existiam muitos dos problemas que hoje se colocam a esse tipo de população: muitas crianças que, na cidade como nos campos, viviam numa profunda miséria, sem acesso à escolarização nem aos cuidados mínimos de higiene e saúde; muitos órfãos e uma grande pobreza, também entre os adultos (devido à tuberculose e a outras doenças, para as quais não existia cura), etc.

A primeira iniciativa de Mary Jane Wilson, pouco tempo após ter chegado ao Funchal, terá sido iniciar o trabalho com crianças abandonadas na zona chamada do Torreão, próxima do lugar onde posteriormente se ergueu uma estátua em sua homenagem. Trabalho que vai continuar e alargar-se durante as três décadas e meia que viveu na Madeira, e que será depois continuado pelas Irmãs Franciscanas de N. S.ª das Vitórias, instituto por ele fundado e que se espalhou por diversos países, nos cinco continentes. Pode-se afirmar que muito do que foi feito no campo da escolarização, da saúde e da formação humana e cristã, na Madeira e no Porto Santo, a partir dos anos 80 do séc. XIX ficou a dever-se ao trabalho e à dedicação da Ir. Wilson (a quem, carinhosamente, chamavam “boa mãe”) e das Irmãs Vitorianas, suas discípulas e continuadoras.

Expulsa de Portugal em outubro 1910, na sequência da instauração da República e da aplicação da lei proibindo as congregações religiosas, a Ir. Wilson voltaria à Madeira passado pouco mais de um ano. Encarregada pelo bispo diocesano da formação de alguns rapazes em vista do sacerdócio (o Seminário havia sido igualmente encerrado), a essa missão consagrou os últimos anos de vida, no Convento de S. Bernardino em Câmara de Lobos, onde viria falecer a 18 de outubro de 1916.

No ano em que morria a Ir. Wilson, começava a trabalhar na pastoral da rua do Funchal o P.e Laurindo Leal Pestana. Nascido na freguesia de S. Pedro, Funchal, a 17 de janeiro de 1883 e ordenado sacerdote em 1906, o P.e Laurindo foi primeiro cura e, quatro anos mais tarde, pároco de Santa Maria Maior, sendo nomeado a 29 de setembro de 1915.

Rapidamente se apercebeu da situação de abandono e de miséria em que se encontravam tantas crianças e jovens a quem faltava uma família, bem como alimentos e educação, e a quem começou a dedicar os seus esforços. Recorda uma parente direta que, “ao anoitecer, ia o P.e Laurindo até à beira-mar, ali pelo Almirante Reis e a Lota, onde varavam barcos de pesca, pois sabia que muitos rapazes, não tendo onde dormir, aproveitavam o interior dos barcos” (CALDEIRA, 1999, 94). Começou por acolhê-los na casa paroquial, junto à igreja do Socorro, onde lhes oferecia abrigo e os alimentava. Mas o que o P.e Laurindo pretendia era dar àqueles rapazes uma formação que os preparasse para a vida. Foi assim que concebeu a ideia de criar uma escola de artes e ofícios.

Entretanto, também havia raparigas da paróquia que precisavam de ajuda. O P.e Laurindo começa por reuni-las numa casa da rua da Boa Viagem, mas pouco depois, graças a uma doação da condessa de Torre Bela, a quinta de S. Filipe torna-se o definitivo abrigo dessas raparigas, onde muitas vão aprender as primeiras letras, mas também artes, trabalhos e lazeres. A instituição, conhecida como Patronato de N. S.ª das Dores, foi entregue aos cuidados das Irmãs Vitorianas.

A casa da rua da Boa Viagem acolheu então a Escola de Artes e Ofícios, que será mais tarde transferida para o Lazareto. Nesta escola, eram ministrados cursos profissionais de marcenaria, carpintaria, empalhamento, tipografia, etc. E também se formou uma banda de música. A escola vivia dos contributos dos cidadãos amigos do seu fundador e foi oficializada a 19 de março de 1921, sob o nome de Associação Protetora da Mocidade, apesar de ter ficado conhecida como Escola de Artes e Ofícios. Em 1926, ao redigir o seu testamento, o sacerdote irá deixar à Associação todos os seus bens pessoais. Em 1931, é adquirida a quinta Malheiro, situada na zona do Bom Sucesso, freguesia de Santa Maria Maior, que se tornará o local definitivo da Escola de Artes e Ofícios, uma instituição que ajudou a formar várias gerações de rapazes. Em 1950, a escola foi confiada aos salesianos.

A 3 de abril de 1951, morria o P.e Laurindo, uma das personalidades mais marcantes da Igreja e da sociedade madeirenses do século XX. Os jornais da época fizeram eco da enorme manifestação de pesar, mas sobretudo de gratidão e de reconhecimento, que constituiu as exéquias deste sacerdote.

O Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças (MAAC) constitui-se em Portugal nos finais dos anos 70 do séc. XX, após contactos entre responsáveis do Movimento Internacional de Apostolado de Crianças (organização internacional católica presente em 41 países) e algumas pessoas de Lisboa, diocese onde, em 1982, começaram a reunir-se os primeiros três grupos de crianças; o movimento adquire a sua designação definitiva em 1995. Os seus estatutos, aprovados pela Conferência Episcopal Portuguesa em 2001, reconhecem-no como um movimento de crianças que faz parte da Ação Católica Portuguesa.

Ao longo dos seus primeiros 30 anos de existência, o MAAC (ou apenas MAC, como é mais conhecido) estendeu-se a outras zonas do país, nomeadamente a diocese do Funchal. Integrado na Ação Católica, trabalha segundo a dinâmica do ver-julgar-agir, naturalmente adaptada à idade e maturidade dos intervenientes. Acompanha crianças e adolescentes de todos os meios sociais (urbano e rural, operário ou agrícola) e dispensa uma atenção particular aos mais desfavorecidos a nível afetivo, cultural e económico. Os grupos são apoiados pela presença de jovens ou adultos (os chamados acompanhantes) e a dinâmica inclui jogos e outras formas de expressão (música, dança, etc.), momentos de partilha da vida, confronto da realidade vivida com o Evangelho, participação em encontros com as outras crianças e adolescentes, de modo que as crianças/adolescentes se sintam protagonistas da sua própria história pessoal e comunitária.

O movimento foi para a Madeira em 1987 e durante vários anos marcou a Pastoral de Rua da diocese do Funchal. Tendo começado por simples encontros (“brincadeiras”) com as crianças em espaços públicos (jardins e praças), em particular com os chamados “meninos das caixinhas” (pedintes nas ruas do Funchal, que ostentavam caixas de sapatos decoradas com frases apelativas), depressa os acompanhantes adultos se viram na necessidade de avançar para projetos organizados, onde essas crianças pudessem, por exemplo, ter acesso à escolarização, o que não acontecia no sistema regular de ensino. É assim que, de entre as várias iniciativas e projetos do MAC, se salienta o da Escola Aberta, um “projeto de alfabetização com as crianças de rua” (SILVA, 2010, 14) que surgiu de forma organizada no ano letivo 1990-1991 e que contou com o apoio da diocese e da Secretaria Regional da Educação, através do destacamento de dois professores e, posteriormente, de outros meios técnicos e humanos. O primeiro local de funcionamento da Escola será um espaço no beco da Levada (calçada de Santa Clara), a que mais tarde (1992/93) irá juntar-se um apartamento no Bairro da Palmeira, em Câmara de Lobos. A sede do Movimento funcionou durante alguns anos no antigo edifício do Colégio, sendo depois transferida para a rua dos Ilhéus, para uma escola primária que havia sido desativada. A Escola Aberta seria encerrada em 1993/94.

Mas tal como não é legítima a simples identificação das crianças do MAC com os “meninos das caixinhas”, também é certo que a Escola Aberta não esgotou o trabalho do Movimento. É que, para além das oriundas de Câmara de Lobos, outras crianças, de diversos bairros, compunham os grupos do MAC: da ribeira de João Gomes e de Santo António; do Bairro do Hospital; do beco do Meirelles; da Zona Velha (rua de Santa Maria e rua Direita), tendo chegado mesmo a funcionar um grupo no Bairro da Bemposta, em Água de Pena (Machico). O Movimento chegou a ter um jornal de ligação entre os vários grupos, intitulado Grito de Liberdade.

O encerramento da Escola Aberta não significou o fim do trabalho deste movimento junto das crianças mais desfavorecidas. É assim que, a par da continuidade de alguns dos grupos já existentes (quinta Falcão, Bairro do Hospital), outros foram criados na segunda metade da década de 90 do séc. XX: foi o caso de dois grupos na freguesia da Quinta Grande (um no sítio da Vera Cruz e outro nas Fontaínhas) e, mais tarde, nos Bairros da Nazaré e de Santo Amaro, no Funchal.

O P.e Henri Le Boursicaud, francês, era filho de pequenos agricultores da Bretanha; nasceu em 1920, entrou na Congregação dos Redentoristas e foi ordenado padre aos 26 anos. Nos anos 50 travou amizade com o Abbé Pierre, com quem fará caminho no Movimento de Emaús. Mas a grande reviravolta acontecerá aos 45 anos e está relacionada com emigrantes portugueses, implicando a sua futura relação com o nosso país.

Tendo-se tornado padre operário, aprendeu a profissão de carpinteiro e foi viver para a zona leste de Paris, em Champigny, um bairro de lata onde viviam milhares de emigrantes portugueses; para melhor os compreender e ajudar, decidiu aprender português. Durante os anos 90 e no início do novo milénio, o P.e Henri esteve por diversas vezes na Madeira. O seu testemunho de vida assenta em duas mensagens lapidares: “a miséria não é uma fatalidade” e “combater o sofrimento sem atacar as suas causas profundas é desonesto”. Para o comunicar, foi a igrejas e capelas e participou em inúmeras celebrações, a fim de “partilhar a sua fé” (era dessa maneira que se dirigia aos fiéis, no início de cada homilia) e vender os seus livros – e escreveu vários, marcados por um forte cunho testemunhal e acessíveis ao grande público. A receita destinava-se integralmente a projetos junto dos mais miseráveis: nas favelas do Brasil, no Haiti, nos Camarões, etc.

Por duas vezes visitou a paróquia da Nazaré. Na segunda vez, congregou um grupo de homens e mulheres que o acompanharam, certa noite, numa volta pela cidade do Funchal, indo aos lugares onde se suspeitava que estivessem, mais ou menos escondidos, os sem-abrigo. Passados alguns meses, em março de 2003, no início da Quaresma desse ano, a paróquia da Nazaré juntou as vontades e a disponibilidade de duas dúzias de voluntários, distribuídos por várias equipas, de forma a cobrir os sete dias da semana e, com o apoio de algumas empresas, que forneciam gratuitamente queijo, fiambre e leite, começou a levar todas as noites uma simples refeição quente e uma palavra de conforto aos que passavam a noite nas ruas. A ideia de concentrá-los em locais previamente determinados, como tantos preconizavam, não era de fácil execução. Por isso, os voluntários optavam por ir ao seu encontro à rua das Dificuldades e ao Campo da Barca, junto do Mercado dos Lavradores e na escadaria do tribunal, ao miradouro das Cruzes e em frente ao paço episcopal, na rua da Carreira e no largo do Carmo. Em ocasiões festivas – particularmente no Natal –, procuravam reunir, em ambiente de confraternização, o maior número possível de sem-abrigo.

A razão fundamental deste serviço aos sem-abrigo não era a de levar-lhes comida; nem sequer a pretensão de os fazer sair da situação em que se encontravam. A motivação profunda era simplesmente a do encontro – ir ao encontro daqueles que são os últimos, a que ninguém presta atenção ou reconhece valor, daqueles que, pela exclusão que sofrem, estão profundamente feridos na sua dignidade humana, e fazê-los reencontrar, mesmo que por breve tempo, essa mesma dignidade, escondida sob a capa de muitas misérias, mas nunca perdida para sempre.

Bibliog. impressa: ABBÉ PIERRE, Emmaüs ou Venger l’Homme, Paris, Le Centurion, 1979 ; BAGOT, J.-P., “Pastorale”, in G. MATHON et al. (coords.), Catholicisme: Hier, Aujourd’hui, Demain, t. x, Paris, Letouzey et Ané, cols. 765-774; BUSQUETS, Salvador, Nuestros Vecinos de la Calle, Barcelona, Cristianisme i Justicia, 2007; CALDEIRA, Maria da Conceição de Oliveira, Miscelânia de Memórias, Funchal, Calcamar, 1999; CAMACHO, Paulo Gilberto, O Espírito “Salesiano” do Padre Laurindo, Funchal, ed. do Autor, 2008; FERNANDES, Abel Soares, Mary Jane Wilson: Roteiro, Funchal, Irmãs Franciscanas de N. S.ª das Vitórias, 2003; GILBERT, Guy, La Rue est Mon Église, Paris, LGF, 1984; GOUVEIA, Maurílio de, Cristãos Exemplares, Cascais, Lucerna, 2014; LE BOURSICAUD, Henri, Companheiros de Emaús: Um Movimento ao Serviço dos Marginalizados, Porto, Perpétuo Socorro, 1983; RIBEIRO, Abílio Pina, Irmã Wilson: Vida-Testemunhos-Cartas, 2.ª ed., Apelação, Irmãs Franciscanas de N. S.ª das Vitórias, 2000; SILVA, Edgar, Os Bichos da Corte do Ogre Usam Máscaras de Riso, Funchal, ed. do Autor, 2010; XERRI , Jean-Guilhem, e BOITON, Pierre-Olivier, A la Rencontre des Personnes de la Rue, Paris, Editions Nouvelle Cité, 2007; digital: CNBB, “O que é a pastoral social?”, 2001: http://www.dhnet.org.br/dados/cartilhas/dht/cartilha_pastoral_social.pdf (acedido a 11 jun. 2014); “Comunidade Vida e Paz”: http://cvidaepaz.pt/site/ (acedido a 1 jul. 2014); “História do MAAC”: http://www.ecclesia.pt/maac/ (acedido a 3 jul. 2014); “Obra da Rua, Obra do Padre Américo”: http://www.obradarua.org.pt/ (acedido a 8 jul. 2014); “O Ninho, Sempre que Alguém Escuta”: http://www.oninho.pt/ (acedido a 8 jul. 2014).

José Anastácio Alves

(atualizado a 05.09.2016)