araújo, juvenal henriques de

Juvenal Henriques Araújo, 1932. Fotografia Vicentes
Juvenal Henriques Araújo, 1932. Fotografia Vicentes

Juvenal Henriques de Araújo nasceu no Funchal, à Calçada do Dr. Nuno Teixeira (posterior Calçada do Pico), n.º 49, no dia 21 de novembro de 1892. Era filho de João Isidoro de Araújo Figueira (1859-1934) e Virgínia Henriques de Araújo (1877-1966). Concluído o ensino secundário no Liceu do Funchal (1903-1909), matriculou-se em Direito, na Universidade de Coimbra, onde conviveu com Salazar e o então P.e Manuel Gonçalves Cerejeira, futuro cardeal patriarca de Lisboa. Em 1912, fez parte da direção do CADC (Centro Académico da Democracia Cristã) na qualidade de 2.º secretário e foi um dos fundadores do seu porta-voz, o jornal Imparcial. A 17 de outubro de 1910, poucos dias depois da revolução republicana, na sequência de tumultos na Universidade de Coimbra, onde era reitor o Dr. Manuel de Arriaga, os professores Teixeira de Abreu e José Tavares, que tinham militado no Partido Regenerador-Liberal, são convidados a afastarem-se momentaneamente, a fim de acalmarem os ânimos. Algum tempo depois, os mesmos professores são demitidos pelo Governo, que alegou abandono do lugar. Um grupo de estudantes, no qual se incluía Juvenal de Araújo, publica, em 1911, no jornal Nação, um libelo acusatório desta perversidade política, em tom muito incisivo, sarcástico, mas brilhante, de que resultou a reintegração dos referidos professores.

Após a licenciatura, concluída em 1914, regressou ao Funchal, passando a desempenhar a sua atividade profissional como advogado, consultor jurídico da firma William Hinton & Sons, diretor do Banco Madeira e professor do ensino secundário, primeiro no Liceu, como provisório, e depois na Escola Industrial António Augusto de Aguiar, posterior Escola Secundária Francisco Franco (1927-1962), como efetivo. A 31 de julho de 1918, casou com Maria Noémi Henriques Rodrigues (1899-1974), filha de João Anacleto Rodrigues (1869-1948) e de Luísa Capitolina Henriques (falecida a 12 nov. 1963). Do casamento nasceram dois filhos: Duarte Manuel Rodrigues de Araújo (1919-1989), licenciado em Direito (UL, jul. 1948) e padre (ordenado a 21 fev. 1948), e Juvenal Rodrigues de Araújo, nascido em 1920, igualmente licenciado em Direito e advogado. Por escritura pública, lavrada a 19 de abril de 1922, no cartório do notário Frederico de Freitas, o seu sogro, dois irmãos deste, Henrique Augusto e Alfredo Guilherme, e ainda Francisco Leão de Faria, Francisco Roberto Câmara e Juvenal de Araújo fundam a casa bancária Rodrigues, Irmãos & Companhia, entrando os três primeiros com o capital de 200 contos cada um e os restantes com 50 contos cada um. Tendo imediatamente entrado com 50 % do capital, os sócios preencheram a totalidade do mesmo em junho de 1923. Entre 1922 e 1929, Juvenal de Araújo foi o gerente da nova casa bancária. Na sequência dos reflexos na Madeira da grave crise económica e financeira de 1929, esta casa bancária, o Banco Sardinha e o Banco Madeira (surgido a 24 abr. 1920) fundem-se, por imposição do decreto n.º 23.026, de 12 de setembro de 1933, tendo sido adotada a designação do último. O Conselho de Administração do novo banco era composto por Juvenal de Araújo, António Bettencourt Sardinha e Leonel Luís, representando respetivamente os três bancos então fundidos. O novo banco, por sua vez, será integrado, a 7 de dezembro de 1965, no Banco Lisboa & Açores e, em janeiro de 1970, este será, por sua vez, integrado no Banco Totta & Aliança, passando a designar-se Banco Totta & Açores. Na posse da família dos sogros estava já a empresa Henrique, Rodrigues & Companhia (Bazar do Povo) e a companhia de seguros Aliança Madeirense, fundada em 13 de abril de 1891.

O Dr. Juvenal funda também, com outros sócios, a empresa de comércio de vinhos Araújo & Henriques Sucessores. Esta foi criada a 11 de agosto de 1923, passando, a 4 de maio de 1932, a Araújo, Henriques & Companhia e acabando por ser integrada, em 1947, na H. M. Borges & Sucessores. Em 1929, Juvenal de Araújo desempenha ainda as funções de diretor da Aliança Madeirense.

Durante o regime republicano, foi um militante ativo da causa católica, tendo desempenhado, durante vários anos, o cargo de presidente da Juventude Católica do Funchal, criada em 1913. Entre 1922 e 1925, foi deputado pelo Centro Católico eleito pelo Funchal, tendo-se manifestado ativo na defesa dos interesses da economia madeirense. Com a instalação da Ação Católica Portuguesa na Madeira, em 1936, veio a desempenhar o cargo de presidente da Junta Diocesana durante vários mandatos. No Estado Novo, foi deputado nas legislaturas de 1935-38, 1938-42 e 1942-1945.

Desempenhou também vários cargos públicos, nomeadamente: o de presidente da Junta Agrícola da Madeira, em 1925; presidente da Comissão Liquidatária da casa bancária Henrique Figueira da Silva, sob proposta do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Depósitos, sendo nomeado, por portaria do Ministro das Finanças, em novembro de 1931; presidente da Associação Comercial e Industrial do Funchal (1934-1963); diretor do Ateneu do Funchal; vice-presidente da Junta Geral do Funchal (jan.- jul. 1926); presidente da Comissão Distrital de Assistência (1947-1953); presidente da Delegação do Funchal da Cruz Vermelha Portuguesa (1937-1940); e presidente do Conselho de Turismo da Madeira, criado pela Junta Geral em 1952.

Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente no Diário de Notícias do Funchal, no Jornal da Madeira, no Correio da Madeira e na revista A Esperança, foi diretor do Diário da Madeira e salientou-se como um orador brilhante, muitas vezes convidado para discursar em eventos públicos. Das muitas conferências que proferiu, foram publicadas apenas duas: «A Família, sua Origem e Fundamentos», inserida numa série de conferências promovidas pela CMF, que as deu à estampa com o título A Família, em 1940, e uma outra proferida na Escola Comercial e Industrial António Augusto de Aguiar, publicada com o título Homenagem ao Professor Alfredo Miguéis (Funchal, ed. do autor, 1943). Juvenal de Araújo publicou ainda dois opúsculos: Acção de Expropriação do Montado do Barreiro, requerida pela Câmara Municipal do Funchal contra os proprietários do mesmo Montado. Alegações finais dos embargantes William Hinton & Sons e D. Josefina Pimbet da Rocha Machado (Funchal, ed. do autor, Tip. do Diário da Madeira, 1917) e Capela de Nossa Senhora do Desterro na freguesia do Monte da Ilha da Madeira. Breve Registo (Lisboa, ed. do autor, 1942). Com o advogado Frederico de Freitas, fundou em 1920 a Revista de Direito. Em 1928, em edição do autor, publicou, com o título Trabalhos Parlamentares, algumas das suas intervenções na Câmara de Deputados, entre 1922 e 1925, na qualidade de deputado do Centro Católico.

Foi distinguido com as seguintes comendas: Oficial da Ordem Militar de Cristo (nov. 1924), Cruz Vermelha de Dedicação (1926), Ordem de Benemerência (nov. 1950) e Ordem da Instrução Pública (maio 1963). A 29 de abril de 1930, o Papa Pio XI agraciou-o com a Comenda da Ordem de S. Silvestre.

Faleceu no Funchal, a 2 de novembro de 1976.

Obras de Juvenal Henriques Araújo: Acção de Expropriação do Montado do Barreiro, Requerida pela Câmara Municipal do Funchal contra os Proprietários do mesmo Montado. Alegações finais dos embargantes William Hinton & Sons e D. Josefina Pimbet da Rocha Machado (1917); Trabalhos Parlamentares (1928); Capela de Nossa Senhora do Desterro na freguesia do Monte da Ilha da Madeira. Breve Registo (1942).

Bibliog.: CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses, Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, [1983], pp. 43-44; OLIVEIRA MARQUES, A. H., et alii (coord.), Parlamentares e Ministros da 1.ª República (1910-1926), Lisboa/Porto, Assembleia da República/Edições Afrontamento, 2000, p. 95; SANTOS, Marta Carvalho, MCS, «Araújo, Juvenal Henriques de (1892-1976)», in CRUZ, Manuel Braga da, e PINTO, António Costa (dir.), Dicionário Biográfico Parlamentar 1935-1974, vol. I, Lisboa, Instituto de Ciências Sociais da UL/Assembleia da República, 2004, pp. 191-194; digital: PITA, Gabriel de Jesus, “Juvenal de Araújo e o Centro Católico”, in República e Republicanos na Madeira 1880-1926, Atas do Seminário realizado em outubro de 2010 pelo Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2010 [CD-ROM].

Gabriel Pita

(atualizado a 11.04.2016)