argentina

As ligações da Madeira à Argentina são de diversa índole e dão conta do espírito universal do madeirense. Todavia, a proximidade do país ao território sul do Brasil e os problemas que a sua ocupação despertou a partir do séc. XVII fizeram com que a presença madeirense se fizesse notada pelos colonos saídos de Santos ou do Funchal para assegurar a ocupação do espaço. Tanto Santa Catarina, primeiro, como, depois, Porto Alegre foram fundadas por um madeirense. Os conflitos estenderam-se até ao Atlântico e à Madeira, com a guerra de represália do corso. No séc. XIX, muitos madeirenses emigraram para a Argentina.

Política e corsários insurgentes

O corso sul-americano surge em princípios do séc. XIX com uma ação de represália enquadrada na guerra de independência da Argentina, Bolívia, Colômbia e Peru. A ação dos corsários americanos e insurgentes insere-se numa dinâmica de luta pela independência das regiões de forte dominação e exploração colonial no continente americano, como foi o caso dos Estados Unidos, Argentina e Bolívia. No primeiro caso, o alastramento dessa ação à área atlântica insulana justifica-se pela forte influência britânica nestas paragens, aliado ao colaboracionismo português, incidindo, por esse motivo, sobre os portugueses e ingleses. No segundo, a ação é justificada pelos próprios, como resposta à intervenção militar portuguesa, por intermédio do Brasil na guerra da Argentina e Bolívia.

A área dos Açores foi escolhida como espaço predileto para essas ações entre os anos de 1818-1821, 1823-186, 1828-1831, tendo estas chegado também à Madeira. A ação destes corsários não identificados, ou piratas, fez-se ainda sentir com os navios espanhóis, tendo sido aprisionados em 1816 o bergantim N.ª Sr.ª do Carmo e, em 1823, o navio Armonia.

Os acontecimentos do continente americano eram vistos desde meados do séc. XVIII com grande preocupação por parte das autoridades insulanas, que atendiam aos possíveis reflexos desse conflito nestas paragens atlânticas ambivalentes. Foi o que aconteceu em 1777, face ao ataque feito pelos espanhóis ao Rio da Prata, Rio Grande de S. Pedro e Santa Catarina e, em 1812, com a intervenção das tropas portuguesas na guerra da independência da Argentina, que vinha ameaçando as fronteiras do sul do Brasil. O conflito opôs os portugueses aos rebeldes argentinos, sob o comando de José Artigas, e manteve-se para além da batalha de 7 de janeiro de 1817, de onde estes saíram derrotados.

Segundo declarações dos insurgentes, a sua ação de corso inseria-se numa ampla campanha de represálias contra a ação portuguesa nos destinos da Argentina. Assim, a 5 de dezembro de 1816, uma galera americana informava que o capitão insurgente apresara o bergantim espanhol N.ª Sr.ª Venerador Obrigadíssimo. A 24 de dezembro de 1816, o dono do iate, D. José Diligente, que havia sido apresado junto do Funchal por um insurgente, dava conta das suas intenções: “Increpando-os eu de me roubarem com uma bandeira nossa aliada, me responderam que tinham poder de usar e firmar quaisquer bandeiras, porém que o seu navio era espanhol patriota e que o motivo de me roubarem era o ter o rei de Portugal mandado tropas para Buenos Aires” (AHU, Açores, doc. 24 dez. 1816, mç. 69).

O facto de estes corsários arvorarem habitualmente a bandeira americana e terem a bordo uma tripulação cuja nacionalidade era muito heterogénea – com ingleses, portugueses, americanos, espanhóis, predominando os americanos – atestava não só o forte apoio que estes tinham por parte dos americanos, como também a sua consideração como piratas.

Um facto saliente é contado no dia 30 de abril de 1817, no protesto do capitão da galera Marquês de Pombal, que havia sido apresada por um corsário patriota de Buenos Aires. Segundo ele, o corsário, quando o apresou, arvorara a bandeira americana “e toda a tripulação do corsário, tanto comandante e oficiais e marinheiros eram da nação americana, somente um português servido de língua e vários pretos da nação americana, pois nem um só espanhol” (AHU, Madeira e Porto Santo, n.º 3816). Ao ver um bergantim americano, o capitão retirou a bandeira americana e içou, em seu lugar, a do México.

A ação dos insurgentes nas águas da Madeira não se apresenta tão constante e importante como nos Açores. A 31 de outubro de 1816, é apresada a polaca Divina Pastora, por um insurgente que, segundo o governador Florêncio Correia de Mello, se vinha tornando numa praga: “os quais vêm causando graves presas às naus portuguesas. Este malefício vai sendo de um peso enorme para o comércio desta ilha e pondo-a em um fatal bloqueio, sem que eu o possa obstar por forma alguma, por falta de recursos” (AHU, Madeira e Porto Santo, n.º 3816). Em 1818, são apresados dois bergantins portugueses que conduziram às Canárias. No ano seguinte, dá-se conta de que a escuna de guerra Leopoldina entrara no porto do Funchal perseguida por um insurgente.

A 23 de março de 1820, o cônsul de Portugal nas Canárias, em ofício ao governador da ilha da Madeira, participava que essas ilhas estavam completamente cercadas por navios de corsários insurgentes que atacavam e apresavam a marinha mercante que demandava estas paragens: “Os portos destas ilhas Canárias têm presentemente estado infestados de corsários insurgentes que mesmo as pequenas embarcações do tráfico delas têm sido maior valor. E que tendo ele feito uma presa espanhola cuja tinha alguma defesa lhe adicionaram mais alguma e hoje se acha outro corsário de força os quais bloqueiam estes portos de dias em dias” (AHU, Madeira, n.º 5008). A 23 de abril, estes corsários foram avistados na Ponta do Garajau, mas, dadas as precauções tomadas em face deste aviso, não exerceram qualquer ação. Contudo, no ano seguinte, apresaram a 6 de agosto a escuna Nympha, que vinha de Lisboa para a ilha, tendo capturado antes, na ilha de S. Bartolomeu, outra embarcação portuguesa.

Nos Açores, a ação dos insurgentes mantém-se até 1827 e apresenta-se particularmente forte entre 1816-1817. Das embarcações estrangeiras, apenas há referência ao apresamento do bergantim espanhol N.ª Sr.ª Venerador Obrigadíssimo e da escuna inglesa Sarah, o que vem confirmar a incidência desta ação entre novembro e princípios de janeiro, obrigando as autoridades militares a tomar medidas excecionais de defesa da costa e de vigilância do mar.

Em face desta apreensão manifesta, é com certa surpresa que se constata que, a 23 janeiro de 1817, é referido não ser do conhecimento local a ação dos insurgentes. Essa surpresa aumenta se tivermos em consideração que, dois dias depois, em ofício, dá-se conta de que os corsários insurgentes “à vista daquelas ilhas têm aparecido e cometido alguns insultos” (AHU, Açores, doc. 23 jan. 1817, mç. 65).

Comércio e emigração

As relações entre a Madeira e a Argentina foram de tal modo importantes que esta república teve, a partir de 1888, uma representação consular no Funchal. Em 1903, era vice-cônsul Joaquim Tomás Gonçalves, e, em 1939, Alfredo Charcard Campanela.

Em termos comerciais, as relações documentadas parecem ser ocasionais. Em 1888, data da instalação do consulado, foram enviadas seis pipas de vinho para Buenos Aires. Por outro lado, em 1919, um momento crítico no que respeita aos abastecimentos alimentares, a Ilha recebeu trigo e milho da Argentina. Em troca, a Argentina terá recebido vimes. Sabemos ainda que, em 1939, A. Vieira & Co. e João Augusto Fernandes representavam a casa comercial argentina Bunge & Born Ltd, tendo a Agência Araújo, Ferraz a representação comercial no Funchal.

No decurso da História, a Madeira foi uma região sempre carente de moeda circulante, daí o recurso à estrangeira, nomeadamente à sul-americana de prata. Em 1836, circulavam as patacas de Buenos Aires, reconhecidas pelas autoridades com o valor de mil réis.

A emigração para a Argentina surge documentada desde finais do séc. XIX. Na imprensa funchalense, há publicidade a vapores para a Argentina, a partir de 1910, sucedendo-se em 1916 e 1919 e em 1923 e 1951. De acordo com os registos de passaportes entre 1872 e 1915, há referência à intenção de saída de 25 madeirenses oriundos das freguesias de Santo António da Serra, Santa Maria Maior, Santa Luzia, Estreito de Câmara de Lobos, Sé, Madalena do Mar e Calheta. Os primeiros registos surgem em 1889 e prolongam-se até 1915, contando-se no período de 1910 a 1915 o maior número, isto é, nove. No período posterior à Segunda Guerra Mundial, cresce o fluxo emigratório, que conduzirá, até 1966, à saída de 290 madeirenses.

De notar que foram vários os madeirenses ilustres protagonistas de emigração temporária para a Argentina. Francisco Correia Herédia, o Visconde da Ribeira Brava (1852-1918), viveu muito tempo naquele país, como representante da firma Armstrong. Em maio de 1945, razões familiares levaram o médico João Lemos Gomes (1906-1996) à Argentina, onde permaneceu ano e meio, tempo suficiente para aí se especializar em Anestesia Moderna. Outro madeirense, Fernando Henriques Araújo (1905-1987), estabeleceu-se definitivamente na Argentina, onde veio a morrer. Sabemos ainda que, em 1922, o tenor Lomelino Silva (1892-1967) se deslocou a este país, tendo aí feito espetáculo.

No sentido inverso, destaque para alguns nascidos na Argentina que escolheram a Madeira para viver: Archibald George Clode, Pedro Nicolau de Ornelas e Pedro Pablo de Sousa. Deve notar-se ainda a passagem, a 23 de fevereiro de 1925, a bordo do vapor francês Formosa, da equipa de futebol do Boca Junior’s, em que os jogadores foram presenteados pelo Presidente do Club Sport Marítimo com uma visita ao miradouro da Montanha.

De salientar ainda o intercâmbio que existiu em termos industriais entre o engenho do Hinton e o de Tucumán. Assim, a 23 de março de 1906, M. Charles Roussel, diretor químico da Fabrica Concepcion, visita a ilha e o engenho madeirense, mantendo-se o intercâmbio técnico através do técnico madeirense João Higino Ferraz.

Da Argentina a Madeira recebeu também animais e plantas, que completam este circuito de mobilidade dos seres vivos e contribuem para a construção deste mundo global, de que somos herdeiros. Entre 1886 e 1896, chegaram as formigas-argentinas (Linepithema humile), de coloração castanho-escura, oriundas do norte da Argentina e do Uruguai, Paraguai e sul do Brasil, mais tarde estudadas por Guido Paoli, em 1922. De referir ainda a presença de algumas plantas nesta região fruto dos laços que se estabeleceram, de forma direta ou indireta, com a Madeira: a tipuana, acácia Draco (tipuana tifu, Benth) e a bignónia, unha de gato (Bignonia unguis cat L.).

Bibliog. manuscrita: AHU, Açores, doc. 24 dez. 1816, mç. 69 e doc. 23 jan. 1817, mç. 65; Madeira e Porto Santo, n.º 3816 e n.º 5008; impressa: ALMEIDA, Luís Ferrand de, A Colónia do Sacramento na Época da Sucessão de Espanha, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1973; BOITEUX, Lucas Alexandre, “Açorianos e Madeirenses em Santa Catarina”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 219, 1953, pp. 122-169; BORGES, Marcelo J., “Portuguese Migration in Argentina: Transatlantic Networks and Local Experiences”, Portuguese Studies Review, vol. 14 (2), 2006/7, pp. 87-123; Id., Chains of Gold: Portuguese Migration to Argentina in Transatlantic Perspective, Leiden, Brill, 2009; DOMINGUES, Moacyr, A Colônia do Sacramento e o Sul do Brasil, Porto Alegre, Sulina/Instituto Estadual do Livro, 1973; FERREIRA, Mário Clemente, “Os Casais das Ilhas e a Política do Uti Possidetis no Brasil”, in  Imigração e Emigração nas Ilhas, Funchal, CEHA, 2001, pp. 87-112; PIAZZA, Walter F., A Epopeia Açórico-Madeirense (1746-1756), Funchal, CEHA, 1999; Id., A Ilha de Santa Catarina e o seu Continente na Luta pela Hegemonia Portuguesa e na Fixação da Cultura Lusitana no Brasil Meridional: Novos Estudos Jurídicos, Itajaí, Univali, 2000; POSSAMAI, Paulo, A Vida Quotidiana na Colónia do Sacramento, Lisboa, Livros do Brasil, 2006; PRADO, Fabrício, A Colônia do Sacramento: o Extremo Sul da América Portuguesa no Século XVIII, Porto Alegre, F. P. Prado, 2002; REGO MONTEIRO, Jonathas da Costa, A Colônia do Sacramento, vol. i, Porto Alegre, Ed. Livraria do Globo, 1937; SANTOS, Maria Licínia Fernandes dos, Os Madeirenses na Colonização do Brasil, Funchal, CEHA, 1999; VIEIRA, Alberto (coord.), A Madeira e o Brasil: Colectânea de Estudos, Funchal, CEHA, 2004.

Alberto Vieira

(atualizado a 16.09.2016)