arquitetura senhorial

A designação “arquitetura senhorial” abrange o conjunto de edifícios que, para além da função de residência do proprietário e da sua família, albergava igualmente o pessoal e as instalações relacionadas com as funções diretivas, administrativas e sociais do mesmo. Com a progressiva organização da sociedade madeirense, nos anos seguintes ao povoamento, para além das figuras dos capitães do donatário, relacionadas com a doação de terras e a instituição da figura do proprietário, e da nomeação de oficiais régios para a administração, etc., definia-se toda uma diferenciação dos novos senhores em relação ao povo comum. Tal diferenciação, que se estabelecia pelo uso de determinados atributos, como as armas dos cavaleiros e escudeiros ou as varas dos oficiais de justiça, entre outros, tinha quase que obrigatoriamente de se estender à sua residência, não só pela colocação da mesma em local de destaque, como pelo impacto visual que deveria ter, para ser de imediato reconhecida.

A família, no Antigo Regime, tinha um sentido muito mais alargado do que tem hoje, sendo por vezes substituída pelos conceitos de “casa” ou “comensais”, envolvendo os elementos direta e indiretamente ligados ao senhor em questão, indivíduos que comiam com o mesmo, para além da mulher e dos filhos, estendendo-se a pais ou sogros e outros, como funcionários e eclesiásticos, havendo ainda serviçais e escravos, embora esses já não com o estatuto de “comensais”, mas considerados como parte da “casa”.

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Campa de D. Manuel Noronha, Sé do Lamego.

A progressiva diferenciação ainda se construiu pela instituição dos morgadios (Morgadio/Morgado) e das capelas, tudo vindo assim a ter correspondência na residência e sede da organização de que o senhor em causa era somente o elemento de referência mais visível. A questão do universo alargado dos membros da família e a casa aplicavam-se, na Madeira, aos morgados, mas também aos governadores e aos bispos (TRINDADE, 2012, 56-65), tal como a cónegos, párocos, vigários e outros senhores.

Museu Quinta da Cruzes
Estatuária, Museu Quinta da Cruzes

Tendo sido a inicial instalação na ilha bastante precária, as primeiras residências senhoriais também o foram, subsistindo das mesmas, essencialmente, apenas as capelas, projetadas para sepultura dos iniciais instituidores e para serviço do povo que trabalhava para os proprietários, mas não, em princípio, para o seu enterramento (Arquitetura religiosa). As mais antigas capelas, dos inícios do séc. XVI, que chegaram aos nossos dias (pois que das do séc. XV quase só chegaram informações documentais), como a capela instituída por Francisco Homem de Gouveia e sua mulher, Isabel Afonso, por volta de 1520, não se articulam hoje com qualquer grande estrutura edificada, que, por certo, teria existido nas suas imediações.

O mesmo se passa, quase cem anos depois, com a capela de N. S.ª da Salvação, instituída por Francisco Morais de Aguiar, em 1614, na sua antiga Qt. da Boa Vista do Caniço e assim sucessivamente. A escolha destes dois exemplos, pois outros poderiam ser mencionados, foi feita pelas condições económicas dos seus proprietários, que se mandaram pintar nos retábulos destas capelas. Francisco Homem de Gouveia e sua mulher, Isabel Afonso, encontram-se representados nos volantes do retábulo encomendado em Antuérpia, por volta de 1525, o que indica não só a sua capacidade económica, como também, em princípio, a necessidade de representatividade local. O mesmo aconteceu em relação à capela da Salvação do Caniço, embora não tivessem figurado ali os retratos dos iniciais proprietários, mas os dos seus descendentes, pois que Francisco Morais de Aguiar faleceu em 1634 e o magnífico retrato do casal orante, aos pés de N. S.ª da Salvação, foi pintado por Martim Conrado, em 1646.

A residência do primeiro capitão do Funchal, João Gonçalves Zarco (c. 1390-c. 1471) foi, inicialmente, em madeira, nos arrifes de Santa Catarina, de onde terá passado para um lugar mais alto, na área atual do convento de S.ta Clara, que teve por origem a inicial capela da Conceição de Cima, para a diferenciar da Conceição de Baixo, que o povo apelidava de N. S.ª do Calhau. Ligeiramente acima veio a residir também o segundo capitão, João Gonçalves da Câmara (1414-1501), na área hoje ocupada pela Qt. das Cruzes, espelhando o complexo edificado ali existente as profundas alterações por que este tipo de residências senhoriais passou ao longo dos tempos.

A residência inicial das Cruzes terá tido por mestre-de-obras, entre os finais do séc. XV e os inícios do XVI, o mesmo mestre pedreiro que iniciou a construção da futura sé do Funchal () e do convento de S.ta Clara, em princípio, João Gonçalves, que o vedor das obras da “igreja grande”, Bárbaro Gomes (c. 1460-1544), enviou a Lisboa em junho de 1503 (ANTT, Corpo Cronológico, Fragmentos, 1-7). O mestre-de-obras era pago pelo capitão do Funchal, como vedor que era da Alfândega, pelo que, com certeza, trabalhou na residência do mesmo, tal como no convento de S.ta Clara.

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Fonte de Embrachados, Museu Quinta das Cruzes.

Desconhecemos as obras do tempo do primeiro e do segundo capitão, pois que as evidências manuelinas patentes no piso térreo parecem posteriores e do tempo do seguinte proprietário, o segundo filho do segundo capitão, Pedro Gonçalves da Câmara (c. 1464-c. 1555), embora quem ali viesse a residir fosse o terceiro filho, Manuel de Noronha (c. 1465-c. 1535). O irmão mais velho, Simão Gonçalves da Câmara (c. 1464-1530), terceiro capitão do Funchal, tinha montado a sua residência no Altinho das Fontes, onde se levantou depois a fortaleza do Funchal (Fortalezas), e já o teria feito em vida do pai, pelo que o mesmo, por codicilo de 1501 ao seu testamento, legou a residência das Cruzes ao filho Pedro, que, no entanto, e pouco tempo depois, fixou residência na corte de Lisboa.

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Planta, Quinta das Cruzes

A avaliar pela planta de Mateus Fernandes (III), datável de 1570 (BNB, Cartografia, 1090203), a residência, então dada como pertencendo a Luís de Noronha (c. 1515-c. 1575), sobrinho do anterior proprietário, possuía forma em L com um corpo virado a sul, não muito diferente do que ainda possui, e um outro para poente. Para sul, encontrava-se o vasto complexo do convento de S.ta Clara, num espaço maior do que aquele que hoje ocupa e, para norte, o complexo dos moinhos, dependente diretamente da administração dos capitães do Funchal e que constituía uma parte importante dos seus rendimentos.

As casas das Cruzes passaram depois a Joana de Noronha (c. 1550-1613), filha de Francisco Gonçalves da Câmara (c. 1510-c. 1586), que fora governador do Funchal e, depois, ao sobrinho António do Carvalhal Esmeraldo. Provavelmente, na posse deste último, por volta de 1660, o edifício terá sido dotado de um novo corpo, adossado à fachada e para entrada de aparato, constituindo um terraço assente sobre arcaria em cantaria vermelha do Cabo Girão, atualmente coberto, com acesso por poente. Por essa altura ou mais tarde, ainda viria a encostar-se ao mesmo um outro corpo, que deveria servir de miradouro sobre o parque ou sobre o caminho, pois que, muito possivelmente, o terreno hoje ocupado pelo parque para sul ainda não fazia parte da propriedade, como se deduz da planta de 1570.

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Museu Quinta das Cruzes, Arqui. Rui Carita.

Nos finais do séc. XVII, o então proprietário, Francisco Esmeraldo Henriques, bisneto de Joana de Noronha, também mandou levantar, designadamente, uma capela, de N. S.ª da Piedade, com acesso público pelo Lg. das Cruzes ou Lg. da Bela Vista; nesta altura, a propriedade terá sido ampliada para sul. Na fachada da capela foi mandada gravar a data de 1692, embora a dotação do templo seja de 25 de maio de 1695 e a vistoria eclesiástica, para efeitos de autorização de culto, de 14 de junho seguinte (SILVA e MENEZES, 1998, III, 464). A capela foi, nessas anos ou seguintes, dotada com um acesso interior lateral e com um pequeno espaço de lazer e miradouro junto à sineira. Interiormente, pouco depois, por volta de 1700, o retábulo de pedra esculpida seria completado com uma tela pintada a óleo representado uma Piedade, assinada por Bento Coelho da Silveira (1617-1708).

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O andar nobre da residência das Cruzes, tal como o conhecemos hoje, deve ser dos finais desse séc. XVII e, mais provavelmente, dos inícios ou meados do XVIII, época em que o edifício foi ampliado para nascente e dotado de novas instalações de serviço. A fachada apresenta as características gerais dos solares urbanos madeirenses, com um andar térreo para ser utilizado para lojas de arrecadação, atualmente dotado de janelas neomanuelinas correspondentes às portas que possuía nos meados do séc. XX, e de que conhecemos fotografias, a articularem-se com o andar nobre e utilizando como sacada a varanda das janelas superiores, bastante altas e possuindo lintel com cornija de balanço. Ao centro e à face da fachada, apresenta mais um piso, de uma só janela, que funciona como torre de ver o mar, tendo ao lado uma gárgula, que corresponde à divisão das águas. As janelas apresentam portadas de madeira envidraçadas, com as inferiores de guilhotina, protegidas por persianas de ripas de madeira pintadas, que recolhem superiormente em lambrequins.

cascata de fresco 1770_51403

fachada_12332Nos meados e finais do séc. XVIII, foi, ainda, o jardim dotado de cascatas e fontes, parte em embrechados de tufo vulcânico e restos de porcelanas e faianças, sucessivamente melhoradas e ampliadas ao longo do século seguinte. O conjunto que conhecemos hoje foi alterado e melhorado ao longo dos meados do séc. XIX, quando passou a residência dos morgados das Cruzes, Nuno de Freitas Lomelino (1820-1880) e Ana Welsh, duas figuras notáveis da sociedade do seu tempo. Os Lomelino conseguiram reivindicar a propriedade do convento de N. S.ª da Piedade de Santa Cruz, tendo transferido o túmulo do fundador para a capela de N. S.ª da Piedade; existem, pelo menos numa das casinhas de prazer, elementos arquitetónicos que parecem ser dali provenientes.

A quinta foi vendida, em 1863, a Tristão Vaz Teixeira de Bettencourt e Câmara (1848-1903), barão do Jardim do Mar. Com o seu falecimento, passou para outros proprietários, sendo arrendada. Assim, funcionou como sede da banda municipal Artistas Funchalenses, como hotel, na déc. de 1930, e, por fim, como residência do ourives e antiquário César Filipe Gomes (1875-c. 1949), vindo a ser adquirida pela JGDAF para a instalação de um museu, cujo património foi em grande parte doado por este antiquário. A intervenção para adaptação a museu iniciou-se em 1950, sendo o museu inaugurado em 1953.

IMG_6238Os capitães do Funchal fixaram residência nos inícios do séc. XVI no Altinho das Fontes, como referimos, ainda tendo ali residido o quarto e o quinto capitães. Este último, Simão Gonçalves da Câmara (II) (1512-1580), dado o protagonismo da família, fixou-se na corte, em Lisboa, por volta de 1550, tendo permanecido apenas esporadicamente no Funchal. Com a elevação dos Câmara a condes da Calheta, em 1576, os seus descendentes diretos não voltaram à Madeira. Na fortaleza do Funchal e na antiga residência dos capitães, a partir de 1582, passaram a residir os governadores, primeiro como “encarregados das coisas da guerra”, depois como capitães gerais das duas capitanias, etc., não parando a residência de crescer perante a cidade, numa autêntica afirmação de poder (palácio e fortaleza de São Lourenço).

Com base nos primeiros companheiros de Zarco e, depois nos seus genros, como Garcia Homem de Sousa, que teria levantado a Torre do Capitão, a Santo Amaro (NORONHA, 1996, 195), tal como em uma ou outra figura de origem mais obscura, mas entretanto nobilitada, como João Fernandes de Andrada, “o do Arco” (c. 1450-1527), casado com Beatriz de Abreu, e alguns comerciantes de origem italiana e flamenga, famílias que sucessivamente se cruzaram entre si, nasceu a nobreza inicial da ilha, cujos membros seriam nomeados pela corte de Lisboa como “homens bons” ou “gente da governança”. Infelizmente, salvo a residência do comerciante de origem francesa ou flamenga João Esmeraldo (c. 1460-1536), na Lombada da Ponta do Sol, poucas construções civis dos finais do séc. XV a inícios do XVI subsistiram.

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A propriedade da Lombada da Ponta do Sol foi comprada ou aforada, em 1498, a Rui Gonçalves da Câmara (c. 1420-c-1500), filho de Zarco, que se fixou, entretanto, nos Açores, como capitão da ilha de São Miguel, provavelmente com o dinheiro dessa venda. O importante solar dos Esmeraldos é dos poucos que manteve alguma permanência na família, assumindo de imediato absoluto protagonismo, de tal forma que, enviando a Ordem de Cristo à Madeira, D. João Lobo, bispo de Tânger, para crismar e sagrar as paredes da igreja nova do Funchal, que haveria de ser terminada para sé, o prelado foi à Lombada, a 27 de agosto de 1508 (SILVA, 1933, 39), também sagrar a capela ali construída. A capela, no entanto, não é a que temos hoje, que é uma reconstrução de raiz levantada em 1720, como consta no portal.

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O solar dos Esmeraldos instala-se, dominante na paisagem, com fachada de três pisos para sul e dois para norte, envolvendo cinco corpos e coberturas múltiplas. A fachada norte é complexa, integrando a monumental torre senhorial dos inícios do séc. XVI, da qual ficou toda a estrutura, com os fortes cunhais embutidos na parede norte, as gárgulas do antigo eirado superior, hoje coberto por telhado e, muito possivelmente, ainda três frestas, antigas seteiras ou canhoneiras, celebrizadas no famoso recontro das forças de António Gonçalves da Câmara (c. 1500-1567) e dos Abreus, filhos de João Gonçalves do Arco, em apoio da irmã, Isabel de Abreu (c. 1500-1545), que ali se refugiara (SOUSA, 1997, 60). No corpo poente, encontra-se a larga porta de aparato de entrada, encimada por cornija, mas separada do arco da moldura e com o brasão de armas do proprietário, o morgado Luís Esmeraldo de Atouguia, datado de 1672. A porta dá acesso ao adro coberto calcetado e ao terraço que fica para sul, com magnífica vista sobre a antiga propriedade. A fachada poente deste corpo apresenta três pisos, reconstruídos em meados do séc. XVII, mantendo o piso inferior da campanha manuelina, e ainda se articula com o terraço frontal, gradeado e com o antigo moinho da propriedade.
09-moinho PA03006303-portal Solar Lombada Portal 210-Porta andar terreo SIPA

Não é fácil conjeturar a organização inicial do enorme solar, pois com as sucessivas obras de reconstrução e ampliação, é natural que determinados elementos arquitetónicos tenham sido deslocados e remontados. Tudo leva a crer que, da construção inicial dos inícios do séc. XVI, para além da torre senhorial, restem as ombreiras das portas do andar térreo, virado a sul, com vergas de madeira muito antigas. O conjunto edificado teve obras perto de 1600 e voltou a tê-las, pela mão do morgado Luís Esmeraldo de Atouguia, depois de 1697, em princípio, data em que negociou parte das propriedades do morgado para conseguir fazer a intervenção no edifício, embora o brasão sobre a entrada apresente data anterior: 1672.

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05-Fachada sul Solar Lombada PA030070

A reforma geral do conjunto deve ter ocorrido, assim, com as intervenções feitas entre 1697 e 1720, sendo administrador do morgadio, nesta última data, Cristóvão Esmeraldo de Atouguia e Câmara (1665-c. 1730), moço fidalgo da casa real e uma das pessoas mais prestigiadas do meio social madeirense da época. Foi este último morgado que assumiu a reconstrução da capela, em 1720, dotada de painéis de azulejos alusivos aos dons e frutos do Espírito Santo, atribuíveis à oficina de Bartolomeu Antunes e Nicolau de Freitas, da déc. de 1730 a 1740. A fachada virada a sul do solar, constituída por três corpos ao nível das coberturas, reconhecíveis pelas gárgulas na separação das águas, ficou então dotada de altos pisos, com um andar intermédio para serviços, de janelas de molduras boleadas, e um andar nobre superior, com varandas de sacada e remates por cornija relevada com balanço, mas molduras de cantaria igualmente de perfil boleado, ao gosto do séc. XVII.

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O conjunto ainda teve obras quando era administradora a “Ilustríssima Senhora Dona” Guiomar Madalena de Vilhena (1705-1789), dada a data inscrita no coro da capela do Espírito Santo: 1768. As obras devem ter-se estendido, depois, às salas adjacentes à entrada de aparato, pois está aí registado o ano de 1780. O morgadio passou, em seguida, para o seu sobrinho, João Esmeraldo de Carvalhal Atouguia e Câmara (1733-1790), que, embora sepultado na capela do solar, não parece ter ali feito obras, tal como os seus filhos: o coronel Luís Vicente (c. 1750-1798), falecido sem descendência, e o futuro conde de Carvalhal (1778-1837), que veio a ser sepultado na “sua” capela de S. João Batista, na Qt. do Palheiro Ferreiro.

No Funchal, e pouco depois do atribulado caso de António Gonçalves da Câmara e de Isabel de Abreu, ocorrido em 1531, restava o solar de D. Mécia, que deve ter sido um exemplo paradigmático das residências urbanas dos meados do séc. XVI, dado já se encontrar representado na planta de Mateus Fernandes (III), de 1570, e com o desenho aproximado com que chegou aos nossos dias. O inicial proprietário deste solar deve ter sido João de Ornelas Magalhães, que, em 14 de maio de 1555, foi nomeado alcaide da fortaleza do Funchal (ARM, Câmara…, tombo 2, fls. 31-31v), quando saiu para Lisboa o capitão e anterior alcaide Jerónimo Cabreira. Terão sido os seus descendentes, em princípio, que, em 1606, mandaram colocar o brasão sobre o portão de entrada, à R. dos Aranhas, com as armas dos Ornelas e Magalhães, embora também de outras famílias não identificadas. O solar apresenta planta composta por dois corpos, um dos quais quadrado, adossado para sul, confinando com a fachada e onde se situam os acessos por alpendre para o antigo andar nobre. O alpendre é dotado de balcão que se articula com o corrimão das escadas, sendo a entrada feita por arco ogival de cantaria, com moldura interior integrando colunelo ressalvada sem marcação dos capitéis. A importância do solar incidia sobre o conjunto de janelas tardo-góticas de enorme impacto decorativo, com pilastras de mármore importadas do continente, de bases e capitéis esculpidos, rematadas por complexas decorações de argamassa relevada e pintada, exemplares únicos na ilha.

 

Planta 1986
Planta do Solar D. Mécia

Apresentava interiormente um largo teto mudéjar, em caixotão, travado aos cantos por tirantes finamente esculpidos e assente em largos arcos ogivais de cantaria; teto que, infelizmente, ardeu após uma festa de carnaval, em fevereiro de 1957, tendo ficado apenas fotografias do mesmo.

Alcado a partir de fotogarfia 1986
Alçado a partir de fotografia, 1986.
Alcado oeste a partir de fotogarfia 1986
Alçado Oeste a partir de fotografia 1986

 

 

 

 

Teto solar-2-1950
Teto do Solar D. Mécia, 1950
Teto solar-3-1950
Pormenor dos Arcos Ogivais de Cantaria, 1950
solar apos inc 1957
Solar D. Mécia após o Incêndio, 1957.
Teto solar-1950
Teto e Arco Ogival, 1950

No entanto, parece que, pelos inícios do séc. XX, teria servido este teto de modelo ao da nova sala de jantar revivalista que o visconde da Ribeira Brava (1852-1918) mandou montar na sua casa de família na Madeira, edifício que no séc. XXI alberga a câmara municipal daquela vila.

O conjunto do solar ainda estava associado a uma capela, embora não diretamente, pois era um edifício independente e sem acesso imediato ao exterior. A capela era devotada a N. S.ª da Conceição e foi instituída, em 1662, por Rui Dias de Aguiar e sua mulher, Leonor de Ornelas Andrade Magalhães. Igualmente por esses anos, o solar terá tido obras, no final do corpo principal, a nascente, com a porta de moldura boleada no andar térreo articulada com a janela superior através de uma moldura global de cantaria vermelha de Cabo Girão, muito pouco comum na arquitetura regional. Esta janela parece ter sido aquela onde se encontrava D. Mécia, que deu nome ao solar, quando, a 7 de março de 1695, foi atingida por um tiro disparado por um franciscano que, na cerca do convento a par do solar, ao tentar matar um francelho que estava pousado numa árvore, matou a proprietária, como regista o padre-cura da sé, Francisco Bettencourt de Sá (ARM, Sé, Óbitos, 9, fl. 24). Mécia de Vasconcelos, herdeira do solar, casara a 1 de janeiro de 1666 com Manuel Ferreira Drumond, de quem teve larga geração, mas o desastre ocorrido em 1695 foi objeto de inúmeras conjeturas, dando até depois origem a romances.

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Solar de D. Mécia, actualmente, reabilitado para a sede da ACIF.

O solar, entre 1834 e 1848, foi residência do padre anglicano Richard Thomas Lowe (1802-1874), que, para além de notável botânico, foi capelão da igreja ritualista; por isso, nos anos seguintes, a propriedade foi sede daquela corrente dissidente da igreja anglicana. Mais tarde, de 1984 a 1999, o destino do solar de D. Mécia ocupou muitas páginas na comunicação social regional e nacional, começando naquele último ano a ser reabilitado para sede da ACIF.

Nas encostas do Funchal, ainda sobreviveram alguns exemplares de solares similares, do séc. XVII, levantados com base em capelas rurais e propriedades agrícolas (Arquitetura rural), posteriormente transformados em residência pontual dos instituidores e, com o tempo, em residência permanente dos proprietários subsequentes.

image_23265 Um desses casos envolve a propriedade de Duarte Mendes de Vasconcelos (c. 1500-1554), que possuía um moinho de açúcar sobre a ribeira de Santa Luzia (FRUTUOSO, 1968, 110), segundo filho de Joanne Mendes de Vasconcelos e neto de Helena Gonçalves da Câmara, filha de Zarco que, no fim da vida, instituiu o morgadio dos Reis Magos no limite da freguesia do Monte. Duarte Mendes de Vasconcelos já havia construído aí uma residência temporária, provavelmente para, no último ano de vida, em 1554, fundar no local a sede do morgadio que instituiu na freguesia do Monte e na capela dos Santos Reis Magos. A residência anexa foi depois ampliada, nos finais desse século ou inícios do seguinte, com um bloco residencial de três pisos e, muito presumivelmente, terraço sobre a cidade do Funchal, dada a fantástica vista do lugar. A residência ainda veio a ser ampliada, nesse séc. XVII, porventura quando o bloco inicial foi dotado de um complexo de cozinhas e importante chaminé, que, curiosamente, ficaram depois centrais no conjunto do edificado, pois em Setecentos ele cresceu para sul, com mais um corpo, e para norte, com outro, em seguida dotado de latadas e importante jardim. O conjunto impõe-se na paisagem como um quase “castelo roqueiro” (SILVA e MENEZES, 1998, III, 170), tornando-se num dos mais bonitos solares da área do Funchal e que, já nos inícios do séc. XVIII e quando era administrado por Jorge Correia de Vasconcelos, era uma nobre quinta (NORONHA, 1996, 194). Objeto de um muito especial cuidado dos seus proprietários dos sécs. XIX e XX, a família Baltasar Gonçalves, chegou aos nossos dias ainda com todas as janelas ao gosto de Seiscentos e Setecentos, com as vidraças sobrepostas às portadas, pormenor cada vez mais raro na ilha da Madeira.

Sobre o bairro de Santa Maria também levantou residência temporária o comerciante italiano Simão Acciauoli (c. 1470-1544). A propriedade, herdada depois pelo seu filho, o “nobre” Zenóbio Acciauoli (c. 1530-1598), como escreveu Gaspar Frutuoso (1968, 110-112, 338, 363 e 383), foi dotada de uma capela de N. S.ª da Natividade ou N. S.ª do Faial, em 1582. O templo, de pequenas dimensões, possui planta centralizada, em cruz grega, única na ilha, sendo coberta por falsas abóbadas e pináculos a rematar os cunhais. A cobertura ainda é interior às empenas, correndo as águas por caleira interior e gárgulas em cerâmica. A entrada é feita por um largo alpendre, por certo muito posterior, existindo inscrição latina sobre a porta com a data da fundação. O chão interior é coberto por azulejos monocromáticos, muito provavelmente portugueses e da época de construção da capela ou dos primeiros anos do séc. XVII. O conjunto de arquitetura residencial vernácula e maneirista é composto por vários corpos articulados, de diferentes épocas, e por uma torre sobrelevada, com fachadas rematadas, na sua quase totalidade, em beiral duplo. A fachada principal apresenta vãos sobrepostos, sendo os do andar nobre com janelas de sacada à face, encimadas por cornija, seguindo a linguagem maneirista, mas possuindo vãos de modinatura oitocentista nessa e noutras fachadas. Apresenta, para poente, um corpo mais recente, correspondente à zona de serviços e cozinha, com monumental chaminé e forno visível exteriormente. O conjunto residência e capela integra-se numa quinta madeirense organizada em socalcos, serpenteada por caminhos empedrados a calhau rolado, formando desenhos geométricos, delimitados por muros, integrando jardins, dentro da tradição romântica insular.image_23125

Do importante conjunto de arquitetura civil levantado no Funchal por esta época, do qual faz eco as Saudades da Terra, com largas referências a importantes paços, com salas de jogo da péla e amplos jardins, infelizmente e face à pressão urbanística dos séculos seguintes, poucos elementos chegaram aos nossos dias. As residências dos proprietários acima citados, aliás, de parentes seus, situavam-se na cidade, escrevendo Gaspar Frutuoso que na atual R. dos Ferreiros morava o “o generoso e rico” Zenóbio Acciauoli, que casara com a filha de Duarte Mendes de Vasconcelos, numa casa que ocupava todo o quarteirão, entre a atual R. do Bettencourt e a Trav. do Forno, onde tinha, inclusivamente, engenho de açúcar. Mais acima, antes da capela de S. Bartolomeu, onde hoje se levanta o Ateneu, refere o mesmo cronista que morava a viúva de Duarte Mendes de Vasconcelos, embora a denomine “Dona Maria”, quando se chamava Joana Rodrigues Mondragão, tendo falecido em 1598. A viúva vivia em “sumptuosas casas, dentro de uma cerca bem murada”, onde tinha um engenho e casas de purgar açúcar (FRUTUOSO, 1968, 111-113).

Na R. do Sabão vivia o alferes-mor e escritor Tristão Gomes de Castro (1539-1611), neto de Bárbaro Gomes (c. 1480-1544), que fora vedor da sé do Funchal, numas casas ricas de dois sobrados, com poço dentro, jardim e portas de serventia; herdara importante fortuna do pai, no Peru, como também refere Frutuoso, sendo inclusivamente a rua também designada por R. do Peru, mas de que nada deve ter chegado até nós. Nessa área, mas com serventia para a outra rua, ficavam as casas de João Esmeraldo, que passaram à história com a fama de terem sido também residência do aventureiro Cristóvão Colombo, mas de que quase só ficaram as fotografias. Todos os elementos da arquitetura civil manuelina e maneirista do centro da cidade foram, pois, sucessivamente reconstruídos.

Atribulada foi também a vida e o destino da chamada “Casa dos Cônsules”, uma das poucas construções senhoriais madeirenses que se assume barroca. O enorme edifício, considerando a escala da cidade, deve ter sido mandado levantar pela família do tenente-general Inácio da Câmara Leme (1630-1694), que morava naquela área, perto da déc. de 40 do séc. XVIII, embora mantivesse e inclusivamente tivesse reconstruído a chamada Qt. do Leme, a Santo António. Não possuímos, no entanto, qualquer documento sobre o início desta edificação, datando a primeira referência de cerca de 20 anos depois, quando, por volta de 1760, era sede dos consulados de França e de Inglaterra, daí lhe advindo o nome, sendo hoje Tribunal Administrativo e Tribunal de Primeira Instância do Funchal. A fachada à R. da Conceição apresenta portal simples, maneirista, mas de largo entablamento, com vivo relevado central e grande cornija de remate, sendo ladeado por óculos quadrilobados. O edifício possui três corpos aparentes com três pisos, dois ladeando o portal, de três janelas cada, e outro para sul, somente de duas janelas, que deve ter correspondido a uma área de serviços e onde se situava a capela interior, da qual também não conseguimos localizar documentação. O andar nobre apresenta janelas de molduras de filete exterior relevado, larga varanda de sacada “de barriga”, que entretanto perdeu a grade, sendo as janelas rematadas por frontão triangular, mas de linhas arqueadas e, superiormente, por pelouro. As janelas do andar intermédio de serviços apresentam lintel trilobado e parapeito saliente, com o pormenor interessante de se não articularem diretamente com a sacada superior, como acontece na maioria dos edifícios congéneres desta época.

Parece, assim, datar de entre os finais do séc. XVII e os inícios do XVIII a definição dos pisos térreos das principais residências dos proprietários terra-tenentes, incluindo os padres da Companhia de Jesus, especialmente dedicados à arrecadação de géneros e de pipas de vinho, dotados de óculos de arejamento gradeados, muitas vezes de recorte quadrilobado. A particularidade, provavelmente, de servirem de armazenamento ao vinho, definiu uma tipologia muito específica de sistemas de largas arcarias de cantaria, mas nascendo quase ao nível do solo, não assentes em impostas, que também conhecemos pontualmente nos Açores e nas Canárias, mas que quase desconhecemos no continente.

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Fachada Frontal do Quinta do Leme.

A configuração do solar urbano barroco e rococó aparenta definir-se nos inícios do séc. XVIII, como teria acontecido na reconstrução da antiga casa senhorial dos Leme, na freguesia de Santo António do Funchal. O morgadio foi instituído por Pedro de Leme, em 1550, com base numa capela dedicada ao mártir S. Filipe, cujo dia comemorativo é o mesmo de Santiago Menor, padroeiro do Funchal: o dia 1.º de maio. A capela já existia em 1536, mandada construir por António de Leme, e foi reedificada em 1654 pelo acima mencionado tenente-general Inácio da Câmara Leme. Todo o conjunto foi reconstruído em 1752, em virtude do estado de grande ruína em que o deixara o terramoto de 1748 (SILVA e MENEZES, 1998, III, 170). O solar da Qt. do Leme implanta-se em terreno sobrelevado, com dois corpos e capela no corpo mais baixo, com dois pisos, as janelas do piso nobre sem varanda de sacada, mas com cornija de balanço, parecendo terem recuperado molduras da construção de 1654, como acontece com o portal colocado a nascente. A capela insere-se a poente deste corpo e apresenta um portal barroco com pequenas aletas laterais e cornija de balanço sobre o qual assenta cartela com as armas dos Leme, articulando-se com a janela superior.

Pormenor do Portal Barroco, Quinta do Leme.

O edifício possui um segundo corpo mais elevado e adossado a norte, com a fachada para nascente, com duas altas janelas de sacada no andar nobre e mais um piso com janela à face no corpo posterior.

A partir de 1740, em princípio, e mais especificamente de 1750, quando se levanta o novo bloco do paço episcopal do Funchal, definiu-se um “modelo” de solar urbano de fachada de três pisos, com o térreo compreendendo um portal de aparato, embora discreto e quase sempre sem elementos heráldicos, ladeado por óculos quadrilobados. O acesso ao edifício é feito através de átrio, por vezes calcetado com calhau rolado, formando ou não desenhos, sendo o acesso ao andar superior feito por escadas. O piso intermédio é ocupado pelas dependências de serviços e o piso superior, andar nobre, possui janelas de sacada com grades de ferro, mais ou menos trabalhadas, e remate por cornija com balanço; o andar intermédio utiliza a sacada do andar superior como balanço. O interessante deste modelo é a ocupação do piso intermédio com as dependências de serviços, que no espaço nacional ficam geralmente no andar superior, denotando que no continente tal se processou por fases, enquanto no Funchal foi feito de raiz.

Este tipo de prédio senhorial pode ser observado em quase todas as principais artérias da baixa da cidade, desde a R. da Carreira até à R. do Surdo, R. de São Pedro, R. do Castanheiro, R. das Mercês, R. dos Ferreiros, etc., com mais ou menos variantes. Algumas estruturas podem ser simplificadas, como a pequena residência senhorial da R. das Mercês, logo antes do atual Colégio da Apresentação, onde, em vez de óculos, aparecem janelas gradeadas, uma delas articulada com a porta de entrada, ou podem também ser mais complexas, como a grande residência hoje ocupada pela Fundação Livraria Esperança, na R. dos Ferreiros, onde viveu Isabel Maria de Sá Acciauoli, mãe do coronel Luís Vicente e do primeiro conde de Carvalhal, propriedade que foi depois domicílio do Cón. Guilherme Allen, nos inícios do séc. XIX. Algumas destas residências quase parecem reproduções do paço episcopal, como duas ou três da R. da Carreira, em escala mais reduzida, claro, indiciando poderem ter seguido projetos do mestre das obras reais, Domingos Rodrigues Martins (c. 1710-1781) (Martins, Domingos Rodrigues). Outras, no entanto, assumem projeto independente, como a antiga residência da família Sauvaire da Câmara, na R. da Mouraria, com o corpo central torreado e de janelas totalmente articuladas, entre si e com o portal, sem andar de serviço aparente na fachada. Esta casa senhorial assume também o pormenor das sacadas das varandas do andar nobre não se articularem totalmente com as janelas e portas do piso térreo, mantendo um espelho intermédio de alvenaria pintada.

Os solares rurais, pela costa sul da ilha, apresentam-se geralmente com dois pisos, não havendo, assim, andares de serviço intermédios, salvo em raras exceções, como o caso do arruinado solar do Agrela, na praia dos Reis Magos, no Caniço.

Ruínas do Solar do Agrela.
Ruínas do Solar do Agrela.

Esta construção, de entre os inícios aos meados do séc. XVIII, apresenta inusitada volumetria e pujança, com o portal e as janelas dos dois andares superiores a articularem-se entre si na fachada sul, mau grado a degradação geral do conjunto, tendo já ruído, inclusivamente, um dos blocos edificados. Estes edifícios rurais incluem, por vezes, capela integrada à face da fachada, como acontece no pequeno solar dos Remédios, no sítio do Moreno, em Santa Cruz, com capela fundada pelo Cón. Manuel Ferreira Teixeira Calado, mas como uma ermida, ou seja, uma construção isolada e num lugar ermo. Pelos sécs. XIX e XX, foi levantado à sua volta o que hoje se denomina solar dos Remédios, integrado nas propriedades da família do Dr. Remígio Spínola Barreto, herdeiro do morgado de São Gil.

Solar do Agrela
Solar do Agrela

Não há uma definição concreta, assim, para o solar rural madeirense, embora grande parte apresente uma larga fachada corrida na paisagem, servindo de referência visual, mas, por vezes, tal quase não acontece, passando a edificação mais ou menos despercebida, como sucede com o pequeno solar da Referta, no Porto da Cruz. A construção da capela foi determinada pelo Cap. Manuel Moniz Teles de Meneses, em 1710, integrada no morgadio instituído pelo mesmo capitão, na casa da Alagoa, da mesma freguesia, que depois se chamou morgadio Torresão. A residência é mínima, quase só com um quarto e três janelas, podendo datar da reforma da capela ocorrida em 1770, como consta na sua fachada, altura em que se teria construído o pequeno anexo com forno.

Casa das Mudas
Casa das Mudas – BF

Outras construções, como o solar do Aposento, em Ponta Delgada, construído entre 1750 e 1800, são bem mais complexas, com vários corpos alinhados, um dos quais, mais ou menos central e torreado, num total de quatro, e com anexos de cozinhas em corpo posterior. Ao contrário, a antiga casa das Mudas, na Calheta, sede do vetusto morgadio de Vale dos Amores, situado no sítio da Vargem, Estrela, é uma edificação corrida, com janelas de varanda à face, entrada para o andar nobre por escada de dois lanços, a poente, e a área de serviços com o forno saliente, a nascente. O morgadio pertencia a Duarte de Brito e a Joana Cabral, neta de Zarco, nos finais do séc. XV e inícios do XVI, mas a edificação que chegou aos nossos dias é posterior a 1700.

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A arquitetura senhorial funchalense é sumariamente descrita pela atenta inglesa Isabella de França (1795-1880), no Journal da sua visita à Madeira, em 1853. Na retribuição das visitas de cumprimentos, a autora relata a maneira de se ser recebido no Funchal, com as expressões então em voga e, de uma forma geral, as habitações senhoriais, quase sempre de pessoas aparentadas com o marido, o morgado José Henrique de França (1802-1886), sete anos mais novo do que ela e já nascido em Londres. A sua apreciação, no entanto, enferma do olhar neoclássico britânico, em princípio, adquirido em casa do pai, o arquiteto Aaron Henry Hurst, de que conhecemos atividade entre 1778 e 1796. Nesse quadro, as melhores casas, se bem que muitas delas fossem bastante grandes, “nada oferecem como arquitetura”; uma ou outra possuíam uma entrada bonita “e pouco mais”. Descreve Isabella que as portas das grandes casas estavam normalmente abertas, deitando para um pátio interior, geralmente calçado, onde havia uma escadaria de pedra para acesso aos andares superiores.

casa das mudas_23928Existia, em geral, um batente ou uma campainha, mas também havia casas em que tal não acontecia, sendo então hábito bater com uma bengala ou com uma pedra na porta superior. Descreve a autora que, depois de insistir várias vezes, se ouvia “uma voz vinda de longe, do interior, a perguntar num queixume indescritível: Quem é?”. Antigamente respondia-se “Ave Maria puríssima”, ao que a voz replicava “Sem pecado concebida”, depois começou-se a utilizar como resposta: “Gente de paz”, mas então já se perguntava simplesmente: “A Sr.ª está em casa?”. Refere então que aparecia “quase sempre um exemplar curioso: ou uma mulher horrível […], ou um homem só com camisa e calças, de botas ou descalço, e com a barba por fazer desde o último domingo de manhã” (FRANÇA, 1970, 66).

Interiormente, no entanto, tudo mudava de figura. A escadaria de pedra terminava no primeiro patamar, de onde se ramificavam corredores para a cozinha e outras dependências melhores. O segundo lanço era de madeira, quase nunca atapetado e com uma cancela no final. Os melhores quartos situavam-se, geralmente, no segundo andar. Ao chegar ali, entrava-se logo para a sala ou passava-se através de dois e três salões para alcançar a sala de visitas. Estes compartimentos eram altos, com tetos de abóbada lindamente estucados. As janelas e as portas eram largas e havia sempre uma bandeira envidraçada por cima destas últimas, o que facilitava a iluminação. As paredes ora eram forradas de bom papel, ora eram pintadas de cores alegres e suaves, com uma guarnição de fantasia. Alcatifas e cortinas, do melhor que se produzia em Inglaterra. O mobiliário era também muito bonito e, com frequência, de fabrico local. As boas salas de visitas do Funchal não diferiam das salas mais aristocráticas de Londres, exceto em não ter fogão e fazerem um extraordinário contraste com os degraus nus e com os criados semidespidos. Mas, depois deste elogio, Isabella de França não resiste em declarar: “raros serão os quadros, e os que existem são tão maus que mais valia retirá-los” (id., 65-67).

Bibliog.: manuscrita: ARM, Câmara Municipal do Funchal, Registo Geral, tombo 2, fls. 31-31v; ibid., Sé, Óbitos, 9; ANTT, Corpo Cronológico, Fragmentos, 1-7; BNB, Cartografia, 1090203, Mateus Fernandes, Planta da Cidade do Funchal, 1567-1570; impressa: ARAGÃO, António, Para a História do Funchal: Pequenos Passos da sua Memória, 2.ª ed. revista e aumentada, Funchal, DRAC, 1987; id. (coord. e notas), A Madeira vista por Estrangeiros, Funchal, DRAC, 1982; id., O Museu da Quinta das Cruzes, Funchal, JGDAF, 1970; CARITA, Rui, Colégio dos Jesuítas do Funchal: Memória Histórica, Funchal, Associação Académica da UMa, 2013; id., História do Funchal, Funchal, Associação Académica da UMa, 2013; id., História da Madeira, vol. 1, 2.ª ed. revista e atualizada, Funchal, SRE, reedição, 1999; id., “O Solar de D. Mecia”, Islenha, n.º 25, jul.-dez. 1999, pp. 59-65; id., A Arquitectura Militar na Madeira nos Séculos XV a XVII, Lisboa e Funchal, [Oficinas Gráficas do Exército], 1998; id., História da Madeira, vol. 3, Funchal, SRE, 1991; id., A Capela de Nossa Senhora dos Remédios em Santa Cruz da Ilha da Madeira (1690), Câmara Municipal de Santa Cruz, 1990; id., O Regimento de Fortificação de D. Sebastião (1572) e a Carta da Madeira de Bartolomeu João (1654), Funchal, Centro de Apoio Universitário, SRE, 1984; id., Introdução à Arquitectura Militar na Madeira. A Fortaleza-Palácio de São Lourenço, Funchal, DRAC, 1981; COSTA, José Pereira da, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Século XV, CEHA, Funchal, 1995; FRANÇA, Isabella de, Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal, 1853-1854, Funchal, JGDAF, 1970; FRUTUOSO, Gaspar, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968; LEITE, Jerónimo Dias, Descobrimento da Ilha da Madeira, Lisboa, Alfa, 1989; id., História do Descobrimento da Ilha da Madeira e Discurso da Vida e Feitos dos Capitães da Dita Ilha, Coimbra, FL, 1949; MESTRE, Victor, Arquitectura Popular da Madeira, Lisboa, Argumentum, 2002; NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal, 1722, Funchal, CEHA, 1996; SILVA, Fernando Augusto da, A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira, Funchal, F. A. Silva, 1933; SILVA, Fernando Augusto da, e MENEZES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998; SOUSA, João José Abreu de, “D. Isabel de Abreu a António Gonçalves da Câmara. Mito, Poesia e História”, Islenha, n.º 21, jul.-dez. 1997, 59-62; TRINDADE, Ana Cristina Machado, ‘Plantar Nova Christandade’: um Desígnio Jacobeu para a Diocese do Funchal. D. Frei Manuel Coutinho, 1725-1741, Funchal, DRAC, 2012; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Funchal, SRTC, DRAC, Funchal, 2000; id., “O Palácio da Rua do Esmeraldo: Algumas Achegas para a sua História”, Islenha, n.º 11, 1992, pp. 104-112.

Rui Carita

(atualizado a 27.02.2016)