arquitetura

Muitos autores consideram a arquitetura como a primeira das artes em termos de relevância social, dado o seu alargamento ao urbanismo e à arquitetura paisagista, com todos os trabalhos de remodelação de terrenos e de sistematização da paisagem, etc. Neste caso, teríamos de tratar toda a Madeira e Porto Santo como uma unidade, com a construção das levadas, socalcos, pequenas e grandes construções habitacionais, pequenas e grandes replantações florestais, numa obra grandiosa no seu conjunto, que teria por objeto a obra-prima do trabalho criativo madeirense na modelação da paisagem.

Levada
Levada

Mas consideremos apenas a arquitetura na sua definição mais simples, ou seja, como a construção de um abrigo para o indivíduo, para a coletividade ou para as suas funções e, simultaneamente, como uma expressão da cultura e modo de viver desse indivíduo e dessa coletividade.

Nos primeiros tempos de povoamento, logicamente, a arquitetura não se encontrava ligada à ideia de um arquiteto, de um responsável pela tarefa de síntese da obra construída, tal como hoje entendemos, pois tratava-se de uma função perdida no anonimato dos operários e artífices, quando não na própria família que erigia a sua habitação. Aliás, a individualização do artista, do criador intelectual, é recente e desenvolveu-se ao longo do séc. XVI, essencialmente na pintura, numa época em que começou a haver uma responsabilização verdadeira neste sentido, com a consequente assinatura da obra e espírito de paternidade artística, o que não acontecia até então.

É na arquitetura popular e primitiva das zonas rurais (Arquitetura rural; Arquitetura tradicional/popular), como Santana e São Jorge, mas não só, que poderemos procurar as primeiras construções madeirenses, quase totalmente desaparecidas dos principais centros urbanos. Estas áreas do norte da ilha, mais pobres e com dificuldades de acesso ao mar, conseguiram preservar as formas iniciais de habitação, o que não foi possível nos outros locais. Santana, p. ex., terra essencialmente de trigo e milho, com dificuldades na obtenção de pedra, preservou mais as habitações de madeira e colmo até aos nossos dias do que as outras freguesias, onde os sucessivos booms económicos do açúcar, do vinho, da banana e do turismo quase as fizeram desaparecer.

O próprio Funchal foi, inicialmente, um burgo de madeira, tendo-nos chegado algumas referências às primeiras alterações feitas para erigir construções mais sólidas e seguras. Assim, informa-nos Jerónimo Dias Leite que a primeira casa de pedra que se fez, depois de acabadas as igrejas, foi a de Constança Rodrigues, filha de Diogo Afonso de Aguiar e neta de Zarco, junto à antiga igreja de S. Pedro, depois de S. Paulo. Constança Rodrigues não tinha casado e ficara a viver com os avós, pelo que a construção da casa em questão deve datar de pouco depois de 1471, ano provável da morte de Zarco. Dias Leite também informa que, pouco depois da construção da casa de D. Constança e junto ao denominado campo do Duque, se fez a primeira casa sobradada, obra que terá sido executada em 1475. Mandou-a construir João Manuel, de cedro branco da ilha (cedro lavrado), e terá sido tomada ao tempo por grandiosa e admirável, uma vez que todas as outras casas que havia no local eram térreas e de tabuado, o que deu origem a capítulos ao rei contra o dito João Manuel, acusando-o de que fazia torre, onde parecia que queria fazer um forte e levantar-se contra o Funchal e contra a coroa. Mais acrescenta Jerónimo Dias Leite, adiantando que a dita casa ainda estava de pé em 1574 e que era seu proprietário António de Carvalhal, sendo então essa a residência de sobrado mais baixa que havia naquela área do Funchal.

Eram assim estas primeiras casas executadas em madeira de tabuado e cobertas a colmo, provavelmente, muito semelhantes às que ainda hoje existem em Santana, de certo gosto gótico e telhado de duas ou três águas. Mais tarde, com a necessidade de construção do sobrado, ter-se-á evoluído para a obra em pedra não aparelhada, usada inicialmente sem qualquer cimento ou argamassa e somente para apoio do mesmo sobrado. Refere ainda o Cón. Jerónimo Dias Leite que havia muita madeira na ilha, que se serrava com engenhos de água, de que aliás ficaram alguns topónimos, como Serra de Água, em várias freguesias, onde se obtinham grandes traves, mastros, chaprões, etc., que se levavam para muitas partes do continente. Acrescenta o cronista que, da banda do sul, não era tanta a madeira, porque se queimou muita, e a outra se gastava nos engenhos de açúcar, que todos usavam desse lado da ilha, como se confirma na documentação camarária (ABM, 1972, 38, 133 e 155). Havia, entretanto, na parte do norte, grande número de engenhos de água sempre a serrar, e as árvores eram aí de tal modo grossas e crescidas que um til, achado no Funchal, se mostrou demasiado largo para 10 homens juntos, com os braços dados, o conseguirem abraçar. A árvore em questão fazia tanta copa, no descrever do cronista, que cobria a área da cadeia velha, indo da ribeira de João Gomes à de Santa Luzia, o que, por certo, será exagero do autor.

A construção especificamente em madeira e coberta a colmo provava-se muito perigosa, tendo chegado a arder quarteirões inteiros, como aconteceu no centro da cidade, nos finais do séc. XVI, numa área onde ainda hoje se encontram as ruas da Queimada de Cima e da Queimada de Baixo. Aliás, já em 1470, o duque D. Fernando determinou que se descobrissem de palha e cobrissem de telha todas as casas da R. dos Mercadores, então um troço da atual R. de Santa Maria. Saliente-se que os moradores mostraram, na câmara do Funchal, uma certa resistência a essa determinação, alegando a dificuldade que teriam, nesse inverno de 1470, em transportar as madeiras pelo mar, assim como em obter telha e cal para a reforma determinada. A cal era essencialmente importada do Porto Santo, vindo a telha muitas vezes do continente e até de Castela, como referem testamentos dos finais do séc. XV. Também de Castela vinha material para canalizações, além de olaria diversa.

A mais antiga edificação que chegou até nós deve ser uma pequena casa de planta quadrangular, com uma porta de arco ogival e duas seteiras, ao alto de Santo Amaro, conhecida como “Torre do Capitão”, nome que não deve indicar o seu proprietário inicial, mas sim um dos capitães de ordenanças seu descendente ou um novo proprietário (Arquitetura senhorial). Terá pertencido a Garcia Homem de Sousa, genro de Gonçalves Zarco, pois Gaspar Frutuoso, ao referir-se-lhe nas Saudades da Terra, escreveu que, por ter diferenças com seus cunhados, teria feito essa torre, então junto da antiga capela da Madre de Deus que ali existia (FRUTUOSO, 1968, 217-218), tendo passado depois à evocação de S.to Amaro. Apresenta ainda hoje fortes cunhais, sinal provável de ter sido mais alta do que atualmente é, compreendendo agora um único piso. Aliás, as duas cantarias horizontais acima da porta ogival sugerem ter havido ali uma varanda, mas de construção posterior. Além de ser a edificação mais antiga da Madeira, é uma das mais antigas da expansão europeia do séc. XV.

Seteira Torre do Capitao
Seteira Torre do Capitao
Seteira Torre do Capitao
Seteira Torre do Capitao

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

torre do capitao 1940
torre do capitao 1940
Torre do capitao 1980
Torre do capitao 1980

 

 

Torre do Capitao 1989
Torre do Capitao 1989

 

Torre do Capitao 2000
Torre do Capitao 2000

Tal como os genros de Zarco, outros fidalgos da Madeira terão tido as suas casas fortificadas, nomeadamente os Abreus, na Lombada do Arco, em 1531, onde sabemos terem ocorrido recontros militares, inclusive com peças de artilharia, situação que levou a reparos régios. Também as casas de João Esmeraldo, na Lombada da Ponta do Sol, devem ter sido fortificadas, até porque o fidalgo esteve envolvido nos referidos recontros de 1531, tal como as dos Freitas, em Santa Cruz, e as dos Vaz Teixeira, de Machico, entre outros, num complexo de edificações que não chegou aos nossos dias.

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Janela dita de Colombo 1495

Desconhecemos a situação da construção na ilha do Porto Santo durante o séc. XV, embora tenham chegado até nós, no edifício que em meados do séc. XX servia de residência paroquial e onde hoje se encontra instalado o Museu Colombo, duas janelas góticas de alvenaria de tijoleira datáveis da segunda metade de Quatrocentos. Tudo leva a crer que possam ter pertencido à habitação de Bartolomeu Perestrelo nas suas deslocações pontuais à capitania, pois que nunca aí residiu em permanência, devendo datar, no entanto, de algumas décadas após a sua morte. A ideia de poder ter servido como casa a Cristóvão Colombo é dificilmente sustentável, pois quando o navegador casou com Filipa Moniz, filha do primeiro capitão do Porto Santo, em 1479, já Bartolomeu Perestrelo tinha falecido, e a viúva, em 1458, com autorização do infante D. Henrique e do rei D. Afonso V, vendera a capitania a Pedro Correia, capitão do donatário da ilha da Graciosa, nos Açores. Bartolomeu Perestrelo (II), alguns anos mais tarde, haveria de recuperar a capitania, mas então também já Cristóvão Colombo havia falecido. Os biógrafos do almirante, no entanto, dão o filho de Colombo e de Filipa Moniz como tendo nascido em Lisboa ou no Porto Santo, entre 1479 e 1480, mas mais por tradição oral, com certeza, do que por verdade histórica.

A ilha do Porto Santo desenvolveu uma arquitetura popular própria, utilizando barro para cobrir as casas de habitação, estábulos e outras construções de apoio, constituindo as denominadas casas de salão. Este tipo de construção não existe no continente nem na vizinha ilha da Madeira, mas é muito comum nas Canárias, especialmente em Tenerife, e em outras ilhas mediterrâneas, como Creta, todas com condições climatéricas semelhantes. As casas de salão integram-se de maneira muito especial na paisagem, aproveitando os suaves declives locais, com o terreno a ser parcialmente escavado para a construção. A cobertura, de uma ou duas águas, fica assim quase ao nível do terreno posterior, podendo-se passar a pé do mesmo para cima dela, facilitando assim a manutenção das coberturas de barro.

Com o aumento do povoamento e das estruturas concelhias, principalmente no Funchal, começam a ser os próprios duques, administradores da Ordem de Cristo, primeiro D. Fernando e depois o seu filho D. Manuel, a incentivar as obras nos concelhos, designadamente as acessibilidades, de que são exemplo a construção de pontes e o calcetamento de algumas ruas (Urbanismo). Com a orientação de D. Manuel, foram levantados, no Funchal, os edifícios da câmara e o paço dos tabeliães, prontos em 1492; o convento de S.ta Clara, concluído em 1496; a igreja nova, iniciada em 1493, ainda em obras depois de 1514 (data em que se rematou a torre com coruchéu), vindo a servir de sé (); o hospital da Santa Casa da Misericórdia e a Alfândega nova, mandados levantar em 1508. Estas obras representaram pesados encargos e realizaram-se numa altura de crise açucareira, tendo-se executado tudo por pressão de D. Manuel, principalmente a construção da futura sé do Funchal, estruturante de todo o projeto urbanístico da cidade, o mesmo se tendo passado em Santa Cruz, onde, por volta de 1502, se levantou a igreja matriz do Salvador, seguindo uma estrutura semelhante à da sé e que estaria pronta por volta de 1511, quando ali começaram a funcionar os serviços religiosos, havendo quitações, nos anos seguintes, das despesas efetuadas.

Do hospital manuelino do Funchal, mandado levantar em 1508, terão ficado as duas grandes janelas geminadas, hoje remontadas no parque arqueológico do Museu das Cruzes; resta ainda uma outra desse cariz, numa quinta particular, a Qt. da Palmeira, e que pertenceu à chamada “Casa de Colombo”. As construções dessa área tinham sido adquiridas por João Esmeraldo, por volta de 1493, tendo depois ali executado obras o pedreiro Gomes Garcia. Este mestre estava a trabalhar no local a 10 de setembro de 1495, altura em que se comprometeu, com a câmara do Funchal, a executar obras nas fontes de João Dinis, junto às casas do capitão (Fortaleza e palácio de S. Lourenço).

 

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Casa Colombo de João Esmeraldo
casa Colombo Porto santo
Casa Colombo Porto Santo

Das várias câmaras municipais quinhentistas, em princípio, só resta a de Santa Cruz, com o seu muito bonito portal, encimado pelas armas de D. Manuel, mas que não temos a certeza de ser o original, tal como as duas grandes janelas geminadas, demasiado altas para uma construção dos inícios do séc. XVI, devendo ter sido alteadas e reformuladas posteriormente. Da época da reforma urbanística do Funchal determinada por D. Manuel, subsistiu parte da importante obra da Alfândega nova, que se seguiu à construção da sé e para a qual transitou a equipa do mestre das obras reais, Pero Anes.

Do importante conjunto de arquitetura civil levantado em toda a Ilha por esta época, do qual faz eco Saudades da Terra, com largas referências a importantes paços, possuidores de salas de jogo da péla e amplos jardins, infelizmente e face à pressão urbanística dos séculos seguintes, poucos elementos chegaram aos nossos dias. Salvo o solar de D. Mécia, que ainda chegou aos finais do séc. XX com parte da estrutura edificada nos meados de Quinhentos, e que foi então substituído por uma cópia revivalista, ou salvo as casas de João Esmeraldo, que passaram à história com a fama de terem sido também residência do aventureiro Cristóvão Colombo, e de que quase só ficaram as fotografias, praticamente tudo foi sendo sucessivamente reconstruído. Mas subsistiram, em particular na costa sul da ilha, alguns elementos arquitetónicos, como as pequenas portas góticas de Machico e de Santa Cruz, e uma ou outra janela ou porta no Funchal, nomeadamente, nas ruas Direita, dos Barreiros, dos Netos, da Conceição e do Esmeraldo.

 

Portal lateral Loreto
Portal lateral Loreto
Janela manuelina da Rua dos Netos
Janela Manuelina da Rua dos Netos
porta manuelina-Loreto
Porta Manuelina-Loreto
Porta manuelina de Machico 1520
Porta Manuelina de Machico 1520
Porta Rua dos Barreiros 1520
Porta Rua dos Barreiros 1520

A construção civil divulgou, a partir dos meados do séc. XVI, a utilização de ombreiras chanfradas, simplificando progressivamente os lintéis, podendo ter restado elementos desses anos nas edificações da Trav. do Forno, no Funchal, que um desenho de Max Römer da déc. de 40 do séc. XX apresenta com um largo arco gótico. Em Santa Maria Maior, na Trav. das Torres, subsiste uma pequena construção de carácter popular, com janelas geminadas de mainel chanfrado, que poderá ser uma das mais antigas deste bairro, embora tenha sido sucessivamente reconstruída nos tempos seguintes.

Casa da Travessa das Torres
Casa da Travessa das Torres

Na atual R. D. Carlos, na esquina com a R. dos Barreiros, subsiste também uma janela geminada com porta, datável da transição para o séc. XVII, hoje integrada numa complexa construção torreada, sensivelmente dessa época, mas que se articula com uma outra, já bem do séc. XVIII, face à escala, senão mesmo dos inícios do XIX, quando foi reformulada toda a área, na sequência da aluvião de 1803. Interiormente, este conjunto edificado apresenta preexistências mais antigas, com estruturas de madeira que mostram vestígios de pintura, provavelmente dos inícios ou meados de Quinhentos. Na continuação da fachada desta construção, para a R. dos Barreiros, existia uma pequena janela do séc. XVI que recentes obras de reabilitação geral do conjunto substituíram por uma cópia.

O bairro de Santa Maria Maior, que desde o início do povoamento acolheu sobretudo artesãos, teve também outro tipo de ocupação, pontual e mais senhorial, como provam alguns edifícios de certo porte, mas datados de épocas mais avançadas, nomeadamente, sécs. XVII e XVIII. Resiste, entretanto, na R. de Santa Maria e na entrada do Lg. do Corpo Santo, uma gárgula em forma de canhão, dos finais do séc. XVI ou inícios do seguinte, que parece ter pertencido a uma residência de certo aparato.

 

gargula do Corpo Santo
Gárgula do Corpo Santo
Fornos do Corpo Santo
Fornos do Corpo Santo
Fornos do Corpo Santo
Fornos do Corpo Santo

No mesmo largo, subsiste igualmente aquilo que parece terem sido fornos comunitários, neste caso duplos, colocados ao nível do primeiro piso e estranhamente salientes à residência onde hoje estão integrados. Um desenho de Eduard Hildebrandt (1817-1868), viajante dos meados do séc. XIX, regista um forno semelhante, então localizado em “Oriental Street Scene”; um outro existia ainda, por volta de 1980, na R. dos Aranhas.

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Janela da gárgula
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Oriental Street Scene de Eduard Hildebrandt (1850)

As primeiras grandes alterações urbanísticas e arquitetónicas do Funchal surgiram na segunda

Torre do colegio 1575
Torre do colegio 1575

metade de Quinhentos, em concreto, após o saque de corsários franceses de 1566, quando foi destacado para a Madeira um habilitado mestre das obras reais, Mateus Fernandes (c. 1540-c. 1597), responsável pelo projeto de fortificação da cidade e, depois, pela sua execução, mas que dentro das suas funções estendeu a atividade às restantes obras executadas com dinheiros públicos, designadamente as camarárias e as religiosas. Este mestre acompanhou, p. ex., os vários planeamentos para o Colégio dos Jesuítas, sendo, por certo, o autor da torre; deu parecer sobre obras camarárias; forneceu projetos para várias igrejas e executou inclusivamente desenhos para retábulos, mas os trabalhos que subsistiram devem ser, essencialmente, os militares (Arquitetura militar). Alguns pormenores da ala do Colégio dos Jesuítas que está voltada para a R. do Castanheiro devem ser da sua autoria, assim como o desenho da fachada da igreja, embora dentro dos modelos arquitetónicos divulgados pela Companhia à época e apesar de apenas ter sido iniciada em 1629, tal como a igreja matriz de São Pedro, que, construída na déc. de 90 do séc. XVI, deve ter mantido o desenho por si executado por volta de 1570.

Seguiu-se o mestre Jerónimo Jorge (c. 1570-1617), em 1575, que teve uma presença intermitente na ilha, fruto dos inúmeros conflitos em que se viu envolvido na disputa dos dinheiros da imposição, montantes utilizados para as obras públicas que o governador entendia serem para a defesa militar e a câmara para as muralhas das ribeiras. Para além da obra do novo baluarte da fortaleza de S. Lourenço, que deu nome à mesma e que acabou por ter a designação de baluarte do castanheiro, estendeu a sua atividade às obras civis e religiosas, de que a mais identificável na atualidade é o conjunto da loggia maneirista do antigo paço episcopal e a capela de S. Luís de Tolosa, que levantou entre 1600 e 1609. O seu trabalho foi continuado pelo filho Bartolomeu João (c. 1590-1658), ao qual muito poucas obras, para além das militares, se podem atribuir com segurança.

Das construções civis urbanas dos sécs. XVI e XVII, ficou, na R. da Carreira, uma interessante varanda de três arcadas de volta perfeita em cantaria rija insular que descarregam em pilastras chanfradas e pequenas bases relevadas, sendo o conjunto rematado por cornija e assente em balcão igualmente relevado. Interiormente, esta arcada parece ter correspondência para poente através de uma porta de moldura de cantaria idêntica, com largo lintel e decoração por arquivolta relevada. Esta varanda encontra-se integrada na antiga Photographia Vicentes, hoje museu, podendo a porta inferior de acesso ao pátio ser mais ou menos contemporânea da varanda, dado apresentar moldura chanfrada; todo o resto do edifício é predominantemente oitocentista, período a que corresponde a sua utilização como estúdio de fotografia.

 

varanda dos Vicentes
Varanda dos Vicentes
Varanda dos Vicentes
Varanda dos Vicentes

A partir da déc. de 60 do séc. XVII, a costa sul da ilha, e não só, apresenta um interessante surto construtivo, essencialmente motivado pelo aumento da exportação do vinho e do comércio geral atlântico, onde participaram ativamente os madeirenses. Algumas antigas residências senhoriais rurais foram reformuladas por estes anos, como o solar dos Esmeraldos, na Lombada da Ponta do Sol, praticamente o único que chegou até nós com a designação de solar e que, depois de ter tido obras, por volta de 1600, foi objeto de uma ampla intervenção, em cerca de 1679, e de outra no século seguinte. No entanto, as principais famílias terra-tenentes foram, entretanto, fixando-se, progressivamente, na cidade do Funchal, deixando as antigas residências para temporadas estivais esporádicas.

Ao longo do séc. XVII, levantaram-se inúmeras residências senhoriais no Funchal, mas muito poucas terão mantido as estruturas iniciais, salvo provavelmente a da família Ornelas, à R. do Bispo, embora com ampliações posteriores. Uma das residências reformuladas nos meados de Seiscentos terá sido a ocupada pelo estanco do tabaco, onde terá vivido o importante comerciante Mateus da Gama, tal como o intérprete dos navios estrangeiros, o poeta Manuel Tomás (1585-1665), na rua que ficou com essa denominação, a R. do Estanco Velho.

 

Janela Estanco Velho
Janela Estanco Velho
Estanco velho
Estanco velho
Estanco Velho
Estanco Velho

O conjunto terá reaproveitado estruturas anteriores, possivelmente ainda do séc. XVI, dado o lintel de gosto manuelino de uma das janelas e a utilização de impostas chanfradas, tal como cantarias boleadas, em outras, a que se deu uma aparente uniformidade, entre os meados e os finais de Seiscentos. A leitura do prédio de serviços e habitação do edifício da R. do Estanco Velho, com a utilização de amplos óculos nos pisos superiores, indicia que estes deveriam servir para arejar os armazéns de tabaco. Nos anos seguintes, os óculos, com uma dimensão menor, utilizaram-se para a iluminação de escadas e, de forma mais alargada, quase sempre gradeados, visando o arejamento dos pisos térreos, habitualmente usados como lojas de arrecadação de cereais e de outros víveres e também para armazenar pipas de vinho.

O antigo edifício do estanco do tabaco deve ter passado por inúmeras alterações, vindo a ser dotado de torre de ver o mar, aspeto que só deve ter começado a tomar conta da paisagem urbana nos meados desse séc. XVII, tendo o destaque até então sido das torres das igrejas. A utilização de torres nos edifícios dos grandes proprietários e comerciantes era essencial para a visão do movimento marítimo na baía do porto do Funchal, ficando assim os mesmos a saber quais as embarcações que entravam e, por conseguinte, que produtos deviam ultimar para exportação. Será posterior ao séc. XVIII a instalação de postos de vigia nas encostas da baía, quer no Palheiro Ferreiro quer na área de Avista Navios, denominação que prevalece ainda para a Nazaré, na freguesia de São Martinho, de onde se enviava informação aos comerciantes no centro do Funchal, primeiro por estafeta e depois por sinais de bandeira.

O sistema de comunicação das entradas dos navios instituiu-se entre os finais do séc. XVIII e os inícios do XIX com a construção do Pilar de Banger. O pilar foi levantado em 1798, pelo comerciante inglês John Light Banger, para servir de cabrestante para as mercadorias das embarcações comerciais fundeadas na baía, mas o aumento exponencial do calado das mesmas nesses anos impossibilitou, então, a utilização inicialmente prevista. Dada a sua monumental altura (30 m) e localização, o pilar passou a ser utilizado para o registo dos navios que entravam na baía, hasteando a bandeira da companhia dos mesmos, uma informação que se recebia do alto do Palheiro ou do alto de Avista Navios. Este pilar haveria de se constituir quase como ex-libris da cidade, pelo que a sua demolição para a construção da futura Av. do Mar, nos anos 30 do séc. XX, foi alvo de enorme contestação.

A arquitetura madeirense, como também muita da demais arquitetura portuguesa, não assimilou os parâmetros de gosto do barroco internacional, ficando-se por uma grande contenção exterior, de tradição maneirista austera, embora multiplicada em escala; mas o mesmo não se verifica no interior, de grande exuberância decorativa. A igreja madeirense preservou e acautelou o seu património construído, porém, tal não aconteceu com a sociedade civil, excecionalmente móvel e fluida, dividida entre interesses comerciais por vários continentes e altamente influenciável por todas as modas vindas de fora. O gosto barroco concentrou-se, assim, no empolamento de alguns portais de capelas, com entablamentos complexos e frontões curvos, como mostra a de S.to António da Mouraria, levantada no pátio da Alfândega do Funchal, provavelmente sob projeto do capitão e mestre das obras reais Inácio Gomes Fragoso, em 1715 (Arquitetura religiosa).

 

Portal Ornelas
Portal da residência dos Ornelas, Rua dos Bispo
Portal St antonio mouraria 1715
Portal da capela de Stº António da Mouraria 1715
Portal mis Funchal
Portal antiga Misericórdia do Funchal

 

 

Remate portal mis funchal
Remate do Portal da antiga Misericórdia do Funchal
Mis Funchal 1925
Misericórdia do Funchal 1925

 

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Portal da antiga capela Sta Isabel
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Residência da família Ornelas, Rua do Bispo – 1950

De uma forma geral, a animação do barroco internacional aparece na arquitetura madeirense somente em meados do séc. XVIII e, talvez mais especialmente, nas obras realizadas após o terramoto de 1748, conduzidas pelo capitão e mestre das obras reais Domingos Rodrigues Martins (c. 1710-1781), muitas das quais já anunciando o rococó.

Residências de certo aparato, como a casa que pertenceu à família Tomaszewski e depois aos Ornelas e Vasconcelos, edifício que deve datar de 1700 e que é hoje sede do Instituto de Gestão da Água, apresentam-se exteriormente com uma austera fachada maneirista. O gosto barroco aparece timidamente na cachorrada de suporte das varandas do andar nobre desta edificação, já mais complexas, e nas molduras das janelas do mesmo andar, que devem pertencer a uma campanha de obras posterior. O mesmo esquema aparece no palacete do capitão Nicolau Geraldo de Freitas Barreto, levantado por volta de 1740, que foi remodelado em 1989 para servir de sede à Marconi, depois de ter sido pasto das chamas, em 1986, sendo hoje utilizado pelo Tribunal de Contas do Funchal. Apresenta uma longa fachada de 10 janelas altas e com varanda gradeada, e um complexo portal com largo entablamento, sobre o qual assenta um nicho que terá albergado as armas do capitão Nicolau Geraldo, que se repetiam no teto da capela interior.

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Tribunal de Contas_3287
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Casa dos Tomaszewski
Casa dos Tomaszewski
Casa dos Tomaszewski

 

No Funchal, também a casa dos Cônsules se afasta desses pressupostos, sendo das poucas construções senhoriais assumidamente barrocas. O edifício, enorme para a escala da cidade, deve ter sido mandado levantar perto da déc. de 40 do séc. XVIII, pela família do tenente-general Inácio da Câmara Leme, que tinha tido residência naquela área; mas não possuímos qualquer documento sobre o início da edificação, sabendo apenas que, por volta de 1760, era sede dos consulados de França e de Inglaterra, daí lhe advindo o nome. A fachada apresenta um portal simples, maneirista, ladeado por óculos quadrilobados, com dois andares com janelas de molduras de cantaria com lintel trilobado, sendo as do andar nobre dotadas de varanda de sacada de barriga e encimadas por frontão triangular, mas de linhas arqueadas e rematado superiormente por pelouro.

Deve datar de entre os finais do séc. XVII e os inícios do XVIII a definição dos pisos térreos das principais residências dos proprietários terra-tenentes, incluindo as dos padres da Companhia de Jesus, especialmente dedicadas à arrecadação de géneros e das pipas de vinho e geralmente dotadas de óculos de arejamento gradeados. A particularidade de servirem de armazenamento ao vinho, provavelmente, definiu uma tipologia muito específica do sistema de suporte dos pisos superiores, caracterizada por largas arcarias de cantaria que nascem quase ao nível do solo, não se encontrando assentes em impostas, um modelo que encontramos também, pontualmente, nos Açores e nas Canárias, mas que quase desconhecemos no continente.

A primeira edificação levantada após o tremor de terra de 1748 foi o paço episcopal (Paço episcopal), projetado pelo já referido mestre das obras reais Domingos Rodrigues Martins. O edifício está datado no portal, de 1750, tendo servido de modelo à arquitetura senhorial urbana erigida nos anos seguintes. Nas décs. de 50 e de 60 do séc. XVIII, levantaram-se edifícios semelhantes, com uma ou outra variante, na R. dos Ferreiros e na R. da Carreira, entre outras, definindo assim uma nova arquitetura, de gosto rococó, que ficou igualmente patente na reconstrução da futura igreja matriz de Santa Maria Maior, à época, igreja camarária de Santiago Menor, que serviu de exemplo a outros templos.

Até então, os modelos arquitetónicos mantiveram-se presos a um gosto austero, a que não foi estranha a passagem pelo Funchal, entre 1725 e 1741, do bispo jacobeu D. Fr. Manuel Coutinho (1673-1742). Tal estética pode ser observada nos edifícios do cabido e da sacristia nova da sé do Funchal, projetos do mestre das obras reais Diogo Filipe Garcês (c. 1680-c. 1744), de 1732, e na monumental igreja rural de São Jorge, com risco do mesmo mestre e execução de Pedro Fernandes Pimenta, templo cujas obras começaram em 1737, estando a capela-mor levantada e já em serviço no ano de 1743, embora a sagração só viesse a ocorrer em 1761.

Os finais do séc. XVIII devem ter definido o modelo das casas torreadas madeirenses que viria já da centúria anterior, um aspeto não muito comum no continente e que na ilha apresenta alguma originalidade, com as torres a serem frequentemente montadas sobre a fachada, dotadas de varanda e com mais um ou dois pisos que o último andar geral do edifício. Em outros casos, as torres surgem recuadas, exibindo quase sempre um enorme volume e impacto visual. Muitas vezes designadas por torres de ver o mar, teriam sido, numa primeira fase, abertas para sul, como ainda acontece no paço episcopal, depois fechadas a madeira e, mais tarde, passadas a alvenaria rebocada de pedra e cal. Refere Isabella de França (1795-1880), em 1853, que as melhores casas tinham uma torre, da altura de três a quatro andares, o último dos quais era um quarto com janelas em toda a volta “para se apreciar o panorama” (FRANÇA, 1970, 65).

 

Casas torreadas Rua carreira 1720_23098
Casas Torreadas Rua carreira 1720
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Casa Torreada
Casa torreada
Casa Torreada

Entre os finais do séc. XVIII e os inícios do XIX ter-se-ão configurado as atuais coberturas por telha de canudo, assentes ou não em cornija de cantaria, elementos que anteriormente não ultrapassavam as empenas das fachadas, correndo as águas em caleiras interiores e saindo através de gárgulas mais ou menos esculpidas. A cobertura dos edifícios era, até então, feita por telhados de tesoura, ou seja, por coberturas múltiplas, correspondendo as gárgulas à divisão das águas das mesmas. As novas capacidades técnicas de construção permitiram a uniformização das coberturas, possibilitando também que fosse divulgada a utilização dos beirais em telha, aumentando a proteção das paredes em relação às águas pluviais. O mesmo não aconteceu com as edificações mais simples, segundo conta Isabella de França, afirmando que nestas as telhas estavam seguras com pedras, de forma que o vento não as levantasse, como ainda hoje acontece pontualmente, acrescentando que eram rematadas no topo com uma “panela de barro invertida” (Ibid., 65).

Com o tempo, as paredes de fachada, desde que tivessem janelas de sacada, ou seja, varandas, passaram a ter beirais de telha tripla, enquanto as paredes onde os vãos se mostram à face apresentam somente beirais duplos. Já as paredes sem janelas ou até os edifícios de menor altura, mais singelos e populares, têm beirais de uma simples fiada de telha. Deve datar igualmente dos finais de Setecentos, mas mais provavelmente do séc. XIX, o costume de dotar o embasamento das paredes com um aparelho de argamassa mais forte, pintado a vermelho-barro ou cinza, protegendo assim as mesmas paredes dos respingos da chuva.

O exemplar mais representativo da arquitetura rococó madeirense deve ser a pequena capela de N. S.ª da Conceição, no final da R. da Carreira, no Funchal, que foi levantada entre 1765 e 1770, tendo sido benzida a 7 de dezembro desse último ano. A capela pertencia ao pequeno solar urbano do capitão Luís Bettencourt de Albuquerque e Freitas, filho de Sebastiana de Albuquerque e de Jacinto de Freitas da Silva, casados no Brasil, que se fixou na Madeira por esses anos, com alguma fortuna pessoal. A diferença de impacto visual da capela em relação ao solar de gosto neoclássico é sintomática do tratamento dado à arquitetura urbana na Madeira, onde se passa, assim, quase diretamente do maneirismo ao neoclássico.

Os parâmetros de gosto neoclássico parecem ter sido introduzidos na ilha pelos mestres que trabalharam para a casa de D. Guiomar Madalena de Vilhena (1705-1789), por volta de 1770, quando esta reformulou a antiga Qt. das Angústias, hoje Qt. Vigia, para sua residência, importando as molduras das janelas e portas do continente, das oficinas que se encontravam a trabalhar na reconstrução de Lisboa, tal como fez, também pelos mesmos anos, a Alfândega do Funchal, nas obras de ampliação que efetuou. Por essa altura, provavelmente, D. Guiomar procedeu ainda à reforma da casa dos pais, na esquina da R. do Castanheiro com a R. de S. Pedro, levantando uma monumental residência neoclássica, sem paralelo na cidade, de enorme pé-direito e com o pormenor interessante, em princípio, de não apresentar entrada de aparato, tudo se virando para um jardim interior, que infelizmente veio a ser ocupado por outras construções, estando hoje em ruínas.

O gosto neoclássico parece ter sido assumido uns anos depois, com a vigência de João António Vila Vicêncio (c. 1730-1796) como capitão e mestre das obras reais. Natural das Canárias, é o primeiro que aparece oficialmente designado como “arquiteto” na ilha (ANTT, Provedoria…, liv. 799, fl. 2), tendo tomado posse do lugar em 1781. É provável que este arquiteto já tivesse estado envolvido nas obras realizadas na alfândega, em 1770, assessorando o mestre Domingos Rodrigues Martins. Dirigiu, depois, por volta de 1790, a construção do novo bloco do palácio de S. Lourenço, erigido sobre o velho baluarte poente e pelo qual se veio a uniformizar a fachada na frente de mar nos anos seguintes. Os trabalhos de arquitetura de Rodrigues Martins ainda se encontravam muito enfeudados ao barroco e ao rococó, como prova o edifício da Câmara Municipal do Porto Santo, levantado por volta de 1774. Mas tal não se verifica na obra de João António Vila Vicêncio, que reformou, inclusivamente, vários projetos do seu antecessor, tornando-os muito mais depurados.

Os inícios do séc. XIX marcaram o recrudescimento da influência britânica na Madeira, facto relacionado com as duas ocupações militares que ocorreram no quadro das guerras napoleónicas. A última ocupação, que durou mais de dez anos, levou depois à instalação de novas famílias de comerciantes ingleses que vieram a liderar quase toda a atividade económica da ilha até muito recentemente. O protagonismo político e económico das décadas indicadas foi assumido pelo comerciante Henry Veitch (1782-1857), que chegou à Madeira em 1804, desempenhando funções administrativas no consulado britânico, de que veio a tomar posse em 1807, chegando a ser o decano dos cônsules do seu país. As suas primeiras instalações comerciais funcionaram na sequência do edifício do consulado, então na R. da Queimada de Baixo. A breve trecho, ampliou-as, ligando-as a outros edifícios, já na R. da Queimada de Cima, onde ainda é patente um outro tipo de arquitetura que não a madeirense. Viria também a levantar instalações comerciais em Câmara de Lobos, assim como uma residência de verão na antiga Qt. Calaça, hoje incorporada no Clube Naval, e uma outra, na sua propriedade do Jardim da Serra, vagamente inspirada nos pequenos castelos do norte de Inglaterra, onde pretendia ser sepultado, encontrando-se aí um monumento funerário que deverá ser somente um cenotáfio, pois, oficialmente, foi sepultado no cemitério anglicano.

Do cônsul inglês Henry Veitch ficou, assim, no Funchal e em Câmara de Lobos, uma série de edifícios dentro do estilo que se designa por arquitetura colonial inglesa, quase sempre com uma certa escala e já utilizando estruturas de ferro forjado e largas varandas, predominantemente em alvenaria pintada. Estas estruturas assumiam-se como perenes; quase não recorriam a molduras de cantaria, dada a não fixação em permanência dos comerciantes britânicos, que só muito pontualmente assumiram a nacionalidade dos países onde operavam, mesmo que ali tivessem nascido, o que ainda hoje se mantém.

Na sequência da ocupação britânica e equilibradas as relações com a corte portuguesa no Rio de Janeiro, o cônsul Henry Veitch deu corpo a uma antiga aspiração daquela colónia, levantando uma igreja anglicana ou igreja inglesa, situada na R. do Quebra Costas, cujo projeto, de 1820, reivindicou como seu, mas que é igual a inúmeros projetos neoclássicos levantados pela Europa do seu tempo. O edifício mais importante de Veitch, no entanto, foi a sua residência pessoal, levantada sobre a ribeira de Santa Luzia, por volta de 1830, com cinco pisos e águas-furtadas, e que terá conhecido várias fases de construção. Apresenta largas varandas semicirculares sobre a cidade no andar nobre e no balcão sobre a ribeira, tal como no terraço sobre o bloco nascente. O elemento principal da obra é a sua importante e esguia torre central, de mais cinco pisos sobre a cobertura e igualmente dotada de varandas, sendo a do penúltimo piso corrida sobre todas as fachadas. O edifício veio depois a ser adquirido pela Companhia Vinícola da Madeira, passando em seguida à Cossard & Co., fase em que os seus proprietários o designavam por castelo, tendo posteriormente acolhido a sede do Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira.

Os meados do séc. XVII tinham determinado uma nova forma de instalação das classes dirigentes e proprietárias, que, tendo as suas residências no centro do Funchal, nos meses de verão e dadas as dificuldades do clima, se retiravam para as antigas propriedades rurais, nas encostas da cidade e seus arredores, quando não mesmo para as vilas rurais. Uma das primeiras medidas dos Jesuítas ao se instalarem no centro do Funchal, mesmo antes de procederem à construção do monumental edifício do colégio, foi adquirirem várias quintas, sendo a dos Frias e a do Cardo para recreio. Assim, ao longo do séc. XVIII e nas encostas do Funchal, nasceram residências secundárias onde antes havia propriedades agrícolas, progressivamente melhoradas, acabando por se definir como residências permanentes e vindo a adquirir, ao longo do séc. XIX, a designação de quintas, em memória da antiga ocupação rural, que, na maioria dos casos, se perdera. Afasta-se, portanto, aos poucos, da designação comum continental, pois deixou de ser para recreio, tornando-se residência permanente, dotada de jardins, etc.

Acresce que, dadas as especiais condições climáticas da encosta do Funchal e o exotismo geral da paisagem, mesclado por séculos de aclimatação de novas espécies vegetais, estes espaços impressionaram fortemente muitos visitantes. As quintas madeirenses tornaram-se um paraíso para os naturalistas, que, a partir dos finais do séc. XVII, partiram de vários pontos da Europa para estudar outras floras e faunas, tendo quase todos os grandes nomes dessa centúria e das seguintes passado pela Madeira. A divulgação das suas descrições de viagem, das espécies botânicas encontradas e da qualidade geral do clima, feita depois através da imprensa e da comunicação social, projetou decididamente a Madeira no mundo e criou uma verdadeira lenda romântica em volta da quinta madeirense. Esta lenda da quinta madeirense e a da paisagem geral da ilha foi ainda perpetuada pelos aguarelistas e litógrafos europeus dos meados do séc. XIX, cujos álbuns tiveram grande disseminação. Passaram posteriormente pela região outro tipo de viajantes, como Ella Du Cane (1874-1943) e a sua irmã Florence, que editaram uma obra sobre as quintas e os jardins da Madeira; e depois fotógrafos, nomeadamente lady Sarah Angelina Acland (1849-1930), a primeira mulher a fotografar a cores, divulgando internacionalmente as paisagens e a arquitetura romântica da ilha.

No sentido arquitetónico, aquele que aqui nos interessa, a quinta madeirense define-se mais pelo seu coberto vegetal do que pelo edificado propriamente dito, muito variado e continuamente alterado conforme os gostos dos proprietários. Como característica especial, poder-se-á apontar o pormenor, patente em grande parte das residências, de o andar nobre se encontrar ao nível do piso térreo, possibilitando assim a abertura das salas de receção ao jardim, passando a área de habitação privada, como os quartos, para o andar superior ou para um corpo recuado.

Sendo um espaço delimitado por muros, a quinta possui quase sempre a chamada casinha de prazer, elemento comum às quintas de recreio da área de Lisboa e da península de Setúbal, onde aparece a mesma designação ou, por vezes, casa do fresco. No entanto, na Madeira, localizam-se quase sempre em zonas limítrofes e mais altas do espaço geral da propriedade, sendo implantadas nos muros da quinta e servindo de mirante; no continente, são geralmente interiores e vêm mais na tradição dos antigos pavilhões de caça. As casinhas de prazer são, na generalidade, construções mais precárias, em fasquiados de madeira pintada, na tradição dos muxarabis, onde se pode estar a ver sem ser visto e onde alguns dos fasquiados, inclusivamente, são dotados de bilhardeiras, pequenas pegas verticais que alteram a inclinação dos fasquiados, melhorando a visão de dentro para fora. Colocadas sobre os muros gerais da propriedade, possuem muitas vezes acesso independente, mais ou menos discreto, ao exterior.

A circulação dos modelos internacionais e, inclusivamente, dos arquitetos, em especial após os surtos construtivos motivados pelo boom do turismo terapêutico e do turismo de lazer, não permitiu a criação de novas formas arquitetónicas específicas na Madeira, onde a prática se passou a limitar à adaptação local de tipos importados, sendo a diferença feita sobretudo pela riqueza e diversidade do coberto vegetal e, pontualmente, pela utilização de materiais de construção local. Ao longo do séc. XIX, assiste-se mesmo à edificação de conjuntos românticos de gosto internacional, como o solar ou chalé Zino, no Lugar de Baixo, nos Canhas, ou a casa de chá do Santo da Serra, atribuída ao arquiteto inglês George Somers Clarke (1841-1926), que, em 1890, procedeu à construção do Reid’s Palace Hotel e fez o projeto da nova residência da Qt. do Palheiro Ferreiro para a família Blandy, podendo também ser o autor da reformulação da fachada de aparato da Casa da Calçada, hoje Casa-Museu Frederico de Freitas.

Em relação à arquitetura popular, no entanto, pontualmente e a partir do retorno de muitos emigrantes com outras capacidades económicas, gostos e conhecimentos, entre os meados do séc. XIX e as primeiras décadas do XX, podemos identificar uma nova tipologia, com características de certa forma específicas e que se encontra, infelizmente, em acelerada via de extinção. Os modelos, em linhas gerais, são os tradicionais e locais anteriores, mas todo o tratamento e materiais utilizados são outros, obrigando assim a encontrar uma nova síntese. Esta nova arquitetura popular, se assim a podemos designar, graças à utilização de materiais de construção recentes, de carácter pré-industrial e industrial, como moldes de argamassa de cimento e materiais cerâmicos, deu origem a um outro tipo de habitação rural, geralmente designado por casas modernas ou “demerarista” (MESTRE, 2002, 152) pela sua propagação junto dos emigrantes madeirenses regressados de Demerara. São habitações que apresentam geralmente dois pisos, sendo o inferior para arrumações e outros serviços, e o superior para habitação, podendo apresentar ainda anexos adossados, utilizados, p. ex., para estábulos. As paredes são de alvenaria mista de cimento rebocada e pintada, e as molduras das portas e das janelas são em madeira pintada ou em argamassa ressalvada e igualmente pintada, podendo apresentar os panos rematados, lateralmente, também em argamassa, relembrando os antigos cunhais, superiormente, são rematados por cornija. Os telhados assentam em estrutura de madeira sobre a cornija, sendo cobertos a telha marselha ou a cimento e rematados por cabeças de menino ou pombas, marcas de uma tradição ancestral que por esses anos se tipificou e industrializou. Muitas destas coberturas apresentam o contrafeito quase plano nas últimas duas a três fiadas de telha, o que, associado aos remates figurativos, lhes dá um aspeto quase oriental.

Estas habitações são, na generalidade, envolvidas por grades ou balaustradas, também de moldes de cimento pintado, que acompanham, por vezes, as escadas exteriores, para o piso de habitação, mas podendo definir um terraço entre os dois pisos ou ao nível do superior, utilizado para lazer da família.

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Rui Carita