arsenal de santiago

Varadouro do arsenal. Arquivo Rui Carita.
Varadouro do arsenal. Arquivo Rui Carita.

Ao longo da história da Madeira escasseiam as informações sobre a construção e a manutenção dos inúmeros navios (Navios) que demandaram a baía do Funchal. No entanto, sobreviveu através dos Arquivos da Câmara Municipal do Funchal (CMF) o primeiro documento, enviado pelo Rei D. João I (1357-1433), a 11 de maio de 1425, onde se agradece o apoio dispensado na Madeira, em princípio, a um navio real que ali chegou desmantelado. Nas primeiras informações existentes sobre o povoamento, Francisco Alcoforado refere na sua Relação que, com o aproveitamento das madeiras, logo nos primeiros tempos do povoamento, se começaram a construir na Madeira navios de gávea e castelo de proa, que até então “não havia no reino, até porque não tinham para onde navegar”, só existindo caravelas no Algarve e barinéis em Lisboa e Porto (ALCOFORADO, 1975, 94), o que é, certamente, um certo exagero do cronista. As informações existentes a este respeito não são, assim, propriamente sobre a construção de navios, mas sim sobre pequenas embarcações, como refere depois Gaspar Frutuoso (1522-1591) em relação ao Porto Santo, onde havia de início dragoeiros tão grossos, que se fabricavam com o tronco de uma só árvore embarcações para seis e sete homens, utilizadas para a pesca, embora também acrescente que já havia então poucos e que iam faltando.

O cronista açoriano, entretanto, volta a citar a informação de Alcoforado sobre a construção de navios de gávea e de castelo de avante, conforme lhe transcreveu Jerónimo Dias Leite (c. 1537-c. 1593). No elogio que fez dos feitos do governador Tristão Vaz da Veiga (1537-1604), por quem nutria uma enorme admiração, Gaspar Frutuoso refere que o mesmo mandou fazer dois navios no Funchal. O primeiro era uma galé, que “saiu uma peça muito bem-feita”, com 17 remos de banda e um esporão de abordagem em bronze, e a segunda uma fragata de 12 remos por banda, para andar vigiando por fora e ajudar a galé. Cita, inclusivamente, que a fragata fora lançada ao mar no dia de S.to António, 13 de junho de 1589, tendo sido paga através do dinheiro da imposição destinado às fortificações (FRUTUOSO, 1968, 205). Claro que não se tratava de navios de longo curso, e, inclusivamente, o termo “fragata” não tinha a significação que depois assumiu, sendo uma embarcação, por certo, de fraco porte.

Ao longo dos sécs. XVII e XVIII não há mais informações específicas deste género, limitando-se a ribeira da praia do Funchal (Praias) a proceder a reparações sumárias de navios em trânsito, para o que havia calafates e outros mestres. Construíram-se pequenas embarcações, de que há informação não só no Funchal, mas também em Machico e em Câmara de Lobos, logicamente, para a faina da pesca e cabotagem. Por esses séculos devem ter funcionado zonas de manutenção nos limites da praia de calhau do Funchal, uma das quais foi colocada a descoberto com a aluvião de 20 de fevereiro de 2010 e escavada pelo arqueólogo Daniel Sousa, nos meados de 2013. Estas escavações revelaram a área de um antigo varadouro ou arsenal na foz da ribeira de São João, abaixo do nível do antigo Hospital de São Lázaro, com evidências arqueológicas dos sécs. XVII, XVIII e XIX, conjunto entulhado, provavelmente nos meados do século, com as obras da Estrada da Pontinha e, depois, com a construção do Prq. de Santa Catarina. Para além de uma zona de antigas fornalhas, com tijolo refratário de várias épocas, exumou-se um pilar de um cabrestante de boas dimensões e, mais recuada, a base de um outro.

Esta área deveria servir igualmente de apoio ao forno da cal dos meados do séc. XIX existente nos arrifes de São Lázaro e de Santa Catarina, tal como ao pequeno forte existente naquele local, trabalho geral de que sobreviveram algumas fotografias. Neste local deve ter funcionado também, meados do séc. XIX, um pequeno arsenal nos para apoio à manutenção das barcaças e fragatas do carvão da casa Blandy, Bros. & C.ª, cujos empregados residiam num bairro nesta área, pagando rendas económicas, antes de se concentrarem, perto dos finais do séc. XIX no bairro de Santa Maria e do Corpo Santo. Neste bairro, existiam inúmeras pequenas oficinas de calafate, encontrando-se registados em 1847 30 mestres, que consertavam pequenos barcos e canoas para o serviço de pesca e do bomboto no porto, sendo as reparações executadas ao ar livre e na praia do Calhau. Este campo passou por vários nomes: campo das Loucas, de São Tiago e dos Chalons, dado ali se fazerem exercícios militares dos milicianos aquartelados na fortaleza; foi depois Pç. Académica e campo de Carlos, quando do seu arranjo para as exposições por ocasião da visita régia de 1901; e, finalmente, campo Almirante Reis, com a implantação da república. Zona de habitação, trabalho e lazer por excelência dos marítimos da cidade, ali veio a nascer o Club Sport Marítimo (Marítimo) e, depois, o União Football Club (União da Madeira), sendo nos inícios do século quase todos os praticantes destes clubes empregados no bomboto e demais serviços marítimos.

O primeiro arsenal digno desse nome foi levantado perto dos finais do séc. XIX, em 1880, provisoriamente e depois de forma definitiva, a leste da Pç. Académica e do Campo de Santiago, pela casa Blandy, Bros. & C.ª e em terrenos inicialmente de serventia militar. Com base na cartografia militar da área, é possível seguir as várias fases de instalação, com os projetos da área ainda desocupada, em 1886 (GEAEM, 5513-1A-12A-16), o projeto geral de instalação da primeira fase do Arsenal de São Tiago, então Arsenal do Blandy, em 1897 (GEAEM, 5519-1A-12A-16), e as aquisições do novo lote para ampliação do arsenal, entre 1921 e 1929 (GEAEM, 5549-1A-12A-16, 10931-2A-24A-111 e 7478-1A-12A-16). O Ministério da Guerra, pelo dec. n.º 1057, de 18 de novembro de 1914, iniciou um processo de venda dos terrenos de serventia militar e, inclusivamente, de fortes e fortalezas desativados, pelo que o arsenal ocupou os dois lotes de terreno entre o pequeno Ribeiro Seco de Santa Maria Maior e a Fortaleza de São Tiago, adjacentes à antiga Muralha do Corpo Santo. O Arsenal de Santiago, ou de São Tiago, transformou-se depois na Madeira Engineering Company (MEC), onde trabalhariam os mais habilitados técnicos madeirenses da área. A 9 de novembro de 1992, a Região Autónoma da Madeira, a CMF, a MEC e a Sociedade Imobiliária do Terreno do Arsenal celebraram um protocolo relativo à transferência da empresa industrial de reparação naval e metalomecânica com equipamentos e estaleiro do Arsenal de São Tiago para o Parque Industrial da Cancela e para o Terminal Marítimo do Caniçal, tendo sido posteriormente construído no antigo arsenal, na zona velha da cidade, o Hotel Porto Santa Maria.

Na zona do antigo Mercado D. Pedro V, depois se levantou a Alfândega Nova, também existiu, entre os finais do séc. XIX e os inícios do XX, um estaleiro ou arsenal, propriedade da Cossart Gordon e depois da Empresa do Cabrestante, de que foi impulsionador e gerente João de Araújo. Neste estaleiro se construíram os veleiros Gonçalves Zarco e Fernando, para a firma Baganho Nunes & C.ª Lda., do continente, o vapor São João daquela empresa, e várias lanchas de cabotagem e tráfego do Porto do Funchal. Era nesse estaleiro que se fazia, antes do prolongamento da Muralha da Pontinha, em 1933, o serviço de carga e descarga dos navios surtos na baía, para o que dispunha de um avultado número de embarcações e trabalhadores. Do cabrestante saíam continuamente volumes de mercadorias transportadas por juntas de bois com destino ao portão da Alfândega, na R. da Praia, de que ficaram inúmeras fotografias. Com a abertura da Av. do Mar na déc. de 40 do séc. XX, este estaleiro passou para a Praia Formosa, mas em pouco mais de duas décadas era extinto.

Nos arredores do Funchal funcionaram outras empresas semelhantes, como a casa Wilson & Sons, no sítio do Gorgulho, nos arredores da Qt. Calaça, que era utilizada para reparação das diversas embarcações daquela firma fornecedora de carvão de pedra, de que subsistem as paredes dos armazéns. A agência de navegação Cory, Bros. & C.ª também tinha um pequeno estaleiro e arsenal no sítio do Portinho, na freguesia do Caniço, de que subsistiram igualmente as ruínas dos armazéns.

Bibliog.: manuscrita: DSIE, GEAEM, Cartografia, 5513-1A-12A-16, Alfredo Augusto de Vasconcellos, Planta do Campo de S. Thiago, Funchal, 1886; Ibid., 5519-1A-12A-16, Planta: Projecto de Melhoramento do Campo de S. Thiago, Funchal, 1897; Ibid., 5549-1A-12A-16, Carlos W. Sardinha, Propriedade Requerida para Venda, Ampliação do Arsenal Blandy, Funchal, 1922; Ibid., 10931-2A-24A-111, Carlos W. F. Sardinha, Planta dos Terrenos Adquiridos ao Ministério da Guerra, ao Sítio de S. Tiago, na Cidade do Funchal, pela Firma Blandy Brothers & C.ª, Funchal, 1922; Ibid., 7478-1A-12A-16, Projecto de Melhoramento do Campo de S. Tiago, Funchal, 1929; impressa: ALCOFORADO, Francisco, Epanáfora Amorosa: Descobrimento da Ilha da Madeira: Ano 1420, ed. lit. de José Manuel de Castro, Braga, J. Castro, [1975]; Arquivo Histórico da Madeira, vol. XV, Funchal, Junta Geral, 1972; CALDEIRA, Abel Marques, O Funchal no Primeiro Quartel do Século XX: 1900-1925, Funchal, Eco do Funchal, 1964; FRUTUOSO, Gaspar, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968; LEITE, Jerónimo Dias, História do Descobrimento da Ilha da Madeira e da Descendência Nobilíssima dos Seus Valorosos Capitães, introd. e notas de João Franco Machado, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1949; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, Secretaria Regional de Turismo e Cultura, 1998.

Rui Carita

(atualizado a 12.10.2016)