artes plásticas

A designação “artes plásticas” veio tentar abarcar as transformações conceptuais, processuais e técnicas que marcaram as artes a partir da década de 60 do séc. XX, em substituição de “belas-artes”, denominação conotada com a tradicional distinção entre pintura, escultura e arquitetura. Na Madeira, após o primeiro modernismo protagonizado pela geração dos irmãos Henrique e Francisco Franco do primeiro quartel do séc. XX, só na segunda metade desse século voltamos a encontrar uma vontade de atualização, que se manifesta na organização de exposições e no aparecimento de galerias de arte atentas à contemporaneidade.

A maior dificuldade no levantamento dos principais acontecimentos que marcaram o panorama artístico insular a partir da déc. de 60 do séc. XX é o carácter lacunar da memória dos acontecimentos, tanto no que diz respeito à ausência ou laconismo dos catálogos e notícias remanescentes, como à escassez de textos críticos e de bons registos fotográficos. Para além dos artistas, há que ter em conta a identidade dos promotores de iniciativas e dos curadores das exposições, já que todos os intervenientes concorrem para estruturar o tecido cultural.

A viragem que se verificou no país durante a déc. de 60 pautou-se por uma maior consciência sociopolítica, abertura a influências externas, diversificação de meios e linguagens plásticas e dinamização de um mercado artístico. Na Madeira, um primeiro apontamento poderá ir para a criação de uma escola de ensino superior artístico, a Academia de Música e Belas-Artes da Madeira (AMBAM) em 1956, onde eram ministrados, entre outros, cursos superiores de pintura e de escultura, idênticos aos das Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto, cujos docentes vinham anualmente examinar os alunos (Ensino das artes visuais). Apesar das condicionantes de um ensino desta natureza, foi-se consolidando, assim, um núcleo de intervenientes e fruidores mais informados e atentos. Em 1962 organizou uma mostra do trabalho dos alunos da Escola Superior de Belas-Artes do Porto e, em 1970, uma primeira mostra que reuniu peças de professores e trabalhos escolares de alunos da AMBAM.

Em 1960 a Sociedade de Concertos da Madeira organizou, em colaboração com a Sociedade Nacional de Belas-Artes, a I Exposição Nacional de Pintura que deu a ver, entre muitas outras, obras de Menez, Fernando de Azevedo, Vespeira, João Hogan, Rogério Ribeiro e do madeirense António Aragão. Por sua vez uma exposição itinerante da responsabilidade da Fundação Calouste Gulbenkian trouxe em 1962 uma seleção de gravura, pintura e desenho portugueses contemporâneos.

Paralelamente a estas iniciativas institucionais surgem nesta década as primeiras galerias de arte moderna, a Tempo (1964), e depois a Mundus. A primeira trouxe figuras como Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Ângelo de Sousa e Júlio Resende. A segunda deu a ver, a partir de 1966, novos valores como António Nelos, Humberto Spínola, Silvestre Pestana, Ara Gouveia ou Danilo Gouveia, na sua maioria com trabalhos de dominante abstrata.

Um acontecimento marcante foi a realização da I Exposição de Arte Moderna Portuguesa, em 1966, em que foi atribuído o Prémio Cidade do Funchal a Guarda-Nocturno, de Joaquim Rodrigo, e o prémio de aquisição a Artur Rosa e Nuno Siqueira. Deveu-se à iniciativa da Delegação de Turismo, com patrocínio da Junta Geral do Distrito e da Câmara Municipal do Funchal (CMF), e o júri integrava os mais destacados críticos de arte nacionais de então — José-Augusto França e Fernando Pernes. No ano seguinte, na 2ª edição, o júri, constituído por Rui Mário Gonçalves e Nelson di Maggio, premiou António Areal. Na sequência destes prémios, foram feitas mais algumas aquisições, que acabaram por constituir o núcleo inicial do Museu de Arte Contemporânea do Funchal (MACF).

Neste período realizaram-se exposições individuais de António Areal, em 1966 e 1967, no Museu Quinta das Cruzes, e, em 1970, houve a possibilidade de ver, através da coleção Stenersen, obras de Picasso, Miró, Vieira da Silva, Appel, Klee, etc., que intensificaram o contacto com a produção artística nacional e internacional.

O panorama cultural foi dinamizado com a criação do Cine-Forum do Funchal, que surge em 1966 como cineclube, e mais tarde diversifica também a sua atuação para o âmbito das artes plásticas. A secção juvenil organizou exposições coletivas em 1970 e 71 com jovens que então iniciavam a sua atividade, entre os quais alguns alunos da AMBAM.

O pós 25 de Abril trouxe uma fase de agitação e debate que acompanhou as alterações institucionais. No campo das artes, tomaram nova dinâmica as atividades culturais da CMF e foi criada a Direção Regional dos Assuntos Culturais que, na área da arte contemporânea, apoiou diversas iniciativas e criou o Núcleo de Arte Contemporânea, que viria a dar origem, em 1993, ao Museu de Arte Contemporânea (Museus). Uma das primeiras iniciativas de artistas foi a realização da coletiva ART’ILHA, em 1980, no Salão do Teatro Municipal do Funchal, em cujo catálogo explicitamente se afirmava querer ir além dos meios tradicionais e proporcionar uma animação cultural com debate público dinamizado por professores da Escola de Belas Artes de Lisboa, exibição de filmes e diaporamas, apresentação de obras criadas noutros centros culturais e de novos autores, envolvimentos audiovisuais a um nível experimental e atuação do recém-formado grupo de jazz Oficina.

Em 1977 foi criado o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira (ISAPM), que, em parte, deu continuidade à ação da AMBAM, mas reformulou os cursos e abriu um curso de Design. Com a integração na Universidade da Madeira (UMa), em 1992, o ISAPM  passou a Instituto Superior de Arte e Design, em 1997 a Secção Autónoma de Arte e Design e, em 2004, a Departamento de Arte e Design. Em 2008, os departamentos são substituídos, na UMa, por Centros de Competência, pelo que o ensino das artes passou a ficar integrado no Centro de Competências de Artes e Humanidades. O ISAPM criou uma dinâmica que se manifestou, sobretudo a partir de meados da déc. de 80, na organização de exposições, de colóquios e na criação da revista Espaço-Arte, publicada entre 1977 e 1995. As Jornadas do ISAPM conseguiram, a partir de 1986 e com continuidade, proporcionar encontros de reflexão em torno de diversos temas da contemporaneidade artística. Adstrito ao ISAPM funcionou, a partir de 1977, um atelier livre, que permitiu interessantes diálogos entre alunos e outros inscritos sem formação académica. Também chegou a ter em funcionamento um atelier infantil, de cuja dinâmica foi possível ver diversas mostras.

O Cine-Forum do Funchal organizou algumas exposições relevantes, entre as quais uma retrospetiva da pintura de António Aragão datada de 1957 a 1965, uma mostra de René Bértholo, em 1980, e uma do arquiteto Marcelo Costa na sala de Congressos do Casino Park, em 1981, com desenhos e objetos. Alguns destes objetos eram motorizados, refletindo o papel que teve o convívio do autor com René Bértholo e Lourdes Castro.

Numa tentativa de superar as dificuldades inerentes à insularidade e à pequena dimensão do meio insular, foi criada em 1986 a Circul’Arte, Associação de Artistas Plásticos da Madeira, à frente da qual esteve José Júlio Castro Fernandes. A Circul’Arte organizou debates, cursos de curta duração, criou um espaço de atelier e deu a ver o panorama artístico local em algumas mostras importantes, a primeira das quais em 1987, integrada na MARCA/Madeira. O júri foi constituído pelas escultoras Manuela Aranha e Luiza Clode, pelos pintores Filipe Rocha da Silva, António Gorjão e Rita Rodrigues e por Francisco Faria Paulino.

O entusiasmo criativo da déc. de 80 reflete-se no aparecimento de galerias, como a Quetzal, em 1981, a Funchália, ativa entre 1989 e 1994 e a Porta 33 a partir de 1990, que, desafiando a fragilidade do mercado de arte local, tiveram papel fundamental, sobretudo na divulgação de artistas nacionais. Um ponto alto deste entusiasmo foi justamente a realização da MARCA/Madeira (1987), da iniciativa de Faria Paulino, que conjugava: uma feira de arte de âmbito nacional com a participação de 31 galerias; uma feira do livro de arte; um leilão de obras; um congresso de arte contemporânea, cujas atas foram publicadas pelo ISAPM. Para além disso decorreram outras exposições de caráter abrangente como a já referida de artistas madeirenses da Circul’Arte, uma de artistas açorianos que trouxe obras dos mais destacados nomes de então, incluindo o histórico Domingos Rebelo, uma mostra do Núcleo de Arte Contemporânea do Funchal, embrião do futuro MACF, e a exposição da obra dos irmãos Henrique e Francisco Franco que assinalou a criação do Museu dedicado a estes dois modernistas. Pensada para ter continuidade, só veio a conhecer uma segunda edição em 2000, menos ampla, mas também complementada por um Colóquio Internacional sobre Arte Contemporânea.

Em 1986, uma coletiva, Dezassete Graus Oeste, deu a conhecer um grupo de artistas madeirenses ligados ao ISAPM na Galeria Altamira em Lisboa. Grupo esse que, com algumas variações, expôs também no Funchal, durante o mesmo ano, Sinais Convencionais, na Galeria Secretaria Regional de Turismo e Cultura (SRTC) e na Galeria ISAPM, Colecção de Inverno, na Galeria da SRTC, e, no ano seguinte, Cenas e objectos, também nesta galeria. Em 1989, foi realizada a 2ª Mostra de Artes Plásticas da Circul’Arte/Associação de Artistas Plásticos da Madeira no Teatro Municipal do Funchal, de cujo júri de seleção fizeram parte Sílvia Chicó e os escultores Celso Caires e José Manuel Pimenta. Apresentou pintura, escultura, desenho, serigrafia e também imagem digital. No ano seguinte foi organizada outra coletiva Ideias & argumentos, integrando o júri Isabel Santa Clara, Marcelo Costa e José Júlio Castro Fernandes.

A ligação entre literatura e artes plásticas deu origem a várias exposições de poesia ilustrada no Teatro Municipal Baltazar Dias. Este teatro acolheu, aliás, a partir de 1975, numerosas e diversificadas iniciativas apoiadas pelas atividades culturais da CMF. Olhares Atlânticos, em 1991 na Biblioteca Nacional em Lisboa, foi outra mostra de artes e letras organizada pela Circul’Arte e pela Associação de Escritores da Madeira.

Ao longo da déc. de 90, a atividade da galeria Porta 33 intensificou-se, estando ligada a um projeto cultural que procurou, para além dar a ver arte contemporânea, promover a reflexão e o contacto com artistas reconhecidos. De entre os naturais ou residentes na Madeira, esta galeria deu particular atenção a Lourdes Castro, Manuel Zimbro, António Aragão, Rigo, António Dantas, Rui Carvalho e Nuno Henrique. Trouxe destacados conferencistas, organizou cursos breves e workshops, proporcionou residências artísticas e produziu obras relacionadas com a Madeira de João Penalva, Lourdes Castro e Alberto Carneiro, entre outros, sendo a galeria com mais visibilidade nacional e internacional, inclusive com algumas participações na ARCO em Madrid. As conferências estão, na sua maioria, disponíveis online na página da galeria.

O MACF abriu as portas em 1993 e foi acrescentando novas aquisições ao núcleo inicial, fruto da atividade das galerias e das exposições temporárias dos museus. O seu acervo reflete assim, com as limitações impostas pelas restrições do seu orçamento, os contactos da região com a contemporaneidade artística.

À margem de escolas e de galerias e numa atitude mais radicalmente experimental, ganham força práticas de poesia visual e de mail art, potenciadas com o uso da eletrografia. Quando a primeira loja Xerox abre no Funchal, António Aragão, António Dantas e Eduardo Freitas, entre outros, começam a explorar capacidades técnicas da máquina, os novos modos de comunicar, distantes das tecnologias tradicionais de produção de imagens e com a facilidade de produzir múltiplos exemplares a baixo custo e com grande rapidez. Uma das formas de circulação dessas experiências foi feita através da Mail-Art Zine Filigrama, editada entre 1981 e 1983, constituída por folhas soltas e enviada pessoalmente através dos circuitos internacionais da mail art, que passavam muito especialmente pelo Brasil. Cada participante acrescentava o seu contributo, o que ia sucessivamente alterando os conteúdos.

O uso do computador abriu também, nesta déc. de 80, um outro campo de experimentação e, em 1 de julho de 1985, foi realizada no edifício do ISAPM uma exposição computer art, das primeiras do género em Portugal. Evangelina Sirgado de Sousa e Jorge Marques da Silva criaram através de códigos por eles programados animações que apresentaram no próprio monitor, fazendo do computador instrumento e suporte de expressão plástica.

Este edifício foi ainda lugar de ensaio de múltiplas experiências do domínio da instalação ao longo dos anos 80, que se alargaram depois a outros espaços explorando as potencialidades da site-specificity. Entre estas assinalamos Uma exposição com pintura e tudo, de Isabel Santa Clara (1990, Casa-Museu Frederico de Freitas, espaço da torre); Espaços em Volta (1996, MACF); Atrás do vento (Edicarte, 2000); Escada de Jacob, de Teresa Jardim, Lígia Gontardo, Domingas Pita e Eduardo de Freitas (Casa-Museu Frederico de Freitas, 1993); Peixe Espada Preto, Trindade Vieira, em 1993, na Galeria da Zona Velha, e em 2000, na galeria Inquisição; Ilhas de Babel, em 1996; Galeria em Grande – exposição colectiva de pequeno formato na galeria da SRTC organizada por Teresa Jardim, 2001; no Salão Nobre do Teatro Municipal e na galeria da SRTC várias intervenções de Guilhermina da Luz, Ricardo Barbeito, Carmen Silva, Bruno Côrte (este último realizou instalações com plantas e construções efémeras, numa deriva da land art); no MACF, Afinal eram Pássaros, de Bruno Côrte e Rute Pereira, em 2000; e, na antiga cadeia do Fortaleza de S. Tiago, Juras que me incendeias o coração ou uma difícil decisão cerebral, de Eduardo Freitas, em 2005. Este espaço do museu foi repetidamente dinamizado com instalações.

As principais instalações de artistas madeirenses na galeria Porta 33 foram Largo do Canto do Muro, de Rigo (Ricardo Gouveia), em 1994, onde a toponímia local foi ponto de partida para uma transformação do espaço através de pintura mural, inscrições toponímicas urbanas e rurais e incorporação de calçada portuguesa e Impressões de António Dantas, em 1996, com eletrografias de grande formato.

O MACF tem dado continuidade, para além das instalações acima referidas, à apresentação regular de autores locais como Duarte Encarnação, Bruno Côrte, Susana Figueira, Filipa Venâncio, Ricardo Barbeito, Ângela Costa, Fagundes Vasconcelos, Carlos Valente, Hugo Olim, Vítor Magalhães e Teresa Jardim.

No que diz respeito à estatuária existente no espaço público, a déc. de 60 iniciou uma alteração de linguagem em relação às peças de Francisco Franco ou Leopoldo de Almeida, que então preponderavam. É o caso da alegoria da Justiça, de António Duarte, em 1962; da Família, de Jorge Vieira; e das peças de Lagoa Henriques de c. 1971 no edifício da Caixa de Previdência, obra do arquiteto Chorão Ramalho; e de Helder Baptista para o Hospital do Funchal, em 1972.

A abstração está presente nas peças de José Rodrigues e de Fernando Conduto no Casino Park Hotel, de 1976, como em vários trabalhos de Amândio de Sousa, po exemplo, escultura comemorativa do 1º jogo de futebol na Madeira, de 1969, no Largo da Achada, Camacha, e o monumento comemorativo dos 500 anos do município da Ponta do Sol, de 2001. Dentro de um figurativismo depurado e de modelação sintética, são deste escultor o busto do Padre Manuel Álvares, na Ribeira Brava, de 1972, a Trilogia dos Poderes junto à Assembleia Legislativa Regional, de 1991, e a Justiça, no tribunal de Ponta do Sol, de 1994.

Da obra pública de António Aragão, na qual o autor opta por uma figuração abstratizante, destaca-se, em 1960, o monumento comemorativo do 5º centenário da morte do Infante D. Henrique, paralelepípedo com desenho inciso, no Porto Santo, os relevos da fachada da Escola Industrial, hoje Escola Secundária de Francisco Franco, e um painel cerâmico no Mercado de Santa Cruz, de 1962.

Anjos Teixeira (Anjos Teixeira), professor de escultura, desenho e anatomia artística na AMBAM e depois no ISAPM, criou peças de pendor mais naturalista. Entre muitas outras, destacam-se no Funchal a estátua de Jaime Moniz, no Largo do mesmo nome, 1961; Trabalhador, Parque de Santa Catarina, de 1979; Florista, na Praça de Tenerife do Funchal, de 1980, ; Bordadeira, Rua do Anadia, de 1986; Corsa para transporte de vinho, de 1994, no Largo da Feira; Tristão Vaz Teixeira, em Machico, de 1971.

O escultor Ricardo Velosa, que fez a sua formação com Anjos Teixeira, deu continuidade a uma figuração comemorativa com grande aceitação por parte das instâncias oficiais, como se pode ver em monumentos alegóricos e representações de personalidades, como por exemplo: Cristóvão Colombo (Porto Santo, 1982), Autonomia (1987), D. Manuel Ferreira Cabral (Santana, 1988), Turista (1989), Francisco Sá Carneiro (1990), D. Francisco Santana (1991), Revolta da Madeira (1991), Carreiro do Monte (1992), Júlio Dinis (1993), Jorge Brum do Canto (Porto Santo, 1995), 500 anos da Diocese do Funchal, (2014), Cristiano Ronaldo (2014).

Em diversas zonas ajardinadas do Funchal, podemos encontrar peças de escultores naturais ou residentes na Madeira como Luiza Clode, Manuela Aranha, Franco Fernandes, Celso Caires (Celso Caires), José Manuel Gomes, Sílvio Cró, Jacinto Rodrigues, Martim Velosa, entre outros.

São de salientar alguns painéis cerâmicos, para além do já referido de António Aragão, como sejam o de Guilherme Camarinha na capela do Cemitério das Angústias, de 1958; um painel de Manuela Madureira no átrio do Hospital do Funchal e outra da sua autoria no exterior do mesmo, de 1973; um painel no exterior do edifício do aeroporto de Amândio Sousa; os painéis de Rigo na promenade do Lido, de 2005, bem como o desenho da calçada da mesma promenade.

Numa perspetiva de realizações efémeras em espaço público, assinale-se o projeto Lonarte, da Câmara Municipal da Calheta, coordenado por Luís Guilherme Nóbrega e teve início em 2010. Divulgou faseadamente trabalhos de 40 artistas regionais, nacionais e internacionais impressos em lona e colocados em mastros junto à zona balnear. Visou divulgar e levar a arte a locais muito frequentados mas não especificamente vocacionados para atividades culturais e, além disso, angariar verba para a área social da Câmara através da venda dos originais. Destaque-se também, em 2008, o projeto Bilhardice, de Ricardo Barbeito, pela atitude crítica e índole interventiva e pelo recurso à interatividade.

Muito diversa foi a atitude patente no projeto Arte das portas abertas, iniciado em 2011 por Jose María Montero (Zyberchema), com apoio da CMF, uma tentativa de animação do espaço urbano da Rua de Santa Maria através de intervenções ecléticas nas portas de habitações e estabelecimentos comerciais, muitas das quais alheias às especificidades do local.

A criação de Casas da Cultura e Centros Cívicos e Culturais se, nalgumas situações, não se pautou pela prossecução de projetos culturais apoiados em agentes com formação específica e com meios adequados, noutras deu azo a profícuas iniciativas. É o caso do trabalho levado a efeito pelas Casas da Cultura de Santa Cruz, de Câmara de Lobos e da Calheta. Da primeira, coordenada por José Baptista e pelo escultor António Rodrigues entre 1993 e 1999, destacam-se a exposição de pintura e colagem de António Aragão, em 1996, a de medalhística do escultor Helder Baptista, em 1999, a de Lagoa Henriques e a de Francis Tondeur, em 1997. Num registo diferente, foi relevante a mostra e oficina de construção e restauro de instrumentos de corda de Carlos Jorge Rodrigues, em 1997, e a apresentação de obras de vime inspiradas num catálogo de 1925, ponto de partida uma reflexão acerca da história desta indústria na Madeira e das dificuldades com que se depara à época.

A Casa de Cultura de Câmara de Lobos, dinamizada por Paulo Sérgio BEJu entre 2005 e 2010, privilegiou as instalações, sobretudo como forma de criar unidade em coletivas. Nestas, foi muitas vezes colocado o desafio de uma temática comum que permitiu sublinhar a multiplicidade e diversidade das soluções individuais. Podemos destacar: em 2007, Pintura Na Tal Ilha, Desenhar dezembro na orografia de um corpo, de Rita Rodrigues; Semear ainda compensa? de Teresa Jardim e Domingas Pita; Envolvências de Artes Plásticas, de Rute Pereira & Tânia Pereira; em 2008, Conceito estreito, exposição coletiva de David Atouguia, Graça Berimbau, Laura Fèteira, Martinho Mendes & Sílvio Cró, Paulo Sérgio BEJu e Teresa Jardim; de dezembro de 2008 a janeiro de 2009, O Menino da sua Mãe, coletiva com instalação de pinturas em pequeno formato que contou com a participação de Valter Hugo Mãe; em 2009, Correspondência Fora de Formato, de Carla Cabral e Gil Silva, e Viagem ao coração dos pássaros; Conceito Estreito 2, em abril do mesmo ano, de David Atouguia, Graça Berimbau, Laura Fèteira, Martinho Mendes & Sílvio Cró, Paulo Sérgio BEJu e Teresa Jardim (no Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos).

A Casa das Mudas, Casa da Cultura da Calheta, orientada entre 1997 e 2007 por Luís Guilherme Nóbrega procurou criar um polo de descentralização cultural com ligação com o meio, nomeadamente com a comunidade escolar, aberto à contemporaneidade artística, mas sem deixar de dar visibilidade ao trabalho de artistas locais. A continuidade e crescente projeção deste trabalho esteve na origem da criação Centro das Artes, inaugurado em 2004. De entre os artistas madeirenses, foram organizadas exposições de José Manuel Gomes e Lígia Gontardo em 1998, de Helena Sousa, Patrícia Sumares e Élia Pimenta (Élia Pimenta) em 1999, de Luís Paixão 2000, de Rui Soares e de Manuel Rodriguez em 2001, de Ara Gouveia 2002, de Rigo e Rui Carvalho em 2003.

Peões e passadeiras, Jam Sessions: Rigo 84-23, em 2006, comissariada por Manray Hsu, foi uma ampla retrospetiva da obra deste artista nascido na Madeira que tem um já longo, diversificado e reconhecido percurso internacional. Foi dada particular atenção à fotografia, expondo William Henry em 2001, António Júlio Duarte em 2002, Paulo Catrica em 2003, Augusto Alves da Silva em 2003 e 2005, fotografia da coleção PLMJ, Thomas Joshua Cooper em 2006, Kimiko Yoshida em 2007. De entre os artistas portugueses destacaram as exposições de Alberto Carneiro em 2002, bom como de Joaquim Bravo Álvaro Lapa, António Palolo, Graça Morais e de José de Guimarães. Foram organizadas exposições a partir do acervo das seguintes coleções: Fundação de Serralves (peças doa anos 60, em 2000); Coleção Berardo (obras de grande escala e Foto-Realismo, em 2002;  Arte Povera, em 2005;  Fernando Lemos e o Surrealismo, em 2006); Fundação Cupertino de Miranda (Surrealismo, em 2007); Fundação PT (arte contemporânea da coleção, em 2014).

O panorama das galerias de arte de iniciativa privada manteve-se num difícil equilíbrio no início do novo séc. XXI. Em 1996, abriu a Edicarte, por iniciativa de Francisco Faria Paulino, que para além das exposições no seu espaço da Rua dos Aranhas e de muitas outras atividades, realizou a 2ª e a 3ª edições do Festival de Arte Contemporânea Marca-Madeira no Centro de Feiras e Congressos do Madeira (Tecnopolo), juntando o Fórum das principais galerias portuguesas com um colóquio internacional de arte contemporânea comissariado por Raquel Henriques da Silva, à data Diretora do Museu do Chiado, que versou problemáticas relacionadas com o ensino artístico e a produção, circulação e comercialização do objeto artístico no final do séc. XX. Nele participaram Vicente Todoli, Jaroslav Andel, Maria Corral, Luís Serpa, Alexandre Melo, Louise Neri, Rui Trindade, António Coutinho Gorjão e Idalina Sardinha. A edição de 2000 seguiu um modelo idêntico e o congresso, subordinado ao tema Arte e Instituições, Arte e Sociologia e Arte e Mercado e comissariado por Alexandre Melo teve a participação de António Pinto Ribeiro, Manuel Gonzalez, Peter Fleissig, Giacinto di Pietrantonio e Barbara Vanderlinden.

Em 2001 surgiu a Galeria da Mouraria, dirigida por Ricardo Ferreira que aliou uma vertente mais comercial a um Project Room de cariz mais experimental e aberta aos novos talentos.

O encerramento da galeria da SRTC, em 4 de junho de 2006, do Centro Cívico Edmundo Bettencourt a 7 de junho de 2005, aliado ao desinteresse institucional em incentivar as Casas da Cultura, bem como à escassez de galerias de arte, contribuiu, entre outros fatores intrínsecos às opções site-specific, para uma intensificação do recurso a espaços alternativos no dealbar do séc. XXI. Entre estes, assinalam-se a coletiva Casa Azul, na R. da Carreira, em 2002; All Paper, de Fagundes Vasconcelos, no armazém da Rua da Alfândega, em 2005; Representantes de Quarto, de Fagundes Vasconcelos e Filipa Venâncio, na então a Casa Ser Criança, à Rua da Carreira, em 2006; a colectiva, Quartos Vagos, na Rua 5 de Outubro, em 2007, estimulante confronto de linguagens, com a participação de Álvaro Silva, Bridget Jones, Carlos Valente, Cristina Perneta, Filipa Venâncio, Hugo Olim, José Pinho, Luísa Spínola, Martinho Mendes, Merícia Lucas, Nelson Henriques, Phil Shannon, Ricardo Barbeito, Sílvio Cró. Estas iniciativas fazem o contraponto a outras com apoios institucionais como a MIAB, Madeira International Art Biennale, comissariada por Manuel Barata.

A instituição do Concurso Regional de Artes Plásticas – Casa das Mudas, depois designado por Prémio Henrique e Francisco Franco, numa parceria do Centro das Artes com a Câmara da Calheta, evento bienal que teve cinco edições entre 1999 e 2007, incentivou e divulgou a produção artística de residentes na Madeira. Integraram sempre o júri de seleção figuras de destaque no panorama artístico nacional.

Em 1999, o 1º prémio de escultura foi dado a José Manuel e a Duarte Encarnação; o 1º prémio de pintura, também ex-aequo, Graça Berimbau e Susana Figueira; as menções honrosas para Ara Gouveia, Carla Pereira, Filipa Venâncio, Lígia Gontardo Freitas, Paulo Pingo, Paulo Ladeira, Patrícia Tré, Sílvia Marta e Teresa Jardim.

A 2ª edição, de 2001, trouxe o 1º prémio a Bruno Côrte, o 2º a Eduardo Freitas, o 3º a Luísa Spínola e as menções honrosas a Catarina Faia, Dina Pimenta, Patrícia Sumares, Paulo Aguiar, Bruno Pereira, sendo o júri constituído por Alexandre Melo, Alberto Carneiro, Idalina Sardinha, José Sainz-Trueva e Luís Rocha.

No 3º concurso, em 2003, Alexandre Melo, José de Guimarães, Carlos Nogueira e Luís Rocha atribuíram o 1º prémio a Desidério Sargo, o 2º a Bruno Côrte, o 3º a Rute Pereira, o prémio revelação a Carlos Jorge Rodrigues e as menções honrosas a Duarte Encarnação, Eduardo Freitas, Hugo Olim, Rui Camacho e Susana Figueira.

Em 2005 (4ª edição), o 1º prémio foi para Paulo Sérgio BEJu e o 2º para Nuno Henrique Santos, não tendo sido atribuído mais nenhum prémio. No júri estiveram Isabel Carlos, Cecília Costa e José Fernandes Pereira.

Em 2007, na 5ª e última edição, o júri constituído por Alexandre Melo, Ana Vidigal e Pedro Calapez deu o 1º prémio a Desidério Sargo, o 2º a Pedro Clode, o 3º a Ricardo Barbeito e as menções honrosas a Paulo Sérgio BEJu, Nuno Santos, Rute Pereira, Francisco Clode de Sousa, Dayana Lucas.

A criação, em 2008, da Galeria dos Prazeres deve-se a uma iniciativa do P.e Rui de Sousa, integrada no projeto paroquial da Quinta Pedagógica da vila dos Prazeres. Tendo como objetivo estabelecer uma ligação entre os artistas, a natureza e a comunidade local, tornou-se em mais um polo de descentralização com atividade regular e diversificada. Dando oportunidade a residências artísticas, foi coordenada até 2012 por Patrícia Sumares e, a partir de 2013, por Hugo Olim. Para além de peças de Paula Rego, José de Guimarães, Fernando Aguiar, Menez, Rico Sequeira, Cesariny, Francisco Relógio, Manuel Cargaleiro, entre outros, e dos originais do projeto Lonarte, apresentou trabalhos de artistas madeirenses: Rigo23, Sílvia Marta, Helena Sousa, Alexandra Carvalho, Ângela Franco (2009), António Aragão, Paulo Sérgio BEJu, Ângela Costa (2010), Carla Cabral, Guida Ferraz, Lourdes Castro, Sílvio Cró, Ana Luísa Sousa, Alice de Sousa (2011), Filipa Venâncio, Ara Gouveia, Daniel Melim, António Dantas, António Barros, Rui Carvalho (2012), Bruno Côrte (2013), Martinho Mendes e maquetes de arquitetura de Paulo David (2014).

Fora dos circuitos estabelecidos surgiu, em 2001, por iniciativa de Silvestre Pestana, António Dantas e António Barros o colectivo What is watt?, de índole interdisciplinar e multigeracional. O nome é esclarecedor daquilo que é o denominador comum entre os participantes, a mediação da energia elétrica na concepção, produção e apresentação da obra, bem como a atitude experimental e o questionamento e das relações entre arte e novas tecnologias.

A edição de 2001 realizou-se no Museu de Eletricidade e a edição seguinte dispersou-se por este espaço, o do MACF e a sala de Exposições da UMa, no Colégio dos Jesuítas. As edições de 2005 e 2007 optaram por concentrar-se no MACF. Na 1ª edição participaram, além dos nomes acima referidos, Carlos Marques, Carlos Valente, Catarina Pestana, Celeste Cerqueira, Evangelina Sirgado, Pedro Clode e Vítor Magalhães; nas edições seguintes, e para mencionar apenas os elementos que nasceram ou viveram na Madeira, entram ainda António Aragão, António Nelos, Carlos Caires, Celso Xavier, Fagundes Vasconcelos, Gilberto Gouveia, Hugo Olim, Nídia Freitas, Pedro Pestana e Ricardo Barbeito. Para além das exposições de periodicidade bienal no Funchal, o grupo apresentou-se também, em 2006, no Fórum da Maia e em 2007 foi convidado a participar na XIV Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira.

Várias iniciativas propuseram leituras de conjunto, de carácter histórico, acerca da produção artística na Madeira na segunda metade do séc. XX. Passamos a referi-las por ordem cronológica não da sua realização, mas dos seus conteúdos.

A exposição Preâmbulo (MACF, 10/07/2009-30/09/2009), organizada por um grupo de antigos alunos da AMBAM em boa parte dinamizado por Irene Lucília, propôs-se homenagear os professores pintor Arnaldo Louro de Almeida e escultor Pedro Augusto dos Anjos Teixeira e deixar um testemunho do que foi o tempo inicial de sementeira que resultou da criação desta escola. Reuniu 40 participantes, alguns dos quais seguiram um percurso artístico, e apresentou trabalhos da época académica em confronto com outros recentes.

A exposição Vinte anos de artes plásticas na Madeira (MACF, 19/09/1999-31/01/2000) teve curadoria de Carlos Valente, Isabel Santa Clara e Francisco Clode e foi uma primeira iniciativa de fazer um balanço da atividade artística das duas últimas décadas do séc. XX. Reuniu 44 participantes, escolhidos de entre as presenças mais assíduas e mais marcantes do referido período, e o texto introdutório do catálogo resume esta realidade.

Horizonte móvel: Artes Plásticas na Madeira 1960-2008 (MACF, 12/09/2008-31/10/2008) integrada nas comemorações dos 500 anos da cidade do Funchal, com curadoria de Isabel Santa Clara e Vítor Magalhães, foi uma exposição que possibilitou uma panorâmica diversificada do período compreendido entre a déc. de 60 do séc. XX e a primeira década do séc. XXI. Dividida em três núcleos, apostou em dar a ver o que se passou entre o período abrangido pela exposição Preâmbulo e as linhas de pesquisa patentes na exposição Linha de Partida, deixando de fora percursos internacionalmente afirmados e já mais conhecidos como os de Lourdes Castro e de Martha Telles. Para além das peças que fazem parte do acervo do Museu, foram trazidas outras de coleções particulares de modo a enquadrá-las e alargar o sentido mostra. O primeiro núcleo apresentava esculturas-objeto de Amândio de Sousa (mais conhecido pelas suas peças de escultura pública), inéditas e muito próximas das práticas objetualistas e de fusão entre géneros da déc. de 60 em Portugal; desenhos pouco conhecidos de Marcelo Costa; uma peça de Maria do Carmo Ramos Silva, uma das primeiras experiências, a nível local, de escultura em fibra de vidro que marca a viragem para o uso de materiais não tradicionais; e algumas peças de Jorge Marques da Silva, Élia Pimenta, Maurício Fernandes, Celso Caires, Guilhermina da Luz, Evangelina Sirgado e José Manuel Gomes, docentes da AMBAM e depois do ISAPM, e ainda de Alice de Sousa e Ângela Costa que completavam este núcleo. Saliente-se a presença das experiências mais antigas de arte por computador feitas por Evangelina Sirgado de Sousa.

Um segundo núcleo incidiu sobre a vertente experimentalista das décs. de 70 e 80. Centrada na ação de António Aragão, incluiu peças deste, de António Nelos, de António Barros, bem como da vertente performativa de Silvestre Pestana e de Ção Pestana. Embora muitas tivessem já conhecido já destaques a nível nacional, inclusive através da Fundação de Serralves, não tinham sido mostradas na Madeira. Incluiu ainda trabalhos de Rigo e de Rui Carvalho marcados pela vivência urbana.

Um terceiro núcleo com peças de final do século XX e o início do XXI, apresentou exemplos de afirmação de linguagens pessoais de Ara Gouveia, Eduardo Freitas, Teresa Jardim, Rita Rodrigues, Mafalda Gonçalves, Graça Berimbau, Domingas Pita, Lígia Gontardo, Guida Ferraz, Filipa Venâncio, Francisco Clode de Sousa, Fagundes de Vasconcelos, Teresa Gonçalves Lobo, Susana Figueira, Duarte Encarnação, Emanuel de Sousa, Miguel Ângelo Martins e Ricardo Barbeito.

Um outro núcleo foi dedicado especificamente a vídeo-instalações de Carlos Valente e de Hugo Olim, participantes nas sucessivas edições de What is watt? .

Preâmbulo, Horizonte Móvel e Linha de partida são três mostras quase coincidentes nas suas datas de realização e complementares nos seus objetivos e conteúdos. Linha de partida (2009, Centro das Artes, Calheta) foi comissariada por Alexandre Melo e reuniu os vencedores das cinco edições dos prémios Henrique e Francisco Franco: Bruno Côrte, Carlos Jorge Rodrigues, Desidério Sargo, Duarte Encarnação, Eduardo de Freitas, Graça Berimbau, José Manuel Gomes, Luísa Spínola, Nuno Henrique, Paulo Sérgio BEju, Pedro Clode, Ricardo Barbeito, Rute Pereira e Susana Figueira. Com obras de pintura, escultura, fotografia, vídeo, na sua maioria integradas em instalações e feitas especificamente para a circunstância e o lugar, esta mostra, como o nome programaticamente indicava, pretendia ser um ponto de viragem para uma maior visibilidade dos seus autores. No entanto, o catálogo não chegou a ser editado, apesar de terem sido elaborados os textos, e só encontramos ecos dela nas páginas web dos participantes.

A experiência da forma: um olhar sobre o Museu de Arte Contemporânea foi uma exposição organizada em 2009 por Francisco Clode Sousa no Centro das Artes que deu uma visão ampla sobre a evolução da coleção do MACF, acompanhada por um desenvolvido catálogo. Reuniu 180 obras, na sua grande maioria pertencentes ao referido espólio, complementadas por algumas obras emprestadas pela CMF, Biblioteca Pública Regional, o Instituto de Gestão da Água e Tecnopolo.

Potenciando múltiplas reflexões sobre a paisagem e a sua relação com as artes, coincidiram em 2013, no Centro das Artes, duas exposições: a visão tradicional de Max Römer, com vasta mostra da obra deste alemão radicado na Madeira a partir de 1922 que, entre outras temáticas, dedicou particular atenção ao pitoresco da paisagem e aos costumes da ilha; e uma visão contemporânea, intergeracional e transdisciplinar intitulada A2V – a Duas Velocidades, com curadoria de Duarte Santo e Sílvia Escórcio e participação de Bernardo Mendonça & Tiago Miranda, Hugo Olim, Lucília Monteiro, Luísa Cunha, Miguel Palma, Ricardo Barbeito, Rigo e Yonamine, que apontou para a consciência das transformações tanto da paisagem como dos meios processuais e dos olhares sobre ela.

Recapitulando esta panorâmica, podemos constatar que na Madeira, no início da déc. de 60, houve oportunidade de contactar com a atualidade artística nacional e internacional e que se verifica uma diversificação de linguagens artísticas, com tendência para o esbatimento de fronteiras entre géneros tradicionais como a pintura e a escultura, artistas que se afastam do tradicional figurativismo de motivos pitorescos para enveredar por experiências abstratas, a par do aparecimento de galerias de arte e de uma instituição de ensino superior artístico.

O pós 25 de Abril trouxe, a par das alterações políticas e mudanças institucionais com consequente liberdade de expressão e intensificação dos hábitos de debate, uma reformulação de linguagens e de modos de atuação, que se abriu à vertente performativa e a uma outra atenção à fotografia e à imagem cinemática.

Na efervescência dos anos 80 coexistiram com o recurso aos meios tradicionais as práticas experimentalistas mais alternativas e a introdução da imagem digital. Desenvolveram-se práticas de associativismo e debate de ideias reveladoras da consciencialização dos artistas plásticos acerca das dificuldades inerentes ao seu espaço geográfico, procurando traçar estratégias e objetivos comuns.

Na década seguinte, assistiu-se ao aprofundamento de percursos anteriormente revelados, aliado a uma multiplicação de novas vozes intervenientes. A nível institucional, destacou-se a abertura do MACF e a criação de infraestruturas como casas de cultura que potenciaram a descentralização cultural. A vitalidade dos autores e a recetividade das galerias e espaços institucionais resultam num aumento da oferta cultural.

Com o avançar do séc. XXI, viu-se um certo desinvestimento institucional nas artes plásticas, com abrandamento de atividade ou encerramento de alguns espaços. No domínio da arte pública, a continuidade da escultura comemorativa contrasta com algumas realizações de carácter efémero e interventivo. Quanto aos meios e processos de trabalho, se, para alguns, o fascínio do digital funciona como recusa da fisicidadade das peças, para outros é mais uma oportunidade de diálogo e enriquecimento de linguagens.

Bibliog.: CARITA, Rui, “António Aragão: pintura e escultura”, Margem2, nº 28, maio 2011, pp. 114-121; Id. (coord.), Funchal, cidade com arte, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 2010; “Debate sobre exposições de arte”, Espaço-Arte, nº 5, Dez. 1980, p. 20; GORJÃO, Maria Idalina Sardinha, “Reflexão acerca da situação artística madeirense”, Espaço-Arte, nº 16, dez. 1988, pp. 7-9; Id. “Reflexão acerca da situação artística madeirense-2”, Espaço-Arte, nº 20-21, jan. 1992, pp. 38-41; Id. “Reflexões acerca da realidade artística madeirense”, Espaço-Arte, nº 17, jul. 1989, p. 7-9; LUCÍLIA, Irene et al, Preâmbulo, Funchal, Câmara Municipal do Funchal / Museu de Arte Contemporânea, 2009; “Martha Telles, Fotobiografia breve (1930-2001)”, Islenha , nº 48, jan.-jun. 2011, pp. 37-46; RODRIGUES, António, “A linguagem do desenho na obra de António Aragão”, Margem2, nº 28, maio 2011, pp. 122-131; RODRIGUES, Gualter, O catálogo de exposições temporárias de arte, 2007″, ensaio apresentado na disciplina de Metodologias de Investigação do Curso de Mestrado em Arte e Património da Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2007; RODRIGUES, José Gualter Nóbrega, Rigo: artista plástico activista, conceptualista, Dissertação de Mestrado em Arte e Património apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2008; SAINZ-TRUEVA, José e VERÍSSIMO, Nelson, Esculturas da Região Autónoma da Madeira. Inventário, Funchal, DRAC, 1996; SANTA CLARA, Isabel, “A pintura de António Aragão”, Margem2, nº 28, maio 2011, pp. 122-131; Id. “Amândio de Sousa, escultor, Islenha nº 49, jul-dez 2011, pp. 133-148; Id. “Caminhos da contemporaneidade artística na Madeira” in BRITO, Orlando e PALAZUELA, Nilo Borges, Horizontes Insulares, Canarias, Acción Cultural Española, 2011, pp. 180-189; Id. e  MAGALHÃES, Vítor, Horizonte móvel: Artes Plásticas na Madeira 1960-2008, Funchal, Funchal 500 Anos, 2008; SOBRAL, Luís de Moura, “Martha Telles: Retratos e melancolias”, Islenha , nº 48, jan.-jun. 2011, pp. 23-28; VALENTE, António Carlos Jardim, As Artes Plásticas na Madeira (1910-1990). Conjunturas, factos e protagonistas do panorama artístico regional no século XX, Dissertação de Mestrado em História da Arte Universidade da Madeira apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 1999; VALENTE, Carlos e SOUSA, Francisco Clode de, 20 anos de artes plásticas na Madeira, Funchal, Museu de Arte Contemporânea/Fortaleza de São Tiago, 1998; VASCONCELOS, Marla Lénia Ferreira, “Exposições na Madeira: 1990-1997”, ensaio apresentado na disciplina de Arte e Cultura Regionais da Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 1998.

Isabel Santa Clara

(atualizado a 03.10.2016)