artes visuais e novos meios

As artes plásticas, ao longo do séc. XX, foram incorporando novas linguagens às tradicionais disciplinas de pintura, escultura e desenho. O despertar para os novos meios ocorreu em várias frentes: a incorporação da eletricidade na obra de arte, através da luz ou da motorização; o aparecimento dos primeiros computadores; a produção experimental de múltiplos através da fotocópia; a possibilidade de gravação do sinal audiovisual em fita magnética e a sua influência em tendências como a performance e a videoarte.

Em Portugal, o despertar aconteceu após 1975, num período animado pelo súbito acesso a uma modernidade até então pouco conhecida. À Região Autónoma da Madeira (RAM), em particular, chegariam os ecos das novas linguagens através de dois vetores de dinamização: por um lado, graças à criação do Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira (ISAPM) e, por outro, pela mão de alguns pioneiros que, entre a RAM e o continente, foram reinventando a modernidade do discurso criativo, quer no conteúdo – mais crítico e socialmente empenhado –, quer na forma, pela incorporação das novas tecnologias no seu trabalho.

Este impulso renovador chegou pela mão de António Dantas, que, com António Aragão e António Nelos, foi pioneiro no campo da eletrografia e da arte vídeo. A eletrografia, conhecida também como Copy Art ou Xerox Art, foi introduzida pelas pioneiras máquinas Xerox. A “arte” de fotocopiar permitia o registo, manipulação, transformação e deformação da imagem, processos que iam ao encontro das pesquisas que os artistas mencionados já vinham desenvolvendo no campo da poesia visual. Por outro lado, a eletrografia esteve sempre associada a uma outra forma alternativa de arte, a arte postal, também conhecida como Mail Art.

António Dantas, António Nelos e Eduardo Freitas juntaram-se a António Aragão e formaram o coletivo Filigrama, que pretendeu associar a arte da “fotocopiadora” à estética ativista da arte postal. A Filigrama consistia numa publicação em forma de boletim que reunia trabalhos de eletrografia, fotomontagem e poesia visual e que era enviada por correio para diferentes partes do mundo. O envelope era carimbado com o símbolo da Filigrama, criado pelo grupo. Em troca, chegaram à RAM trabalhos de artistas de diversos pontos do globo, nomeadamente do Reino Unido, México e Brasil. Esta forma de arte alternativa, marginal e provocatória, através da qual era possível partilhar mensagens/imagens de carácter subversivo, irónico e lúdico, foi uma experiência única a nível regional e uma das menos conhecidas do grande público.

A Filigrama deixou de ser produzida por volta de 1983. Contudo, Nelos continuaria a realizar experiências no campo da eletrografia, radicando-se no continente, chegando a participar em mostras internacionais, como a I Exposição Internacional de Mail Art, em Nova Iorque, em 1988. Por sua vez, António Dantas mantém até hoje um trabalho consistente nas áreas cruzadas da eletrografia e da poesia visual, para além de diversas incursões na videoarte.

O desenvolvimento de experiências no campo da videoarte esteve também ligado à criação do já referido ISAPM, em 1977. O papel do ISAPM é fundamental neste capítulo por ter sido, juntamente com Lisboa e Porto, uma das primeiras instituições de ensino artístico superior do país a incluir a tecnologia do vídeo no currículo dos seus cursos de pintura e escultura (e mais tarde de design).

Ao longo das décs. de 80 e 90, diversas mostras de vídeo organizadas pelo ISAPM deram a conhecer tanto trabalhos escolares como obras de artistas convidados. A primeira mostra integralmente dedicada ao vídeo ocorreu em 1988, donde destacamos o vídeo Ego Eco, de António Dantas, assim como a instalação vídeo VÊ TV, de Carlos Valente. Ao longo dos anos 90, este último participou em diversas exposições coletivas na RAM, com vídeos de monitor único ou com instalações mais elaboradas. Recordamos a pioneira performance Vídeo – logo és isto, apresentada nas IX Jornadas do ISAD (1995), e o vídeo-tributo à pintora Élia Pimenta, apresentado na exposição póstuma a esta dedicada (1996).

 Evangelina Sirgado. Foto cedida pelo autor.
Evangelina Sirgado. Foto cedida pelo autor.

O ISAPM esteve também na primeira linha, a nível nacional, no que toca à introdução da tecnologia informática no ensino das artes e do design. Os primeiros computadores foram desde cedo assumidos como uma ferramenta cheia de novas possibilidades para investigadores e artistas. Jorge Marques da Silva e Evangelina Sirgado, docentes que exploraram esta novíssima tecnologia, apresentaram a primeira exposição de arte por computador na RAM em 1985, uma das primeiras no contexto nacional. Nesta mostra, puderam ser vistos trabalhos de Jorge Marques da Silva, que exploravam uma então incipiente interatividade, através de imagens que se transformavam aleatoriamente, e nas quais o público podia intervir usando o teclado. Por seu lado, Evangelina Sirgado apresentou fotografias produzidas a partir de desenhos que criou no computador através de uma rudimentar mas muito criativa programação, onde árvores e montanhas geometrizadas configuravam uma paisagem virtual e mutante.

A continuidade e qualidade da sua pesquisa deram a Evangelina Sirgado, em 1990, o prémio revelação na I Bienal dos Açores e Atlântico. No mesmo ano, obteve uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para frequentar estudos de aprofundamento nesta nova tecnologia no National Center for Computer Animation, na Universidade de Bournemouth, em Inglaterra. Consequentemente, desenvolve nos anos seguintes um volume de trabalho importante neste campo, que a levou a ganhar o 2.º prémio na categoria de Arte no Festival Internacional de Computer Graphics Prix Pixel – INA Imagina (1995). Regressada mais tarde à RAM, continuará a desenvolver investigação neste âmbito, como veremos mais adiante.

Pioneira é também a participação de Filipe Vasconcelos, aluno do ISAPM, na coletiva Woauh (Galeria da SRTC, 1989) com os seus “autómatos”, uma espécie de esculturas-robôs-brinquedos que constituíram a primeira mostra na Madeira deste tipo de objetos no contexto artístico.

Já no séc. XXI, assiste-se a uma continuidade das iniciativas que recorrem ao vídeo como instrumento criativo e à crescente “arte digital”, duas tecnologias cada vez mais interligadas, graças à migração do audiovisual para contexto digital. O século começa com dois encontros de vídeo, em 2000 e 2001, organizados pelo ex-ISAPM, entretanto integrado na Universidade da Madeira (UMa) como Instituto Superior de Arte e Design (ISAD). Os encontros UMaVisão trouxeram ao Funchal palestras e uma seleção dos vídeos do Festival OvarVídeo e da Videoteca de Lisboa e contaram com a presença de criadores do panorama nacional no campo do vídeo artístico, tais como Pedro Sena Nunes e Nuno Tudela.

Por esta época, e por iniciativa dos artistas Silvestre Pestana e António Barros, madeirenses a residir no continente, em conjunto com António Dantas, surgiu o projeto What is Watt?. Este coletivo artístico iniciou em 2001 um ciclo de exposições de carácter bienal, no Funchal, que culminou em 2007. Tendo como único elemento comum entre os participantes o uso das novas tecnologias, foi privilegiada a ligação tanto simbólica quanto literal à energia elétrica, como força motriz de toda e qualquer tecnologia e forma de arte atual. Não por acaso, o local escolhido para a primeira edição foi o Museu de Eletricidade – Casa da Luz (ME-CL), no Funchal. As mostras posteriores aconteceram sempre no Museu de Arte Contemporânea do Funchal (MACF), com alguns desdobramentos pela UMa e pelo ME-CL. No entanto, em 2006, e quebrando a periodicidade bienal, o coletivo What is Watt? levou uma seleção de trabalhos ao Fórum da Maia e participou também na XIV Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira.

Ao longo das cinco edições, destacam-se os artistas mais “assíduos”: António Barros apresentou instalações ricas de sentido, com recurso a materiais e objetos diversos que constroem um diálogo com a luz elétrica; António Dantas, com exceção de um vídeo (em 2007), manteve-se fiel à eletrografia, recorrendo ao discurso do autorretrato e usando a sua imagem em tamanho real, com contornos estéticos de autorreferência; Carlos Caires, antigo aluno do ISAD, apresentou vídeo projetado, mas também instalações vídeo – recordemos a polémica TV Banana (em 2005) –, enveredando mais tarde pela instalação interativa, em 2007; Carlos Valente montou um circuito fechado de vídeo na primeira edição e continuou a trabalhar com a linguagem vídeo, em projeção ou monitor, tirando partido da intervenção/interferência dos espectadores; Catarina Pestana apresentou a sua pesquisa na área da fotografia, quer em diaporamas projetados, quer em instalações fotográficas, quer mesmo através de visores estereoscópicos que convidam a “espreitar”.

Por outro lado, Celeste Cerqueira desenvolveu instalações que recorrem a um conjunto de objetos recuperados ou construídos, invadidos ora por luz fluorescente, ora por painéis luminosos, leds, vídeo ou fotografia digital; Evangelina Sirgado, continuando a sua pesquisa na área da imagem digital, propôs instalações a partir de animação 3D projetada e em monitor, com recurso a impressão fotográfica do trabalho criado em computador; Hugo Olim trouxe videoarte em monitor, mas também uma interessante instalação que conjuga vídeo e fotografia, numa linguagem esteticamente minimalista (2007); Vítor Magalhães atravessou os caminhos do vídeo interativo e da arte sonora, apresentando também modos de fazer dialogar as imagens fixas e em movimento; Pedro Clode explorou os conteúdos escondidos da imagem no âmbito da impressão fotográfica digital, enquanto Pedro Pestana deu a “ver” e ouvir a arte sonora, através da performance musical, mas colaborando também noutros trabalhos, no domínio do áudio; finalmente, Silvestre Pestana criou esculturas em néon para as primeiras edições, tendo apresentado na última edição um conjunto de grandes painéis com fotografia digital impressa.

Hugo Olim. Foto cedida pelo autor.
Hugo Olim. Foto cedida pelo autor.
Vitor Magalhães. Foto cedida pelo autor.
Vitor Magalhães. Foto cedida pelo autor.

O projeto What is Watt? constituiu um marco importante na divulgação local da pesquisa artística associada às novas tecnologias por ter tido a capacidade de juntar artistas, a nível local e nacional, de diferentes gerações e tendências, distanciando-se de experiências esparsas que foram acontecendo na ilha de carácter mais técnico e “curioso” do que propriamente estético e artístico.

Capa do catálogo da coletiva What is Watt. Foto cedida pelo autor.
Capa do catálogo da coletiva What is Watt. Foto cedida pelo autor.

Por sua vez, o festival de artes digitais MADEIRADiG, criado em 2004 pela Agência de Promoção da Cultura Atlântica, tem levado à Madeira artistas internacionais ligados à música experimental e à performance multimédia que envolve a interação entre som e imagem, mediada por dispositivos informáticos. Este evento pretendeu acolher, desde o seu início, a produção local e nacional, pelo que nesse mesmo ano foi aberta uma mostra de videoarte onde puderam ser vistas obras de Catarina Campino, Miguel Soares, Pedro Cabral Santo e do madeirense Hugo Olim. Na edição de 2005, o festival integrou uma coletânea de videoarte produzida na Madeira, abrangendo obras de 1995 até à data. Em simultâneo, outra mostra foi dedicada aos “consagrados” do panorama local, na sua maioria ligados ao projeto What is Watt?.

Em 2008, o madeirense Carlos Caires, artista e docente na Universidade Católica do Porto, apresentou a instalação de cinema interativo Anacronias, tendo sido a primeira do género exposta na Madeira. No mesmo ano, Hugo Olim realizou uma performance audiovisual em parceria com Nuno Rebelo e Vítor Joaquim. Este último também organizou um workshop de live sampling na UMa. Em 2009, uma nova performance audiovisual de Hugo Olim e desenvolvida com Jerome Faria.

A partir de 2009, a parceria com a produtora alemã Digital in Berlin vocacionou o festival para a música digital de carácter experimental, que já vinha tendo um peso considerável na programação. Nesse mesmo ano, a Estalagem da Ponta de Sol associou-se ao projeto e passou a organizar exposições de artes visuais, para além de outros eventos. Nesse novo contexto, foi inaugurada em 2011 a exposição coletiva Espaço Ocupado, com a participação de Carlos Valente, Pedro Clode e Vitor Magalhães, onde puderam ser vistas projeções e instalações de vídeo e fotografia. No ano seguinte, a intervenção coletiva AV – Untitled foi montada no Centro das Artes Casa das Mudas (atual MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira) e contou com trabalhos de Carlos Valente, Hugo Olim, Jerome Faria e Vítor Magalhães.

Para além da atenção dada à criação local e nacional, o MADEIRADiG levou ao Funchal alguns nomes de recorte internacional ligados ao vídeo e cinema experimentais. Assim, em 2005 puderam ser apreciadas, na sala de cinema Cinemax, as experiências audiovisuais do alemão Volker Schreiner, no domínio da estética do found footage. Seguindo a mesma orientação estética, em 2006 o austríaco Gustav Deutsch apresentou uma retrospetiva dos seus trabalhos e proferiu uma conferência na UMa. Em 2007, foram apresentados quatro vídeos de Nam June Paik, nome incontornável da história da videoarte. Hoje denominado MADEIRADiG International Music Festival, o evento continua a privilegiar a música eletrónica e digital, mas mantendo um diálogo com as linguagens multimédia, em geral.

Fora dos eventos What is Watt? e MADEIRADiG, tem sido constante a atividade de três artistas já mencionados, também docentes no curso de Arte e Multimédia da UMa: Carlos Valente, Hugo Olim e Vitor Magalhães. Em 2010, a coletiva Exposição Prolongada à Luz, patente no MACF, juntou estes três artistas numa exposição que integrou os diversos domínios da experimentação audiovisual mediada pela tecnologia: a projeção videográfica em modo de instalação, o circuito fechado de vídeo e a objetualização do cinema, através da película enquanto matéria-prima da expressão plástica.

Em 2006, Hugo Olim produziu um interessante documentário sobre os artistas digitais das ilhas macaronésias, intitulado Periféricos (48′), divulgado pela editora Almasud Records, que pôde ser visto no Funchal International Film Festival, no mesmo ano. Por sua vez, Carlos Valente desenvolveu ao longo de 2007 e 2008 o projeto Ponto de Vista, que consistiu na criação de uma espécie de autorretrato em vídeo que se integrou na exposição individual ou coletiva de outros artistas, tais como Pedro Clode, Eduardo Freitas, Filipa Venâncio, Teresa Jardim, Alice Sousa e Carmem, entre outros. Enquanto docentes e investigadores, Valente, Olim e Magalhães vêm produzindo, para além da prática artística, uma sistemática reflexão teórica sobre estes assuntos.

Novos grupos e eventos vão surgindo na atualidade, dando continuidade a esta permanente ligação entre arte e tecnologia. Neste contexto, merece nota o festival Cognitivopolis, organizado no Centro das Artes Casa das Mudas em 2013, por iniciativa da agência criativa Urbanistas Digitais, dirigida por Nuno Serrão. Este festival ofereceu um conjunto de conferências subordinadas a temas diversos, tais como robótica, física, hardware open source, tecnologia, composição musical e ilustração, levando à Madeira importantes investigadores destas áreas. O objetivo do evento foi, principalmente, o de esbater/sobrepor fronteiras ainda existentes entre áreas como a arte, a ciência e a tecnologia, reforçando a tendência de aproximação que se vem desenhando entre elas a partir, sobretudo, dos anos 80 do séc. XX.

Bibliog.: impressa: SANTA CLARA, Isabel, “Caminhos da Contemporaneidade Artística na Madeira”, in BRITO, Orlando e PALAZUELA, Nilo Borges, Horizontes Insulares, Canarias, Acción Cultural Española, 2011; Id. e MAGALHÃES, Vítor, Horizonte Móvel: Artes Plásticas na Madeira 1960-2008, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos/DRAC, 2008; SIRGADO, Evangelina, “Computador: Uma Outra Máquina de Desenhar?”, Espaço-Arte, n.º 12, jan. 1987, pp. 45-50; VALENTE, Carlos, As Artes Plásticas na Madeira (1910-1990). Conjunturas, Factos e Protagonistas do Panorama Artístico Regional no Século XX, Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 1999; Id., “Arte Comunidade: Entre a Virtualidade e Matéria. Uma Leitura da Exposição Prolongada à Luz”, PensarDiverso, 2011, pp. 107-116; Id. e Carlos e SOUSA, Francisco Clode de, 20 Anos de Artes Plásticas na Madeira, Funchal, Museu de Arte Contemporânea, Fortaleza de São Tiago, 1998; digital: Hugo Olim (página pessoal): http://www.hugoolim.com (acedido a 2 jul. 2015); Festival Cognitivopolis: http://urbanistasdigitais.pt/cognitivo/o-evento (acedido a 2 jul. 2015); Festival MadeiraDig: http://digitalinberlin.eu/line-up/archive (acedido a 2 jul. 2015); Projeto What is Watt?: http://whatiswatt.org (acedido a 2 jul. 2015).

Carlos Valente

(atualizado a 29.12.2016)