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a madeira vista pelos ingleses

Os primórdios Não é possível afirmar com segurança quem foi o primeiro britânico a pisar a Madeira, mas dizem as lendas que Robert Machim, após um naufrágio, deu à costa da Ilha juntamente com a sua companheira, Anne d’Arfet, em 1344. A realidade historicamente documentada é bem mais prosaica: na sequência de uma expedição portuguesa às ilhas atlânticas, então desabitadas, em 1418, o infante D. Henrique reenviou os seus capitães ao território no ano seguinte a fim de o reivindicarem para a Coroa. Em 1425, a Madeira tinha-se tornado uma província de Portugal, sendo a produção de açúcar iniciada em 1452. Na verdade, é bastante provável que a Madeira tenha sido descoberta antes da data oficial do seu descobrimento, mas não teria sido do interesse dos Portugueses ou sequer dos Espanhóis dar crédito a pretensões de outras nações. Existem provas da existência da Madeira em mapas do séc. XIV, embora este conhecimento não fosse necessariamente do domínio público. Gomes Eanes de Zurara refere-se à descoberta da Madeira e de Porto Santo na sua Chronica da Descoberta e Conquista da Guiné 1434-1438, mas esta obra apenas ficou disponível em inglês entre 1896 e 1899, quando Charles Raymond Beazley e Edgar Prestage publicaram uma tradução em dois volumes da mesma. Infelizmente, os capítulos sobre a Madeira são pequenos. As relações anglo-madeirenses remontam ao mesmo século, de acordo com os dados citados em estudos sobre as viagens inglesas para fins de comércio e de exploração, e.g.: “A partir da documentação, é difícil saber que contactos tiveram os navios de Bristol, antes de 1480, com a Madeira, os Açores, Cabo Verde e as ilhas atlânticas, que os Portugueses descobriram e onde se instalaram no século XV” (HART, 2003, 56-57). Carus-Wilson, a organizadora de The Overseas Trade of Bristol in the Later Middle Ages, observa, com base numa série de fontes documentais, que Portugal era um dos “clientes mais assíduos” de Bristol (CARUS-WILSON, 1937, 14). Por exemplo, a 17 de março de 1463, foi concedida a John Jay, de Bristol, uma licença para “enviar 300 quartos de trigo de Bristol para Portugal, em qualquer navio” (Id., Ibid., 130); os registos alfandegários também evidenciam que, a 18 de maio de 1480, William Weston enviou um carregamento de têxteis na embarcação Mawdeleyn (de Quimperlé) de Bristol para a Madeira. Por outro lado, a primeira viagem da Madeira para Bristol de que há registo ocorreu em setembro de 1486, numa altura em que vários mercadores portugueses enviaram açúcar e peças de barris diretamente para Bristol (WILLIAMSON, 1962, 187). Os começos da modernidade O contacto entre os Ingleses e a ilha da Madeira nem sempre foi amigável ou reciprocamente benéfico. No final do séc. XVI, mais especificamente em 1595, durante o período de união das Coroas ibéricas, Amyas Preston, um dos principais lobos do mar de Isabel I, pilhou o Porto Santo enquanto se encontrava a caminho das Américas, onde depois saqueou Caracas (HARRISON, 1999, 46). Outros britânicos, comerciantes respeitáveis e cumpridores da lei, utilizavam regularmente a Madeira como porto de escala das longas viagens transatlânticas, reabastecendo ora aí, ora nas ilhas Canárias; alguns deles acabaram mesmo por se estabelecer na Madeira, contribuindo para o comércio de vinho, para o artesanato e para as plantações da Ilha. A mais significativa fonte de informação sobre a Madeira e outros territórios ultramarinos foi a literatura de viagens, entendida em sentido amplo e não raras vezes em traduções. Na verdade, como salienta Alison Yarrington, “a estreita relação entre as traduções e a promoção da expansão territorial está bem patente na carreira de Hakluyt” (YARRINGTON et al., 2013, 29-30). Apesar de tudo, havia alguma reserva em relação aos textos, devido ao intervalo entre a data original de publicação e a sua tradução para inglês, e porque nem todas as traduções eram fiáveis, conforme explica o próprio Hakluyt na sua Epistle Dedicatorie a Robert Cecil (HAKLUYT, 1862, VI-VII). Assim aconteceu com uma tradução inglesa anónima do Tratado dos Descobrimentos de António Galvão, concluída em 1550 e publicada em 1563, que foi corrigida e publicada por Hakluyt em 1601. Esta obra contém bastante mais informação do que a publicação anterior de Hakluyt, datada de 1599, que só dedicava quatro páginas à descoberta da Madeira, às características físicas da Ilha e à sua produção agrícola, incluindo o dragoeiro. A Madeira é mencionada por Camões em Os Lusíadas, cuja primeira tradução inglesa, de Fanshawe, foi publicada em 1655. No cômputo geral, o séc. XVII representou um período de consolidação das relações anglo-lusas, incluindo naturalmente as ilhas atlânticas e o comércio de vinho da Madeira. Nas palavras de David Hancock, “A exportação de vinho da Madeira para a América era diretamente moldada pela geografia e pela diplomacia” (HANCOCK, 2000, 109). Com efeito, as relações comerciais entre a Grã-Bretanha e a Madeira foram reguladas por vários tratados e diversas leis, que geralmente serviam os interesses britânicos: o Tratado de Paz de Cromwell e a Aliança entre Inglaterra e Portugal (1654), e a Lei da Navegação (1660). Todavia, uma grande parte das proibições impostas pelos Ingleses às importações e exportações foi simplesmente ignorada, pelo que os bens eram enviados da Europa diretamente para as colónias inglesas da América sem passarem pelos portos ingleses, onde seriam taxados. Na sequência do casamento de Charles II com Catarina de Bragança, e graças às disposições de uma Lei de Navegação de 1663, também conhecida como Lei para a Promoção do Comércio, a Madeira e os Açores foram isentados das proibições constantes na legislação anterior, tornando-se um dos principais fornecedores de vinho das colónias britânicas. O Tratado de Methuen, de 1703, não só reforçou a exportação de vinhos da Madeira para Inglaterra e para as colónias inglesas, como posicionou a Ilha na rede comercial britânica, conforme atestado em The Bolton Letters, que fornece informações preciosas sobre o comércio britânico com a Madeira. O período abrangido pelo primeiro volume desta obra coincide com a visita de Edmund Halley à Madeira a bordo do Paramore, de caminho para o Atlântico Sul no quadro de uma expedição científica que decorreu entre 1698 e 1701. O porto do Funchal, com a sua Feitoria Britânica, assumiu-se como peça de relevo da estratégia colonial de Inglaterra, de tal modo que as embarcações militares inglesas patrulhavam regularmente o perímetro marítimo das ilhas – que eram consideradas quase como um posto avançado do Império Britânico –, protegendo os seus interesses. “Durante as Guerras Napoleónicas, a Grã-Bretanha ocupou duas vezes a ilha da Madeira” (NEWITT, 1999, 70), que chegou a ter o estatuto de colónia da Coroa britânica entre 24 de dezembro de 1807 e 24 de abril de 1808, com o pretexto de a proteger dos iminentes ataques franceses. Se, por um lado, encontramos homens de negócio astutos que tiraram partido da posição geográfica estratégica da Madeira e do seu potencial agrícola, por outro, também havia autores que, talvez com objetivos específicos, promoveram intencionalmente os mitos fundacionais da Ilha. O Descobrimento da Ilha da Madeira Anno 1420, de Francisco Manuel de Melo, obra escrita com base na Relação de Francisco Alcoforado, foi publicado em inglês em 1750, com o título as An Historical Relation of the Discovery of the Island of Madeira, Abridged from the Portugueze Original. To Which Is Added, an Account of the Present State of the Island ... etc. No mesmo volume encontram-se outras duas obras. A primeira é An Account of the Present State of the Island, in a Letter to a Friend, com data de 7 de abril de 1748; independentemente de o título ser genuíno ou mera convenção, esta interessante descrição da sociedade e dos costumes madeirenses fornece abundante material aos investigadores de história social e económica. A segunda obra consiste numa série de excertos de A Voyage to Surat, de J. Ovington, nomeadamente o seu Account of Madeira, de 1689, onde o autor descreve a sua partida de Inglaterra, narra a descoberta das ilhas — novamente o mito de Machim —, e faz observações sobre o clima, a produção de vinho, a escassez de cereais e as plantações de frutas da Ilha. Aparentemente, já havia mercadores ingleses a viver na Ilha, que plantavam groselha; a terra era menos fértil do que já tinha sido, e o clero era permeável à indolência que atingia os homens mais corpulentos, custando-lhes levantar-se às 04.00 h para a leitura do ofício divino. Como Tony Claydon salienta em Europe and the Making of England, 1660-1760, a literatura de viagens era “um empreendimento coletivo no qual os autores contribuíam conscientemente para um conjunto partilhado de factos e de opiniões. Os exemplos mais evidentes de cooperação entre escritores são as frequentes referências a comentadores anteriores” (CLAYDON, 2007, 20). Assim, A New General Collection of Voyages and Travels (1745-1747) inclui uma breve história e justificação da literatura de viagens, reportando-se explicitamente a Galvão e a Alcoforado para os capítulos sobre os Descobrimentos portugueses; o “compilador”, como se autointitula o autor desta obra, repete os habituais lugares-comuns, incluindo a informação sobre a praga de coelhos no Porto Santo. Esta prática será retomada vezes sem conta ao longo dos registos de viagens do séc. XIX, nos quais os autores se referem habitualmente aos seus antecessores e pares. An Historical Account também aparece num livro publicado em Londres por R. Griffiths, em 1756, com o título The Affecting Story of Lionel and Arabella, Who, by a most Unhappy Accident, first Discover'd the Island of Madeira, and Perish'd there. To Which Is Added, the Dangerous Voyage of Juan Gonsalvo Zarco, a Portuguese Commander, Who Compleated the Discovery. Não há dúvida de que o apetite por estas leituras continuava voraz. Do Iluminismo ao século XIX Por volta deste período, parece surgir uma nova geração de britânicos com um interesse um tanto diferente pela Madeira, nem exclusivamente comercial nem certamente literário, mas antes inclinado para o saber científico, botânico ou médico – por outras palavras, homens (e mulheres) do Iluminismo. Por exemplo, Thomas Heberden (1703-1769), um cirurgião, médico e botânico residente na Ilha, remeteu a seu irmão vários artigos científicos decorrentes das suas observações na Madeira, para que este os lesse na Real Sociedade de Londres. Em 1768, o Endeavour partiu de Plymouth com destino à Madeira numa expedição científica patrocinada pela Real Sociedade de Londres, a fim de observar o trânsito de Vénus no hemisfério sul no ano seguinte, conforme previsto por Edmund Halley; a outra missão da expedição, esta secreta, era tomar posse da Austrália. O Endeavour esteve atracado na Madeira entre 13 e 18 de setembro. Para além do Cap. Cook, o navio transportava Joseph Banks, da Real Sociedade de Geografia, Daniel Solander, um estudante sueco, e Sydney Parkinson, o artista responsável pelos desenhos das descobertas botânicas. O Endeavour Journal de Banks, escrito entre 25 de agosto de 1768 e 12 de julho de 1771, descreve novas espécies de peixes, a flora e os microclimas da Ilha, a produção vinícola, bem como os hospitaleiros residentes britânicos e os Portugueses, que caracteriza como indolentes: “Durante a nossa estadia neste local, muito devemos ao Dr. Heberden, o principal médico da ilha, e irmão do médico com o mesmo nome de Londres, que viveu longos anos nas Canárias e nesta Ilha, e fez várias observações, predominantemente filosóficas, embora algumas fossem de natureza botânica, descrevendo as árvores da Ilha: destas, facultou-nos de imediato uma cópia, juntamente com alguns espécimes que tinha em sua posse, não poupando esforços para nos arranjar espécimes vivos em flor. [...] Os habitantes locais são, no geral, ociosos, ou antes, incultos como eu nunca vi; todos os seus instrumentos, mesmo aqueles com que produzem o vinho, o único artigo de comércio da ilha, são perfeitamente simples e básicos. [...] Estivesse [a Ilha] nas mãos de qualquer outro povo do mundo e o seu valor facilmente duplicaria, graças à excelência do seu clima, capaz de amadurecer qualquer tipo de produto, uma circunstância da qual os Portugueses não tiram o mínimo proveito.” Por seu turno, as freiras de S.ta Clara eram excessivamente faladoras: “durante a nossa visita, de cerca de meia hora, não deve ter havido uma fração de segundo durante a qual as suas línguas não se movessem a um ritmo extraordinário” (BANKS, The Endeavour Journal of Sir Joseph Banks …). Era frequente os exploradores e os cientistas registarem e publicarem as suas experiências e observações. A Madeira oferecia uma infinidade de possibilidades de estudo para botânicos, entomologistas, meteorologistas, conquiliologistas e especialistas de todo o género de disciplinas. Também se podem encontrar memórias marítimas e militares com informação cientificamente relevante, escritas por marinheiros de passagem ou em serviço militar. Com efeito, estas duas esferas de interesse convergem em “An Account of a Barometrical Measurement of the Height of the Pico Ruivo, in the Island of Madeira”, de Edward Sabine; o grupo do Cap. Sabine incluía outros oficiais da marinha, o cirurgião do navio, George Don, o primeiro coletor profissional de plantas para a Sociedade de Horticultura de Londres, e ainda um prestável residente inglês, de nome Veitch, que ocupava o cargo de cônsul-geral, e que lhes serviu o pequeno-almoço na sua residência. Não é inverosímil supor que os botânicos e naturalistas aproveitariam todas as oportunidades que se lhes oferecessem para viajar, em tempo de paz e presumivelmente sem grandes custos, até à Madeira e outros laboratórios naturais. Não era incomum encontrar médicos britânicos, como Thomas Heberden, a exercer medicina na Madeira, já que a Ilha se afirmava como um apetecível destino para o turismo de saúde. “Para os finais do século XVIII, a Madeira assumia-se cada vez mais como um local propício ao tratamento da tuberculose. Começaram a circular brochuras elogiando o clima da ilha, registando-se um conjunto de médicos britânicos que ali se fixaram” (NEWITT, 1999, 73). A título de exemplo, Joseph Adams publicou The Superiority of the Climate of Madeira e Guide to the Island of Madeira; with An Account of Funchal, and Instructions to Those Who Resort thither for Their Health. Foram publicados artigos de especialistas nas revistas médicas da época, incluindo The Lancet, e os guias de saúde para a Madeira constituíam uma subcategoria da literatura de viagens. William Gourlay, médico da Feitoria Britânica, escreveu as suas Observations on the Natural History, Climate, and Diseases of Madeira, during a Period of Eighteen Years. Em An Historical Sketch of the Island of Madeira, o mesmo autor aborda os benefícios do clima para o tratamento da tísica e da asma, referindo ainda que três dos quatro médicos portugueses da Ilha se tinham formado na Universidade de Edimburgo. Na sequência da morte de T. E. Bowdich em África, devido à malária, a viúva publicou o seu Excursions in Madeira and Porto Santo. Com exceção de uns breves comentários sobre a situação política, esta obra é um verdadeiro reflexo do interesse do autor por diferentes aspetos da história natural – peixes, pássaros, plantas, formações geológicas, conchas. Apesar de ser feita uma breve referência a Machim, Bowdich interessa-se muito mais pela flora e pela fauna das ilhas, com destaque para o dragoeiro de Porto Santo, conforme descrito pelas fontes portuguesas. Por entre as suas observações científicas, descreve a vida social da Ilha, comparando os habitantes de Porto Santo com os camponeses do País de Gales, admira o sentido português de beleza, e menciona os cálculos de Gourlay e do Dr. Heineken. Alfred Lyall, autor de Rambles in Madeira, and in Portugal, in the Early Part of MDCCCXXV, dedicado ao cônsul George Stoddard, destaca a escassez de livros com informação sobre a Madeira, que é um local de interesse especial para os britânicos, sobretudo os inválidos. Lyall faz referência às Excursions de Bowdich apenas para as descartar porque “se dedica quase exclusivamente a questões científicas” (LYALL, 1827, ix). Os capítulos do texto de Lyall descrevem a paisagem e a população da Ilha; no que às mulheres diz respeito, “a superioridade das mulheres francesas […] é incontestável” (Id., Ibid., 26-27). Lyall não acredita na lenda de Machim, mas não vê proveito em a contestar, dado que os locais a acolhem com grande estima. James Clark, doutor em medicina, recordado pela história como médico da corte e autor de um tratado de tísica, também escreveu uma obra sobre The Influence of Climate in the Prevention and Cure of Chronic Diseases, que incluía “indicações para inválidos em viagem ou que vivam no estrangeiro”. Clark considerava Lisboa “um local de residência inadequado para tísicos” (CLARK, 1830, XII), opondo-se fortemente à prática de enviar os doentes terminais para o estrangeiro (Id., Ibid., 196). Também discute os benefícios do clima da Madeira, citando Gourlay e as Rambles de Lyall. John Driver visitou a Madeira em 1834, por indicação médica, tendo depois publicado as cartas que escreveu aos amigos em 1838, dando resposta aos muitos pedidos que lhe eram endereçados de informações sobre a Ilha: “Obtive informações atualizadas sobre a melhor forma de viajar, a escolha de residência, o custo de vida, etc.” (DRIVER, 1838, VI). Os capítulos principais descrevem a Ilha e a sua população, incluindo Henry Veitch (1782-1857), que também é mencionado noutros livros de viagem do mesmo período. A Carta V refere a capela de Machim, mas sobretudo a presença das forças miguelistas na Ilha; e faz uma descrição das corridas no Funchal, e de uma exposição floral e hortícola organizada por Webster Gordon. A Carta VIII descreve as melhoras que sentiu desde que se encontra na Ilha. As informações práticas (navios que viajam para a Madeira, hotéis, médicos, o preço da alimentação, estatísticas sobre exportações, etc.) estão contidas no apêndice, juntamente com a obrigatória repetição da história de Machim, narrada por Alcoforado. Muitos dos detalhes coincidem com os que autores anteriores já haviam fornecido, sendo Bowdich e Lyall explicitamente citados. Driver contribuiu ainda com “An Historical Account of the Island”, que dedicou a James Clark, para um volume editado por James Sheridan Knowles, onde é identificado como cônsul da Grécia na Madeira; este texto baseia-se na sua publicação anterior. Fig. 1 – Reprodução da gravura “O Funchal visto de São Lázaro”.Fonte: PICKEN, 1840. Entre os Ingleses que ajudaram a promover a Madeira como estância terapêutica, encontra-se o artista Andrew Picken, autor de Madeira Illustrated. Picken especializou-se na ilustração de livros de viagens e passou algum tempo na Madeira porque tinha uma saúde precária, acabando por perecer com uma doença pulmonar após regressar em definitivo a Inglaterra, em 1845. O livro é dedicado à Sr.ª Webster Gordon e nele são mencionados Alcoforado, Barros, Galvão e Frutuoso. Picken descreve as Rambles de Lyall como “uma das melhores e mais completas descrições da ilha publicadas em Inglaterra”. O esboço histórico transporta os leitores para o séc. XIX, e a descrição que faz da Ilha oscila entre o geográfico e o pitoresco, com uma série de observações sobre os nativos: “os Portugueses da Madeira são um povo excelente”; “a aparência e o carácter dos camponeses são universalmente elogiados” (PICKEN, 1840, 4); e considera que a distância entre os Ingleses e os Portugueses, em termos sociais, está a tornar-se cada vez mais curta. Picken faculta informações sobre os navios e os respetivos preços, desaconselha o uso de letras de crédito e recomenda o ouro espanhol em vez dos soberanos ingleses, entre outras sugestões úteis. Nesse mesmo ano de 1840, William White Cooper, cirurgião da Honourable Artillery Company, publicou The Invalid's Guide to Madeira, with a Description of Teneriffe, Lisbon, Cintra, Mafra, etc and a Vocabulary of the Portuguese and English Languages. Aparentemente, a obra baseia-se na sua própria experiência, enquanto recuperava de um ferimento. Curiosamente, Cooper afirma que não encontrou qualquer informação sobre a Madeira pelo que, adotando o registo de diário, embarca numa jornada “tanto para descrever as paisagens das ilhas da Madeira e de Tenerife, como para fornecer uma panóplia de informações para orientação daqueles que as procuram, seja para uma curta visita ou para uma estadia mais prolongada” (COOPER, 1840, III). Este autor não difere grandemente de outros escritos de viagens ingleses, na medida em que também refere detalhes sobre a logística da viagem e das acomodações, os nomes dos médicos locais e a separação entre residentes portugueses e ingleses. À semelhança de vários registos de viagens do mesmo período sobre Portugal continental, os comentários sobre as mulheres portuguesas e os seus hábitos de higiene pessoal são muito pouco lisonjeiros. O autor anota tudo o que considera ser de interesse para os viajantes britânicos, mencionando também o reverendo R. T. Lowe, “um cavalheiro altamente distinto enquanto naturalista, e que está prestes a publicar uma elaborada obra sobre os peixes da Madeira” (Id., Ibid., 40), obra que viria à luz entre 1843 e 1860. Cooper descreve Maria Clementina, “a linda freira do Convento de Santa Clara” (Id., Ibid., 41), lista os vinhos que se podem encontrar na Ilha, e descreve o Clube do Funchal, bem como o baile que o cônsul George Stoddard organizou em honra do casamento da Rainha Victória. Não se mostra impressionado com a aparência e o comportamento dos soldados britânicos estacionados na Ilha, embora considere – o que não é surpreendente, dada a sua filiação – que “a artilharia constitui um corpo mais viril e militar” (Id., Ibid., 57), ainda que não treinem o suficiente. Os inválidos devem levar consigo os seus medicamentos e cadeiras confortáveis, bem como uma sineta. O facto de o conselho de Cooper sobre a melhor moeda para levar para a Madeira coincidir com o de Picken, a par de outras observações, leva-nos questionar se alguma vez se terão cruzado. Pouco tempo depois, William Samuel Pitt Springett (1818-1860) dedicou as suas Recollections of Madeira à Sr.ª George Stoddard, que era irmã da sua esposa. Um ano mais tarde, Edward Vernon Harcourt escreveu A Sketch of Madeira Containing Information for the Traveller, or Invalid Visitorı, publicado por J. Murray, que também publicou The Diary of an Invalid, de Henry Matthew, e a versão definitiva do Handbook for Portugal (1855). Harcourt pretendia que o seu livro fosse útil, pelo que dá uma série de conselhos práticos, desde informações sobre os transportes (a liteira de rede) e os locais a visitar (refere que passou pela casa de campo da Sr.ª Penfold), até esclarecimento sobre rotas de navegação, bagagem, acomodações e moeda. Talvez numa tentativa de sossegar os mais doentes, explica que a desagradável cena retratada por Ovington em Voyage to Surat, de recusa de um funeral cristão a um protestante inglês, não se repetiria, uma vez que havia mais tolerância religiosa e que os visitantes estrangeiros tinham agora o seu próprio cemitério, onde aqueles “que procuravam saúde numa terra estrangeira encontraram o repouso eterno. O cipreste debruça-se sobre a campa do estrangeiro, e o seu túmulo solitário está adornado de flores” (HARCOURT, 1851, 33). Na verdade, Susan Vernon Harcourt também fez um retrato dos cemitérios ingleses. À semelhança de outros escritores, Edward Harcourt informa os seus leitores sobre a vida social na Madeira; aconselhando os inválidos a não saírem à noite – algo que os seus antecessores também recomendam –, deixa escapar um comentário bastante elucidativo: “Os ingleses e os portugueses não se costumam misturar, de modo que o leitor não terá a sensação de viver entre estrangeiros” (Id., Ibid., 35); não lhe ocorreu que os estrangeiros eram os Ingleses. Harcourt preenche muitas páginas do seu livro com tabelas de dados sobre as condições meteorológicas, a demografia, a história da Madeira (o mito de Machim), as instituições judiciárias e religiosas, o sistema educativo, a agricultura, as plantas, a produção vinícola, a ornitologia – por outras palavras, tudo o que pudesse interessar ao cavalheiro inglês no estrangeiro. Narrative of a Voyage to Madeira, Teneriffe and along the Shores of the Mediterranean, da autoria de William Wilde, inclui o material habitual, e menciona Picken, Macaulay, Clark, Bowdich, Combe e o cônsul Henry Veitch. À imagem de muitos outros visitantes da Ilha, o autor adquire nos conventos “bens de luxo” como flores artificiais e confeitaria; e, tal como outros turistas ingleses, recorda a triste história da irmã Maria Clementina, “a bela reclusa”, que compara a Cinderela, embora à primeira não tenha sido destinado o final feliz do conto de fadas (WILDE, 1844, 92-93). Caption   Outro escritor frequentemente citado é Robert White, autor de Madeira, Its Climate and Scenery Containing Medical and General Information for Invalids and Visitors; a Tour of the Island, etc. O autor viveu 15 anos na Ilha, pelo que o livro se tornou uma obra de referência, que contou com mais duas edições, atualizadas com a inclusão de novo material. O conteúdo não é original, sendo na sua maior parte derivado de anteriores publicações; mas, apesar de os autores anteriores fornecerem informações sobre as paisagens, a variedade de castas, os vinhos e o comércio, bem como dados estatísticos, White salienta que “há uma grande confusão sobre estes tópicos nas obras publicadas até agora” (WHITE, 1851, v). Robert White principia com a lenda da descoberta, os factos históricos da mesma, e uma breve história da Ilha até ao séc. XIX; onde diverge dos seus antecessores é na acutilância da sua crítica aos governos portugueses, que saquearam e negligenciaram a Madeira: “A situação melhorou muito durante o breve período em que foi governada pelos Britânicos, sob a competente administração do General Beresford, em 1808” (Id., Ibid., 10). Os detalhes não são novos; mas o tempo passou e a bela Ir. Maria Clementina “está avançada em anos e restam-lhe poucos, ou nenhuns, traços daquela beleza que o nosso poeta tão calorosamente descreveu” (Id., Ibid., 21). Com efeito, a fama desta mulher alastrara para além da Madeira e das ilhas Britânicas, chegando aos Estados Unidos da América. Maria Clementina também fora descrita em termos extraordinariamente românticos pelo Rev. Walter Colton, capelão naval e autor de Ship and Shore, primeiramente publicado sob anonimato em 1835 e reeditado em 1851, com um desenho da freira nas páginas preliminares. Publicado entre a segunda e a terceira edições do guia de White, The Climate and Resources of Madeira, as regarding chiefly the Necessities of Consumption and the Welfare of Invalids, de Michael Comport Grabham, foi presumivelmente ao encontro de uma necessidade sentida neste nicho de mercado; com efeito, uma vez que ainda não existia um tratamento eficaz para a tuberculose, os pacientes deslocavam-se à Madeira em busca de repouso. Para além da sua competência de médico, Grabham também publicou artigos no The Lancet, partilhando as suas experiências, e escreveu sobre botânica, sobre a vida animal e sobre geografia; o seu tratado de medicina foi considerado relevante já bem entrado o séc. XX. Michael Grabham não se demora em detalhes descritivos nem nos temas sociais, uma vez que esses já tinham sido abordados “em muitos tratados existentes e […] no excelente e exaustivo ‘Guide-Book’ do Sr. R. White” (GRABHAM, 1870, X); ao invés, foca-se em assuntos meteorológicos e médicos. Apesar disto, não consegue escapar inteiramente ao tipo de conteúdos que mais interessam aos leitores: os pormenores científicos e técnicos, apresentados sem mais, poderiam afastar os espíritos menos graves, pelo que o autor introduz o mito de Machim, aborda a história dos princípios da Ilha, e descreve os edifícios, as instalações e os passatempos locais ou, pelo menos, os passatempos praticados pelos residentes ingleses. Tal como os seus antecessores, informa os leitores sobre a paisagem e os meios de locomoção; e dedica um longo capítulo às condições meteorológicas, assim como às questões médicas e aos tratamentos. Conforme seria de esperar numa obra desta natureza, explica como chegar à Madeira, qual a melhor moeda a usar, e como enviar cartas para a Ilha. Grabham é extremamente preciso – cirúrgico, até –, sendo a sua obra isenta de alguns dos preconceitos presentes noutras publicações, talvez porque se casou com um membro da aristocracia da Ilha e valorizava o que a Madeira tinha de bom. J. M. Rendell seguiu as pisadas de White e de Grabham em A Concise Handbook of Madeira, embora sem a pretensão de ter conhecimentos sobre medicina. Como seria de esperar nesta altura, tece comentários sobre o tempo e a geografia da Ilha, cita especialistas, refere viagens, navios e hotéis. Está presente o capítulo obrigatório sobre a história da Ilha, informações sobre a botânica, a comida, as aves, os peixes, a música, os costumes, as superstições da população (outro tema favorito dos escritores de viagens que se focam em Portugal continental), as excursões e viagens à volta da Ilha, os salários das empregadas domésticas, o preço do tratamento de roupas, os pesos e as medidas, algumas palavras úteis e outros aspetos da língua portuguesa. Por outras palavras, nada de inesperado ou original. Os guias para a Madeira continuaram a aparecer no século sucedâneo. Assim, e.g., Oswald Crawfurd, cônsul no Porto, crítico literário e escritor prolífico, produziu, em janeiro de 1874, um artigo de 18 páginas para o The New Quarterly Magazine intitulado “A winter holiday in Madeira”, que pretende ser um compêndio de toda a informação sobre a Ilha. Tal como grande parte da literatura deste género, o artigo elucida-nos mais sobre os preconceitos do seu autor do que sobre as pessoas que ele descreve: “Os madeirenses são uma estranha raça de homens. Maioritariamente de origem portuguesa, são claramente uma nação de mestiços, e a presença da negritude é notória nas suas caras feias e bondosas, na sua estatura – têm mais dois a cinco centímetros que os continentais –, no seu andar estranho, e na sua compleição algo doentia. A sua atitude moral também é, de certa forma, influenciada pelo laxismo dos negros. No entanto, não são de modo algum grandes criminosos, praticando apenas vícios menores como pequenos roubos e grandes narrativas, combinando, por assim dizer, a sua complacência com os pequenos furtos e as mentiras inofensivas com uma rigorosa economia de crimes maiores” (CRAWFURD, 1874, 410). Nem toda a gente discorria sobre a Madeira do ponto de vista dos inválidos ou dos médicos; havia pessoas que tinham outros interesses ou visavam outros públicos. Assim, a família e os amigos que acompanhavam os inválidos aproveitavam o seu tempo para desenhar ou pintar o que iam observando, publicando depois os seus álbuns. Afinal de contas, a Madeira era um paraíso botânico e, dado o relativo sossego da vida na Ilha (em comparação com Londres e outras cidades inglesas), as pessoas tinham muito tempo para escrever um diário, relatos da viagem e cartas, um fenómeno que se tornou muito comum nos visitantes de Portugal continental.   O século XX No séc. XX, assistiu-se a um declínio no número de livros sobre a Madeira, talvez como reflexo de uma mudança nos interesses e gostos dos leitores. No entanto, de entre os que escreveram sobre a Ilha na primeira década deste século, ressaltamos S. Samler Brown, W. H. Koebel, que se centra na história e se baseia em Grabham, e Charles Thomas-Stanford, com um livro intitulado Leaves from a Madeira Garden. O prefácio desta obra constituiu uma versão mal disfarçada do topos da humildade: “Pergunto-me se será necessário arranjar desculpa para esta história trivial de um inverno banal numa ilha insignificante” (THOMAS-STANDFORD, 1909, VII), salientando o autor que “muito se tem escrito sobre a Madeira”, pelo que não pretende “afirmar ou dizer coisas novas, nem revelar aspetos relevantes” (Id., Ibid., IX); na verdade, afirma, “limitei-me a enunciar apontamentos algo inconsequentes – e temo que, por vezes, irrelevantes – sobre diversas matérias” (Id., Ibid., VIII). Devido ao gosto dos Britânicos pela jardinagem, a Madeira tinha para eles um interesse considerável, em virtude da sua vegetação rica e exótica. Conforme prometera no prefácio, Stanford critica certas atitudes do governo português, mas está manifestamente convencido de que tem legitimidade para o fazer por força da sua relação de longa duração com a Ilha, sua residência de inverno. O autor desdenha “o número cada vez maior de turistas, americanos, ingleses e alemães” que são despejados pelos navios (Id., Ibid., 4), não conhecendo nada da “verdadeira Madeira”, e esforça-se por demonstrar o seu conhecimento da história e das tradições da Ilha. Apesar de tudo, a sua própria relação com a Madeira e os seus habitantes é ambivalente: há alguns aspetos da vida na Ilha que o irritam nitidamente, nomeadamente a falta de telefones, mas a sua relação com a população portuguesa parece não diferir substancialmente da dos seus predecessores. Quando se convence de que os empregados tentam extorquir-lhe salários excessivamente elevados, não hesita em “os despedir”; e declara que os madeirenses nada sabem de jardins nem de jardinagem, o que consitui “uma grande prova, especialmente quando a pessoa só está presente um terço do ano, e as operações mais importantes, a poda das roseiras etc., têm de ser feitas na nossa ausência” (Id., Ibid., 68). Fundando os seus pontos de vista em estereótipos e em amostras bastante reduzidas da população, demarca claramente os Portugueses como “os outros” (Id., Ibid., 73-74), embora se identifique como “nós, os madeirenses” (Id., Ibid., 189); de facto, conheceu a sua mulher na Ilha, onde ela era proprietária rural. Ainda assim, o livro redime-se em alguns momentos de honestidade: “Se os criados são para nós um estranho e interessante objeto de estudo, o que seremos nós para eles?” (Id., Ibid., 74). Thomas-Stanford também escreveu um romance de aventuras que decorre na Madeira, The Ace of Hearts. Os Ingleses continuaram a escrever sobre a Madeira. É o caso, e.g., de Lethbridge, com o seu Madeira – Impressions and Associations; de Stuart Mais, que publicou ininterruptamente entre 1915 e 1966, juntamente com a mulher, incluindo o relato de viagens Madeira Holiday; e de Sacherevell Sitwell, extravagante mas empobrecido diletante que, segundo consta, persuadiu vários governos a subsidiarem-lhe o turismo de luxo escrevendo livros de viagem; há indubitavelmente abundantes exemplos de marketing indireto – nomeadamente referências a empresas de transportes e a hotéis – no seu Portugal and Madeira. O leitor também poderá perguntar até que ponto a filiação ideológica e de classe orientam as suas perceções; com efeito, ou Sacherevell Sitwell acreditava genuinamente nas virtudes do Estado Novo, à imagem de outros escritores de viagens ingleses do seu tempo (como John Gibbons, lady Marie-Noële Kelly), ou a sua escrita está temperada com uma não pequena dose de ironia: “[Portugal] esteve a dormir durante a época de industrialização que enegreceu grande parte da Europa. Se acordou, imaculado, para um presente mais feliz, foi graças à influência de mãos benevolentes e sábias” (SITWELL, 1954, 39). O capítulo sobre a Madeira extravasa em descrições líricas de plantas exóticas e vegetação tropical: “É uma ilha que se visita pelas suas flores e pelo seu clima” (Id., Ibid., 43). Diz muito pouco sobre os ilhéus, até porque “uma das belezas da Madeira é que não tem propriamente passado. [...] Era uma ilha virgem. Não havia habitantes aborígenes para exterminar” (Id., Ibid., 43). E, quando faz algum comentário sobre as populações locais, é para dizer que “é uma população imaculada, talvez o menos corrompido e contaminado de todos os povos europeus. Os madeirenses estão ainda na idade da inocência” (Id., Ibid., 49). Com o tempo, os livros de viagens tornaram-se mais breves, por causa dos custos de edição, das restrições de bagagem, das mudanças nos hábitos de leitura – as razões que explicam esta tendência são múltiplas. As edições online e a digitalização também tiveram impacto no consumo de livros. Todavia, independentemente do seu formato, os livros de viagens do séc. XXI centram-se mais nas necessidades dos turistas e dos aventureiros do que nas experiências pretensamente autênticas vividas pelo viajante entendido.   A questão da autoria feminina e da voz feminina na literatura de viagens Não foram unicamente os homens a visitar a Madeira e a publicar as suas memórias ou impressões. Apesar de o número de mulheres viajantes nunca ter constituído mais do que uma minoria, por razões óbvias de índole social e histórica – as mulheres não fizeram o Grand Tour e, mesmo que o tivessem feito, a Madeira não seria uma etapa do itinerário –, os seus contributos para o corpus da literatura de viagens inglesa não deve ser negligenciado. A literatura de viagens, no sentido que aqui é dado à expressão, compreende memórias, autobiografias, diários, cartas, registos de viagens e guias. Clare Bloome Saunders sugeriu que foi a ligação entre a literatura de viagens e os “textos associados com a esfera doméstica e privada” que permitiu às mulheres entrar neste género literário (SAUNDERS, 2014, 3). Não há dúvida de que assim é, embora haja um grande número de autores do sexo masculino que optou por essa via, possivelmente por a considerarem mais adequada à temática, ou um meio eficaz de chegar aos leitores. Saunders também salienta que “as primeiras obras de viagem escritas por mulheres começavam geralmente com um pedido de desculpas, uma passagem pelo topos da humildade e uma declaração de autenticidade” (Id., Ibid.). Mais uma vez, são abundantes os exemplos de autores masculinos de livros de viagens que principiam as suas obras da mesma forma. Sarah Mills refere que “os autores viajavam por motivos diferentes e para países diferentes, escrevendo sobre as suas viagens no quadro de uma multiplicidade de condicionamentos – de género, de classe, de finalidade da viagem, de convenções textuais, de audiência, etc. – que influenciavam e estruturavam a sua escrita” (MILLS, 1991, 21). Para Mills, uma diferença evidente entre os homens e as mulheres que escrevem livros de viagens encontra-se “na ênfase que colocam no envolvimento pessoal e nas relações com pessoas de outras culturas, e na atitude menos autoritária que assumem perante a voz narrativa” (Id., Ibid.). Embora tal possa ser verdade nalguns contextos, esta análise dos escritos britânicos sobre a Madeira não revela um maior grau de rapprochement entre as escritoras e os habitantes portugueses da ilha, em comparação com os escritores. No contexto português, as viajantes poderão ter tido de lidar com os locais para resolverem questões domésticas, mas isso não significa que tivessem um relacionamento pessoal com eles. A atitude autoritária talvez seja mais visível nos escritos sobre os campos da medicina e da ciência, à época dominados pelo sexo masculino. A autoridade poderia derivar, em parte, das qualificações académicas, dos títulos profissionais e dos graus militares que uma série de autores incluía na página de rosto das suas obras. Em contrapartida, a não ser que fossem membros da aristocracia, as escritoras limitavam-se a referir o seu estatuto de mulheres casadas. Mary Louise Pratt analisou o impacto da história natural e da ciência em geral na literatura de viagens, argumentando que “a história natural era um meio para narrar as viagens de exploração do interior, já não com a finalidade de descobrir rotas de comércio, mas de vigiar o território, explorar os recursos e exercer um controlo administrativo sobre o mesmo” (PRATT, 1992, 39), o que dá azo ao aparecimento de um discurso bastante próprio; no caso específico da Madeira, os botânicos e os meteorologistas parecem, de facto, reivindicar a Ilha para si. Em paralelo, há uma série de obras sobre a Madeira que corroboram a afirmação de que “a história natural estabeleceu uma autoridade urbana, literata, masculina sobre todo o planeta; elaborou uma compreensão racionalizante, extrativa e dissociativa, que se sobrepôs às relações funcionais e experienciais entre pessoas, plantas e animais” (Id., Ibid., 38). Por fim, em termos de considerações teóricas, para Saunders, “a ‘verdade’ na literatura de viagens aparece, paradoxalmente, quer como asserção da retórica objetiva ‘masculina’, quer como uma aparentemente ‘autêntica’ proclamação da literatura ‘feminina’, doméstica, privada” (SAUNDERS, 2014, 3). À exceção das obras assentes em dados científicos – sobre a precipitação, a temperatura e as espécies de plantas e insetos –, não há garantias de objetividade ou autenticidade. Além disso, quanto mais íntimo é o registo de escrita, mais tendência têm os autores para a subjetividade, ou para distorções de memória e perceção.   Mulheres viajantes As mulheres estiveram na Madeira por várias razões, quer para fazer uma pausa neste porto de escala tão bem situado, usualmente sob a proteção de membros da sua família, quer para visitar Ingleses nela residentes, quer para acompanhar os maridos, empenhados em investigações científicas, na escrita de um livro ou noutras atividades profissionais. Em todo o caso, nem sempre se limitaram a ilustrar as produções científicas e intelectuais dos cônjuges, tendo-se afirmado como autoras e artistas independentes. Ao contrário da jovem “ultramarina” de que se falará adiante, uma mulher da classe alta raramente sentia a necessidade de pedir desculpa por trabalhar; os dados sugerem que a idade e a classe social são condicionantes tão importantes como o sexo. Uma das primeiras mulheres a escrever sobre a Madeira foi Maria Riddell (1772-1808), autora das Voyages to the Madeira and Leeward Caribbean Islands, que tinha relações próximas com a Escócia devido ao seu casamento com Walter Riddell. Poetisa, embora menor, Maria Riddell é lembrada sobretudo pela sua amizade com o poeta nacional da Escócia, Robert Burns; mas não deixa de ser notável que tenha escrito um registo de viagens aos 20 anos. Na opinião de Corey Andrew, ela “faz juízos claros e raramente produz afirmações distanciadas. […] Considera que os habitantes da ilha possuem qualidades que os redimem, embora os seus elogios sejam muito parcos: ‘Os nativos são […] notavelmente engenhosos, e famosos pela sua capacidade de fazer perfumes, pastas, etc. Os Portugueses têm feições extremamente escuras, mas têm belos olhos e dentes; a classe baixa deste povo é indolente, suja, e muito viciada no roubo; têm muito talento musical, e são extremamente delicados’” (ANDREWS, 2013, 181). O nome que figura a seguir nesta cronologia é o de Elizabeth Macquarie (1778-1835), uma escocesa que viajou para a Austrália em 1809, juntamente com o marido, Lachlan, que havia sido nomeado governador da Nova Gales do Sul. Fez a viagem a bordo do navio de carga Dromedary, na companhia do Hindostan, um navio de guerra de Sua Majestade, tendo feito uma paragem na Madeira. Ao chegarem à Ilha, a 12 de junho, os Macquaries foram convidados a residir na casa de Henry Veitch, o cônsul britânico, que estava aparentemente muito ambientado à Madeira, e que, tendo sobrevivido a todos os amigos, não fazia tenções de regressar à Grã-Bretanha, uma atitude que muito desagradou à Sr.ª Macquarie. Um dos militares que os escoltou parecia “conhecer intimamente os habitantes locais, incluindo as freiras de diferentes conventos”. Tendo adoecido, a Sr.ª Macquarie não pôde fazer grandes passeios durante a semana que passou na Madeira, mas ficou chocada ao ver uma jovem tomar o hábito religioso, o que talvez não seja uma reação completamente inesperada numa protestante escocesa daquela época. Quanto à Ilha, o brilho inicial desapareceu rapidamente: “A ilha da Madeira é sem dúvida um dos lugares mais bonitos e românticos que já vi. Para uma pessoa que passou muito tempo em alto mar e que padeceu de alguma doença ou sofreu com o mau tempo, a visão do Funchal é do mais gratificante que se pode imaginar; mas, depois de se terem passado alguns dias em terra, a falta de ar e o imenso calor, a total ausência de qualquer tipo de exercício físico, dada a dureza das estradas, que são muito inclinadas, e pavimentadas com pequenas pedras, e, acima de tudo, a imundice dos ilhéus é tão desagradável, que creio que nunca chegaria a contemplá-la com indiferença – e tudo isto serve para ilustrar os confortos que são necessários para tornar a vida aprazível a uma pessoa acostumado a viver em Inglaterra” (MACQUARIE, 1809). [caption id="attachment_15563" align="alignleft" width="380"] Fig. 3 – Reprodução de “The Belladona Lily”Fonte: PENFOLD, 1845.[/caption] Houve duas Inglesas residentes na Madeira que foram responsáveis por promover a imagem da Ilha como paraíso tropical. Jane Wallas Penfold era filha de William Penfold, que era sócio de Henry Veitch; William Wordsworth compôs versos em sua homenagem, e Jane Penfold publicou os seus desenhos de plantas em Madeira Flowers, Fruits, and Ferns. Sua irmã, Augusta Jane (Penfold) Robley, também publicou as suas ilustrações em Selections of Madeira Flowers, Drawn and Coloured from Nature. Estas duas obras devem ter estimulado o interesse pela Madeira como destino adequado para o estudo da botânica e a produção artística. Emmeline Stuart Wortley, descrita por Jane Robinson como uma viajante obsessiva (ROBINSON, 1990, 121), escreve longamente tanto sobre Portugal continental como sobre a Ilha em A Visit to Portugal and Madeira. Confiante no seu estatuto social e nas suas capacidades literárias, Wortley narra a sua viagem a Portugal sem perder tempo com desculpas ou com falsas humildades. Por vezes, a sua obra lê-se como um romance, com retratos detalhados e extravagantes que roçam a caricatura; mas, a par das conversas e anedotas sobre a realeza europeia, figuram alguns comentários inteligentemente satíricos sobre a escravatura e o racismo, bem como críticas abertas ao deficiente sistema agrícola, que provoca a malnutrição infantil da população local. Apesar do estilo intenso, a autora fornece informações exatas sobre a Ilha, repetindo detalhes encontrados em livros anteriores. Também faz a obrigatória visita a S.ta Clara para ver a lendária Maria Clementina, imortalizada por Coleridge: “Esta freira foi uma criatura deslumbrante, que em tenra idade foi metida num convento por um pai austero, penso que por instigação da madrasta, e foi durante algum tempo muito infeliz. Já não é nova (e espero que já não seja infeliz), mas ainda se detetam traços da sua beleza outrora resplandescente” (WORTLEY, 1854, 302). [caption id="attachment_15566" align="aligncenter" width="332"] Fig. 4 – Reprodução de “Bird of Paradise”Fonte: ROBLEY, 1845[/caption] A autora explica então que houve um relaxamento da regra monástica no período do Governo Constitucional, e conclui a história de Clementina, que regressou à tranquilidade do convento, descrevendo de seguida a personagem, que se assemelha mais à marquesa de Alorna na sua grade do que a Mariana Alcoforado, discutindo os méritos relativos de madame de Staël e de lady Morgan (mencionada por Almeida Garrett no Diário de Minha Viagem a Inglaterra (1823-1824)). Tal como outros viajantes, Emmeline Wortley conhece Stoddard e o cônsul Veitch, nesta altura presumivelmente a gozar a reforma ou a tratar de negócios; e, à semelhança de outros escritores, não consegue deixar de referir a lenda de Machim. O leitor fica com a impressão de que lady Wortley tem um grande talento para ocultar os seus profundos conhecimentos em matérias como a agricultura, os negócios, a economia e a política por detrás de aparentes mexericos e meandros narrativos. A ironia é enganadora, até porque esta autora visitou a Madeira com um espírito aberto, e não com o simples fito de confirmar os seus preconceitos. Em 1882, Ellen M. Taylor publicou Madeira: Its Scenery and how to See It. With Letters of a Year's Residence and Lists of the Trees, Flowers, Ferns, and Seaweeds, um guia de viagem extremamente detalhado. Tendo-se deslocado à Madeira com uma amiga enferma, presume-se que tivesse bastante tempo disponível, e percebeu que tipo de informação era necessário dar para tornar mais fáceis a viagem e a estadia na Ilha; fez, pois, o seu trabalho de casa, consultando as autoridades na matéria. Não refere os aspetos já tratados por Grabham, e pede autorização à Sr.ª White, viúva de Robert White, e a James Yate Johnson, para se referir a Madeira. Its Climarw and Scenery. Regista o apoio que lhe foi dado por Charles Cossart e cita um artigo da Fraser’s Magazine, de agosto de 1875. O seu guia de viagens não se destina apenas a inválidos, informando também os leitores sobre hotéis, navios a vapor, restrições de bagagem, atividades recreativas e excursões, compras, a história e os hábitos, para além de ter uma lista de vocabulário útil. Para os que têm interesses culturais, cita John Mason Neale sobre a arquitetura de igrejas. Nas palavras de Jane Robinson, “tanto a ilha como o seu guia eram dedicados à busca passiva da saúde” (ROBINSON, 1990, 197). A Voyage in the “Sunbeam”. Our Home on the Ocean for Eleven Months difere em alguns aspetos de outros registos de damas inglesas: Annie Brassey descreve a viagem de circum-navegação que a sua família empreendeu à volta do mundo a bordo do iate a vapor do marido (1876-1877), a primeira do género. O iate atracou na Madeira (cap. 2) para uma breve visita, a que se seguiu o ritual de os visitantes de relevo serem recebidos pelos residentes ingleses. O livro foi um enorme êxito, tendo chegado às 19 edições e sido traduzido em 5 línguas. A família regressou à Madeira 7 anos depois, conforme é narrado em In the Trades, the Tropics, and the Roaring Forties: 14,000 Miles in the “Sunbeam” in 1883. A autora começa por pedir desculpa pelo seu trabalho, e depois conta os labores da viagem de ida para a Madeira para se encontrar com o marido e se juntar a ele no Sunbeam, após ter perdido a maior parte da bagagem porque o navio onde seguia meteu água; felizmente, os filhos e o cão, Sir Roger, tinham saído ilesos desta experiência. A narrativa inclui uma descrição de um navio escocês de emigrantes com destino à Austrália, e do hotel de S.ta Clara, onde foram atendidos pelo Sr. Reed, o proprietário, e pelo Sr. Cardwell, o gerente, que se encarregou da bagagem. A Ilha é povoada por uma série de figuras conhecidas, nomeadamente “o nosso velho amigo, o Dr. Grabham, o único médico inglês desta terra, um homem de enorme sucesso, repleto de informação sobre todas as matérias” (BRASSEY, 1878, 29); tal como muitos outros, visitam a quinta dos Blandy. Brassey sente-se obrigada a esboçar os momentos chave da história da Madeira, incluindo o mito de Machim, a visita do Cap. Cook no Endeavour, em 1768, e as ocupações britânicas em 1801 e 1807. O foco anglocêntrico é evidente. A família visita os locais habituais, é transportada em liteiras de rede, lancha com a Sr.ª Taylor, “uma antiga residente na Madeira, que generosamente partilhou connosco muitas informações úteis” (Id., Ibid., 56), e admira a paisagem e a vegetação. Há muito pouca informação sobre a população local e a cultura portuguesa, à exceção de aspetos pitorescos ou etnográficos; o leitor fica com a impressão de que a Ilha é praticamente uma colónia britânica, cuja principal função é dar conforto e entreter as classes privilegiadas das ilhas Britânicas. Helena Beatrice Richenda Saunders (1862-1947), a “ultramarina”, que mais tarde se casou com Charles Parham, escreveu The Contents of a Madeira Mail-bag, or, Island Etchings quando estava ainda na casa dos 20 anos; trata-se de um conjunto de cartas dirigidas a sua mãe, que se encontrava em Inglaterra, e que não se destinavam a ser publicadas, onde descreve a sua vida na Qt. das Flores com a tia. Algumas das suas experiências coincidem com as de Brassey, como o facto de o mesmo Sr. Cardwell lhes tratar da bagagem, apesar de nem ela nem a tia estarem hospedadas no hotel. Helena Parnham observa os homens que conduzem os carros de bois e transportam as liteiras, as mulheres nos seus trajes, as crianças semi-nuas, descreve a costureira, que treme de frio, comenta a meteorologia e a gastronomia (não aprecia a cozinha portuguesa) e os eventos sociais (não há referência a convidados portugueses), e conta à mãe que fica muito cansada depois dos banhos de mar, apesar de não haver indicações de que seja inválida. Receber uma carta de casa é para ela um evento importante, tal como é escrever à família a partilhar os conhecimentos recém-adquiridos, e.g., a lenda de Machim e o facto de Beresford ter vivido na Achada durante a ocupação. Mais tarde, Helena Parnham será uma conhecida botânica, sendo bastante provável que as suas experiências na Madeira tenham despertado o seu interesse pela flora e o mundo natural. O que é invulgar nela é a preocupação com a literatura: todas as suas cartas têm como epígrafe um verso, na sua maioria retirados de poemas de poetas ingleses eminentemente românticos – Southey, Hemans, Longfellow, entre outras figuras literárias a que se refere frequentemente. Além disso, ao contrário de outros escritores de viagens que temos vindo a mencionar, esforça-se por aprender português, tendo até ouvido falar de Camões; numa das suas cartas, refere-se mesmo à tradução de Mickle: “Leste ‘Os Lusíadas’ de Camões? Não me refiro ao original, visto que a obra é conhecida há um século em Inglaterra, graças à tradução em verso de Mickle. Tenho de a ler assim que tiver a oportunidade, visto que se trata do grande chef d’œuvre português, e descreve a descoberta do cabo da Boa Esperança, e de toda a costa de África” (PARHAM, 1885, 87). As flores da Madeira continuaram a exercer o seu fascínio sobre os visitantes ao longo do séc. XX. Ella Du Cane, que caiu nas graças da Rainha Vitoria, pintou aguarelas delicadas enquanto sua irmã Florence Du Cane escrevia o texto que preenche as páginas de The Flowers and Gardens of Madeira (1909). Florence cita Bowdich, Lyall, Yate Johnson e outros, refere-se a The Discovery of Madeira, escrito em 1750, menciona o dragoeiro, debate a origem de algumas plantas, discute design de jardins e fornece várias sugestões práticas de jardinagem. O livro também contém uma descrição histórica, com as habituais lendas e os costumeiros factos. Entre as mulheres que escreveram sobre a Ilha, contam-se ainda Jessie Edith Hutcheon e Elizabeth Nicholas. Há também, esporadicamente, publicações de especialstas, e.g. The Quintas of Madeira: Windows into the Past, uma obra de Marjorie Hoare sobre arquitetura, horticultura e história social.   Cultura literária A literatura nunca foi o foco da atenção dos visitantes britânicos da Madeira, que, na melhor das hipóteses, tinham um conhecimento rudimentar da língua portuguesa e aceitavam sem a questionar a tese estabelecida de que Portugal não possuía grandes escritores. Helena Parnham é a exceção à regra. Terence Macmahon Hughes – que compôs um poema à Madeira e sobre a Madeira, The Ocean Flower – comentou a poesia portuguesa apenas para a criticar. Os visitantes, quer por motivos de saúde, quer para fazer escala em viagens mais longas, mostravam-se bastante mais interessados na paisagem e na flora. Desde os finais do séc. XV que os Britânicos visitam a Madeira ou se instalam na Ilha, por uma multiplicidade de razões. A Ilha atraiu mercadores e comerciantes, indivíduos com olho para as possibilidades comerciais, primeiro do açúcar, depois do vinho, exportando o Madeira para Inglaterra e as suas colónias, e importando bens para vender aos ilhéus. Estes homens, por sua vez, precisavam de funcionários, e as mulheres deles de criados e de amas para os filhos; as famílias careciam de médicos e de padres, os inválidos e os visitantes de instalações médicas e hotéis, e foi assim que a elite expatriada e abastada se expandiu. Vale a pena perguntar se os Britânicos trataram a Madeira como trataram Portugal continental. Quando a Ilha se tornou estrategicamente importante para os Britânicos, estes não hesitaram em a ocupar, formalizando uma organização colonial que data do reinado de Carlos II. Este comportamento não será surpreendente quando recordamos a ocupação britânica de Portugal durante a Guerra Peninsular e o Ultimatum de 1890. Somos por isso tentados a questionar se as constantes alusões dos escritores de viagens a Robert Machim não serão uma forma subconsciente de legitimar as pretensões britânicas à Ilha. Com o tempo, a Madeira adquiriu o estatuto de “colecionável”. A “pérola do Atlântico” veio a ser estimada pelos Ingleses pelo seu calor benigno e pela beleza da sua flora e das suas paisagens. Era um objeto para admirar e tentar capturar, em texto e em imagem, através de desenhos, de aguarelas ou de fotografias. Tal como outros colecionáveis, podia ser transacionada, sucessivamente “vendida” às gerações de leitores que consumiam livros de viagens, para lhes satisfazer a curiosidade sobre terras distantes e exóticas e a forma de lá chegar. O atrativo da Madeira para os Britânicos talvez resultasse, em parte, da sensação de constituírem uma ilha dentro da Ilha, uma sociedade fechada dentro da qual não tinham de interagir grandemente com o outro – os católicos de pele escura –, num lugar onde os valores centrais da britanicidade podiam permanecer salvaguardados e intactos, mas num clima temperado. Ironicamente, além de divulgarem informações sobre o passado e o presente da Ilha, as obras discutidas tiveram o resultado acidental de construírem a história social dos ingleses na Madeira. Bibliog.: impressa: ADAMS, Joseph, The Superiority of the Climate of Madeira, Etc. An Account of Arrangements Made for the Treatment of Invalids on the Island, s.l., s.n., 1800; Id., Guide to the Island of Madeira. With An Account of Funchal, and Instructions to Those Who Resort thither for Their Health, London, T. N. Longman and O. 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Journal from 25 August 1768-12 July 1771, text prepared in 1962 from the manuscript held at the State Library of New South Wales: http://gutenberg.net.au/ebooks05/0501141h.html#sep1768 (acedido a 12 jan. 2017); MACQUARIE, Elizabeth, Journal 1809, transcript prepared by Robin Walsh from the manuscript held in Mitchel Library, Sydney: http://www.mq.edu.au/macquarie-archive/journeys/1809/1809.html (acedido a 12 jan. 2017).   Patricia Odber de Baubeta (atualizado a 01.02.2018)

História Económica e Social Madeira Global Sociedade e Comunicação Social

pilar de banger

Pilar de Banger. 1935. O Pilar de Banger foi construído pelo comerciante inglês John Light Banger em 1798. Com a sua altura de quase de 30 m, foi levantado para servir como guindaste e cabrestante no transporte de mercadorias dos navios fundeados ao largo da praia do Funchal. O aumento geral da envergadura dos navios inviabilizou essa ideia, se alguma vez chegou a ser posta em prática. Este pilar foi utilizado como registo dos navios que entravam no porto. Acabou por ser demolido em 1939, quando a avenida do Mar foi construída, mas a sua memória continua viva na sociedade madeirense. Foi uma das curiosidades mais registadas da cidade pelos inúmeros viajantes do séc. XIX e XX. Palavras-chave: Pilar de Banger, guindaste, cabrestante, transporte de mercadorias, registo de navios, avenida do Mar; memória patrimonial, urbanismo.     Pilar de Banger. Max Römer. 1947 O chamado Pilar de Banger foi construído pelo comerciante inglês John Light Banger (1726-c. 1798), em 1798, ano apontado como o mais provável do falecimento deste comerciante. O Pilar tinha como finalidade servir, com a sua altura de quase de 30 m, como guindaste e cabrestante para o transporte de mercadorias dos navios fundeados ao largo da baía do Funchal para a praia. O aumento geral da envergadura das unidades de transporte marítimo e o assoreamento da baía inviabilizou rapidamente essa utilização, pois os navios passaram a ancorar a uma considerável distância da praia. Mas o Pilar tornou-se, pela sua volumetria e localização junto da entrada da cidade, numa das mais importantes referências do porto do Funchal, e fazia as delícias dos viajantes que demandavam a Ilha da Madeira, sendo objeto de inúmeros desenhos, aguarelas e, depois, de fotografias. Com a sua demolição em 1939, tornou-se numa das memórias históricas da cidade e continuou nos anos seguintes a ser pintado, por Max Römer (1878-1960) e outros; conhece-se mais de uma dezena de exemplares das décs. de 40 e 50 desse século. . Pilar de Banger. 1901. A construção do Pilar de Banger, que foi levantado em cantaria no Cabo Girão, custou 1350 libras esterlinas, e tinha como intenção recolher as mercadorias a partir de navios situados ao largo da baía do Funchal, de forma a deixar o comerciante isento de uma série de taxas alfandegárias, pelo menos as ligadas ao embarque e desembarque de mercadorias. O falecimento prematuro de John Banger, que em 1801 ainda usufruía de autorização da Câmara do Funchal para utilizar uma estufa para purificação do grão, invalidou o projeto. Em meados do séc. XIX, o Pilar passou a ter a função de registar os navios que entravam no porto. Este serviço estava, nos finais do mesmo século, entregue à Casa Blandy através da Associação de Comerciantes do Funchal. Os exportadores das encostas da cidade eram avisados da chegada dos navios ao porto e a que companhias pertenciam. A comunicação era feita para as encostas da cidade, especialmente para o lugar Avista Navios, na Nazaré, através de uma bandeira hasteada no Pilar. Cada companhia tinha uma bandeira própria e, desta forma, os comerciantes sabiam que navio estava para entrar no porto, se tinham mercadoria a receber ou a despachar, se chegava a correspondência ou os jornais que lhes interessavam, etc.     O Pilar foi erguido sobre um afloramento rochoso na praia do Funchal, mas não deve ser verdadeira a tradição que diz que na época da sua construção se passava “em canoa, entre ele e a muralha de defesa da cidade” (CALDEIRA, 1964, 131), pois ficava muito acima da linha da praia-mar marcada na planta da cidade elaborada em 1805, poucos anos após a sua construção, por Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832. Nos meados ou finais do séc. XIX, o topo do Pilar foi dotado de uma pequena esplanada com varanda de ferro – que aparece nas fotografias – tendo ao centro um grande mastro com mastaréu de sinais. Como era utilizado para registo dos navios e, em alturas especiais e dias festivos, chegava a embandeirar em arco, como também registam fotografias e como aconteceu na visita régia de 1901 (Visita régia), tinham de subir ao Pilar homens amarrados pela cintura num cabo de pita ou de aço, que girava com o auxílio de uma polé. Algumas vezes, a ascensão era feita numa cadeira de vimes presa ao mesmo cabo (CALDEIRA, 1964, pp. 31-132). Pilar de Banger. 1925. Pilar de Banger, vista Norte. Pilar de Banger.1900   Pilar de Banger. 1890.   Nos meados da déc. de 30 do séc. XX, Fernão de Ornelas (1908-1978), à frente da comissão administrativa da Câmara do Funchal, iniciou uma enorme campanha de obras em toda a cidade do Funchal, seguindo de muito perto o arrojado plano de melhoramentos feito pelo arquiteto Miguel Ventura Terra (1866-1919), em 1914 e 1915, que propunha a construção de uma marginal, tal como havia nas grandes cidades portuárias e turísticas da Europa. Nesse quadro, projetaram-se inúmeras demolições, entre as quais a do velho Pilar de Banger, o que desencadeou uma acesa polémica na comunicação social. Re-nhau-nhau. 20. Jul.1939 Foi até publicada no Re-Nhau-Nhau uma caricatura (Caricaturistas) de Paulo Sá Brás (c. 1920-c. 2000), onde João Abel de Freitas (1893-1948), personificando a Junta Autónoma dos Portos, encarregada pela Junta Geral do arranjo da marginal, brande uma picareta para demolir o Pilar, enquanto o defendem o P.e Fernando Augusto da Silva (1863-1949), empunhando uma espingarda de baioneta calada, o investigador Carlos Santos (1893-1955), que se agarra ao Pilar, e a condessa de Torre Bela, D. Isabel Constance Gordon Bolger (1863-c. 1945), que atiça o seu cão (Torre Bela, condes de). A legenda especifica: “Por mais que Carlos Santos se agarre ao Pilar de Banger com unhas e dentes, o Sr. P.e Fernando se atire de alma, coração e carabina, à Junta Autónoma, e a Sr.a Condessa de Torre Bela lance os seus cães à perna da dita Junta, a triste verdade é que o Pilar de Banger, que naquele sítio nunca fez mal a ninguém, está-se indo à vida” (Re-nhau-nhau, 20 jul. 1939, 10). .   A Câmara Municipal do Funchal e a Junta Geral do distrito mantiveram o projeto, que já vinha da época de Ventura Terra, e o Pilar foi desmanchado nesse mês de julho 1939, para a construção da marginal do Funchal, a futura Avenida do Mar. O material do Pilar dispersou-se por vários proprietários: uma parte foi utilizada numa construção privada no Caminhos dos Pretos (Cabo Verde), outra parte terá sido adquirida pela Casa Blandy, para obras na Quinta do Palheiro, etc. Nas obras de manutenção e repavimentação da Avenida do Mar de 1990 foram encontradas as fundações do Pilar de Banger por baixo da faixa de rodagem norte. Não sendo possível fazer a reposição no local, as pedras da base do pilar foram remontadas no jardim anexo e fronteiro, ligeiramente mais para nascente, acompanhadas de uma placa informativa. A memória do enorme Pilar sempre foi mantida em certa sociedade madeirense, renascendo constantemente a ideia de o reerguer. Em 22 de junho de 2015, apareceu uma petição no Diário de Notícias para esse efeito (“Erguer o Pilar de Banger”, DN, 22 jun. 2015).   Demolição do Pilar de Banger. 1939. Demolição do Pilar de Banger. 1939   Pilar de Banger, após a recolocação de 1990.   Rui Carita (atualizado a 24.02.2018)

História Económica e Social

judeus

Os judeus tiveram um papel preponderante no desenvolvimento do arquipélago da Madeira. Além de comerciantes, os judeus ou, mais tarde, os cristãos-novos desempenharam diversas profissões de destaque, evidenciando-se vários físicos, boticários, cirurgiões, escrivães ou licenciados em leis. Ao longo das diferentes épocas históricas, muitos judeus passaram pela Madeira por motivos de índole comercial e turística, entre outros, tendo sido, de uma forma geral, bem aceites pela comunidade madeirense. Palavras-chave: estrangeiros; cristãos-novos; comércio; Inquisição. Os judeus tiveram um papel preponderante no desenvolvimento do arquipélago da Madeira. A sua chegada à Madeira resultou em parte da sua expulsão do território continental, que os obrigou a dispersarem-se pelas ilhas Atlânticas e depois pelo Brasil. Inicialmente, a convivência das autoridades regionais com a comunidade judaica foi pacífica, facto que poderá advir das facilidades concedidas à sua fixação. Segundo o Elucidário Madeirense, havia muitos judeus na Madeira no séc. XV, muitos dos quais, com ou sem vontade, abraçaram o cristianismo depois do decreto da expulsão publicado por D. Manuel I em 1496; foi a intolerância deste Monarca que abriu caminho às perseguições de que os judeus foram vítimas, mesmo quando aceitaram o batismo para evitar a expulsão do país. Segundo Alexandre Herculano, nas ilhas atlânticas “repetiram-se os insultos e as acusações de judaísmo, em cujo abono apareciam facilmente testemunhas, que depois se provava serem falsas” (SILVA e MENESES, II, 1998, 192). Muitas vezes, essas testemunhas eram familiares dos delatados ou cristãos-novos, como se pode confirmar através de informações recolhidas na transcrição do Rol dos Judeus. Esta ideia é também defendida por Nelson Veríssimo que afirma que “na hierarquia social, os judeus, os mouros e cristãos-novos ou ‘gente da nação’ ocupavam um escalão inferior. Perseguidos pela Inquisição, rejeitados pela sociedade e discriminados pela limpeza de sangue exigida para os cargos públicos e eclesiásticos, na sua maioria acabaram por deixar a ilha da Madeira, desde o final de Quinhentos até à primeira década do século seguinte, ou integraram-se nas ‘boas’ famílias” (VERÍSSIMO, 2000, 87). Apesar de alguns focos de crispação, D. Diogo Pinheiro, o primeiro bispo do Funchal, mostrou-se tolerante com tudo quanto se relacionava com os hebreus, de tal maneira que Alexandre Herculano afirma que os “processos por crimes de judaísmo […] que caíam aparentemente debaixo da sua jurisdição, ou que lhe mandavam julgar, terminavam por via da regra, pela soltura dos réus. Conhecendo a fundo a história da conversão dos judeus, que tinha presenciado, estava profundamente convencido de que tal conversão não passara de uma brutal violência. Para ele o facto do batismo imposto não tinha validade alguma, e os conversos haviam ficado tão judeus como eram dantes” (SILVA e MENESES, 1998, 192-193). Grande parte da informação que a seguir se apresenta sobre a história e o papel dos judeus na comunidade madeirense advém da análise do Rol dos Judeus, manuscrito depositado no Arquivo Regional da Madeira sob o título de Judeus e Cristão Novos na Madeira 1461-1650 e transcrito por Valdemar Guerra em 2003. Este manuscrito, transladado e autenticado em 1725, pertenceu ao arquivo da família Ornelas Vasconcelos que o terá adquirido através do P.e José Francisco de Carvalhal Esmeraldo e Câmara, filho de Aires de Ornelas e Vasconcelos, 8.º morgado do Caniço, que foi genealogista e ocupou o cargo de notário do Santo Ofício em 1773 e de comissário em 1786. Não deverá, contudo, tratar-se de uma transcrição do original, mas de um translado efetuado a partir de uma cópia de 1652, no qual se transcreveram também quitações relativas aos pagamentos satisfeitos por diversos cristãos-novos em função do perdão real de 1605. Tendo em conta o desaparecimento do original, este rol assume grande importância, apesar de estar incompleto e de ostentar manifestas incongruências, que suscitam algumas dúvidas. Além da utilizada na transcrição em causa, existem mais duas cópias, que foram incorporadas no Arquivo da Inquisição de Lisboa, na Torre do Tombo. Uma delas foi copiada do livro do finto, possivelmente antes de 1669, pelo Cap. Manuel de Carvalho Valdavesso. Tratava-se de um documento poderoso e muito comprometedor, que podia ser utilizado para evitar matrimónios inconvenientes com cristãos-novos e para obstar às pretensões dos “infamados” a qualquer género de habilitação, bem como para lançar testemunhos difamatórios contra eventuais opositores no provimento de cargos públicos ou eclesiásticos. Pensa-se que, em 1732, João Rodrigues Oliva, cónego da Sé e comissário do Santo Ofício, tenha utilizado o Rol dos Judeus como instrumento de trabalho. No mês de maio de 1768, em conformidade com as determinações régias então promulgadas, o Tribunal do Santo Oficio expediu uma ordem ao seu comissário no Funchal, o P.e Pedro Pereira da Silva, a fim de fazer recolher e enviar àquela mesa, num prazo de três meses, todos os róis dos fintos. O Rol dos Judeus é uma lista dos cristãos-novos fintados no contexto do perdão geral concedido pelo Papa Clemente VIII em agosto de 1604, a troco de 1.700.000 cruzados que a gente da nação se propôs então pagar à Coroa, na pessoa de Filipe II, e que foi publicado no reino em janeiro de 1605; o licenciado António Ferreira foi o encarregado dessa cobrança na ilha da Madeira. Só estavam isentas as mulheres de nação casadas ou viúvas de cristãos-velhos de quatro costados que vivessem honestamente. Neste rol, são enunciadas diversas quitações dos pagamentos realizados por vários fintados e também dados informativos sobre os seus descendentes, assim como alguns traços biográficos de cada um; faz-se ainda referência às duas visitações do Tribunal do Santo Ofício à ilha da Madeira. Valdemar Guerra refere que os judeus tiveram um papel de grande relevo na economia insular no séc. XV, papel que foi consolidado no séc. XVI, quando se apresentavam já sob a capa de cristãos-novos. Os judeus ou, mais tarde, os cristãos-novos, além de comerciantes desempenharam diversas profissões de destaque, como: físicos, boticários, cirurgiões, escrivães, e licenciados em leis, e alguns conjugaram “o mercadejar com as suas atividades de letrados” (GUERRA, 2003, 15). A primeira referência documental à intervenção ativa dos judeus na economia insular data de 1461. Este documento era uma petição dirigida pelos madeirenses ao infante D. Fernando solicitando “entre outras exigências a proibição de judeus e genoveses desenvolverem papel ativo na economia madeirense” (GUERRA, 2003, 12), solicitação que não foi atendida. É muito provável que nesta altura alguns comerciantes judeus possuíssem boa capacidade financeira e detivessem papel privilegiado na distribuição do açúcar nos mercados flamengos. Esta teoria pode ser comprovada pelo facto de nas Cortes de Coimbra-Évora de 1472-1473 se terem levantado clamores contra a circunstância de os negócios do açúcar serem feitos diretamente da Madeira para a Flandres e de este comércio ser dominado pelos judeus e os genoveses residentes no território insular. Não há evidências sobre a intervenção ativa dos judeus na produção açucareira madeirense e, na documentação existente, os judeus e depois os cristãos-novos aparecem conotados como “homens de trato ou de negócio” (GUERRA, 2003, 15). Só no séc. XVI é que aparecem ligações dos judeus ou cristãos-novos a atividades agrárias e também ao abastecimento cerealífero, visto que, ao lucrarem pelo arrendamento das rendas reais insulares e ao participarem no tráfico mercantil entre a Madeira, o Brasil e Viana do Castelo, arrecadaram avultados lucros. De referir ainda que alguns cristãos-novos exerciam as duas atividades, como foi o caso de António Pereira, mercador e exportador de açúcar, que “aliava as suas atividades comerciais ao setor agrário” (Guerra, 2003, 23). Tendo em conta que, na sua maioria, os judeus eram homens de posses, comerciantes influentes e detentores de outros ofícios mais elevados, a sua perseguição assumia um caráter eminentemente político-económico, não obstante a problemática da ordem religiosa e racial que lhe estava subjacente. Com essa perseguição, pretendia-se sobretudo aniquilar a burguesia mercantil constituída pelos cristãos-novos, que eram espoliados dos seus bens por via dos sistemáticos confiscos exercidos pelo Tribunal do Santo Ofício (instituído em Portugal de forma permanente em 1536, com jurisdição sobre todas as colónias do país, incluindo a Madeira). O Tribunal aceitava denúncias de pessoas desconhecidas e as confissões podiam ser obtidas por meio de tortura física e mental. O leque de penas a aplicar era muito variado e podia ser de carácter espiritual, de prisão, de vexames, de perda de bens, ou de condenação à morte pelo garrote ou pelo fogo. A tensão contra o povo hebraico acentuou-se em 1496, com o édito da expulsão dos judeus. Contudo, no ano seguinte, D. Manuel procurou incutir um certo grau de confiança aos judeus que se tinham convertido ou iam converter-se, quando anunciou a intenção de facilitar a pretendida integração dos recém-conversos na comunidade cristã e de tentar atenuar os efeitos do arrebatamento dos menores. O súbito aparecimento dos judeus sob a capa de cristãos-novos viria a suscitar desagrado e desconfiança na população, que não admitia a autenticidade de tais conversões. A tensão entre cristãos-velhos e cristãos-novos culminou com tumultos em Lisboa, em abril de 1506, nos quais morreram cerca de 1900 judeus conversos. Este episódio levou D. Manuel a revogar, em março de 1507, a determinação de 1499, que proibia a saída dos conversos do reino sem licença régia, sob pena de perderem as suas fazendas, numa tentativa de evitar a saída de capitais para o estrangeiro com a fuga de muitos judeus para países da Europa mais tolerantes com as questões religiosas, ou mesmo para regiões mais afastadas. Assim, os cristãos-novos portugueses espalharam-se, a partir da época moderna, pelos quatro cantos do mundo e nas primeiras décadas de Quinhentos alguns cristãos-novos terão optado por fixar residência no Funchal. Na ilha da Madeira, a animosidade contra os judeus diminui a partir de 1512, com a promulgação de legislação benevolente, na qual se dilatava por 16 anos o prazo concedido para não se efetuarem inquisições aos conversos. Tudo isto foi, contudo, posto em causa por D. João III, que em 1532 determinou que durante três anos fosse novamente interdita a saída do reino aos judeus conversos, à exceção dos que tivessem uma licença régia. No sentido de contornar estas determinações, alguns judeus tentaram utilizar o porto do Funchal para irem para outras paragens, principalmente para o Brasil e para Amesterdão, e outros acabaram por se fixar na Ilha. Para sabermos informações sobre os judeus existentes na Região e as suas principais atividades, podemos recorrer aos documentos relativos às duas visitas da Inquisição à Madeira. Embora existam anteriormente denúncias pontuais de práticas de judaísmo, data de 1550 o primeiro documento sobre a realização duma inquirição na Madeira, ordenada pelo Santo Ofício em resposta a denúncias de heresias na Ponta do Sol; um ano depois, ocorriam as detenções de quatro cristãos-novos acusados de luteranismo e em 1556 a de mais um cristão-novo. Em 1560 chega a Lisboa, sob prisão, Diogo Lopes de Leão, castelhano e morador no Funchal. Era formado em medicina e fora acusado de blasfemar e de não observar a abstinência de carne à sexta-feira. Acabou por ser denunciado por diversas pessoas, desde o cónego ao sapateiro, mas foi o bispo do Funchal, D. Jorge Lemos, que, em carta datada de 9 de agosto de 1561 expediu informação detalhada ao Santo Ofício, referindo que as suas ideias blasfemas sintetizavam o que os cristãos-novos pensavam sobre a igreja e o catolicismo. Num auto de fé de 1562, Diogo Lopes de Leão foi condenado a cárcere e hábito penitencial ao arbítrio dos inquisidores. Depois da sentença, o condenado escreve várias vezes aos inquisidores solicitando licença para regressar à Ilha e, em 1564, estes concordam, pois “o povo pede por lá ser necessário para curar em física como em cirurgia” (NovinskY, 1990, 748). Contudo os efeitos das inquirições da Inquisição à Madeira ficaram muito aquém das expetativas, devido ao facto de a identidade do número substancial de cristãos-novos que já viviam na Ilha ser desconhecida dos habitantes locais. Assim, durante mais de 20 anos, longe da Inquisição e resguardados pelo afastamento que o mar impunha, os cripto-judeus da Madeira permaneceram incólumes, somente importunados por delações. Foi o caso de Francisco Tomás, detido em 1584, por denúncia de Duarte Caldeira que, para escapar ao tormento no potro, também denunciou ao Santo Ofício Isabel Gomes, tendeira de mercearia, que foi presa juntamente com António Pereira (que acabaria por ser absolvido em 1587 e por regressar à Madeira). Isabel Gomes abjurou em auto de fé de 20 de setembro de 1587 e foi sentenciada a cárcere e hábito penitencial perpétuos, sendo sendo dispensada da pena em 1589. Isabel Pinta e Ana Dias tiveram um papel importante na iniciação dos preceitos judaicos e na difusão das correspondentes práticas no seio da comunidade cristã-nova do Funchal. Afastada Isabel Pinta, a doutrinação foi prosseguida por Rodrigo Fidalgo, marido de Ana Dias; os dois constituíam um casal de “rabinos” convictos. Ana Dias morreu durante a viagem para Lisboa, num acidente na caravela, juntamente com o filho, Afonso Fidalgo, que tinha sido seu delator. As denúncias que caíam sobre ela eram de praticar os jejuns judaicos e de ter participado no amortalhamento em pano novo de uma prima e cunhada. Na sequência de um processo que lhe foi movido 12 anos após a sua morte, Ana Dias foi relaxada em estátua e a sua efígie foi consumida pelas chamas da fogueira inquisitorial num auto de fé, a 3 de setembro de 1600. O outro filho que a acusou, Diogo Álvares Fidalgo, também foi acusado de participar ativamente nos festejos de sábado, mas não foi processado, embora esteja incluído no relatório dos culpados efetuado pelo visitador de 1592. Além dos filhos, contam-se denúncias de mais oito testemunhas. Após estes episódios, e dado que o número de denúncias aumentava, deu-se a primeira visitação do Santo Ofício à Madeira, que começou em 1591 e se prolongou até 1592. Assim, em 1591 chega ao Funchal o licenciado Jerónimo Teixeira Cabral, deputado da Inquisição de Lisboa que também fora cónego da Sé e promotor da Inquisição de Évora. A chegada deste inquisidor esteve envolvida em episódios pouco agradáveis: os navios em que seguia a comitiva foram atacados por corsários ingleses, que se apoderaram das bagagens e abandonaram alguns dos seus elementos nas Canárias; posteriormente, aquando da sua chegada à Ilha, a Câmara do Funchal recebeu-o com alguma hostilidade e recusou-se a suportar as despesas do visitador e dos oficiais que o acompanhavam. Com esta visita, a pacatez em que viviam os cristãos-novos no Funchal começou a desmoronar-se e eles começaram a alterar os seus hábitos, que até então passavam despercebidos na comunidade de cristãos-velhos. Começou a haver um grande pavor tanto por parte dos cristãos-novos como por parte dos cristãos-velhos, os primeiros com medo de serem denunciados e os últimos com receio de serem excomungados por não terem denunciado. Ao longo desta visita, houve 10 cristãos-novos que se confessaram voluntariamente a fim de lhes ser concedido o perdão consagrado no respetivo édito, e que depois denunciaram outros cristãos-novos, incluindo alguns familiares seus, devido, em parte, à atitude ameaçadora do visitador. Acabaram por ser todos incluídos no relatório dos culpados, mas somente 6 foram processados. Houve também denúncias por cristãos-velhos que só tiveram conhecimento de alguns procedimentos delituosos após a leitura do édito da fé e monitório geral. Devido ao invulgar número de denúncias, o visitador informou o conselho geral do Santo Ofício, em julho de 1591, do volume de casos e do excesso de trabalho, o que iria fazer com que a sua estada na Madeira se prolongasse por mais alguns meses. Os mandados de captura emitidos em agosto de 1591 só foram executados no Funchal em fevereiro de 1592, mês em que Bartolomeu Martins, familiar do Santo Ofício, levou sete cristãos novos na sua caravela para Lisboa. Era também portador de uma carta do visitador Jerónimo Teixeira Cabral, que recomendava ao Rei que ordenasse ao governador e capitão geral que tomasse medidas a fim de impedir a fuga de pessoas de nação da Ilha e solicitava que fosse cometido ao desembargador o conhecimento das dívidas dos presos. O visitador também elaborou um relatório bastante extenso dos culpados, denominado “Relatório dos Culpados na Visitação da Ilha da Madeira”, com data de encerramento de 20 de fevereiro de 1592. Na sequência desta visita, temos um total de 36 processados (28 mulheres e 8 homens) dos quais apenas 34 se encontram incluídos no “relatório dos culpados”. Assim, do total dos 90 nomes arrolados pelo visitador em 1591, entre mortos, vivos e ausentes, 56 não foram pronunciados. No relatório do visitador foram ainda registados 177 madeirenses, dos quais 94 eram cristãos-novos acusados de judaísmo, 36 eram cristãos-velhos e dos restantes 47 não foi especificada a respetiva confissão religiosa. O visitador dividiu os cristãos-novos referenciados no relatório entre residentes no espaço urbano, na denominada baixa mercantil do Funchal, e moradores no espaço rural, entre os quais se registaram somente quatro casos. De referir que, dos cristãos novos referenciados pelo visitador, 17 já tinham falecido, 12 tinham partido da Ilha e 2 nem sequer residiam permanentemente no Funchal. Aos sentenciados foram aplicadas penas diversas, nomeadamente a de prisão; uns faleceram no cárcere, outros foram relaxados ao braço secular e as respetivas estátuas queimadas num auto de fé, em 1600. Alguns saíram nos respetivos autos com insígnias de fogo apostas nos sambenitos (tinham escapado à fogueira, porque no último momento confessaram as suas culpas contra a fé católica); Catarina Peres foi queimada num auto de fé de 1597, por ter negado sistematicamente os seus delitos. Os outros réus abjuraram em forma do judaísmo, de vehementi ou de levi, segundo o grau das culpas imputadas ou dos indícios apurados. Os autos de fé realizados na sequência da visita inquisitorial à Madeira tiveram lugar na Ribeira de Lisboa, com duas exceções: a de Rodrigo Fidalgo Pereira, que abjurou num auto de fé celebrado em Pernambuco; e a de Grácia Rodrigues, que foi sentenciada num auto de fé efetuado na sala da Inquisição. Esta visita do Inquisidor à Madeira afetou particularmente quatro famílias: os Fidalgos, os Pereiras, os Alves e os Ribeiros, entroncadas por laços sanguíneos e de matrimónio, as quais ficaram completamente destroçadas e com os seus bens confiscados. Dos condenados a sair da Ilha, dois regressaram ao Funchal: Pero Gonçalves Negro e Diogo Nunes, boticário que apenas abjurou de vehementi, em 1594. Outro caso digno de registo foi o de Gaspar Lopes Homem e respetiva família, que esteve na génese da colónia de judeus portugueses estabelecida em finais de Quinhentos na cidade de Amesterdão. Gaspar Lopes Homem, cristão-novo, natural de Ponte de Lima, chegou à Madeira em 1560 e destacou-se como mercador de açúcares e de conservas. Na sequência da visita do Santo Ofício à Madeira, fixou residência em Lisboa, no ano de 1592, com a família. A esposa, Mor Rodrigues, foi detida pela Inquisição, acusada de ter participado no amortalhamento judaico de seu pai, António Pereira; negou a acusação durante três anos, mas acabou por confessar essa culpa quanto estava na eminência de ser executada na fogueira. Mor Rodrigues também acusou o marido de ter participado num jejum judaico no Funchal, e dessa forma escapou à pena capital, tendo sido condenada à perda de todos os bens e a cárcere e hábitos perpétuos sem remissão.. Na sequência desta denúncia, Gaspar Lopes Homem foi preso e os filhos mais velhos fugiram de Lisboa para Amesterdão. Gaspar Lopes Homem denunciou vários parentes e, na sequência de auto de fé de 3 de setembro de 1600, em 19 de março de 1601 foi condenado à perda de todos os bens e a cárcere e hábitos perpétuos no bairro penitencial. Para fugir ao ultraje e aos constantes insultos, decidiu empreender, com a colaboração do cunhado, Henrique Pereira Tenório, uma fuga para a Flandres onde já estavam os filhos. Mas a tentativa foi gorada, porque foi interpelado pela Inquisição, que o prendeu. Posteriormente, Mor Rodrigues foi condenada de novo à perda de todos os bens, a hábito e cárcere perpétuos sem remissão, e a um desterro de três anos em Castro Marim, degredo que não cumpriu porque, quando partiu de Lisboa em julho de 1604, iludiu a Inquisição e foi para a Flandres. O marido foi igualmente sentenciado à perda de todos os bens e a hábito e cárcere perpétuos sem remissão e acabou por cumprir os primeiros quatro anos nas galés. Solicitou a comutação da sentença, para a cumprir em Castro Marim, mas foi condenado a seis anos de degredo no Brasil. Abrangido pelo perdão geral de 1605, regressou à Europa e, em setembro desse ano, já estava em Amesterdão com a família. Pensa-se que era um cristão convicto e que nunca abraçou o judaísmo. De todos os cristãos-novos referenciados no relatório do visitador Jerónimo Teixeira Cabral, refira-se também o caso de Ana Mendes, presa aquando da referida visitação à Madeira. Pensa-se que foi a mãe, Isabel Fernandes, cristã-nova, que lhe ensinou os princípios do judaísmo quando ela tinha 20 anos, dizendo-lhe: “Filha não hás de crer senão em Deus, que está nos céus”, e também: “A imagem de Nossa Senhora, que está na Misericórdia é de uma mulher de um carpinteiro” (NovinskY, 1990, 748). Tanto ela como a irmã, Leonor Ribeiro, ajudavam a mãe nas práticas judaicas, colocando lençóis lavados na cama, em cumprimento da tradição judaica de limpar a casa e mudar a roupa do corpo e da cama à sexta-feira. Ana Mendes defendeu-se argumentando que não sabia que tais práticas eram constitutivas da lei dos judeus, mas os inquisidores não consideraram a confissão fidedigna; morreu a 7 de abril de 1592. Os seus herdeiros foram chamados à mesa e, em 2 de outubro de 1597, os inquisidores ordenaram que os seus ossos fossem desenterrados e levados do cemitério, para serem queimados em auto de fé. A partir deste relatório, não é possível contar quantos cristãos-novos havia no Funchal no fim do séc. XVI, porque nem todos os cristãos-novos foram denunciados ou acusados de práticas judaicas, e alguns deles nem seriam judaizantes, visto que alguns cristãos-novos, proeminentes mercadores, não foram incomodados. O visitador esteve um ano na Madeira e depois partiu para os Açores, mas a sua partida não significou a interrupção do processo em curso. Até setembro de 1592, entraram nos cárceres do Santo Ofício 15 cristãos-novos. Este surto de prisões arrastou-se durante mais cinco anos, pelo que até 1597 foram presos mais 19 cristãos novos. De referir que a ação do Tribunal do Santo Ofício na ilha da Madeira tinha como preocupação averiguar o grau de ortodoxia dos seus moradores e a resistência que estes apresentassem em aceitar a doutrina, a moral e a explicação do mundo dadas pelo poder, representado, por um lado, pela Igreja e, por outro, pelo Estado. Apesar do número de cristãos-novos implicados nesta visita e do alarme que ela causou, o judaísmo continuou a aparecer com frequência na primeira metade do séc. XVII, continuando os cristãos-novos a ser suspeitos e acusados de judaísmo. Esta perseguição continha no seu fundo uma razão político-económica muito mais do que religiosa, como já foi referido, até porque, de uma maneira geral, os judeus convertidos não eram praticantes da sua religião; exemplo disso é o já referido Gaspar Lopes Homem que, apesar de ter ido viver para a Holanda, nunca reverteu para o judaísmo, sendo enterrado numa igreja. Em “Inquisição e Heresias na Ilha da Madeira”, Anita Nowinski refere que não encontrou uma prática de judaísmo puro. Os dados existentes remetem mais para a recusa dos dogmas da religião católica do que para a prática de outra religião. Ser judeu na ilha da Madeira, tal como em Portugal continental, no Brasil e no vasto Império, na época moderna, foi, segundo a autora, uma condição imposta de fora para dentro, mas assumida internamente pelos cristãos-novos, que viviam essa condição de maneiras diversas. Desde a subida de Filipe II ao trono português que a gente da nação reivindicava, com legítima expectativa, não só a suspensão definitiva da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, mas também que lhes fosse concedido um perdão geral por parte da Santa Sé que expurgasse as culpas de judaísmo e de apostasia. Em 1601, o Monarca revogou a antiga determinação que proibia a saída do reino à gente da nação e a venda dos seus bens sem a respetiva licença régia e obrigava ao pagamento de uma fiança que assegurasse o regresso, com a promessa de jamais ser renovada semelhante proibição. Posteriormente, em 1604, Filipe II impetrou finalmente ao Papa Clemente VIII, através do seu embaixador em Roma, o tão desejado indulto, que seria concedido pelo breve Postulat a nobis, de 23 de agosto daquele ano, sendo esta determinação régia executada prontamente. Após a publicação do perdão geral de 1605, muitos cristãos-novos portugueses seguiram os passos de Gaspar Lopes Homem e foram para a Holanda. Exemplo disso é o madeirense Henrique Pereira Tenório, que foi libertado dos cárceres do Santo Ofício logo a seguir à publicação do perdão régio, a 16 de janeiro de 1605. Contudo a exclusão social dos cristãos-novos permanecia, visto que a almejada habilitação para o exercício dos cargos públicos não fora outorgada. Note-se que o indulto concedido aos cristãos-novos constituiu, para a Coroa de Castela, uma dupla transação, pois além da quitação de 225.000 cruzados, não só vendeu o referido perdão geral à gente da nação pela avultada soma de 1.700.000 cruzados, como já se referiu, como havia vendido a sua rejeição aos cristãos-velhos por 800.000 cruzados. Esta situação saldou-se por uma profunda desilusão para os cristãos-novos, dado que, por um lado, as expectativas de obterem a habilitação foram goradas, enquanto, por outro, o perdão real não constituiu um privilégio vitalício porque, à menor suspeita de que praticavam o culto judaico de forma oculta, poderiam ser considerados relapsos e sujeitos à pena capital. Muitos cristãos-novos utilizaram diversos estratagemas para se furtarem ao pagamento do finto e outros obstaculizaram violentamente a missão dos agentes incumbidos de efetuar a cobrança do donativo. O perdão às gentes da nação foi publicado na Madeira em 1607. O primeiro lançamento de que temos registo data de 1605, e em janeiro de 1607 teve início a cobrança do finto, que durou até março, período em que somente 13 contribuintes efetuaram o respetivo pagamento. A grande maioria dos parentes dos arrolados de 1605 faleceu na Madeira. Segundo Valdemar Guerra, as primeiras referências ao finto na Madeira datam de 1606, sendo os fintadores também nomeados “filhos da nação”. Neste documento, constam 37 nomes relativos a outros tantos arrolados, alguns dos quais já falecidos, mas este número é ligeiramente empolado, visto que diversos parentes foram apostos, em conjunto, nas mesmas alíneas. O autor da transcrição refere que se excluíram os defuntos cujos parentes estavam obrigados a pagar a respetiva contribuição e, ato contínuo, se contabilizaram aqueles que se acham tributados conjuntamente. Assim, o número de arrolados contidos na relação perfaz 45 indivíduos, mas apenas 32 estariam sujeitos ao pagamento do finto. No que concerne às importâncias lançadas no rol dos judeus, verifica-se que os fintadores apontaram 28 adições, que correspondiam a 31 fintados, atingindo a soma de 215.750 réis. Mas as avaliações dos fintados não foram realizadas nos moldes que haviam sido estipulados por determinação régia. Os três fintadores, todos eles cristãos-novos, que estranhamente não se incluíram no rol, aplicaram somente uma taxa de 2,5 % sobre os bens dos contribuintes casados com cristãs-velhas, embora o diploma não consagrasse essa exceção. Existe outro rol, efetuado em Lisboa e datado de 15 de maio de 1610, que constitui uma terceira relação de cristãos-novos fintados na Madeira. Neste documento estão registados 30 indivíduos apostos somente em 25 adições, porque, tal como no rol anterior, em 5 casos os respetivos parentes foram lançados em conjunto nas mesmas alíneas. Há 2 fintados que já constavam da relação de 1606, tendo, contudo, visto as suas contribuições agravadas, o que parece revelar a existência de substanciais irregularidades. Neste rol, apenas foram introduzidos 7 indivíduos novos. Podemos concluir que o número total de arrolados na Madeira, em função do perdão geral de 1605, se cifrou em 55 indivíduos, mas somente 40 estiveram obrigados a fazer o pagamento do finto. Infelizmente, não é possível calcular, a partir do rol dos judeus, o número de cristãos-novos que viviam na Madeira, porque nem todos teriam sido tributados. Por fim, dos 59 indivíduos exarados no documento de 1592 como residentes na Madeira, somente 8 constam da relação dos fintados. As verbas cobradas em 1610 aos 31 contribuintes perfazem a quantia de 925.500 réis, um total superior ao rol precedente, que atingia apenas 231.750. Assim, o total arrecadado entre 1610 e 1613 na Madeira foi de 391.321 réis, valor algo insignificante comparado com o recebido no território nacional; isto porque os cristãos-novos da Madeira eram uma minoria étnica, que vinha sendo absorvida por uma significativa parcela da população cristã-velha, devido aos matrimónios mistos então realizados. Conclui-se também que esta tarefa foi mais demorada que o estabelecido, sendo que, em 1618, ainda não tinha sido concluída a arrecadação do finto Depois da primeira visitação de 1591, a referência mais antiga sobre a ação inquisitorial na Ilha data de 1617, véspera da presença no Funchal do inquisidor Francisco Cardoso de Tornéo, responsável pelas inquirições das testemunhas contra Anna Mendes, cristã-nova, acusada por várias pessoas de práticas contra a fé. Tratava-se de uma viúva de posses, que criou as filhas e dirigia com inteligência os negócios familiares. Foi acusada de nunca se levantar durante a leitura do evangelho, de não bater no peito, entre outros gestos que escandalizavam os fiéis na igreja e os vizinhos na rua. Esta visita enquadrava-se na estratégia global então desenvolvida: condenar todos aqueles que eram contra os dogmas pregados pela Igreja Católica e de controlar a atividade do Santo Ofício, assim como de conferir a vigilância do ordenamento estabelecido pelo poder de uma certa camada social e a angariação de depoimentos mediante a propaganda feita à Inquisição. Com efeito, nesse ano foram efetuadas diversas visitas em outros tantos pontos geográficos do país e do Império, nomeadamente nos Açores e no Brasil. Assim, a 3 de janeiro de 1618, a comitiva inquisitorial presidida por Francisco Cardoso de Tornéo, deputado do Santo Ofício de Coimbra, apresentava as suas credenciais à Câmara do Funchal e quatro dias depois ocorria a publicação da visita. Nessa ocasião, o reitor do Colégio dos Jesuítas proferiu o habitual sermão, de acordo com o regimento, incitando os presentes a confessarem os seus erros e a denunciarem quaisquer desvios relativamente ao dogma. Seguidamente, foi afixado o édito na porta da Catedral do Funchal. Nesta segunda visita, a gente da nação não foi um alvo privilegiado. Nesta visita compareceram apenas 68 indivíduos, que, no Funchal, se prestaram a efetuar várias delações, 4 dos quais eram cristãos-novos; o total de pessoas denunciadas foi de 32, sendo que apenas 6 delas, de nação, 4 acusadas de judaísmo e 2 de proposições, fizeram confissão. Pensa-se que os cristãos-novos madeirenses, de sobreaviso com as nefastas consequências da primeira visita inquisitorial, adotaram um comportamento prudente e dissimulado, ao contrário do que ocorrera anteriormente. É provável que alguns continuassem a praticar o judaísmo, mas esses faziam-no em círculos mais restritos e na mais obscura clandestinidade, e alguns terão abandonado a Ilha enquanto outros, ligados aos cristãos-velhos pelos laços do matrimónio, permaneceram, sem dúvida, na Madeira. Fernanda Olival refere que Francisco Cardoso de Tornéo, o inquisidor visitante, não percorreu todas as freguesias da Ilha, sendo o Funchal o local onde permaneceu mais tempo, tendo visitado rapidamente a Calheta, a Ponta do Sol e Santa Cruz, local onde não foram registados quaisquer cristãos-novos. De referir que, em 1591, o raio de controlo foi mais extenso do que nesta segunda visita. Os agentes regionais da Inquisição, padres da Companhia de Jesus, o comissário, o secretário, o visitador das naus e o respetivo escrivão, bem como o único familiar disponível no arquipélago em 1618, Pero Borges, viviam no Funchal e iam mantendo o Tribunal informado sobre as movimentações dos cristãos-novos da ilha e as práticas de judaísmo. Este visitador procurou sobretudo a cidade, e os cristãos-velhos das baixas camadas sociais foram os mais atingidos pela visita, contrariamente ao sucedido em 1591. No que concerne aos denunciantes, verificamos que, dos 68, 57 eram cristãos-velhos, 4 cristãos-novos e 7 sem informação precisa, sendo a grande maioria do sexo feminino e os alvos de denúncia os agregados de artesãos, os religiosos e os comerciantes. Contudo, só foram registados 27 casos, número bastante reduzido. Elencaram-se 66 denúncias, mas pensa-se que o número de pessoas inquiridas por Francisco Cardoso Tornéo foi muito superior às 49 que o livro de denúncias regista na cidade, porque houve pessoas que denunciaram sem terem sido chamadas. Registam-se somente 9 denúncias de judaísmo, que se referem apenas a 5 pessoas. Segundo Fernanda Olival, a maior parte destes casos nada tem de significante, pois verifica-se que a denúncia advém do receio e do repúdio perante o cristão-novo, que tende a despertar as atenções, pelo que a mais pequena atitude ou o menor gesto se torna compatível com o judaísmo. Este aspeto é um sinal revelador de que a campanha da Inquisição era bastante eficaz. Podemos concluir que da visita de 1618 não resultou qualquer processo por judaísmo, porque o que foi registado não era coisa relevante para o próprio visitador, pelo que os resultados ficaram aquém da visita de 1591. Verificamos também que os cristãos-novos envolvidos na visita de 1618 foram em número bastante reduzido, comparativamente ao número de gente da nação que vivia na Madeira nesta época. Segundo Valdemar Guerra, os cristãos-novos teriam uma conduta assumidamente dissimulada, permanecendo judeus no seu âmago e cumprindo os preceitos da lei mosaica de forma clandestina, crença que só se dissiparia no decurso de várias gerações, fruto da múltipla miscigenação que fatalmente acabou por acontecer. Após a visita à Madeira, a comitiva inquisitorial partiu para os Açores, tendo a publicação da sua presença ocorrido em abril de 1619, em Ponta Delegada. Como já se referiu, na sua grande maioria, a gente da nação fixada no Funchal era constituída por mercadores; na comunidade cristã-nova avultava uma significativa inteligentzia, detentora de variados graus académicos (doutores, licenciados e bacharéis) e profissões (físicos, cirurgiões, boticários, tabeliães e escrivães). Assim, será oportuno destacar diversos vultos proeminentes, tanto de letrados como mercadores, alguns dos quais não constam sequer do rol dos judeus, mas que assumiram grande notoriedade, tendo desempenhado cargos destinados unicamente a cristãos-velhos. Esta constatação aponta para o facto de na Madeira a exigência da limpeza de sangue não obstar, aparentemente, ao desempenho de determinadas atividades. Começamos por Gaspar Leite, um dos fintados em 1606, que exerceu por três vezes ofícios concelhios e foi almotacé da Câmara do Funchal. Licenciou-se em Coimbra, em Leis, no período de 1578-1584, onde frequentou Cânones (1581), e era irmão do Cón. Jerónimo Dias Leite, circunstância que passou despercebida, tanto dos anotadores do rol dos judeus, como aos que traçaram apontamentos biográficos sobre o cronista insular. O Cón. Jerónimo Dias Leite foi o primeiro madeirense que se dedicou à investigação histórica, tendo escrito O Descobrimento da Ilha da Madeira em 1590, provavelmente por solicitação de Gaspar Frutuoso, e foi cónego da Sé, nomeado em 1572. António Lopes da Fonseca foi outro judeu de renome. Filho de Pêro Vaz Bala, mercador, recebeu o batismo na Sé do Funchal em janeiro de 1571. Em 1588, recebeu os primeiros dois graus das ordens menores, conferidos por D. Luís Figueiredo de Lemos, mas não seguiu a carreira eclesiástica. Frequentou em Salamanca o curso de Leis e Cânones, graduando-se em bacharel. Regressou à Madeira e começou a advogar. Em 1610, na sua qualidade de causídico, foi escolhido para procurador da Câmara do Funchal. Outros cristãos-novos exerceram diversas profissões consideradas de igual modo nobilitadoras, como é o caso dos tabeliães de notas António Lopes Libraleão, tio paterno do mercador Pêro Lopes Libraleão, um dos fintados em 1606, de Francisco Rodrigues Araújo, tabelião da primeira metade de Seiscentos que também exercia funções mercantis, e de Bento de Matos Coutinho, licenciado em Cânones, advogado, auditor do presídio e mercador. Houve igualmente alguns cristãos-novos médicos no Funchal, tais como: o mestre Henrique, cirurgião; o licenciado Diogo Lopes Leão, físico; o doutor Constantim Paulo, médico; Manuel Ribeiro, médico cirurgião no Funchal, a partir de 1597; e Jorge de Castro e Luís Dias Guterres, ambos licenciados em medicina, que começaram a exercer os seus ofícios a 1 de julho de 1603. De referir ainda que Luís Dias Guterres, filho do ourives e mercador João Dias, foi batizado no Funchal em maio de 1569, cursou medicina em Coimbra em 1594-1601 e foi eleito almotacé na Câmara do Funchal. Houve outros cristãos-novos que exerceram medicina na Madeira, embora sem terem as respetivas habilitações, e.g. Manuel Mendes, um dos fintados em 1606, natural de Portalegre, que se casou no Funchal com Maria de Mendonça, cristã-velha. Foi autorizado a exercer medicina pelo doutor Fernão Rodrigues Cardoso, físico mor do reino. Outros casos semelhantes foram o de João Mendes Pereira, cristão-novo boticário que em 1607 exerceu medicina sem ser graduado em Coimbra; dois dos seus filhos tiraram cursos em Coimbra, um de Teologia e outro de Leis. Referência ainda para Simão Rodrigues Vila Real, mercador e escrivão do presídio, um dos fintadores nomeados no Funchal em 1606. Consorciou-se em 1586 com Maria Fernandes, ambos cristãos-novos, e nunca foram importunados pela inquisição. Manuel Tomás, mercador, que foi autor dos poemas épicos Insulana e Fénix da Lusitânia e em 1610 já vivia na Madeira, terá nascido em Guimarães e faleceu no Funchal a 28 de abril de 1665, assassinado. João Rodrigues Tavira foi mercador e detentor de várias propriedades. Diogo Nunes Belmonte partiu do Funchal, cidade na qual já residia na última década de Quinhentos, para Amesterdão, onde desempenhou um papel relevante no seio da comunidade judaica ali estabelecida, tendo sido abastado mercador e poeta. Teve seis filhos, com destaque para Mosseh Belmonte, nascido em 1619, também poeta, que se destacou noutros campos artísticos. A partir de Amesterdão, Diogo Nunes Belmonte – conhecido nessa cidade por Jacob Israel Belmonte, pois era frequente os judeus trocarem de nome – e os seus sócios dirigiam uma complexa teia de operações comerciais que se estendia a Portugal continental, à Madeira e ao Brasil. Ainda da família Belmonte, destaque para Walter Belmonte, médico, descendente de Diogo Nunes Belmonte; natural de Leipzig, refugiou-se em Portugal logo após a ascensão de Adolf Hitler ao poder, fixando-se na Madeira em 1935. Por fim, refira-se o nome de Manuel Dias Soeiro, conhecido por Menasseh ben Israel, figura proeminente e multifacetada no seio da comunidade judaica estabelecida em Amesterdão; foi professor, filósofo, teólogo e escritor consagrado, tendo até sido retratado por Rembrandt. Aos 18 anos, foi nomeado rabino da Sinagoga Neve Shalom. Em 1626, fundou a primeira tipografia hebraica em Amesterdão e foi interlocutor do P.e António Vieira naquela cidade. Diversos historiadores defendem que nasceu na Madeira, em 1604, embora outros considerem tal hipótese infundada. Após a segunda visitação, as perseguições aos cristãos-novos continuaram e as denúncias sobre as heresias aumentaram, principalmente a partir de 1630, feitas diretamente ao reitor do Colégio da Companhia de Jesus, P.e Domingos Teixeira; neste contexto, além dos crimes de judaísmo, também aparecem os crimes de feitiçaria e blasfémia, entre outros. Refiram-se, e.g., os casos de Belchior Gomes de Leão, cristão-novo sobre o qual se dizia que não comia carne de porco, denunciado a 5 de fevereiro de 1639; de Joana Gomes, que ridicularizava a doutrina de que a hóstia era o corpo de Cristo; de Guiomar Mendes a quem Domingos Teixeira chamou “refinada judia” porque jejuava duas vezes por semana e também não comia carne de porco; e de Maria do Rosário, acusada de enfeitiçar o escrivão do Colégio dos Jesuítas (NOVISNKY, 1990, 750-751). Nesta época, alguns cristãos-novos conseguiram, muitas vezes mediante pagamentos ou serviços, ultrapassar as barreiras de separação e diluir-se no vasto mundo da Igreja; foi o caso de António de Vasconcelos, cónego da Sé do Funchal e cristão-novo, que foi acusado por Pero Gonçalves da Fonte, chantre da Sé e provisor do bispado. De referir que, na Madeira, na ausência das visitas oficiais, os bispos exerciam temporariamente, sobretudo na Quaresma, o papel dos visitadores, arguindo os moradores e pedindo-lhes que se denunciassem e que se confessassem, e enviavam as relações de culpas para Lisboa. Na primeira metade do séc. XVII, as investigações e os inquéritos em matéria concernente ao Santo Ofício eram entregues à responsabilidade dos reitores da Companhia de Jesus, a quem cabia “exercer o poder em nome da Inquisição”; os reitores dos colégios tinham o título de “comissários”, sendo fiéis servidores do Santo Ofício e seus homens de confiança. Os Jesuítas “eram, portanto, homens ‘de dentro’ da Inquisição” e recebiam as incumbências e ordens dos Inquisidores (NovinskY, 1990, 745). Outro elemento importante no que concerne à política de repressão do Santo Ofício era o visitador das naus. Devido ao facto de o Funchal ser um porto muito importante, cada navio que chegava era cuidadosamente inspecionado, e cabia ao visitador a responsabilidade de verificar cada caixote, cada papel escrito, cada livro, com a ajuda e cumplicidade dos homens do mar. A 31 de março de 1821, na sequência de uma decisão das Cortes gerais do reino, chegou ao fim um período de quase 300 anos de atividade do Tribunal do Santo Ofício, que perseguiu e condenou aqueles que considerava hereges ou seguidores de outras religiões que não a católica. Após o fim da Inquisição, muitos judeus regressaram a Portugal e nomeadamente à ilha da Madeira, principalmente com motivações económicas e comerciais. De todos os hebreus que foram para a Madeira a partir da segunda metade do século XIX, destacam-se os das famílias Abudarham, Adidas e Athias. Estes últimos ganharam notoriedade em Portugal continental, nomeadamente através do médico Mark Athias e do comandante Jaime Anahory Athias. As famílias Abudarham e Adidas integraram-se bastante bem na sociedade madeirense, através das suas atividades comerciais e do casamento, entrelaçando-se assim em gerações posteriores e disseminando-se entre os habitantes da Madeira. Os Abudarham foram uma das famílias hebraicas mais destacadas na sociedade madeirense, tendo-se José Abudarham, o primeiro desta família, instalado no Funchal por volta de 1837. Após a morte de José Abudarham, foi Jacob Abudarham, o seu primogénito, que tomou conta dos negócios da família, nomeadamente o da comercialização de vinho, apoiado pela mãe, Clara Adida (membro de outra família judaica preponderante na Ilha), que fundou a empresa Viúva Abudarham & Filhos. Jacob foi um homem de negócios bastante influente, assim como benemérito de várias instituições e membro da Associação Comercial do Funchal, à qual chegou a presidir, tendo sido também um dos fundadores da Sociedade Protetora dos Animais Domésticos. Na qualidade de presidente da Associação Comercial da Madeira, foi integrado na comissão de receção ao Rei D. Carlos. Aquando da sua morte, a 3 de setembro de 1903, a Associação Comercial do Funchal e a Câmara do Funchal, colocaram a bandeira nacional a meia haste, como sinal de luto e consideração, e no seu funeral estavam representadas várias classes da sociedade. Jacob Abudarham é um dos nove membros da família Abudarham sepultados no cemitério judaico do Funchal. Willy Schnitzer foi da Alemanha para a Madeira em fins do séc. XIX e casou-se com Pauline Levy, tendo dois filhos. Desenvolveu uma grande atividade na indústria de bordados. Depois de estar instalado na Ilha, recebeu os irmãos, Rose e Julius Schnitzer. Willy, Pauline e o filho, Gilbert, estão sepultados no cemitério judaico. Os Schnitzer participavam em cerimónias religiosas do ritual asquenaze. Outros judeus alemães que passaram pela Madeira foram Oskar Schmitz, Segismundo Maurício Edfeld, Walter Belmont, descendente de Diogo Nunes Belmonte, e Jan Wetzler, que aportou no Funchal a 10 de abril de 1939 e nesse mesmo ano se associou ao industrial de bordados Manuel Hugo Luís da Silva, fundando a empresa Jan Wetzler & Silva, Lda., que exportava bordados e outros produtos confecionados. Em Junho de 1949, foi-lhe concedida a naturalização portuguesa que, de acordo com as autoridades oficiais, traria vantagens para a economia da Ilha, levando-o a aportuguesar o seu nome próprio para João. Além de comerciante de bordados, Wetzler foi também antiquário e deixou em testamento várias peças de ourivesaria, que integraram o espólio do Museu da Quinta das Cruzes, com destaque para alguns objetos ligados a rituais judaicos. Foi principalmente durante a Segunda Guerra Mundial que muitos alemães chegaram à ilha da Madeira, e a convivência entre alemães judeus e alemães não judeus nem sempre foi pacífica; os judeus que viviam na Madeira sentiram-se alvo de pressões de uma parte da população alemã da Ilha, tendo mesmo havido denúncias na Gestapo, bem como cancelamento de casamentos entre judeus e alemães, e o fim de algumas sociedades comerciais. Neste período, também chegaram também à Madeira muitos refugiados e turistas, alguns dos quais judeus. Destaque para os gibraltinos que, no contingente de 2000 que chegaram ao Funchal, levavam 80 judeus, 9 dos quais ficaram sepultados no cemitério judaico, sendo 4 posteriormente transladados para Gibraltar. Nos começos do séc. XXI, a presença judaica na Região era pouco significativa; o censo de 2011 revelam que 46 pessoas se identificaram com a religião judaica, não havendo contudo dados de prática de atos cultuais desta religião, à exceção das celebrações do primeiro Seder Pessach público, que aconteceu em 2013, promovido por um casal americano-israelita, e contou com a presença de 13 judeus bnei anussim. Os vestígios patrimoniais resumiam-se ao cemitério judaico – aliás em avançado estado de degradação – e a uma hipotética sinagoga, situada no n.º 33 da rua do Carmo. Neste edifício, destaca-se a estrela de David, símbolo do judaísmo, na vidraça de uma das janelas. Contudo, no seu interior, não há vestígios do outrora lugar de culto e a maioria dos estudiosos não confirma a tese de que este edifício funcionou como sinagoga. Refira-se ainda um sítio em São Vicente denominado Achada dos Judeus, cujo nome derivará da circunstância de os judeus perseguidos se terem refugiado nesse local, onde deixaram inscrições em hebraico. Sobre o cemitério judaico do Funchal, refere Rui Santos em “O Cemitério Israelita do Funchal” que os israelitas residentes na Madeira a partir de meados do séc. XIX construíram este cemitério devido à necessidade de disporem de um cemitério próprio onde pudessem sepultar, dentro dos ritos da sua religião, as pessoas de raça hebraica. A obra não foi noticiada pelos órgãos de informação regionais e os primeiros relatos escritos sobre este cemitério encontram-se no diário de uma visita à Madeira e a Portugal feita entre 1853 e 1854 por Isabella de França que, depois de localizar bem o espaço mortuário e dar uma ideia do ambiente que o rodeia, refere que há 50 anos que nenhum judeu é autorizado a viver na Ilha. Segundo Rui Santos, esta informação não será correta, porque a construção do cemitério e a compra, por José de Adudarham, do terreno onde o mesmo foi instalado indica a permanência na região de judeus; a comunidade hebraica seria pequena, tendo em conta o tamanho do terreno escolhido para o cemitério e o facto de o primeiro enterro – que se supõe que terá sido de Reina Pariente Abudarham, mãe de José de Abudarham – só ter acontecido em 1854, 3 anos após a data da autorização governamental para a sua construção; durante os primeiros 50 anos de existência do cemitério só se registam 16 enterramentos, com alguns hiatos entre eles. As legendas das primeiras lápides eram em hebraico, datando somente de 1868 a primeira inscrição não hebraica num túmulo. Os responsáveis pela construção deste cemitério foram Isaac Esnaty e Judah Aloof, que eram destacados membros da comunidade hebraica, negociantes e pessoas que ocupavam posições privilegiadas na sociedade madeirense. A construção do cemitério israelita do Funchal data, segundo a inscrição na entrada do mesmo, de 1851, tendo ocorrido portanto durante a governação do conselheiro José Silvestre Ribeiro, governador do Funchal entre 1846 e 1852; desconhece-se como foi construído, bem como a data precisa do início das obras e o valor das mesmas. O cemitério, com cerca de 21 m de comprimento por 14 m de largura, perfazendo aproximadamente 294 m2, tem paredes de alvenaria e tem apenas uma porta; os umbrais e a verga são de cantaria rija, com um simples ornato, onde existe um florão ou frontal circular e onde havia uma inscrição hebraica “habitação da vida”, com a data de 5611, que corresponde ao ano de 1851 da era cristã. Por baixo da inscrição, dentro da cercadura de um bloco em forma de sino, podemos ver vários elementos ligados à vida e ao espírito da inscrição. Esta representação simbólica revela a maneira sentimental como os judeus encaram a morte. Ignora-se como funcionava o cemitério e quem era o seu responsável, mas, tendo em conta que José Abudarham era um dos israelitas mais conceituados no Funchal, é possível que ele e a sua família tenham ficado responsáveis por este local durante várias gerações. José Abudarham foi sepultado no local, em 1869; e a última sepultura que ali se encontra é de Joana Abudarham Câmara, com data de 9 de janeiro de 1976. Também não se sabe quem desempenhava as funções de rabino em geral, embora se tenha informação de que Jacob Begel, comerciante no Funchal, desempenhou essas funções no funeral de Herman Horwitz, em maio de 1901 Para além dos Abudarham, dos Adida e dos Athias, há registo de outros membros da comunidade israelita nesta altura: os Mercado, os Esnaty e os Begel, entre outros. Além dos hebraicos residentes há muitos anos no Funchal, começaram a chegar à cidade, entre as décadas de 10 a 30 do séc. XX, alguns industriais do bordado provenientes da Síria e do Líbano; durante a Segunda Guerra Mundial, chegaram refugiados de Gibraltar e do Leste da Europa, como se pode observar pelas sepulturas existentes no cemitério (um total de 38). Algumas dessas sepulturas são também de turistas que foram para a Madeira à procura de cura para algumas doenças, no denominado turismo terapêutico, bastante em voga na época. Há no cemitério sepulturas de pessoas originárias da Alemanha (8), da Áustria (1), dos Estados Unidos da América (1), de França (4), de Inglaterra (11, incluindo os gibraltinos), de Marrocos (1), de Portugal (2), da Síria (1), para além de 9 sepulturas cuja nacionalidade não foi possível averiguar. Segundo um estudo dirigido por Mark A. Jobling, da Universidade de Leicester, no Reino Unido, no começo do séc. XXI, cerca de 19,8 % dos Portugueses têm genes de ancestrais judeus sefarditas. 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jogos de fortuna e azar

De acordo com o dec.-lei 422/89, de 2 de dezembro, os jogos de azar são definidos como “operações oferecidas ao público em que a esperança de ganho reside conjuntamente na sorte e perícia do jogador, ou somente na sorte, e que atribuem como prémios coisas com valor económico”, sendo “abrangidos rifas, tômbolas, sorteios, concursos publicitários, concursos de conhecimentos e passatempos”. Para além disso, enquadram-se neste conceito os jogos proibidos, que se fazem portas adentro, em locais reservados. No passado, eram associados às cartas de jogar, ao jogo da hoca, do osso, de dados, solimão e tavolagem. Na Madeira, associam-se ainda ao jogo do bicho, à milhada, um jogo de adivinhação feito com grãos de milho – que foram depois substituídos por moedas, ficando o jogo conhecido como a moedinha – e, posteriormente, ao raspa, criado pela Associação de Municípios da Madeira. Note-se que a diversão e o jogo fazem parte de todas as sociedades, estando condicionados pelas limitações impostas, nomeadamente pela Igreja, através das constituições sociais, da prática episcopal das visitações, das ordenações régias e da sua expressão local através das posturas. Muitas vezes, a documentação não nos fala da prática destes jogos, mas o facto de existirem estas medidas proibitivas é, por si só, a prova da sua existência. O facto de a Madeira ter sido local de acolhimento de forasteiros, que, muitas vezes, aí passavam temporadas, trouxe para a Ilha essas formas de jogo europeu para ocupar o tempo. Ocupar o tempo não era tarefa fácil numa terra em que faltavam muitos serviços de diversão e entretenimento. Assim, as autoridades demonstraram empenho em promover tudo o que fosse possível para que, aos poucos, se criassem as condições necessárias ao acolhimento destes forasteiros, destacando-se a ação do Gov. José Silvestre Ribeiro, que insistiu nos melhoramentos das ruas da cidade, calcetando-as e provendo-as de iluminação noturna, e a construção de casas de abrigo no interior da Ilha. Alguns estrangeiros queixavam-se do tédio permanente das estadias no Funchal, por falta de locais de diversão, má qualidade dos músicos e pouca variedade dos repositórios musicais. É disso exemplo Isabella de França, que, em 1853, declarava: “Não posso dizer muito em louvor da música destes bailes, porque só há uma no Funchal e o público não fica mais bem servido do que noutro monopólio qualquer. Outra consequência é que, durante a temporada, se tocam sempre os mesmos números. São eles, como em toda a parte, uma ou outra quadrilha, por mera formalidade, e muitas polcas, valsas, mazurcas, etc. – tantas quanto possível” (FRANÇA, 1970, 173). Outros ainda, como Dennis Embleton em 1882, apontavam a pouca veia musical dos madeirenses. Talvez por isso a presença de uma banda a bordo de um navio de passagem fosse motivo de interesse e curiosidade, providenciando-se a sua participação em bailes oficiais ou organizados pelos clubes. Em 1853, a banda de um barco americano foi convidada a atuar num baile no palácio de S. Lourenço, como também conta Isabella de França: “Na mesma sala dos quadros tocava a banda do navio americano surto no porto e cujo comodoro tivera a gentileza de a ceder para aquela ocasião. A música, de que o instrumento mais importante era o bombo, devia soar bem no mar alto mas ensurdecia muito debaixo de um teto” (Id., Ibid., 203). A noite era um momento importante para o convívio e animação nas casas das principais famílias da Ilha e da comunidade britânica aí residente. Nos seus solares apalaçados no espaço urbano ou quintas nos arredores da cidade, todos dispunham de amplos aposentos servidos com sala de jantar e de dança para muitos convidados. Entre estes, contavam-se sempre estrangeiros de diversas nacionalidades que ocupavam o tempo de estadia na Ilha pulando de festa em festa. Tais saraus eram marcados por grande animação de música e dança. Disso nos dá conta, uma vez mais, Isabella de França: “A reunião não teve muita concorrência, mas incluiu várias nações. Havia uma dama russa, três ou quatro alemães, além de ingleses, franceses e portugueses. Depois do chá, houve música nacional, para nossa distração: machete primorosamente tocado, viola e cavaquinho (machete de seis cordas em vez de quatro, peculiar ao Porto). Estes instrumentos foram todos bem tangidos e harmonizaram-se na perfeição em músicas que lhes são próprias. Gostei bastante” (Id., Ibid., 182). No séc. XIX, o Teatro Grande, criado em 1780 próximo da fortaleza de S. Lourenço, era considerado o principal centro de diversão por acolher as mais famosas companhias europeias, como foi o caso da companhia de teatro do S. Carlos, em 1808. A aposta das autoridades neste tipo de espaços foi, no entanto, sendo adiada, pelo que, quer a imprensa, quer os forasteiros reclamavam uma casa de espetáculos. Criá-la era, em 1819, no entendimento do Gov. Sebastião Xavier Botelho, a possibilidade de travar os espaços não autorizados, na medida em que eram “forçados seus habitantes a buscarem más distrações quando lhes faltem as honestas” (ALMEIDA, 1907, 295). É o mesmo governador quem promove uma lotaria com um prémio até 18 contos, com duas ou três extrações anuais, sendo os lucros, que poderiam chegar a 12%, destinados a obras ligadas à diversão, como o reparo do teatro, por exemplo. Em 1822, surge a ideia de uma nova lotaria, no valor de 24 contos, que, nas palavras do governador, podia ajudar a evitar o tédio e falta de diversão na cidade: “vantagens são bem conhecidas de todos mormente numa cidade que não tem outros entretenimentos com que se possa distrair e fazer diversão...” (Id., Ibid.). O Funchal era, então, uma cidade cosmopolita que fervilhava de gente de passagem e de doentes em busca da cura para a tísica. Como as diversões eram poucas e não havia teatro, ópera ou outras diversões europeias, o tempo era ocupado por passeios a pé ou de barco e piqueniques. Perante isto, foi preocupação de vários governadores promoverem o entretenimento. Todavia, só na déc. de 80 do séc. XIX a pertinácia do Dr. João da Câmara Leme venceu a inércia das autoridades centrais. Assim, em 25 de fevereiro de 1880, constituiu-se a companhia edificadora do Teatro Funchalense, mas a decisão da sua construção por parte da Câmara só ocorreu em 9 de fevereiro de 1882. O espaço abriria as suas portas apenas cinco anos depois, com o nome teatro D. Maria Pia. Com a República, em 1911, passou a ser chamado teatro Manuel de Arriaga, mas, face à recusa desta personalidade, ficou como teatro Funchalense até à sua morte, em 1917. Já na déc. de 30 do séc. XX, com Fernão Ornelas como presidente da Câmara, passou a designar-se Baltasar Dias, como forma de homenagem ao maior dramaturgo madeirense do séc. XVI. A primeira notícia sobre uma casa de representação é de 1776. João Rodrigues Pereira fez construir a Casa da Ópera do Funchal no local de outra, que havia sucumbido num incêndio. Passados 10 anos, temos referência a dois teatros: a Comédia Velha e o referido Teatro Grande. Já o séc. XIX pode ser considerado o grande momento do teatro, do circo e da ópera. Surgiram novas casas de espetáculo que mantiveram uma atividade permanente, trazendo à Ilha personalidades de destaque do bel canto, concertos, récitas e festas de beneficência, circo e teatro. Ao mesmo tempo, surgiram sociedades dramáticas, como a Concórdia (1840) e Talia (1858), com o objetivo de promover a construção de salas de espetáculos e o seu funcionamento. Ao visitante de passagem ou de estadia temporária restavam ainda outras diversões. As atividades desportivas são assinaladas no decurso do séc. XIX. Assim, em 1838, John Driver dá conta de uma corrida de cavalos, no percurso da estrada Monumental. Depois, foram surgindo outros desportos, por influência da comunidade britânica residente. Em 1875, Harry Hinton trouxe o futebol, que começou a ser praticado na Achada, na freguesia da Camacha, em 1870. Por sua vez, o ténis estava presente no Monte e na Qt. do Palheiro Ferreiro, onde o rei D. Carlos jogou uma partida. A estas modalidades, juntam-se ainda o criquet e o bilhar, que se tornaram duas das principais atrações dos clubes de recreio da cidade. Por fim, para os mais destemidos, havia a caça à codorniz, ao coelho, à galinhola e à perdiz, que tanto poderia ter lugar no Santo da Serra, no Caniçal ou no Paul da Serra, bem como no Porto Santo e nas Desertas. A animação e o lazer encontram, assim, novas formas de expressão para as elites locais. Os clubes de diversão e de recreio são uma realidade a partir da déc. de 30 do séc. XIX. Entre estes destacaram-se o Clube União (1836-1879) e o Clube Funchalense (1839-1899). Este último ficou célebre pelos bailes e soirées, afirmando-se, ainda, como um dos principais espaços de receção dos visitantes. Para além destes, vários outros clubes vieram animar a cidade: o Clube Económico (1856), o Clube Recreativo (1856), o Clube Aliança (1867), o Clube Restauração (1879), o Clube Internacional do Funchal (1896), o Clube dos Estrangeiros (1897), o Clube Recreio Musical (1900), o Turt Club (1900), o Novo Clube Restauração (1908), o Sports Club (1910), o Clube Republicano da Madeira (1911), o Clube Naval Madeirense (1917), o Clube Recreio e Restauração, o Novo Clube Renascença, o Clube Funchalense e o Commercial Rooms. Algumas das homenagens prestadas a personalidades de passagem tinham lugar nestes clubes. Assim, em 1885, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens foram aclamados no clube Funchalense e, em 1921, Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram obsequiados pelo Club Sport Madeira. Aos clubes e aos hotéis, juntaram-se os casinos, como locais privilegiados de diversão e de jogo. O casino da Qt. Vigia (1895), sobranceiro ao porto, era um dos mais visitados e conhecidos pelos saraus dançantes que tinham lugar todos os dias. Destaca-se igualmente, a partir de 1880, uma novidade que veio animar as ruas da cidade e as amplas quintas dos arredores do Funchal: as esquadras de navegação terrestre. Este jogo, que consistia genericamente na organização de “esquadras militares” fardadas a rigor que, em momentos determinados, realizavam assaltos entre si, acabou por monopolizar o lazer dos proprietários das principais quintas. Na Madeira, a segunda metade do séc. XIX foi marcada por uma conjuntura difícil para as diversas classes socioprofissionais, marcando, nesta medida, o despertar da sua consciência para o associativismo ou para a busca de soluções que propiciassem a assistência e a proteção aos trabalhadores, nos acidentes, na doença e na velhice. A tudo isto acresce o filantropismo social de ajuda aos mendigos, crianças e viúvas. Deste modo, a partir de meados da centúria, o mutualismo, o cooperativismo e o associativismo socioprofissional foram um meio capaz de minorar as dificuldades com que se debatia a população. Nesta sociedade, os jogos de fortuna e azar estão em todo lado e em lado nenhum, praticando-se de forma velada. À exceção dos que são legais, como a lotaria, os jogos de cartas e os que acontecem dentro dos casinos, apenas se sabe deles quando acontece algum desacato que implica a presença da autoridade, ou quando alguém apresenta denúncia. Em 1710, os vendeiros José Maria, Pedro Matos e a mulher de António Gonçalves Renhim são notificados para que nas “vendas não armassem jogos de moços e homens casados, nem negros e mulatos, sob pena de 6$000 réis” (RIBEIRO, 1993, 89). Depois, em 1768, transfere-se um deportado “por jogar e dar casa a jogos proibidos e crime de Mollicie” (CARITA, 1999, 252). Já em 1777, foi informado Francisco José, morador à R. do Hospital Velho, que “não teria mais jogo em sua casa” (Id., Ibid., 252). Não era só na cidade que o jogo se generalizara. Também no meio rural existiu, mesmo sem registo documental. Veja-se, por exemplo, este aviso lançado no Diário Popular, em 1901, por uma vítima do jogo que define o Seixal como uma escola de jogatina: “Joga-se nas casa particulares, em vários edifícios desabitados, nas tabernas por toda a parte, enfim, e quem se recusa a acompanhar os viciosos em tal divertimento é perseguido” (RIBEIRO, 1996. 260). Esta denúncia é um exemplo de que o jogo existe em toda a Ilha. O estanco Consistia numa forma de monopólio legal, exercido pelo Estado ou concedido por este a um particular, para produção ou venda de um determinado produto, como o tabaco, o sal, a urzela, cartas de jogar ou diamantes. No caso de exercício por um particular, estamos perante uma doação como forma de mercê ou uma concessão a troco de uma renda fixa. O estanco também pode significar o armazém onde se encontra depositado e onde se faz a venda do produto do monopólio. O contratador do estanco providenciava estes espaços nas diversas localidades através do sistema de subarrendamento, sendo conhecido como estanqueiro. O mais importante foi o estanco do tabaco que perdurou desde do séc. XVII até à publicação da lei de 13 de maio de 1864, altura em que foi permitida a plantação de tabaco nas ilhas da Madeira e dos Açores e o seu livre fabrico e comércio. No Funchal, existiu uma rua com a designação “Estanco Velho”, cuja referência mais antiga é de 1572, reportando-se, possivelmente, à existência de um estanco na mesma rua. Outro estanco, não menos importante, foi o das cartas de jogar, surgido em 1607. Estando proibido o fabrico e a venda de cartas, pertencia ao estanqueiro esse direito, mediante uma renda cujo contrato era feito por arrematação. No séc. XVIII, o meirinho do estanco estava autorizado a fazer buscas em navios, barcos e quintas quando houvesse suspeita da existência de cartas falsas ou da sua venda sem licença do contratador. Ao contratador ou estanqueiro das cartas de jogar, era reconhecido o direito de ter mestres de fazer cartas, situação que estava vedada aos particulares. No séc. XVI, o baralho de cartas custava 80 réis. Ao longo de todo o séc. XVIII, vigorou na Madeira o contrato das cartas de jogar e solimão, instituído no séc. XVII e arrematado em Lisboa. Este contrato devia ter ligação à Madeira, dado encontrar-se registado na Câmara do Funchal, nos inícios do séc. XVII, o contrato celebrado com João Almedo de O'Campo, assim como uma outra provisão passada a Manuel Mendes Cardoso. O contrato referia que se poderia “jogar todo e qualquer jogo de nove e doze cartas, sem pena alguma e que se não possa o ‘jogo de parar’, sob as penas da lei” (CARITA, 1999, 252). Este contrato envolvia a venda das cartas de jogar, fabricadas em Lisboa pela Real Fábrica das Cartas de Jogar. Em 1770, o estanco das cartas de jogar era administrado por João dos Santos Coimbra e funcionava numa casa na R. do Sabão. No entanto, algo terá corrido mal, na medida em que os bens do administrador foram penhorados. Em 1793, Pedro Jorge Monteiro, procurador na Ilha da “real renda”, ainda procedia de acordo com este auto. Lotarias Sabe-se da criação, em 1688, de uma companhia de jogos de rendas e que, em 1702, o rei determina a criação de uma lotaria, havendo notícia de outra em 1720. A primeira lotaria de que se tem conhecimento na Ilha foi criada pelo Gov. e Cap. Gen. José Manuel da Câmara, a 5 de fevereiro de 1803. Esta lotaria era de 30.000$000 réis, dividida em 6000 bilhetes, ao preço de 5$000. O 1.º prémio era de 4000$000 réis e o 2.º de 1600$000. Contudo, a 24 de março de 1804, o Gov. Ascenso de Sequeira Freire informa o visconde de Anadia da impossibilidade de esta se realizar, por ainda não se ter vendido metade dos bilhetes. Uma lei de 18 de outubro de 1806 atribui o negócio da lotaria às Casas da Misericórdia, mas, mesmo assim, a segunda lotaria de que há notícia terá sido criada, no Funchal, para benefício dos lázaros, de acordo com uma ata da sessão da Câmara Municipal do Funchal de 12 de janeiro de 1814 referida por Eduardo Almeida. O mesmo poder foi atribuído à Santa Casa da Misericórdia do Funchal para financiar as suas obras de caridade. Assim, em 1823, o provedor da Santa Casa, o Dr. João Francisco de Oliveira, teve autorização para uma nova lotaria, cuja receita revertia a favor do Recolhimento das Órfãs. Em 1931, defendeu-se uma lotaria local com base nas corridas de cavalos de Inglaterra, mas esta não foi autorizada. Pouco depois, em 1935, João Abel de Freitas reclamava as receitas da lotaria para a assistência local, mas Salazar não aceitou, mantendo-as como apanágio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A propósito de prémios da lotaria, há notícia de que, em 1928, o emigrante madeirense João Gonçalves de Jesus, residente na ilha de Trinidade, venceu a lotaria de S.to António, doando o que ganhou para a construção do monumento de N.ª S.ª da Paz, no Monte. Outro madeirense, João Fernandes, de Câmara de Lobos, que fora emigrante no Curaçau, encontrou a sua recompensa, em Lisboa, ao ganhar a lotaria no valor de 300 contos. Os casinos Há notícia do funcionamento de três casinos no Funchal – Monumental, Vitória e Pavão – e de que a companhia de ferro do Monte pretendia explorar um casino no término da linha de comboio dessa freguesia. Em 1906 ateou-se a polémica na imprensa local com o projeto da Companhia dos Sanatórios da Madeira, que pretendia montar na Qt. Pavão um kurhotel. No entanto, a companhia seria comprada pelos ingleses, que aí montaram um casino. Em 1936, o Ministério das Finanças cedeu as quintas Vigia, Pavão e Biachi à empresa que adjudicou a zona de jogo, a empresa de turismo da Madeira, sendo instalado um casino na Qt. Vigia no mês de julho do mesmo ano. O casino Vitória, que era muito frequentado por estrangeiros, ardendo em 1927, e o casino Pavão funcionaram até à déc. de 30 do séc. XX, quando o governo decidiu concessionar a sua exploração. Tenha-se em atenção que, das sete zonas de jogo existentes em 1928-1929 em Portugal, a da Madeira era a que rendia mais ao Estado, com uma receita anual de 861.988$80. Na década seguinte, gerou-se um movimento a favor da concessão e construção de um casino, reivindicado por Henrique Vieira de Castro e pelo próprio João Abel de Freitas em carta de 1935 endereçada a Salazar, que, em resposta privada, se manifestou contra. O primeiro concurso para a concessão do jogo na zona da Madeira foi aberto em dezembro de 1935, surgindo na sequência da publicação do dec.-lei n.º 14.643, de 3 de dezembro de 1927, que regulamentou a exploração do jogo. A Associação Comercial manifestou interesse nessa concessão, criando para o efeito uma sociedade, a Empresa de Turismo da Madeira Lta. (1936). No entanto, apenas em 1958 lhe foi entregue a concessão do jogo por um período de 35 anos, sendo esta posteriormente prorrogada, em 1996 e 2006, por mais 10 anos. Mais tarde, o dec.-lei n.º 48.912, de 18 de março de 1969, estabeleceu duas zonas de jogo na Madeira, uma para cada ilha, sendo posteriormente alterado por outro decreto, o 10/95, de 10 de janeiro. O jogo do bicho e o raspa O jogo do bicho joga-se na Madeira e no Rio de Janeiro. Na cidade brasileira, começou em 1892, por iniciativa do barão de Drummond. Não se sabe se antes desta data existia o jogo na Madeira, mas é muito provável que os emigrantes madeirenses no Rio de Janeiro tenham sido os seus divulgadores no Funchal, em data que se desconhece. Este jogo clandestino baseava-se em apostas feitas em números que correspondiam a animais, sendo os mesmos estabelecidos pelas terminações da lotaria nacional. Não se sabe, pois, quando começou, na Ilha, o jogo do bicho. Tratando-se de um jogo clandestino, não tem registo histórico, aparecendo na documentação oficial apenas quando, por qualquer razão, a polícia intervinha. Assim, sabemos que, na déc. de 30 do séc. XX, era bastante praticado, pois o Governo Civil promoveu uma ação, em 1930, para acabar com ele, na medida em que fazia concorrência à lotaria nacional da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Era nas vendas e mercearias que este jogo circulava, sendo assim apreendido, em 1937, o jogo em Santa Cruz e condenado o merceeiro. Por outro lado, vários angariadores espalhavam-se por toda a cidade e meio rural, no sentido de atrair novos jogadores. Embora saibamos muito pouco sobre o seu funcionamento, podemos afirmar que este jogo foi muito popular na Ilha e que ainda continua a existir na clandestinidade, não obstante ter entrado em decadência a partir da déc. de 70 do séc. XX. Há uma expressão popular dos madeirenses que tem origem neste jogo, “dar no porco”, significando que algo acaba mal. A expressão terá origem num momento em que, segundo o povo, saiu uma elevada quantia no porco, no âmbito do jogo do bicho, ficando o banqueiro com o dinheiro todo. Nos jogos de fortuna e azar, é também de destacar o raspa ou jogo instantâneo, que surgiu a 19 de dezembro de 1985, sendo explorado pela Associação de Municípios da Madeira. Passados 10 anos, apareceria, a nível nacional, a raspadinha, jogo lançado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Este é um dos chamados jogos instantâneos, uma vez que a atribuição ou não do prémio acontece na hora em que se procede ao raspar do cartão adquirido. O imposto A primeira situação que conhecemos em relação à tributação do jogo prende-se com as cartas de jogar e solimão, que estavam sujeitas ao regime de monopólio. O estanco era nacional e existia na Madeira. O primeiro imposto a recair sobre o jogo foi o de selo, que existiu entre 1797 e 1988. Este tributo foi criado por alvará de 10 de março de 1797, como meio de financiar a guerra com a França e seus aliados (1793-95, 1801, 1807-14). Acabou por manter-se como mais uma fonte de rendimento para o Estado. A sua incidência sobre a lotaria foi determinada pela carta de lei de 4 julho de 1889. O imposto foi regulado pela lei de 20 de dezembro de 1837, a que se seguiu o dec. n.º 12.700, de 20 novembro de 1926. Aqui se refere que o imposto incide sobre “documentos, livros, papéis, atos e produtos”, visando-se tributar a circulação de riqueza, bens e valores que, de alguma forma, não tenham sido abrangidos por outro tributo. Os impostos estão, assim, presentes em anúncios, editais, escrituras, emissão de cheques, doações, obrigações, atos notariais, etc. A lei de 26 de abril de 1861 introduziu a possibilidade do seu pagamento através da inutilização de estampilhas fiscais. Já a lei de 29 de junho de 1902 alargou a sua cobrança às especialidades farmacêuticas. As taxas são variáveis: tanto pode ser uma percentagem da verba que está na origem do ato, como um valor fixo, que vai sendo atualizado com o tempo. Pelo dec. n.º 4056, de 6 de abril de 1918, foi criado um adicional de 50% enquanto durasse a guerra. Temos notícia de tabelas aprovadas: lei de 10 de julho de 1834; lei de 21 de abril de 1845; lei de 26 de abril de 1861; lei de 1 de julho de 1867; lei de 30 de agosto de 1869; lei de 2 de abril de 1873; lei de 7 de maio de 1878; lei de 21 de julho de 1893; lei de 24 de maio de 1902; lei n.º 1193, de 31 de agosto de 1921, que duplicou as taxas que foram publicadas no dec. n.º 7772, de 3 de novembro; lei n.º 1152, de 1 de março de 1924, que quintuplicou as taxas; lei n.º 1633, de 17 de julho de 1924, que procedeu a alterações na tabela publicada pelo dec. n.º 10.039, de 26 de agosto do mesmo ano; dec. n.º 16.732, de 13 de abril de 1929, que mandou integrar neste imposto a parte do imposto de transações que incidia sobre as operações bancárias; nova tabela aprovada pelo dec. n.º 21.916, de 28 de novembro de 1932; dec. n.º 21.427, de 30 de junho de 1932, que mandou multiplicar as taxas por 1,25, publicando-se as novas tabelas pelo dec. n.º 21.591, de 11 de agosto; decreto com força de lei n.º 21.916, de 28 de novembro de 1932, em que foi aprovada uma nova tabela. A parte do imposto de selo que recaia sobre bilhetes de lotaria e rifas foi abolida em 1988 (dec.-lei n.º 442-A/88, de 30 de setembro e dec.-lei n.º 442-B/88, de 30 de novembro), com a criação de dois novos impostos: imposto sobre rendimento de pessoas singulares e imposto sobre rendimento de pessoas coletivas, pelo dec.-lei n.º 394-B/84, de 26 de dezembro, que entrou em vigor a 1 de janeiro do ano imediato. Também foram abolidas algumas das tributações que estavam na tabela deste imposto de selo. O IRS, imposto sobre o rendimento de pessoas singulares, surgiu em 1988, na sequência da reforma fiscal provocada pela entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia. Foi criado pela lei n.º 106/88, de 17 de setembro, e teve código aprovado pelo dec.-lei n.º 442-A/88, de 30 de novembro, tendo substituído os seguintes impostos: profissional, de capitais, sobre a indústria agrícola, de mais-valias, complementar e de selo, contribuição industrial e predial. São elegíveis para este imposto os rendimentos da categoria I, provenientes de jogo, lotaria e apostas mútuas. As taxas deste imposto são progressivas, sendo o lançamento e liquidação realizados a partir de declarações feitas pelos contribuintes. A partir de 1989, com o dec.-lei n.º 422/89, de 2 de dezembro, é cobrada uma taxa às empresas concessionárias de jogos de fortuna ou azar, como imposto especial pelo exercício da atividade do jogo, para o fundo de turismo. O Estado tem conservado, assim, o direito de exploração dos jogos de fortuna e azar, sendo tal exploração feita por concessão. Desta forma, em 1927, o Estado português decidiu regulamentar a incontornável atividade do jogo, através da publicação do dec. n.º 14.643, de 3 de dezembro, que autorizava a exploração de jogos de fortuna e azar em regime de concessão exclusiva (em sítios específicos denominados como zonas de jogo). Imediatamente, inicia-se o primeiro regime fiscal sobre a atividade de exploração dos jogos de fortuna e azar, com a tributação a incidir sobre os lucros diários auferidos. Neste contexto, surge, em 29 de maio de 1948, o dec. n.º 36.889, que altera a tributação sobre o jogo de azar, de forma a tributar apenas o lucro normal, presumido com base no capital de giro, ao invés do lucro real, apurado conforme a intensidade do jogo. Após 10 anos, sobreveio o dec. n.º 41.562, de 18 de março de 1958, no qual se retorna à diretriz da primeira legislação fiscal sobre a matéria, a tributação de capitais de giro, lucros e receitas brutas com taxas elevadas, por se considerar o jogo um setor de exceção. Pelo dec.-lei n.º 318/84, de 1 de outubro, foram transferidas para as regiões autónomas dos Açores e da Madeira as competências do Governo para a adjudicação da concessão da exploração de jogos de fortuna ou azar, com exceção das referentes a lotarias e concursos de prognósticos ou apostas mútuas. Posteriormente, a tributação sobre o jogo de azar é disciplinada pelo dec.-lei n.º 422/89, de 2 de dezembro, cujo regime mantém o carácter de exceção. Bibliog.: ALMEIDA, Eduardo Castro e, Archivo da Marinha e Ultramar. Inventário. Madeira e Porto Santo, 2 vols, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1907-1909; CARITA, Rui, História da Madeira, vol. 5, Funchal, SRE, 1999; CLÍMACO, Maria Isabel, “Os Jogos de Fortuna e Azar – Comportamentos, Regulação e Tributação”, in CLÍMACO, Maria Isabel e RAMOS, Luís Moura (coord.), Álcool, Tabaco e Jogo. Do Lazer aos Consumos de Risco, Coimbra, Quarteto, 2003, pp. 211-242; COSTA, Alexandra, “Alguns Jogos Tradicionais Praticados na Madeira”, Xarabanda, n.º 17, 2008, pp. 47-72; dec.-lei n.º 422/89, de 2 de dezembro de 1989; DEUS, José Pereira de, e LÉ, António Jorge, O Jogo em Portugal, Coimbra, Minerva, 2001; Diário do Governo, 1.ª série, n.º 260, 20 nov. 1926; FRANÇA, Isabella, Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal, 1853-1854, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1970; HERNANDEZ GUTIÉRREZ, Sebastián, “Brutalismo en Madeira: El Caso de Casino Park Hotel (Viana de Lima-Niemeyer Arqs)”, Islenha, n.º 6, jan.-jun. 1990, pp. 68-74; MELO, Luís de Sousa, “Um Formoso Theatro”, Atlântico, n.º 8, inverno 1986, pp. 93-96; Id., “O Theatro Concordia”, Atlântico, n.º 11, outono 1987, pp. 227-232; Id., “Cavalinhos, Palhaços e Outros Tais”, Islenha, n.º 7, jul.-dez. 1990, pp. 47-51; Id., “Teatro Municipal. Compasso de Espera”, Islenha, n.º 14, jan.-jun. 1994, pp. 32-36; PINA, Paulo, Portugal: O Turismo no Século XX, Lisboa, Lucidus, 1988; RIBEIRO, João Adriano, “Jogos de Fortuna e Azar”, Islenha, n.º 12, jan.-jun. 1993, pp. 87-96; Id., Porto Moniz. Subsídios para a História do Concelho, Porto Moniz, CMPM, 1996; SANTOS, Rui, “Jogos Tradicionais. Damas de Doze e Vinte e Um”, Xarabanda, n.º 6, 2.º sem. 1994, pp. 48-50; VAQUINHAS, Irene, Nome de Código “33856”. Os “Jogos de Fortuna ou Azar” em Portugal entre a Repressão e a Tolerância (de Finais do Século XIX a 1927), Lisboa, Livros Horizonte, 2006. Alberto Vieira (atualizado a 18.12.2017)

joeiras

Os jogos tradicionais e as brincadeiras constituem formas de estar, formas de sociabilizar e, embora possuam características universais, identificam uma cultura, na medida em que entre os seres humanos é a cultura que determina a forma de jogar. Um dos mais populares jogos ou brincadeiras tradicionais é o lançamento de papagaios de papel. Na Madeira estes artefactos voadores são conhecidos por joeiras. A origem da designação “joeira” pode dever-se ao facto de o desenho da sua estrutura ser semelhante à estrutura de um utensílio, com o mesmo nome, utilizado nas eiras para separar o trigo do joio e utilizado também pelos pescadores. Palavras chave: papagaios de papel, joeiras, brincadeiras tradicionais, barbante, canas-vieiras, cola. No começo do séc. XXI, é normal ver uma criança que, ao mesmo tempo, navega na Internet, folheia uma revista, fala ao telefone e ainda vê televisão. Em períodos anteriores, porém, as crianças disponibilizavam uma parte do seu dia para brincar com carrinhos, jogar ao pião e lançar papagaios. Duas realidades que estão cada vez mais distantes. As brincadeiras infantis mudaram muito. Houve períodos em que a maioria das crianças tinha poucos brinquedos e, por isso, tinha de usar mais a criatividade para os criar. Os brinquedos tradicionais, construídos pelas crianças com os materiais disponíveis no meio envolvente, utilizando a sua imaginação, fazem parte do património lúdico de uma cultura. Assim, os jogos tradicionais e as brincadeiras constituem formas de estar, formas de sociabilizar e, embora possuam características universais, identificam uma cultura, na medida em que, entre os seres humanos, é a cultura que determina a forma de jogar. Um dos mais populares jogos ou brincadeiras é tradicionalmente o lançamento de papagaios de papel. Existem teorias, lendas e suposições que dizem que o primeiro voo de um papagaio de papel ocorreu em tempos diferentes e em várias civilizações. Na versão mais antiga, os papagaios de papel nasceram na China no ano 200 a.C.. Por sua vez, no Egito, existem hieróglifos sobre objetos que voavam controlados por fios, e os fenícios também já conheciam o seu segredo, assim como os africanos, indianos e polinésios. Nos países orientais, sempre foi grande a utilização de papagaios com motivos religiosos e míticos, como atrativos de felicidade, sorte, nascimento, fertilidade e vitória. Por volta de 1250, o Inglês Roger Bacon escreveu um estudo sobre asas acionadas por pedais, tendo como base experiências realizadas com papagaios de papel. Pensa-se que os papagaios de papel foram introduzidos em Portugal durante o séc. XVII, a partir do Oriente. Salvo a utilização militar estes objetos mágicos sempre tiveram o poder de alegrar, ajudar e dar esperança à humanidade. Posteriormente, em 1901, Marconi utiliza papagaios de papel para fazer experiências com transmissão de rádio, que mais tarde Bell utilizaria como testes do seu invento, o telefone. Durante a Segunda Guerra Mundial, os papagaios de papel eram utilizados pelos alemães para observar as movimentações das tropas aliadas ou como alvo móvel para exercícios de tiro. Nos começos do séc XXI, tanto em Portugal como no Brasil (onde os papagaios de papel têm a designação de “pipa”, e uma forma diferente dos papagaios construídos em Portugal) não estão totalmente esquecidos. Podemos ver em algumas cidades destes dois países crianças e adultos a brincar com papagaios, objetos que ocorrem também como material publicitário e em obras de ficção televisiva. É oportuno ainda referir que um artigo publicado pela revista Visão de 30 de julho de 2015, intitulado “Ideias para sobreviver às férias grandes dos miúdos”, sugere a construção destas brincadeiras: “Lançar um papagaio de papel. E façam-no, primeiro. Pode reciclar o que tiver por perto: um saco de lixo ou uma toalha de papel, estacas em bambu ou pauzinhos chineses para o papagaio ficar direito e uma corda de nylon. O essencial é que a estrutura se mantenha leve, de forma ir pelo ar com um pouco de vento. A ver quem consegue mantê-lo a voar mais tempo”. (“Ideias…”, Visão, 9 ago. 2015). Na Madeira, estes artefactos voadores são conhecidos por joeiras. Trata-se de objetos mais pesados que o ar, mas que, uma vez impelidos pelo vento, são manobrados a partir do solo com um barbante (fio de dois ou mais cabos torcidos, possivelmente oriundo da província de Brabante – Holanda), que serve de ligação entre o objeto e o alteador (pessoa que manobra a joeira). A origem da designação (joeira) pode estar no facto de o desenho da sua estrutura ser semelhante à estrutura de um utensílio com o mesmo nome, utilizado nas eiras para separar o trigo do joio e utilizado também pelos pescadores. Como se referiu atrás, os artefactos voadores recebem na Madeira, em geral, a designação de joeiras; contudo, segundo Agostinho Vasconcelos, os objetos de voo à vela podem ser classificados quanto à estrutura (feitos de cana vieira, inteira ou rachada) e quanto ao desenho (executados com linha de coser, no interior da carcaça, ou recortados no papel colorido dos forros). Quanto à sua estrutura, podem ser papagaios, bacalhaus, joeiras, rodas e aviões. De referir que os papagaios não têm qualquer estrutura de suporte preliminar; contudo, excecionalmente poderão ter uma estila (lasca de cana ou de outra planta), que será usada como reforço para lhe dar estabilidade. O bacalhau tem estrutura inicial ou de suporte ao forro (papel de seda ou outro material, como plástico, celofane, tecido fino, entre outros), com duas ou mais canas, dispostas em cruz, parecendo um bacalhau salgado seco. Por sua vez a joeira tem uma armação feita com três canas, as quais são fixadas com um alfinete, ou arame fino, no seu ponto médio; ao passarmos uma linha equidistante nos seus extremos, aparecerá um polígono hexagonal. Semelhante à joeira, temos a roda, construída com quatro ou mais canas, dispostas como no caso anterior, radialmente (ligando todos os extremos ou mais, conforme as canas utilizadas). Por fim temos o avião, estrutura de cinco ou mais canas, dispostas de modo a parecer a forma daquela nave. Quanto ao desenho, a forma de estrela pode ser encontrado em vários artefactos voadores; mas este desenho é mais comum e facilmente reconhecível nas joeiras e nas rodas. Para se construir uma joeira, as crianças usavam o material que tinham ao seu dispor, nomeadamente: pincel (para espalhar cola); alicate (para cortar e torcer os alfinetes); plaina (para preparar as canas rachadas); régua (guia, para cortar em linha reta o papel); agulha (para armar o desenho, com linha); alfinetes (que servem de eixo às canas); lápis (para marcar o papel antes de colar); teco (para auxiliar na colagem); tesoura (para cortar o papel e a linha); afiador (para afiar os instrumentos cortantes); passador (para puxar a linha, para fazer o nó); pinça (para repuxar o papel); canivete (para preparar as canas); faca (para cortar o papel). As matérias-primas eram constituídas essencialmente pelo que a natureza disponibilizava e por alguns materiais reutilizados; são elas: folhas de papel de seda (para o forro das joeiras); papa de milho/semilha (utilizadas como cola); novelos (barbante de joeira ou linho); tubo de linhas (fibra artificial e para fazer a configuração dos desenhos, no interior); fio torcido (algodão) e canas (inteiras ou rachadas) para a estrutura. Contudo, outros materiais poderão ser utilizados, dependendo essencialmente da criatividade do construtor das joeiras. As joeiras estiveram e estão bastante presentes no quotidiano madeirense. Podemos encontrar referência a estas brincadeiras na literatura, e.g. no conto “A beleza das joeiras”, de Graciela Dias da Silva, inserido na obra Rasgos da Minha Infância: – Não foram compradas as joeiras. […] Mas… pergunta o miúdo: – Como as fizeram?!... Pacientemente, elucida-o o professor com palavras tão radiantes de frescura, que o deixam atento ao seu discorrer!... E fala-lhe das diversas fases da elaboração de uma joeira, a saber: – Depois de cortado devidamente o papel de seda e ajustadas as ripas de cana, inventariam o conjunto, segundo o modelo previamente escolhido. – Em segundo plano, é só colar o papel, geralmente com uma massa feita de farinha e água. – Finalmente, após a secagem e, para que seja mantido um certo equilíbrio, apõem ao papagaio um rabo, feto de pano esfrangalhado, a capricho (SILVA, 2011, 49-50). Encontramos também referência às joeiras na obra de Manuel Pita Ferreira, Natal na Madeira – Estudo Folclórico: “Fecham o cortejo, o músico do bombo, o dos pratos e o da caixa, marcando o ritmo da marcha e numeroso bando de rapazitos com as mãos cheias de canas de foguetes e as algibeiras abarrotadas de canudos. Vêm contentíssimos, porque encontraram um tesouro, – canas e barbante para as joeiras” (FERREIRA, 2010, 15) Também na tradição oral é frequente encontrar referências à construção e utilização de joeiras, e.g. numa quadra popular dedicada a S. João: “São João / São João da Ribeira / dá-me vento, / para altear esta joeira”. Por fim, é oportuno ainda verificar que em várias freguesias da ilha da Madeira são feitos concursos de joeiras, com destaque para os concursos organizados pela Junta de Freguesia de S. Roque, pela junta de Freguesia de Machico, pelos Cursos de Educação e Formação de Adultos da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos da Torre, em conjunto com a Casa do Povo de Câmara de Lobos; também nos concelhos da Calheta e da Ponta do Sol há concursos deste género. De uma maneira geral, os objetivos destes diferentes concursos são: reavivar a tradição da construção e do lançamento de joeiras; incentivar o gosto pelos jogos tradicionais; estimular a criatividade e a imaginação dos participantes; incentivar o convívio intergeracional; promover atividades ao ar livre; e realizar atividades educativas e culturais que envolvam toda a comunidade. Os critérios de seleção dos vencedores são, em geral: criatividade e inovação; utilização de materiais recicláveis e tempo de voo.  Todos estes concursos têm grande recetividade por parte do público, tanto dos jovens como dos menos jovens, e contribuem para a persistência desta tradição madeirense. Bibliog.: impressa: FERREIRA, Manuel Pita, Natal na Madeira – Estudo Folclórico, 2.ª ed., Funchal, DRAC, 2010; SILVA, Graciela Dias. Rasgos da Minha Infância, Funchal, Editorial Eco do Funchal, 2011; VASCONCELOS, Agostinho, catálogo da exposição OVMI, patente no Museu Etnográfico da Madeira, 28 ago. 1999-28 nov. 1999, Ribeira Brava, s.n., 1999; VOCE, Sílvio, Brincando com Pipas Decorativas, Global Editora, 4.ª ed., Brasil, 2002; digital: “Concurso de joeiras em Câmara de Lobos”, Funchal Notícias, 11 maio 2015: http://funchalnoticias.net/2015/05/11/concurso-de-joeiras-em-camara-de-lobos/ (acedido a 11 set. 2015); “Concurso de joeiras recupera tradição em Machico”, Dnoticias.pt,, 21 jun. 2015: http://www.dnoticias.pt/actualidade/madeira/523678-concurso-de-joeiras-recupera-tradicao-em-machico (acedido a 11 set. 2015); DIAS, José Xavier, “Joeiras no Ilhéu”, Associação o Direito de Aprender, 15 maio 2013: http://www.direitodeaprender.com.pt/artigos/joeiras-no-ilheu (acedido a 11 set. 2015); “Ideias para sobreviver às férias grandes dos miúdos”, Visão, 9 ago. 2015: http://visao.sapo.pt/ideias-para-sobreviver-as-ferias-grandes-dos-miudos=f827446 (acedido a 11 set. 2015); “Semilha para colar Joeiras”, AgoraMadeira, 29 abr. 2015: http://www.agoramadeira.pt/semilha-para-colar-joeiras/ (acedido a 11 set.2015); SILVA, Miguel, “Concurso de joeiras em São Roque”, Dnoticias, 21 ago. 2015: http://www.dnoticias.pt/actualidade/madeira/534701-concurso-de-joeiras-em-sao-roque (acedido a 11 set. 2015). José Xavier Dias (atualizado a 18.12.2017)

jesus, joão joaquim de

Professor, matemático e poeta, nasceu na freguesia de São Pedro, no Funchal, a 3 de outubro de 1904 e veio a falecer em Lisboa, no dia 8 de novembro de 1974, com 70 anos. Era filho de João Joaquim de Jesus e de Pacífica Conceição de Jesus e tinha um irmão, Américo Joaquim de Jesus. Com tenra idade, cerca de dois anos e meio, sendo atacado pela varíola, que lhe causou graves problemas de visão, deu entrada no Lazareto de Gonçalo Aires. Com 11 anos, decidiu partir para o continente, formando-se no Instituto Branco Rodrigues, em São Pedro do Estoril. Nesta instituição, onde permaneceu durante nove anos, concluiu o ensino primário e o 5.º ano singular de Português e Francês, tendo obtido o diploma de professor primário, autorizado pelo Ministério da Instrução. Começou, depois, a exercer magistério no Asilo de Cegos de Nossa Senhora da Esperança, situado em Castelo de Vide, onde ensinou durante três anos. Mais tarde, já no Funchal, fundou o entretanto extinto instituto para cegos Luz nas Trevas, onde também deu aulas. Na altura, o diretor era o seu irmão Américo Joaquim de Jesus. Para além de insigne professor, era um amante da ciência e um poeta. Nesse sentido, publicou poemas na revista Pérola do Atlântico e nos jornais locais Diário da Madeira, Diário de Notícias e Eco do Funchal, e deixou-nos a obra poética Frutos da Mocidade (1971). Dedicou-se também ao estudo e difusão do esperanto, tendo o projeto de traduzir para esse idioma internacional o poema épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. Segundo Luís Marino, em Musa Insular, o Prof. Feliciano Soares considerava que os seus versos tinham uma nítida influência lírica, mas também elevação espiritual. São exemplo deste caráter da sua poesia as composições transcritas na obra Musa Insular de Luís Marino, nomeadamente o soneto “Fé e Esperança” e o longo poema “Feia”, dividido em 12 estrofes de sextilhas laboriosamente trabalhadas. Obras de João Joaquim de Jesus: Frutos da Mocidade (1971). Bibliog.: CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; MARINO, Luís, Musa Insular: Poetas da Madeira, Funchal, Eco do Funchal, 1959. António José Borges (atualizado a 18.12.2017)