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sousa, antónio policarpo dos passos

Médico e poeta, Passos Sousa nasceu na freguesia da Madalena do Mar, Funchal, no dia 26 de janeiro de 1836 e faleceu a 26 de maio de 1875, com 29 anos, na freguesia da Ponta do Sol, também no Funchal. Era filho de Francisco Gomes de Sousa e de Francisca dos Passos e Sousa. Diplomado médico-cirurgião pela antiga Escola Médico-Cirúrgica do Funchal, em 1859, foi secretário da administração do concelho da Ponta do Sol. Pertencendo a uma família da qual tinha emanado uma série de talentos, cedo mostrou uma enorme habilidade para a escrita literária, ainda que a falta de saúde e a morte prematura não lhe tivessem permitido cumprir a vocação com que nascera. Porém, apesar do seu curto tempo de vida, colaborou em vários jornais da Madeira, como O Direito, com os folhetins “O Mendigo”, “A Noite do Trovador”, “Vozes da Natureza”, “A Minha Aldeia”, “Morreu”, “O Homem e o Pecado”, “Arpejos Religiosos” e “O Sepulcro do Senhor na Ponta do Sol”, entre outros, e foi considerado no seu tempo um inspirado poeta, cujos poemas eram bastante apreciados. Pode ler-se uma composição sua no primeiro volume da coletânea Flores da Madeira e outras na Selecta de Poesias Infantis e no Álbum Madeirense. O seu longo poema “Lamento” surge na Musa Insular de Luís Marino. Este texto tem uma composição formal que confirma o cuidado estético do seu autor, dividindo-se em nove estrofes, sendo as duas primeiras irregulares (12 versos cada), as seis seguintes oitavas e a última uma quadra. O número de versos é equilibrado e coerente em ordem decrescente.   Obras de António Policarpo dos Passos Sousa: “O Mendigo”; “A Noite do Trovador”; “Vozes da Natureza”; “A Minha Aldeia”; “Morreu”; “O Homem e o Pecado”; “Arpejos Religiosos”; “O Sepulcro do Senhor na Ponta do Sol”; “Lamento”.     António José Borges (atualizado a 10.02.2017)

Ciências da Saúde Literatura Personalidades Transversais

soares, laura veridiana castro e almeida (pseud. maria francisca teresa)

Maria Francisca Teresa é o pseudónimo literário de Laura Veridiana Castro e Almeida Soares (1870-1964). Cursou o liceu no Funchal, numa época em que não era vulgar uma rapariga, mesmo de boas famílias, prosseguir estudos. Casou-se com o jornalista e escritor Feliciano José Soares (1886-1952). Dedicou-se à literatura, centrando-se em trabalhos de tradução, em textos para a infância e em temas católicos.  De acordo com o Visconde do Porto da Cruz, Laura Veridiana Castro e Almeida evoluiu no Funchal num círculo de senhoras refinadas, cultas e viajadas, como a escritora Luiza Grande (1875-1945). Durante as suas estadias em Lisboa, privava com intelectuais e artistas que encontrava em casa de sua prima, Virgínia de Castro e Almeida (1874-1945), ou na de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). Traduziu os romances A Cidade Eterna e O Apóstolo, de Hall Caine, ambos lançados em 1907 e reeditados várias vezes. Publicou três livros para a infância: Em Casa da Avó – na Ilha da Madeira, editado em 1923; Como Chica Conheceu Jesus, datado de 1925 e prefaciado pelo bispo do Funchal, D. Manuel António Pereira Ribeiro; e O Querido Tio Gustavo, do mesmo ano. Coordenou, no lapso de tempo que medeia outubro de 1927 e as vésperas da chamada “Revolta da Madeira”, em 1931, a secção quinzenal “Notícias Infantil” no Diário de Notícias do Funchal, então dirigido pelo marido, Feliciano Soares. Essa secção infanto-juvenil apresentava anedotas, adivinhas, poesias e sugestões de leitura. No contexto da literatura portuguesa para a infância do primeiro quartel do séc. XX, os três livros de Maria Francisca Teresa inscrevem-se na linha dos textos que vão apelar, como era prática corrente das autoras de ficção infantil da época, a um realismo quotidiano que instala a criança num universo que ela conhece e com o qual se encontra familiarizada. A intencionalidade didática da escritora revela-se nas situações e nos diálogos ilustrativos dos princípios ideológicos das famílias favorecidas desse período, com discursos de pendor moralizante, através dos quais se faz uma apologia das virtudes cristãs, visando moldar a consciência e o carácter dos jovens.   Fig. 1 Capa do livro Em Casa da Avó na Ilha da Madeira As obras Em Casa da Avó – na Ilha da Madeira (provavelmente o primeiro livro de literatura infanto-juvenil que tem como cenário a Madeira), Como Chica Conheceu Jesus e O Querido Tio Gustavo apresentam, no seu frontispício, a menção “livro para crianças”. Dos três volumes, apenas o segundo não é ilustrado. A primeira monografia contém 27 pequenas gravuras e a última 7, todas elas a preto e branco e da autoria de Emanuel Ribeiro (1884-1972), insertas no desenrolar do texto com o propósito de, em regra, traduzir pictoricamente a cena correspondente.   Como os títulos sugerem, a tónica aponta para a relação privilegiada entre pessoas de idade (a avó e o tio Gustavo), a criança (Chica) e o modelo de inspiração divina (Jesus), estabelecendo correlação entre jogos e ensinamentos, perguntas e respostas, histórias e experiências. A crença comum na possibilidade de educar a criança por meio de exemplos e de bons conselhos fundamenta o conteúdo e o estilo das cenas dialogadas, com um toque de moralidade, humor e carinho. Os livros visam, deste modo, abrir o espírito da criança à confiança na força do bem e alimentar-lhe a imaginação, quer com contos e lendas da tradição, quer aludindo a novas máquinas como os aeroplanos, o kodac e o malogrado vapor Titanic. No que diz respeito à transmissão de conhecimentos, o discurso ficcional investe no estudo do meio, nas regras de civilidade, na doutrina católica, bem como na sugestão de uma lista de leituras recomendadas. Podemos situar esta escritora “naquele movimento que esteve na origem do segundo grande fôlego da história descrita para a infância em Portugal”, de acordo com a periodização proposta por José António Gomes (GOMES, 2010, 10). Transitando do séc. XIX para o séc. XX, Maria Francisca Teresa vai evoluir nesse período “compreendido entre 1900 e os finais da década de 30 [que] constitui, em termos de qualidade e diversidade estética, a verdadeira época de ouro da literatura para crianças em Portugal” (Ibid.). Mulher da elite burguesa letrada, Maria Francisca Teresa participou nesse movimento empenhado e relacionado com a criação de uma moderna literatura para a infância, seguindo uma linha de pensamento aberto a uma pedagogia inovadora, mas defensora dos valores sociais e religiosos tradicionais. Além do mais, o pseudónimo adotado, Maria Francisca Teresa, parece reenviar para a então popularmente conhecida Santa Teresinha de Lisieux, nascida Marie Françoise Thérèse Martin, estabelecendo-se, assim, um forte vínculo espiritual católico.   Fig. 2 - Em Casa da Avó (p. 268) O desenho representa o satélite da terra.   Os livros de Maria Francisca Teresa reduzem a vida à descrição do quotidiano, firmado nos hábitos mais significativos das personagens (modo de expressão verbal, organização doméstica, convívios, passeios, visitas, festas, refeições, roupas, adereços e decoração da casa, entre outros), figurando, assim, traços essenciais da existência da classe alta da sociedade portuguesa nos alvores do séc. XX. Por via das narrações, descrições e extensos diálogos, os protagonistas prestam-se a adotar um comportamento exemplar face a modos rudes ou desprovidos de boa intenção, justificando o papel social das famílias de elite, a quem incumbe a responsabilidade de ilustrar o país. Essa valorização dos aspetos da vida privada das personagens revela-se através da seguinte divisão do tempo: os momentos de convivência familiar, as horas de estudo (as crianças de O Querido Tio Gustavo têm, por exemplo, explicações de inglês) e as horas de lazer. Se os familiares mais chegados das crianças protagonistas representam sempre caracteres de irrepreensível educação moral, tal não as impede de contactar com personalidades fisicamente diminuídas ou de feitio nem sempre fácil: uma «criança-velha», um idoso numa cadeira de rodas, uma sexagenária quase surda e desconfiada, relativamente às quais se espera dos jovens compreensão e paciência. Aquando desse cenário, a escritora contrapõe situações com desfecho cómico que visam aliviar a tensão do jovem público leitor, a exemplo da cena da noite de Natal passada em casa da prima Rita, na companhia de senhoras de idade: uma mesurada (a avó), outras tagarelas e aqueloutra surda e taralhouca, representativa do ridículo da velhice. No que toca aos tempos livres, ficamos a saber que os meninos em foco frequentavam o Jardim da Estrela em Lisboa e que, na Madeira, os jovens de boas famílias praticavam ténis. De resto, as meninas brincam com bonecas, os rapazes entretêm-se com o diábolo, com os jogos da berlinda, do gigante e do ferrolhinho. Quando é permitido às crianças de ambos os sexos estarem juntas, divertem-se com jogos de sociedade, tais como representações teatrais e disfarces, dominó e baralho de cartas (jogando ao “burro” e ao “diabrete”), charadas figuradas ou loto com prémios. Quando se encontram ao ar livre, organizam piqueniques, fazem jardinagem no quintal, jogam às escondidas, contactam com cães, caçam borboletas, dão um passeio a cavalo ou de burro. Em contrapartida, e apesar de os protagonistas apreciarem o artesanato e certas tradições na perspetiva de quem valoriza traços da sua identidade cultural, aferimos uma quase ausência de costumes das camadas populares, nomeadamente as de origem rural. A essas personagens são atribuídas funções serviçais. Além disso, a escrita de Maria Francisca Teresa não está isenta de preconceitos raciais e culturais, relativamente ao sotaque de madeirenses humildes, a meninos pobres trigueiros ou à comunidade cigana. Neste sentido, as suas narrativas fazem eco, nunca de forma proposital, dos desníveis sociais profundos existentes na Madeira e em Portugal, reveladores da mentalidade da época. Nos dois primeiros livros, a autora encena os mesmos protagonistas, como se de uma série se tratasse. Faz uso da técnica narrativa do gancho, ao recuperar um momento do último capítulo de Em Casa da Avó, ligando-o à abertura da nova história, Como Chica Conheceu Jesus. No final da primeira narrativa, o João, antes da viagem de regresso ao continente, pede à tia Valentina uma pequena anoneira que cresce na horta; na cena inicial do segundo livro, no jardim da casa dos pais, em Lisboa, Chica, desastradamente, arranca a anoneira, ao confundi-la com ervas daninhas. Do primeiro livro para o segundo, decorrem quase 20 anos entre o cenário de inícios de 1900 e o Natal de 1920, mas obliteram-se apenas 2 anos na vida dos petizes: a Chica, que tinha 3 anos, tem agora 5, o João, então de 8 anos, surge com 10, e o Manuel passa dos 9 para os 11 anos. Em O Querido Tio Gustavo, a escritora apresenta uma nova família. O protagonismo recai sobre uma mãe viúva, chamada Margarida, os seus quatro filhos, Vasco (15-16 anos, a cursar o liceu), Duarte (7 anos), Jorge (10 anos) e Marta (9 anos), e, como anunciado pelo título do livro, o tio Gustavo, tio-avô dos meninos. Vasco, o mais velho, cujo perfil se associa ao do morgado, é o sobrinho preferido e como tal será o seu herdeiro. Os três livros caracterizam-se por via da interseção de um conjunto de cinco fatores literários que, cruzados e unificados, individualizam a obra de Maria Francisca Teresa como um todo coeso: a representação da família burguesa tradicional; o carácter das personagens principais; a predominância do diálogo de ficção como mediação de valores e modo de legibilidade; a defesa e ilustração de um ideal católico; e, finalmente, a importância de contar histórias às crianças e de eles terem contacto com os livros. Visando um discurso narrativo acessível, sem nunca descuidar a linguagem e o estilo, o projeto literário de Maria Francisca Teresa parece conceber a eficácia da prática de leitura dos mais novos se esta for desempenhada em simultâneo na sua função de distrair, instruir e elevar (no sentido de construir o carácter do jovem leitor). Na sua ficção, encena-se a comédia da infância favorecida e faz-se uso de vários registos discursivos: o conto moral, o catecismo, o manual de bons costumes, a lição de coisas, histórias de animais. A autora procura explicar o mundo às crianças através da história, da geografia e da religião, constituindo uma espécie de “tratado de saber-viver e de saber comportar-se em voga nos meios literários femininos da época. Em vez de infundir ao jovem leitor um juízo crítico e ideias criativas, a voz do texto tenta propor modelos de conduta, visto, nos seus livros, a virtude ser sempre recompensada. Neste sentido, dado o quadro ideológico e a imagem da família que propõem, estes textos dificilmente encontrariam eco junto de jovens leitores do princípio do séc. XXI. Todavia, a obra de Maria Francisca Teresa não deixa de constituir um testemunho muito interessante, quer do modo como se concebiam os livros para a infância, quer dos discursos educativos que os enformavam. Obras de Laura Veridiano Castro e Almeida Soares: Em Casa da Avó - na Ilha da Madeira (1923); Como Chica Conheceu Jesus (1925); O Querido Tio Gustavo (1925).   Thierry Proença dos Santos (atualizado a 11.02.2017)

Literatura

silva, rui

Poeta madeirense que publicou os seus textos em vários periódicos da região, mas também em alguma imprensa brasileira. Era um escritor romântico, bucólico, sensível, com um sentimentalismo original e até estranho. Os seus versos, com valor poético, revelam espontaneidade e rigor ao nível da métrica e versam temas filosóficos e amorosos. Profissionalmente, foi desenhador de bordados numa firma funchalense. Faleceu quando se preparava para publicar uma coletânea de textos poéticos. Palavras-chave: poesia; sentimentalismo; filosofia; romantismo; bucolismo.   De nome completo Rui Eleutério (ou Eleutero) da Silva, foi um poeta madeirense de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX. Nasceu no Funchal, a 20 de fevereiro de 1884. Começou a singrar na vida literária quando escreveu os primeiros versos, sensivelmente na mesma época que Jaime Câmara. As suas poesias foram publicadas em jornais e almanaques da cidade, como o Diário Popular, Heraldo da Madeira, Diário da Madeira, Diário de Notícias, Novo Almanaque de Lembranças Madeirenses, Alma Académica e A Cruz, mas também há registo de publicações na imprensa brasileira, o que demonstra como foi um apreciado cultor de poesia. De acordo com as observações do Visconde do Porto da Cruz (PORTO DA CRUZ, 1953, III, 87), Rui Silva era um poeta romântico, bucólico, sensível e com um sentimentalismo imbuído de uma sensibilidade original que até apelida de estranha, própria de um poeta antigo, cujos versos revelam valor poético. Era um autor natural, espontâneo e formalmente rigoroso ao nível da métrica que se debruçava essencialmente sobre temas filosóficos e amorosos, primando pela originalidade. De facto, ao lermos uma das suas “Trovas” notamos a influência da lírica medieval e da vertente tradicional camoniana, até porque repete cada um dos quatro versos do mote (“Maria sacode a saia. / Maria levanta o braço, / Maria dá-me um beijinho, / Maria dá-me um abraço”) no primeiro verso de cada uma das glosas (cf. MARINO, 1959, 350). Esta poesia de temática amorosa apresenta quadras ao gosto popular, manifestando alegria, simplicidade, jovialidade e um tom humorístico, bem diferente dos lamentos, do sofrimento de amor e da infelicidade de outros poetas apaixonados. O “eu” poético chega ao ponto de advertir “Maria”, conduzindo-a até ao seu amor: “Maria dá-me um abraço, / Estreita teu peito ao meu; / Vem comigo e não te prendas / A quem nunca te mereceu…” (Id., Ibid.) Profissionalmente, Rui Silva foi funcionário da firma Farra & Marghab, na qual desempenhava o cargo de debuxador de bordados da Madeira, isto é, traçava ou desenhava esboços. Em 1930, foi erigido na Deserta Grande, por sua iniciativa, um pequeno padrão dedicado a N.ª S.ª da Paz. Faleceu repentinamente no Funchal, no dia 26 de agosto de 1931, portanto com 47 anos, vítima de uma angina de peito, quando preparava a publicação de uma coletânea com as suas melhores poesias.   João Carlos Costa (atualizado  a 03.02.2017)

Literatura

silva, josé marmelo e

José Marmelo e Silva nasceu no Paul, concelho da Covilhã, a 7 de maio de 1911, tendo falecido em Espinho, a 11 de outubro de 1991. Frequentou o ensino secundário na Covilhã e em Castelo Branco, e o ensino superior em Coimbra e Lisboa, onde se licenciou em Filologia Clássica, com a dissertação Um Sonho de Paz Bimilenário: a Poesia de Virgílio. Fez serviço militar em Mafra, uma experiência com ecos em Depoimento, e na Madeira, vivência que ressoará em Desnudez Uivante. Regressa à Madeira já casado para, com a esposa, lecionar no Colégio Académico do Funchal, no ano letivo de 1946-1947. No ambiente insular, encontrou inspiração para escrever os Poemas da Ilha do Porto Santo, que publica na Seara Nova, na década de 1960. Foi, porém, em Espinho que exerceu funções docentes a maior parte do tempo, dando o seu nome à biblioteca local. De 1932 a 1983, publicou, com várias reedições, diversos livros, deixando inéditos os Memoriais, de carácter autobiográfico: O Homem que Abjurou a Sociedade – Crónicas do Amor e do Tempo, contos (Renegado); a novela Sedução; Depoimento, contos; O Sonho e a Aventura, narrativas; a novela Adolescente, título da 1.ª edição, alterado para Adolescente Agrilhoado na 2.ª edição aumentada; O Ser e o Ter Seguido de Anquilose, contos (a primeira versão de O Ser e o Ter é O Conto de João Baião, que teve uma única edição); o romance Desnudez Uivante. Foi agraciado, em 1987, com a medalha de ouro da cidade de Espinho e, em 1988, com o grau de Comendador da Ordem de Mérito, pelo então Presidente da República, Mário Soares. Obras de José Marmelo Silva: Poemas da Ilha do Porto Santo; O Homem que Abjurou a Sociedade – Crónicas do Amor e do Tempo (1932); Sedução (1937); Depoimento (1939); O Sonho e a Aventura (1943); Adolescente (1948) Adolescente Agrilhoado (1958); O Ser e o Ter seguido de Anquilose (1968); Desnudez Uivante (1983).   António Moniz (atualizado a 03.02.2017)

Literatura Madeira Cultural

miranda, joão da costa

Prosador e poeta, nasceu na freguesia de Machico, Funchal, a 28 de setembro de 1897 e faleceu a 20 de março de 1964, com 66 anos. Era filho de João da Costa Miranda e de Maria Leocádia da Costa, e tinha dois irmãos. Casou-se com Maria Elisa Freitas Costa Miranda, com quem teve quatro filhos: João Aurélio de Freitas Costa Miranda, Bela Clara Ramos Costa Miranda, Gilda Maria Miranda Pinto da Silva, casada com Arnaldo Pinto da Silva, e Maria das Mercês de Jesus Costa Miranda, que se entregou à vida religiosa em Coimbra. A partir de 1908, estudou no Seminário Diocesano do Funchal, onde cursou os preparatórios e Filosofia. Mais tarde, mudou-se para Coimbra, onde estudou Teologia no Seminário dos Olivais, curso que terminou em 1919. Esperou pela ordenação de presbítero, mas, tendo sentido que a sua vocação não era aquela, regressou à vida civil. Assim, voltou, em 1920, ao liceu do Funchal, onde demorou apenas alguns meses a concluir o curso liceal. Os registos indicam que foi sempre um aluno brilhante, não tendo perdido qualquer ano. Mais tarde, enveredou pela atividade comercial e industrial, na qual se manteve durante um longo período. Em 1939, passou uma temporada em Bedford, nos Estados Unidos da América. De regresso à Madeira, foi eleito, a 14 de dezembro de 1955, membro da mesa da Santa Casa da Misericórdia do Funchal para o triénio 1956-1958. Interessava-se bastante pela literatura, tendo sido poeta e prosador com colaborações no Diário da Madeira, no Diário de Notícias, n’O Imparcial, n’O Jornal e na revista Esperança. No Diário da Madeira, publicou, em março e abril de 1918, dois sonetos exemplificativos da sua produção, “O Teu Retrato” e “Impossível”. Este último foi dedicado a António Pestana, contendo, a abrir, uma epígrafe de Gomes Leal. Ambos os poemas estão transcritos na Musa Insular, de Luís Marino. É de salientar que assinou alguns dos seus textos como Joam da Costa Miranda. Consta que terá deixado um livro de poemas inédito, com o título O Livro das Ilusões.   António José Borges (atualizado a 05.02.2017)

Literatura Personalidades Transversais

georgeida

Texto épico em verso, escrito por Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, e publicado em Londres, no ano de 1819. A obra, dedicada ao comerciante inglês Robert Page, relata as três invasões francesas a Portugal, que ocorreram entre 1807 e 1810, por ordem de Napoleão e sob o comando dos generais Junot, Soult e Massena. O autor elogia e engrandece o Monarca inglês George III por ter enviado as suas tropas em auxílio de Portugal, o que permitiu a vitória anglo-lusa e a derrota francesa. Em simultâneo, critica, de forma veemente, o caráter ambicioso de Napoleão, que provocou muita destruição, morte e guerra por toda a Península Ibérica. Palavras-chave: epopeia; Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos; George III; invasões francesas; Napoleão; Portugal. Da autoria de Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, Georgeida é um extenso texto épico em verso, publicado em Londres em 1819 e dedicado a Robert Page, comerciante britânico residente na Madeira. Esta narrativa é um relato das três invasões francesas a Portugal ocorridas no final da década anterior à da data de publicação da obra, constituindo um panegírico à ação de George III, monarca inglês que dá título à obra e que auxiliou, com o envio de tropas britânicas, a defesa de Portugal. É, em simultâneo, um feroz ataque a Napoleão e à sua tentativa de dominar o território luso e de ter a hegemonia na Europa. A obra inicia-se com uma dedicatória a Robert Page que, no entender do autor, foi o “Novo Mecenas” (VASCONCELOS, 1819, 2), um amador das belas artes, uma “alma benfazeja” e de nobres sentimentos, uma “poderosa mão beneficente” (Id., Ibid., 1) que financiou a publicação destes versos e, assim, permitiu retirá-los do esquecimento do tempo e do silêncio a que seriam votados se permanecessem inéditos. Confessando-se feliz e grato ao seu mecenas, Medina e Vasconcelos não deixa igualmente de louvar D. Fr. Joaquim de Menezes Ataíde, seu protetor, bispo de Meliapor e vigário apostólico do bispado do Funchal. Segue-se um prólogo, no qual o autor se propõe cantar George III, “um dos mais Virtuosos Monarcas do Universo” (Id., Ibid., 4), sem se atemorizar com a grandeza do assunto. O autor esclarece que redigiu a obra em 1811, a partir de pesquisas em gazetas e periódicos, e reconhece que o seu texto contém imperfeições, pelas quais se desculpa, talvez por não ter feito a pesquisa mais correta, considerando ainda que a poesia épica o fez adornar o seu canto. Traça, em linhas gerais, os limites temporais da ação (desde a retirada da família real para o Brasil em 1807 até à expulsão definitiva dos Franceses em 1810) e reforça os seus propósitos: imortalizar as ações de George III, enaltecer as três grandes nações aliadas (Portugal, Espanha e Inglaterra) na luta contra as Invasões Francesas e denegrir Napoleão, a quem apelida de “o Monstro” (Id., Ibid., 5). Depois de inserir um soneto dirigido ao amigo Anastácio Bettencourt Moniz (médico muito distinto e literato que gozava de prestígio entre os contemporâneos, pai do conselheiro Nicolau Anastácio) e respetiva réplica, Medina e Vasconcelos dá início à epopeia dividida em dez cantos (imitando Camões, em Os Lusíadas), sendo curioso verificar que cada um deles contém um argumento, i.e., uma espécie de sinopse, tal como se encontra no início de cada capítulo de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e.g.. No canto I, à boa maneira de Eneida e de Os Lusíadas, começa por enunciar, numa proposição, “As Armas e o Monarca Soberano / Por ínclitas Ações Famigeradas / Ouso afoito cantar…” (Id., Ibid., 8). Invoca a Verdade para o guiar na narração dos factos históricos e dedica a epopeia a George III. Inicia a narração com a exposição dos projetos de Napoleão de invadir Portugal, movido pela inveja do Monarca inglês, que dominava os mares. O Imperador encarrega Junot de aprisionar a família real lusa ou, em alternativa, espalhar a destruição pelo país. Honrado e leal, Junot parte, percorre Espanha à frente do exército e aproxima-se rapidamente da fronteira portuguesa. Tal como os seres mitológicos na epopeia camoniana, algumas entidades abstratas tomam parte na querela: a Vanglória protege Napoleão, enquanto a Providência e a Justiça auxiliam as forças aliadas. Será esta última que surge em sonhos a George e o convence a defender Portugal dos Franceses, anunciando um futuro glorioso para Inglaterra se frustrar os intentos de Napoleão. O canto II relata o modo como o Rei inglês convoca o Parlamento e o persuade a apoiar a sua investida contra Napoleão e seus ideais destrutivos e, em simultâneo, a socorrer Portugal, a fim de evitar um futuro trágico. Num ápice, a Armada britânica chega ao Tejo e, em audiência com o ministro britânico em Lisboa, o regente D. João VI comunica a decisão de fugir do país, instalar a corte no Brasil e aí formar um novo império, salvando Portugal de França e entregando a defesa do reino à Armada britânica. A partida das naus para o Brasil é descrita no canto III, perante a dor da população, num episódio que faz recordar as despedidas em Belém em Os Lusíadas. D. João VI dirige-se ao povo num discurso emocionado, e aquele, apesar do desgosto e das dúvidas quanto ao futuro, aclama e obedece ao príncipe regente, sem ousar criticá-lo. O próprio Tejo, personificado, se despede da família real e engrandece o Monarca inglês amigo, mas é castigado por Neptuno por ter saído dos seus limites, sendo socorrido pelas Tágides. Vingando-se dos Portugueses e do Tejo, Neptuno lança-lhes uma tempestade, tal como no episódio marítimo de Os Lusíadas, mas a Providência, qual Vénus e Tétis, socorre os Portugueses, cessando os ventos e acalmando os mares. Já em território luso, Junot inicia o seu plano, obrigando os Portugueses a pagar pesados impostos, perante a indignação da Religião. A partir do canto IV, começam os abundantes episódios bélicos da obra. O autor relata os momentos de insurreição de diversas terras portuguesas, nomeadamente do Porto, de cidades e vilas de Trás-os-Montes (como Bragança), do Algarve e do Alentejo, que exaltavam o príncipe regente e se opunham à opressão de Junot, que entretanto já devastara templos e causara mortes. George auxilia Portugal, enviando tropas e generais, entre os quais se destaca Wellesley. Enfrentando os Franceses com armas e com o apoio dos Ingleses e dos Espanhóis que se rebelaram, os Portugueses vencem as batalhas de Roliça e do Vimeiro, ao ponto de os Franceses proporem tréguas (assinadas na Convenção de Sintra) e Junot se retirar de Portugal. Tinha terminado a primeira invasão francesa. O canto V, dá início à segunda invasão, com os planos de nova investida de Napoleão, incitado pela Vanglória. O Francês incumbe Soult de chefiar o exército gaulês e conquistar Portugal “a ferro e fogo” (Id., Ibid., 83). Com o general francês a caminho, a Regência, entidade abstrata, exorta à valentia dos Portugueses, apelando aos valores românticos que devem defender (pátria, religião, Rei e liberdade). Madrid rende-se e acaba por capitular perante a força do exército francês, apesar dos esforços da Junta Central para tentar libertar a cidade. O canto seguinte narra os confrontos bélicos entre Ingleses e Franceses em Espanha, saldando-se pela vitória dos primeiros, comandados por John Moore. Furioso com a derrota, Soult dirige-se para Portugal e aí enfrenta a oposição do general Silveira em Trás-os-Montes, em particular na defesa de Chaves e de outras terras junto ao Tâmega. Contudo, Soult conquista Braga e o Porto, mas George envia Wellesley em auxílio destas cidades. No canto VII, assiste-se à chegada das tropas inglesas a Portugal, comandadas por Wellesley, que marchou a partir de Coimbra para expulsar os Franceses do Porto. Perante a vasta destruição de aldeias e de monumentos e a morte de muitos Portugueses, os Ingleses contra-atacam e, através da sua estratégia militar, reconquistam o Porto, libertando a cidade do jugo francês, e recuperam outras terras no Minho e em Trás-os-Montes. Após muitas lutas sangrentas, o exército anglo-luso expulsa as tropas francesas de Portugal, mas seguem-se outras batalhas em Espanha, onde os Gauleses cometiam muitos saques. Todo o canto VIII, constitui um relato do auxílio que as forças anglo-lusas prestaram aos Espanhóis contra Napoleão. Após muitos avanços e recuos de parte a parte, batalhas ferozes (como as de Toledo e Talavera), conversações e estratégias militares, o exército aliado, comandado por Wellesley, consegue afugentar as tropas inimigas, as quais recuam deixando muitos cadáveres no campo de batalha e sofrendo inúmeras derrotas. O canto IX dá conta da terceira e última investida do furioso Napoleão após a humilhação sofrida, encontrando-se novamente protegido pela Vanglória. Confia a Massena uma nova invasão e um novo plano: unir-se, com o seu exército grandioso, aos exércitos que se encontram ainda em Espanha e dirigir-se para Portugal, invadindo as suas províncias e destruindo vilas e cidades. Massena parte e rapidamente conquista Cidade Rodrigo e Évora, mas os Portugueses alcançam feitos louváveis, o que enfurece Napoleão. Massena avança sobre as fronteiras e conquista com sucesso a praça de Almeida e outras terras perante o desânimo luso. Mas as suas vitórias são efémeras, pois sofre uma estrondosa derrota na batalha do Buçaco, às mãos dos generais ingleses Wellington e Beresford. Por fim, no canto X, o narrador descreve os planos finais de Massena para conquistar Lisboa, enquanto as tropas de Wellington recuam estrategicamente para depois encurralar os inimigos. Preso num labirinto, Massena assiste à doença, à fome e à deserção das suas tropas e começa a blasfemar contra Deus, perante a indignação do narrador. Os exércitos gauleses sofrem nova derrota junto ao rio Soure e são expulsos de outras zonas do país, não sem deixar um rasto de destruição como forma de vingança. O próprio Massena foge durante a batalha do Sabugal, sendo secundado pelo seu exército, o que será um motivo de desonra e vergonha para o general. Também em Espanha o exército anglo-castelhano expulsa os Franceses e, em França, Napoleão vocifera contra a Vanglória devido às derrotas sofridas, perdendo o seu apoio e proteção. Após a vitória final das nações aliadas, o autor, nas últimas páginas de Georgeida, tece ferozes reflexões e opiniões pessoais, maldizendo a desmedida ambição de Napoleão, a sua avareza e crueldade, caracterizando-o como cego e inumano, homem pior que Nero e prevendo a sua queda e punição futuras. Até imagina o dia do Juízo Final, no qual o Imperador prestará contas a Deus e receberá a sentença de habitar os “negros abismos”. Imagina que Napoleão se arrependerá, mas tardiamente, não havendo perdão possível para uma “alma ingrata” a Deus, “sempre escrava / Da ambição, da vanglória e do capricho” (idem, 184), uma alma “ingrata, criminosa, torpe”, que ditou leis injustas aos homens a partir de França para os enredar no labirinto das suas “vãs paixões desenfreadas” (Id., Ibid., 184-185). Já em cantos anteriores previra a destruição dos projetos de Napoleão, um “monstro em França” (Id., Ibid., 116), que apenas pretendeu devorar a humanidade. Às críticas, seguem-se os elogios finais a George, que praticou a justiça, esmagou o vício, preservou a virtude e a inocência, foi filantropo, esteve sempre pronto para ajudar Portugal em prol da razão e da justiça, protegeu os seus vassalos e valorizou a arte e as ciências. Em momentos anteriores da narrativa, o autor já tentara imortalizar as proezas notáveis de muitos heróis sob o comando deste Monarca inglês, prevendo que os seus sucessos ecoariam pelo mundo e seriam invejados. Ao engrandecer o Rei, enaltece também a nação britânica por ter auxiliado Portugal, mostrando a sua constância, lealdade, honra e filantropia. Agradece igualmente à Providência, que protegeu Portugal e guiou os caminhos do Monarca inglês, assim como aos guerreiros britânicos e portugueses “que por suas ações, suas proezas, / Sendo humanos, divinos se tornarão” (Id., Ibid., 188). O autor exalta o príncipe regente D. João VI e, de um modo geral, a valentia dos guerreiros ingleses, portugueses e espanhóis, mitificando-os e elevando-os a uma categoria quase divina e semi-imortal. Termina Georgeida exaltando a felicidade de um Portugal em paz, com a ajuda de Deus. É curioso verificar que, ao longo de toda a obra, Medina e Vasconcelos introduz diversas notas de rodapé laterais explicativas das suas opções metodológicas e ideológicas e das expressões utilizadas. Justifica, por exemplo, o elogio a um herói vivo, quando os cânones clássicos “obrigam” a que o herói épico já esteja morto (George é o maior dos heróis mortais vivos que serve de exemplo aos vindouros). Não se coíbe, nas referidas notas, de criticar Napoleão, embora não tanto como desejaria, para manter ainda uma certa imparcialidade. Porém, a partir de finais do canto V e com o avolumar das atrocidades que narra, promete não mais se conter nas críticas ao Francês. Para poupar o leitor, rejeita relatar todos os horrores da guerra que pesquisou e mantém sempre, nas referidas notas, uma tentativa de aproximação ao rigor factual, com referências a datas e validação das fontes consultadas. Em suma, o autor quis construir uma narrativa épica de acordo com os preceitos clássicos, não só ao nível da estrutura externa, como da interna (partes constituintes, mitificação do herói, episódios bélicos, mitológicos e históricos, reflexões pessoais em final de canto), inserindo igualmente valores românticos próprios da época em que viveu. No entanto, como observa Inocêncio Francisco da Silva, “Medina e Vasconcelos, tanto em Georgeida como em Zargueida, parece não ter tido o talento suficiente para a empresa épica e, por isso, os dois poemas são apenas medíocres, se bem que não faltem episódios agradáveis à leitura e que não deslustram a musa” (PORTO DA CRUZ, 1951, II, 6-7).   João Carlos Costa (atualizado a 01.02.2017)

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