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neto, júlia de atouguia de frança

Cantora, pianista, guitarrista; diletante benemérita; produtora agrícola e vinícola. Júlia de Atouguia de França Neto terá nascido no Funchal em 1825, filha primogénita de Jaime António de França Neto e de Carolina Engrácia da Cunha Telo – consorciados na paróquia da Sé, Funchal, a 13 de Maio de 1824 – e irmã de João de Atouguia de França Neto (n. na déc. de 1820) e de Carolina de Atouguia de França Neto (1835-1866). A família emigrou em 1832, tendo visitado diversos países europeus. Aos 11 anos, frequentava aulas de canto em Roma, muito possivelmente com Carolina de Santis, sócia agregada da Accademia Nazionale di Santa Cecilia. Após a mudança da sua família para Genebra, em 1840, Júlia de França Neto prosseguiu o ensino musical no Conservatório de música da cidade, estudando piano com Julie Raffard, canto com Francisco Bonoldi e harmonia com Nathan Bloc, diretor daquele estabelecimento de ensino entre 1835 e 1849. Após um percurso académico sucessivamente condecorado naquela instituição, terá obtido, em 1846, os primeiros prémios nas disciplinas de Piano e Canto. Júlia de França Neto participou na apresentação pública anual dos alunos do Conservatório de Música de Genebra, realizada a 8 de setembro de 1845, com a apresentação da “Chanson du Saule” da ópera Otelo, de Gioacchino Rossini, tendo sido reconhecida pelo seu excelente método de canto. A sua estreia pública – fora do âmbito dos exercícios públicos de alunos do conservatório – ocorreu no ano seguinte, aquando da sua eventual conclusão do curso, num concerto organizado por Bonoldi: Júlia de França Neto interpretou uma ária da ópera Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti. O seu nome não consta da documentação do Conservatório de Genebra referente a 1849, o que sugere que a biografada já não se encontrava ali inscrita nesse ano. Pouco mais se sabe da sua atividade na segunda metade da déc. de 1840 e primeiros anos da década seguinte. Anos mais tarde, em Paris, prosseguiu a sua formação musical, a título particular, com o baixo e compositor Jean-Antoine-Just Géraldy [Geraldis], com Fiocchi, um cantor e professor formado no método do castrato Girolamo Crescentini, e com Caçares, com quem terá aprendido repertório musical espanhol e, possivelmente, guitarra. Júlia continuou a sua atividade como intérprete nesta cidade em saraus privados realizados por senhoras da aristocracia parisiense, em solenidades sacras e em eventos de beneficência. Cantou em Pau (nos Altos Pirinéus) num concerto organizado pelo violinista Louis Eller, que naquela cidade se havia sediado. A cantora madeirense apresentou-se igualmente em diversas récitas da Société Philarmonique de Tarbes. O seu último concerto em França terá ocorrido a 10 de junho de 1854, em Saint-Germain-en-Laye, onde interpretou dois excertos de óperas de Rossini – a cavatina “Una voce poco fa” de Il Barbiere de Siviglia, e o rondó “Nacqui all alfano e al pianto” de La Cenerontela – bem como um dueto com o barítono Morelli. A família França Neto terá residido em Lisboa, no Palácio do Marquês de Sá da Bandeira, até regressar à Madeira, em 1854, e Júlia de França Neto ter-se-á apresentado frequentemente em iniciativas musicais privadas e semipúblicas do conde de Farrobo, nas quais terá privado com D. Fernando II; porém, não se identificam quaisquer menções à intérprete madeirense na documentação recolhida sobre os eventos musicais organizados por Joaquim Pedro Quintela, 1.º conde de Farrobo. É antes credível que tenha privado com Joaquim Pedro Quintela, 2.º conde de Farrobo – governador civil do Funchal entre 1860 e 1862 – e com sua cônjuge, co-organizadora de alguns concertos beneméritos na cidade madeirense, com quem se deslocou a Lisboa em 1864.   No dealbar da segunda metade do séc. XIX, o arquipélago madeirense foi profundamente assolado por uma crise agrícola e comercial, agravada pela devastação vinícola provocada pela mangra (oídio) a partir de 1851, por intempéries, tais como o aluvião de 1853, e ainda por epidemias de cólera, em 1856, e de febre-amarela, em 1858. Sensibilizada pela miséria que afetava as populações madeirenses (e nacionais) mais desfavorecidas, sobretudo os pobres, os órfãos e os enfermos, Júlia de França Neto encetou a realização de concertos de beneficência, tendo realizado 10 récitas entre 1854 e 1861 e participado noutros eventos criados com os mesmos fins. Foram identificados os seguintes concertos: 28 de dezembro de 1854, na Escola Lancasteriana; 2 de fevereiro de 1855, no salão da Escola Central; 2 de março de 1855; 2 de Fevereiro de 1858, na sala grande do Palácio de São Lourenço (destinado às vítimas da febre-amarela em Lisboa); 4 de abril de 1859; 16 de março de 1861; e 18 de março de 1861, organizado com a condessa de Farrobo e realizado numa das salas do Palácio de São Lourenço. Com exceção do concerto de fevereiro de 1858, para auxílio das vítimas da febre-amarela em Lisboa, os lucros destas récitas foram destinados às instituições de beneficência madeirenses, entre as quais o Asilo de Mendicidade do Funchal, a Misericórdia e o Convento das Capuchas. A cantora interpretou, nestes concertos, excertos de óperas de Gioacchino Rossini (o rondó da Cenerentola e o dueto “Dunque io son” de Il barbiere di Siviglia, com Vasconcelos), de Nicola Vaccai (a ária de Giovanna Grey), de Vincenzo Bellini (a cavatina, “Come per me sereno – Sovra il sen la man mi posa”, de La Sonnambula), de Gaetano Donizetti (a ária de Lucia de Lammermoor) e de Giuseppe Verdi (“D’amor sul’alli rosee”, “Scena, Aria e Miserere” de Il Trovatore, e “Ah Fors’è lui – Sempre libera” de La Traviata), a Ave Maria de Luigi Cherubini e boleros (peças espanholas), nestes últimos acompanhando-se à guitarra. Não há referência à sua prática pianística neste período. Vários músicos amadores e profissionais exibiram-se nas suas iniciativas beneméritas: Maria Paula Klinghöffer Rêgo (piano, harpa, machete), Carlota Cabral (piano), Maria Virgínia de Sousa (piano), Júlia Araújo de Ornelas (harpa, piano), Carolina Dias de Almeida (canto), a condessa de Farrobo (canto), a sra. Mascarenhas (harpa), a sra. [Amélia Augusta de?] Azevedo (machete), o sr. Schroter, o sr. Krohn (canto), o sr. Laplont/Laporte (piano), Cândido Drummond de Vasconcelos (machete), Duarte Joaquim dos Santos (piano, seu acompanhador em várias récitas), João Fradesso Belo (piano, diretor dos coros) e Jorge Titel (diretor da orquestra). A 20 de junho de 1864, Júlia de França Neto partiu para Lisboa na companhia de Carolina de França Neto (provavelmente sua mãe), de Mourão Pita e de Joaquim Pedro Quintela, 2.º conde de Farrobo; datarão destes anos as suas apresentações como cantora em Lisboa. Embora não seja feita qualquer referência específica às suas exibições privadas e semipúblicas no esboceto biográfico redigido por Platon de Vakcel quatro anos após aquela visita à capital portuguesa – que tomaria como fonte informações seguramente cedidas pela intérprete –, o autor do seu obituário no Diário de Notícias refere que Júlia de França Neto havia frequentado as soirées da sociedade lisbonense, entre as quais as organizadas pelo 7.º marquês da Fronteira, e convivido com os monarcas D. Fernando e D. Luís, tidos como grandes apreciadores do seu talento musical. Júlia de França Neto terá regressado à Madeira em 1866. A artista participou também em concertos organizados por outros músicos profissionais e amadores. Cantou com o virtuoso violinista Agostino Robbio os duetos “Per piacer alla signora” da ópera Il Turco in Italia, de Rossini e o “Grand Dueto” da ópera L’Elisire de Amore, de Gaetano Donizetti, no concerto de beneficência (destinado ao Asilo de Mendicidade e Órfãos) organizado por este a 27 de janeiro de 1866. Neste concerto, participaram também Cândido Drummond de Vasconcelos, Platon L'vovich Vakcel (canto) e Eduardo Maria Frutuoso da Silva (piano, canto). Embora tenha sido anunciada a sua colaboração nos três concertos em benefício do mesmo Asilo que ocorreram entre fevereiro e abril de 1866, resultantes da iniciativa benemérita de Maria Paula Klingelhöeffer Rêgo, acabou por não participar neles, em virtude do falecimento de sua irmã. Não há, aliás, qualquer referência na imprensa periódica da época à sua participação nos concertos organizados por esta pianista entre 1866 e 1871. Porém, as duas intérpretes colaboraram em vários eventos realizados neste período. Em janeiro de 1869, Júlia de França Neto tomou parte, com Platon de Vakcel, em dois concertos de benefício ao Asilo de Mendicidade e Órfãos, acedendo ao pedido que lhes havia sido efetuado pela comissão administrativa daquela instituição. Nestas récitas, organizadas pelo cantor amador C. A. Mourão Pita, também participaram Maria Paula Klinghöffer Rêgo, o sr. Sattler (piano), Cândido Drummond de Vasconcelos, Artur Sarmento (canto), José Sarmento (acompanhamento ao piano), Luís Ribeiro de Mendonça (declamação), entre outros; Isidoro Franco, regente da banda de caçadores, foi diretor da orquestra. Nestes concertos, a biografada interpretou a célebre “Valsa” de Luigi Venzano; “La Juanita”, de Sebastián Yradier, o grand duetto “Sulla tomba che rinserra – Verranno a te sull'aure” do 1.º ato da ópera Lucia di Lammermoor, de G. Donizetti, com Platon de Vakcel; e um terceto com Vakcel e Artur [Adolfo] Sarmento. Júlia de França Neto integrou o elenco que apresentou a comédia La Nièce no espetáculo, em benefício do Asilo de Mendicidade, realizado a 18 de maio de 1870 no Teatro Esperança. Não se identificam posteriores referências à sua atividade musical em eventos públicos; não obstante, terá realizado vários saraus artísticos na sua residência. A cantora foi muito elogiada na imprensa periódica parisiense e madeirense pela sua “capacidade vocal notável” e pelo seu “conhecimento da arte do canto, [que a colocava] entre os artistas da bela escola” (“Concerto a Benefício…”, O Clamor Público, 2 fev. 1855, 1). O redator de L’Industriel fazia notar que “dificilmente se encontraria uma cantora” como Júlia de França Neto, “apta a executar bem os domínios vocais da soprano mais ágil e da contralto mais grave” (L’Industriel, 17 jun. 1854). O repertório interpretado pela biografada – que compreendia ainda a valsa “Ah! Je Ris de me Voir si Belle en Ce Miroir” da ópera Faust de Charles Gounod – requer, nas suas versões originais, um âmbito vocal assaz extenso. Os excertos vocais das óperas Il Barbiere de Siviglia e La Cerenentola de G. Rossini requerem um âmbito de sol sustenido 2 a si 4, enquanto os das óperas La Sonnambula de V. Bellini e Il Trovatore e La Traviata de G. Verdi exigem um âmbito de mi bemol 3 a ré 5 e de dó 3 a ré 5; os demais excertos interpretados por Júlia de França Neto requisitam uma tessitura compreendida entre si 2 e si 4. O âmbito vocal extenso e a aptidão para a execução de obras musicais para soprano ou contralto de Júlia de França Neto pode ser explicado pelo uso de uma técnica de canto (ainda vigente no séc. XIX) assente no uso intensivo da “voz de cabeça” e da “voz de peito”, isto é, no recurso à alternância, respetivamente, entre os registos/timbres claro, para as tessituras média e aguda, e escuro, para as tessituras grave e média. Porém, o corpus de excertos musicais interpretado pela biografada requer uma tessitura de duas oitavas e uma quinta diminuta, superior ao âmbito vocal normativo dos cantores, compreendido em duas oitavas. Não obstante, a extensão vocal de duas oitavas e uma quinta diminuta era – ainda que privilegiada – possível para as vozes femininas. Não fosse ela dotada desta excecional extensão vocal, é crível que possa ter recorrido às habituais práticas de transposição dos números musicais que visavam a acomodação dos mesmos à tessitura dos cantores, procurando adaptar aqueles excertos com uso de notas sobre-agudas ou graves de que não dispunha para um âmbito vocal em que lhe fosse possível interpretá-los. Júlia de França Neto foi assim capaz de cantar nas tessituras de soprano e meio-soprano/contralto, possibilitando às audiências madeirenses a fruição de excertos célebres do repertório operático (que, face à inexistência, por largos anos, de companhias e teatros de ópera na região, seriam, seguramente, desconhecidos). Na fase final da sua carreira musical, ter-se-á notabilizado como contralto, fruto, por um lado, do abaixamento da tessitura vocal de cantoras com a idade, e, por outro, da introdução em Portugal das transformações na prática e pedagogia do canto lírico instituídas na centúria oitocentista (grosso modo, a ênfase em timbres escuros – voix sombrée – e o favorecimento dos registos mais robustos e dramáticos da voz). Júlia de França Neto foi também uma reconhecida produtora vinícola e agrícola. Júlia e João de Atouguia de França Neto, seu irmão, herdaram, por falecimento de seu pai em 24 de abril de 1874, várias propriedades agrícolas. As suas diversas propriedades agrícolas e vinícolas – situadas nas freguesias de Câmara de Lobos (sítios da Caldeira e das Fontainhas), Estreito de Câmara de Lobos (sítios do Salão, da Vargem, da Marinheira, do Marco e da Fonte), Quinta Grande (sítios da Câmara do Bispo, da Ladeira, de Pedregais, de Aviceiro, de Vera Cruz e Chiqueiros, de Igreja e Várzea, e do Lombo), Campanário (Fajã [dos Padres], Calhau da Lapa), São Martinho, Funchal (sítios da Ajuda, da Ponta da Cruz e dos Piornais) e Santo António, Funchal (sítio da Madalena) – foram, na sua maioria, colonizadas pela proprietária, pelos seus parceiros agrícolas e por herdeiros destes últimos. As suas propriedades mais reconhecidas eram a Fajã dos Padres e a Quinta do Salão. Júlia de França Neto terá engenhosamente incentivado o cultivo de cana-de-açúcar, de verduras e árvores de fruto, e a produção de vinho. Júlia de França Neto faleceu de hemorragia cerebral aos 77 anos, na sua residência à R. dos Netos, a 14 de maio de 1903, tendo sido sepultada no antigo cemitério de Nossa Senhora das Angústias. Foi reconhecida na historiografia regional e nacional como insigne cantora e pianista, sobretudo através do empréstimo das palavras de Vakcel, que a havia notabilizado, já em 1869, como “glória musical da Madeira e um dos talentos que mais [honravam] Portugal” (SILVA e MENESES, 1978, 797). Este louvor foi quase sempre acompanhado das menções à sua atividade benemérita; nos seus gestos de cuidado e solidariedade para com os desabonados, Júlia de França Neto encetou e muito contribuiu para a instituição, na Madeira, de iniciativas musicais beneméritas de “maternidade social” – empreendimentos femininos de índole cívica e benemérita para provisão das carências dos mais desfavorecidos – no domínio artístico da música. A consolidação dos concertos de beneficência foi realizada por senhoras que com ela colaboraram, como Maria Paula Klinghöffer Rego e Carolina Dias de Almeida, por adjuvantes destas últimas, como Matilde Sauvayre da Câmara, e por outras beneméritas, como Ester Leonor Ferraz, Palmira Lomelino Pereira e Eugénia Rêgo Pereira, que, com o seu préstimo, perpetuaram o modelo de benefício musical de caridade (e o legado de “maternidade social” de Júlia de França Neto) até à segunda metade do séc. XX.   Rui Magno Pinto (atualizado a 03.03.2018)

Personalidades Transversais

müller, carlos

Carlos Müller nasceu na freguesia de Santa Luzia a 18 de dezembro de 1896, sendo filho de Karl Müller, natural da Bavária (Alemanha), e de Guilhermina da Silva, também natural daquela freguesia. Na conjuntura da Primeira Guerra Mundial, partiu, a 21 de Julho de 1916, com 23 anos, para os Açores, onde cumpriu o exílio no forte de São João Baptista (Angra do Heroísmo) sob o n.º 384, conforme a lista de 1918. Na verdade, a 7 de fevereiro de 1916, fora aprovada uma lei que previa a requisição de matérias-primas e meios de transporte alemães que estivessem em território português. Em 9 de março de 1916, a Alemanha declarara guerra a Portugal, que reagira com vária legislação, nomeadamente a lei de 24 de abril de 1916, em consequência da qual os residentes alemães em Portugal foram banidos ou presos, especialmente os de idades compreendidas entre os 16 e 45 anos. Antes do referido exílio, Karl Müller não permitira a naturalização dos filhos mais velhos, Humberto e Carlos afirmando que “antes morrer que ser português” (WILHELM, 2000-2001). Sua mãe ficou viúva a 5 de setembro de 1916 e morreu a 25 de janeiro de 1922. Pouco depois, a 22 de Junho de 1922, Carlos Müller casou-se com Olga da Paixão de Castro em regime de comunhão de bens; tinham ambos 25 anos. Em 1934 residiam à rua do Conde Carvalhal e, a 14 de setembro de 1939, Carlos Müller naturalizou-se português. Carlos Müller interessou-se pelo bordado da Madeira e fez a sua aprendizagem desta indústria numa sociedade irregular – baseada num acordo verbal, sem recurso a ato notarial – com seus cunhados, Crispim Izidoro (irmão de sua mulher) e Maria Romana de Castro, em 1922. Posteriormente, Crispim constituiu uma sociedade com seu irmão, Alberto Castro, mas, em setembro de 1924, ficou único sócio da empresa, com sede à rua dos Ferreiros, no Funchal. Nesse ano, Crispim, que entretanto emigrara para a América, mandou de lá uma procuração conferindo a Carlos poderes de administrador e de gerente, com um ordenado que oscilava entre 800$00 e 2.400$00, conforme o seu desempenho, especialmente o volume e o montante de bordados exportados; estas funções foram ratificadas em 1932 por nova procuração. No entanto, com o regresso à Madeira de Crispim Izidoro de Castro, surgiram desentendimentos entre os dois, que fizeram com que Carlos iniciasse uma ação judicial no Tribunal da Comarca do Funchal; na versão de Crispim, a repetida e intolerante indisciplina do cunhado (nomeadamente o incumprimento das instruções recebidas) tinham-no obrigado a demitir Carlos, a 9 de Outubro de 1933. Pouco tempo volvido, Carlos retirou a referida queixa, desconhecendo-se a razão. A 9 de Novembro de 1933, Carlos Müller constituiu com seu cunhado Raul Ladislau da Câmara (casado com uma irmã de Olga) a firma Müller & Câmara, sedeada à rua Conde Carvalhal. A 11 de Abril de 1942, os dois sócios procederam à reformulação da mesma e, a 1 de Julho desse ano, ratificaram as escrituras anteriores, ficando como “primeiro outorgante Karl Müller, que também é conhecido e assina Carlos Müller e como segundo outorgante Raul Ladislau Câmara; ambos casados, comerciantes e moradores à rua Latino Coelho, desta cidade”, assim como o tipo de sociedade: “Müller & Câmara Limitada e Madeira Juvenile Export C.º Ltd” (ARM, 2.º Cartório Notarial do Funchal, escritura de 1 jul 1942), com nova sede e aumento de capital social. A 4 de abril de 1946, perante o notário Bacharel Frederico Augusto de Freitas, foi constituída a “sociedade comercial por cotas de responsabilidade limitada, Arte Fina, Limitada”, que teve a sua primeira sede e estabelecimento principal na calçada da Saúde, n.º 10 de polícia. A cláusula 3.ª da mesma escritura refere que o “seu objeto é a realização da indústria e do comércio de bordados da Madeira, e a de qualquer outro ramo de indústria ou de comércio que aos sócios convenha explorar, dentro dos limites da lei”. A cláusula seguinte refere que o capital social está integralmente realizado, que é no valor de 200.000$00 “e fica dividido em quatro cotas – sendo uma, com o valor nominal de noventa mil escudos, pertencente ao sócio Carlos Müller, outra com o valor nominal de dez mil escudos, pertencente ao sócio Humberto Müller, outra com o valor nominal de noventa mil escudos, pertencente ao sócio Raúl Ladislau Câmara, e outra com o valor nominal de dez mil escudos, pertencente ao sócio Avelino Leovigildo Nunes Vieira Aguiar Câmara” (Ibid., escritura de 4 abr 1946). No mesmo cartório, a 3 de agosto de 1957, Raul Ladislau da Câmara e Maria Romana cederam as suas quotas aos restantes outorgantes e, a 2 de outubro de 1957, entraram novos sócios para a firma Arte Fina, Limitada, com sede e principal estabelecimento no Funchal. Os novos sócios são os cônjuges de Avelino Aguiar Câmara e de Carlos Müller, assim como o seu filho, Humberto Müller, médico pediatra, que exercia a profissão em Lisboa. Carlos Müller faleceu na cidade de Lisboa, onde se achava em tratamento, a 15 de dezembro de 1963. No Termo de Apresentação da Relação de Bens constava que residira na Avenida do Infante, no Funchal e que fora casado com Olga de Castro Müller em primeiras e únicas núpcias de ambos e segundo o regime da comunhão geral de bens. No Termo de Declaração constava que o falecido não fizera testamento nem doação, sendo os herdeiros, por direito de sucessão legítima, seus filhos, o declarante e Dolores Elisabeth Müller Câmara, casada, de 39 anos de idade, moradora à dita Av.ª do Infante, e também a viúva, nomeada, por inerência, cabeça de casal. Em sucessivos pedidos de prorrogação de prazo para apresentação do Termo de Apresentação da Relação de Bens, entre vários documentos, estão o extracto do balanço em duplicado da firma Arte Fina, Limitada, e escrituras da mesma firma, de 4 de abril de 1946, 3 de agosto de 1957 e 2 de outubro de 1957. No mesmo processo, consta a Relação dos bens deixados por óbito de Carlos Müller, sendo os n.os 1 a 4 bens móveis e o n.º 5 as cotas sociais (duas) no capital da sociedade Arte Fina, Limitada, com o valor nominal de 110.000$00, tendo a firma capital no montante nominal de 200.000$00, que está realizado integralmente. Quanto aos bens imóveis, havia prédios urbanos à travessa do Lazareto (Sítio dos Louros), ao beco dos Frias (São Pedro), à estrada conde de Carvalhal (Santa Maria Maior) e à avenida do Infante (São Pedro), onde a família residia, e ainda à rua 31 de Janeiro. Nessa relação consta também a quarta parte de dois prédios rústicos, um na Quinta do Salvador e outro no Arrebentão (Terreiro da Luta), freguesia do Monte.   José Luís Ferreira de Sousa (atualizado a 01.02.2018)

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monteiro, josé leite

José Leite Monteiro nasceu no Porto a 27 de setembro de 1841. Foi advogado, professor, escritor e político. Fez o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em que ingressou em 1859, tendo concluído os estudos em 1864. Estabeleceu-se, em seguida, no Funchal, onde abriu um escritório de advocacia. Diz o Elucidário Madeirense que José Leire Monteiro nutria pela Madeira uma “carinhosa idolatria”, semelhante à que seria possível num filho natural da Ilha (SILVA e MENESES, II, 1998, 227); foi aí que desenvolveu a sua atividade profissional e intelectual. Foi professor no liceu do Funchal, depois de, em 1867, ter alcançado a nota mais elevada no concurso público para professor de Filosofia dos liceus. Passou a sua vida profissional na Ilha, a qual representaria um dos vértices das suas preocupações e dos seus interesses. Na vida pública, desempenhou funções em várias comissões de serviço, como governador civil substituto, como membro do Conselho do Distrito, como presidente da Junta Geral e como presidente da Câmara Municipal do Funchal. De salientar ainda que fez parte do Partido Fusionista e que entrou nas lutas políticas madeirenses de 1868, no âmbito das quais prestou serviços ao Partido Regenerador. José Leite Monteiro colaborou com vários jornais do Funchal, chegando a ser redator do jornal O Direito, órgão da política regeneradora. Também publicou vários livros, entre os quais se destacam O Ultramontanismo na Instrucção Publica de Portugal, de 1863, e Elementos de Direito Civil Portuguez, de 1895. Foi sócio efetivo da Associação de Direito Internacional. Em colaboração com o Cón. Alfredo César de Oliveira, coligiu diversos poemas dispersos de autores madeirenses, que acabariam por ser publicados num volume com o título Flores da Madeira. Morreu no Funchal, a 10 de março de 1920. Obras de José Leite Monteiro: O Ultramontanismo na Instrucção Publica de Portugal (1863); Elementos de Direito Civil Portuguez (1895).   Raquel Gonçalves (atualizado a 01.02.2018)

História da Educação Personalidades Transversais

monteiro, joão antónio

Mineralogista e académico de reputação internacional, nasceu no Funchal a 31 maio de 1769. Doutorou-se em Filosofia a 23/10/1791, na Universidade de Coimbra, onde viria a ser docente, tendo ministrado as seguintes cadeiras: Botânica (1793-1794) e Agricultura (1793-1794) como substituto extraordinário; Física Experimental enquanto demonstrador (1795-1796) e como substituto extraordinário (1796-1801); e Metalurgia na função de 4.º substituto (1801-1804), 6.º lente (1804-1813) e 3.º lente (1813-1822). Ocupou ainda o cargo de fiscal da Faculdade de Filosofia (31/07/1794). Traduziu do inglês, a pedido de D. João, o Príncipe Regente, a obra: Indagação sobre as Causas e Efeitos das Bexigas de Vaca […] e Conhecida pelo Nome de Vacina, por Eduardo Jener, M. D. T. R. S., etc. (Lisboa, 1803). Apesar da sua carreira como lente, a sua reputação decorre do seu percurso original de investigação no domínio da mineralogia. O referido percurso teve um grande desenvolvimento quando foi autorizado, por carta régia de 11 de maio de 1804, a empreender uma viagem científica a Paris, viagem que realizou como se estivesse ao serviço da Universidade, pois esta assegurou-lhe a antiguidade, os ordenados e demais prerrogativas. Em outubro de 1815, parte de Paris para Friburgo, na Alemanha, onde se instrui na doutrina de Werner. Várias publicações reputam-no como autor de sucesso nesses países, tendo publicado em vários periódicos internacionais. Em maio de 1814, publica no Journal des Mines um artigo intitulado “Nouvelle Description du Pyroméride Globaire, ou de la Roche Connue sous le Nom de Pophyre Globuleux de Corse”, onde dá conta de uma nova espécie de rocha, que o mineralogista francês René Just Haüy, considerado o pai da cristalografia moderna, adota na sua obra Nouvelle Distribution Minéralogique des Roches. Na sequência das suas investigações, tornou-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e membro da Sociedade de Mineralogia de Jena, da Sociedade Geológica de Londres e da Academia Real de Munique. Morreu em Paris, em 1834. Obras de João António Monteiro: “Mémoire – Sur une Nouvelle Variété de Cuivre Gris”, “Mémoire – Sur le Fer Sulfuré Blanc de Mr. Hauy”, “Tableau du Cours de Minéralogie de Mr. Hauy pour l’Année 1811”; “Apperçu – De l’Analogie du Wernerite avec Leparanthine” (1809); “Mémoire – Sur plusieurs Nouvelles Variétés de Formes Déterminables de Topaze” (1811); “Mémoire – Sur la Chaux Fluatée du Vesuve” (1812); “Mémoire – Sur la Détermination Directe d’Une Nouvelle Variété de Forme Cristalline de Chaux Carbonatée, et sur les Propriétés Remarquables qu’elle Présente” (1813); “Nouvelle Description du Pyroméride Globaire, ou de la Roche Connue sous le Nom de Pophyre Globuleux de Corse” (1814); “Observations et Considérations Analytiques sur la Composition, et sur la Structure du Pyromeride Globaire” (1814).   Rui Gonçalo Maia Rego (atualizado a 01.02.2018)

Personalidades Transversais

meneses, rufino augusto

Rufino Augusto Meneses foi um sacerdote católico madeirense, nascido na freguesia da Ponta do Sol, a 27 de abril de 1877. Foi filho de Rufino Augusto de Meneses e de Carolina de Jesus. Quando ainda era criança, partiu para Angola com o pai, que foi para lá como colono, e estudou no Seminário de Huíla, sendo ensinado pelos padres do Espírito Santo. Regressado à Madeira, matriculou-se no Seminário Diocesano do Funchal, seguindo a vida eclesiástica. Foi ordenado sacerdote a 21 de dezembro de 1901 e foi capelão da Sé do Funchal até 1902. A 22 de fevereiro de 1902, foi nomeado pároco do Caniçal, função que exerceu durante os dois anos seguintes, passando a desempenhar, desde 20 de fevereiro de 1904, o múnus de cura de Machico. Em 1905, após o falecimento do P.e Jordão do Espírito Santo, que era vigário na freguesia de Água de Pena, foi nomeado sacerdote daquela paróquia, no dia 4 de julho, ocupando o cargo durante 48 anos. A par da sua vida clerical, Rufino Augusto Meneses foi um homem dedicado às letras, colaborando na imprensa regional e escrevendo textos literários, sobretudo poéticos. Exerceu a sua atividade jornalística no periódico O Jornal, como correspondente em Machico, e assinou, naquele jornal, algumas das suas produções poéticas sob o pseudónimo “C.”. Em 1950, publicou um volume de versos intitulado Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima (a Virgem Peregrina) à Madeira, em 7 de Abril de 1948: Versos Populares. Neste livro, descreveu em verso a visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima à Madeira, no dia 7 de abril de 1948, desde a chegada a bordo do Lima e o desembarque no cais da Pontinha até ao cortejo em direção à Sé do Funchal, onde aquela obra passou a noite. Descreveu as manifestações de regozijo da população, que aguardava a chegada da imagem acenando com lenços, dando vivas e palmas, e evocou os sinos da igreja a tocar e o lançamento de foguetes. Nos seus versos, todo o povo, as autoridades regionais, o clero e outras individualidades madeirenses de diferentes profissões manifestaram o seu contentamento e a sua fé por aquele momento da visita da imagem da Virgem Peregrina. Narrou ainda a visita da imagem a outras freguesias da Madeira, onde, nos dias 8, 9 e 10 de abril, foi sempre aguardada por uma multidão. Depois, mencionou o regresso da imagem ao Funchal, destacando a sua passagem pelas ruas da cidade até chegar à Pontinha, onde embarcaria no Guiné para prosseguir viagem até outras paragens. Estes versos constituem um testemunho de um momento importante da história religiosa da Ilha e oferecem alguns quadros representativos das manifestações de fé do povo madeirense na primeira metade do séc. XX. Rufino Augusto Meneses faleceu em Machico, a 30 de março de 1966. Obras de Rufino Augusto Meneses: Visita da Imagem de Nossa Senhora de Fátima (a Virgem Peregrina) à Madeira, em 7 de Abril de 1948: Versos Populares (1950).   Sílvia Gomes (atualizado a 01.02.2018)

Religiões Personalidades Transversais

mendonça, maria

Natural dos Açores, Maria Mendonça (1916-1997), de seu nome completo Maria da Trindade Mendonça, passou 35 anos da sua vida na Madeira. Jornalista e empresária, instala-se no Funchal em 1951 para dirigir, ao longo de 19 anos, o Eco do Funchal. Promove os livros insulares, açorianos e madeirenses, nas ilhas e no continente. Cria a Editorial Eco do Funchal e autores da Madeira terão a satisfação de verem livros seus virem a lume ou serem reeditados nas décs. de 50 e 60. A partir de inícios da déc. de 60, organiza no seu próprio café-restaurante, denominado Pátio, tertúlias e conferências. Em 1972, funda a Sociedade Pátio, Livros & Artes. Em 1978, cria a Edições Ilhatur, lançando até 1982, entre outros títulos, a coleção de livros infanto-juvenis “Canoa”. Entre 1979 e 1981, dirige o histórico jornal humorístico Re-nhau-nhau. Palavras-chave: jornalista; Edições Ilhatur; Editorial Eco do Funchal; Maria Mendonça; Pátio, Livros & Artes; promotora cultural. Natural dos Açores, filha de Manuel Franco de Mendonça e de Maria Raposo, Maria da Trindade de Mendonça (16 de fevereiro de 1916-28 de fevereiro de 1997) passou 35 anos da sua vida na Madeira. Perfila-se como uma pioneira no empreendedorismo cultural. Foi promotora do livro insular, administradora de uma casa editorial, articulista polemista, promotora turística, dirigente associativa e gerente de um espaço cultural e comercial. Sob o lema “Querer é poder”, como patenteia a legenda do ex-líbris que mandou executar em 1956, a sua vida é marcada por encontros e iniciativas culturalmente relevantes. Como adianta Alberto Vieira, a “sua ligação à Madeira estabelece-se a partir de Lisboa, por amigos da Madeira e pela situação de penhora do jornal Eco do Funchal, cujas dívidas aceita cobrir para dar continuidade à sua publicação, assumindo a direção a 25 de março de 1951” (VIEIRA, 2015), cargo que desempenhará até 4 de maio de 1970. Sob a sua direção, esse jornal “de carácter regionalista e independente” (OLIVEIRA, 1969, 17), que era de periodicidade semanal, passa a sair mais vezes por semana (ensaiando-se por uns tempos um trissemanário para depois ficar um bissemanário), e Maria Mendonça introduz-lhe várias secções, em especial “Cultura & Recreio”, a primeira série do suplemento literário “Pedra”, em 1965 (sendo que a segunda série viria a ser publicada no Comércio do Funchal nos anos 1967-1969) e, a 3 de março de 1969, um suplemento quinzenal (com quatro páginas) para crianças, “A Canoa”, organizado por Maria do Carmo Rodrigues. Na página literária “Pedra”, hão de contar-se “vários colaboradores: Duarte Sales Caldeira, Vicente Gomes da Silva, Ana Gouveia, Luís Manuel Angélica, Luciano Nunes, José Manuel Coelho, Leopoldo Gonçalves, Vladimiro Rocha, Luísa Silva, Teresa Macedo, António do Canavial, A. [J.] Vieira de Freitas e José de Sainz-Trueva” (Id., Ibid.). No suplemento infanto-juvenil vão colaborar, entre outros nomes, Alice Gomes, Irene Lucília Andrade, Luíza Helena Clode, Madalena Gomes e Matilde Rosa Araújo. No entanto, por razões económicas, esse suplemento será suspenso meses depois. Decidida a não deixar interromper a dinâmica que o projeto gerara, Maria do Carmo Rodrigues funda então o periódico infanto-juvenil independente A Canoa, que teve grande divulgação a nível nacional entre 1969 e 1971. Fig. 1 – Fotografia tirada provavelmente no restaurante do Casino da Madeira, nos anos de 1960. Em primeiro plano, Horácio Bento de Gouveia e esposa; em segundo plano, ao centro, Maria Mendonça, à direita, Adelaide Félix e, à esquerda, Emília Félix, irmã de Adelaide.Fonte: Colç. de Maria Amélia Bento de Gouveia. Mal se instalou no Funchal, Maria Mendonça começou a participar na dinamização de associações de intercâmbio cultural entre os Açores e a Madeira, designadamente o Clube dos Amigos dos Açores e o Círculo de Amizade Madeira-Açores, chegando a ser dirigente associativa. Como refere Alberto Vieira, “ao abrigo destas estruturas, fizeram-se excursões, intercâmbios de grupos folclóricos, de bandas de música, de clubes desportivos” (VIEIRA, 2015). Em 1951, Rogério Correia promove, durante as festas de fim-de-ano, a Semana do Livro Açoriano, na Academia de Música da Madeira, no Funchal, com a colaboração de Maria Mendonça e J. Silva Júnior. Nos anos sequentes, os mesmos promotores hão de organizar outras semanas do livro, dedicadas às publicações açoriana e madeirense. A chefe de redação do Eco do Funchal vai erguer em Lisboa, em 1954, aquando da 24.ª Feira do Livro, o pavilhão do Livro Insular, que ocupou lugar de destaque. Para esse certame mandou imprimir o Catálogo das Obras Apresentadas no Primeiro Stand Insular da Feira do Livro de Lisboa em 1954, que organizou com o conterrâneo J. Silva Júnior. O público nacional fica assim a saber que a literatura insular é uma realidade tangível. Em 1955, monta o stand do livro insular no Funchal. Realiza a Primeira Semana da Madeira, em Lisboa, no Castelo de S. Jorge, em 1982. De tudo isto fica a ideia de que uma consciência cultural das ilhas se perfilava em Portugal. Por sugestão do poeta Jorge de Freitas, Maria Mendonça funda a primeira casa editora na Madeira, a Editorial Eco do Funchal, apostando assim na afirmação cultural do livro insular e ampliando a ação das duas principais entidades regionais públicas que desempenhavam esse importante papel: a Câmara Municipal do Funchal e a Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Com a sua chancela, autores da Madeira, tais como Noé Pestana, Baptista Santos, Bernardete Falcão, João Vieira Caetano e Alberto Figueira Jardim, terão a satisfação de verem livros seus vir a lume ou ser reeditados nas décs. de 50 e 60. Sob os mesmos auspícios, os poetas da tertúlia ritziana (assim chamada porque se reuniam no Café-concerto Ritz) publicam em 1952 a coletânea Arquipélago. Meses depois aparece – curioso episódio da história literária madeirense e revelador de um certo espírito irreverente e humorístico – a coletânea Areópago, de tiragem reduzida e destinada aos amigos, uma paródia de Arquipélago, organizada anonimamente por Jorge de Freitas, em colaboração com Alírio Sequeira, Carlos Camacho e Paulo Sá Braz, e impressa nas instalações da referida casa editora. Maria Mendonça vai até correr o risco de editar livros-objeto, de grande porte e requinte. Encomenda a Maria Lamas – uma amiga com quem estreitou laços ao longo da vida – a obra Arquipélago da Madeira – Maravilha Atlântica, publicado em 1956, um volume de quase 400 páginas. O livro apresenta-se como um misto de descrição de lugares do arquipélago da Madeira e de revista ilustrada, sendo enriquecido com fotos a preto e branco, gravuras em extratexto, e capa e vinhetas da autoria de Alírio Sequeira. É também graças a Maria Mendonça que Luís Marino (de seu verdadeiro nome Luís Gomes da Silva) poderá ver concretizada, em 1959, a sua antologia A Musa Insular (Poetas da Madeira). Este monumento-padrão, com capa de Max Römer, reúne os nomes dos poetas insulares desde os tempos do povoamento da Madeira. Com a mesma chancela, saem livros tão importantes para a cultura regional como Falares da Ilha: Pequeno Dicionário Popular Madeirense, de Abel Marques Caldeira e prefácio de Emanuel Paulo Ramos, em 1961, e, em 1968, a sumptuosa reedição a cores de Casas Madeirenses (1.ª ed. de 1937), de João dos Reis Gomes, com colaboração de Edmundo Tavares. Em 1954, Maria Mendonça compila o inquérito “Qual o panorama da Madeira que mais o impressionou?”, levado a cabo junto de personalidades das artes e letras lusas e publicado no Eco do Funchal em 1951-1952, e faz sair do prelo A Ilha da Madeira Vista por Intelectuais e Artistas Portugueses, uma obra que será reeditada em 1969 e em 1985. Não se esquece da terra natal e é com naturalidade que publica Férias nos Açores, em 1955, Os Açores Através da Saudade, em 1957 (reeditado em 1991), e, em 1958, Grupo Folclórico de São Miguel. Lança, também, o guia turístico Isto é a Madeira, em 1960, em português; no ano seguinte, sai uma edição trilingue, que será reeditada em 1963. Coordena outros roteiros: com Luís Jardim, edita Páscoa: Sugestões, em 1965, e, com Osvaldo Pestana, apresenta Natal: Sugestões, em 1966. Editou, ainda, a revista Semana da Madeira, que durou sete anos (1965-1972), em colaboração com António Aragão, Carlos Lélis e Aníbal Trindade, descrita por Américo Lopes de Oliveira como uma “publicação moderna, original, de sentido prático para a utilização do turista nacional e estrangeiro, visto que está redigida nas línguas mais faladas e generalizadas por todo o Mundo”. O mesmo estudioso informa ainda que, da empresa Eco do Funchal, “nasceu [a] agência de publicidade ‘Islena’” (OLIVEIRA, 1969, 17). Em 1957, publica Uma Pequena História (Tema Madeirense), que será reeditada em 1991, e profere palestras sobre os Açores e a Madeira, a convite de agremiações portuguesas, no Rio de Janeiro, em Santos e em São Paulo. A partir dessas experiências, elabora a publicação Presença Madeirense no Brasil, em 1958. Ainda em 1957, Maria Mendonça organiza com confrades da imprensa regional, tais como Manuel Amândio Rodrigues, Manuel G. Abreu, Rui Camacho e Helena Marques, uma confraternização de jornalistas chamada Tertúlia Sem Título, que se reunirá com alguma regularidade. Desses convívios ficará um registo impresso nas oficinas da Editorial Eco do Funchal em 1958: Tertúlia Sem Título. (Jornalistas da Madeira), ilustrado com imagens das reuniões realizadas. A seleção de artigos que publicou no Eco do Funchal, reunida por Ana Isabel de Sousa no livro Eu, Maria, me Confesso (Recordações e Narrativas), de 2001, mostra bem a voz interventiva que Maria Mendonça tinha: o desconhecimento de que os continentais costumavam dar provas relativamente às realidades açoriana e madeirense, a questão dos transportes de bens e pessoas entre as ilhas e o continente, as difíceis condições de vida de muitos insulares e a falta de investimento na educação, o destino das verbas resultantes das taxas e impostos cobrados pelo poder central nas ilhas, a afirmação dos valores culturais insulares eram temas que a articulista não deixava de trazer à liça. Segundo Rui Carita, o assunto da autonomia que Maria Mendonça tocou num seu artigo em 1968 “chegou, mesmo, a ter ampla repercussão no continente, pois foi depois transcrito na Seara Nova, em janeiro do ano seguinte, suscitando várias questões e originando comentários e respostas, depois publicados na mesma revista, no número de maio desse ano de 1969” (CARITA, 2007, 28). Em 1972, retoma com Natália Correia e Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão) o café literário Rés-do-chão: Tertúlia do Livro – Pátio das Artes, à R. da Carreira, estabelecido cerca de 1967-68 por Carlos Lélis, o escultor Anjos Teixeira e o fotógrafo João Pestana; desse café, conta-se que Vera Lagoa terá afirmado que era o primeiro café literário criado no país. Essas três mulheres vão, assim, firmar a Sociedade Pátio, Livros & Artes, cuja atividade incidia na exploração da casa de chá, esplanada, tabacaria, livraria, galeria de arte, e loja de moda e ourivesaria. Essa entidade será, igualmente, “responsável pela aquisição do espólio da antiga Photographia Vicentes” (CARITA, 2007, 28). Dificuldades económicas obrigaram a empreendedora a desfazer-se de algum património da arte fotográfica do acervo. Em 1979, vende ao Governo regional o recheio do estúdio de fotografia: o espaço Photografia-Museu Vicentes será inaugurado em 1982. Nesse “lugar seleto de letras e artes” (HOMEM 1999, 61) chamado Pátio será apresentada, em 1975, pela jornalista Maria Aurora Homem, a coletânea de poemas inéditos Ilha, coordenada por José António Gonçalves. Também não é por acaso que, em 1979, Natália Correia vem a assinar o prefácio da coletânea Ilha 2. Maria Mendonça estreia, em 1978, as edições Ilhatur (1978-1982), com a monografia Vicentes Photographos, de Luís de Sousa Melo. Em 1979, sob os auspícios do Ano Internacional da Criança e ciente do valor dos autores e ilustradores que colaboraram no extinto periódico A Canoa, Maria Mendonça lança a coleção “Canoa”, respondendo assim, mais uma vez, à vontade de constituir organicamente uma projeção literária e artística no meio madeirense. Saem a lume Histórias que o Vento Conta (n.º 1, 1979) de Irene Lucília Andrade; Mimi e os Sapatinhos (n.º 2, 1979) de Luiza Helena (Clode); Camélias Brancas (n.º 3, 1980) e Sebastião, o Índio (n.º 5, 1982), de Maria do Carmo Rodrigues e, finalmente, Os Anjos Descem (n.º 4, 1981), de António Marques da Silva. Tais livros remetem para o mundo das vivências infantis, com narrativas, versos, canções e lengalengas, assentes numa imaginação poética e numa linha de descoberta em liberdade. Entre 1979 e 1981, Maria Mendonça vem a dirigir, após Gonçalves Preto e Gil Gomes, a terceira série do histórico Re-nhau-nhau, criado em dezembro de 1929. Após um interregno, o Re-nhau-nhau renascerá das suas cinzas a 1 de janeiro de 1996, sob os auspícios de António Loja, durante largos meses, até se extinguir. De acordo com familiares e amigos, Maria Mendonça autodefinia-se como “açoriana-madeirense”. Nelson Veríssimo sublinhou “o seu entusiasmo e dinamismo na divulgação dos valores insulares” (VERÍSSIMO, 1995, 13). Num seu ensaio sobre a comunicação social madeirense, Paquete de Oliveira qualificou-a de “batalhadora pelas causas e coisas da Ilha” (OLIVEIRA, 2008, 38). O amigo Luís Marino dedicou-lhe os seguintes versos: “D. Maria Trindade Mendonça/A esta boa amiga da velha guarda./Dona Maria Mendonça/Que não quis ficar pra avó,/Não é amiga da onça/E sabe dar de cipó…/É de meã estatura,/Mas possui uma alma grande/E… de boa catadura,/Com toda a gente se expande…/No Eco e no Re-nhau-nhau,/– Mesmo com riso amarelo –/A tanto e tanto marau,/Vai chegando a roupa ao pelo…/Dona Maria Mendonça,/Muitos amigos conquista,/Por não ser falsa, nem sonsa…/Nem tão pouco vigarista./Deve muito a nossa ilha/A esta ‘grande’ mulher/Que, não sendo dela filha,/Tanto a estima e bem lhe quer!” (SILVA, 1980, 10-11). A título de curiosidade, enquanto empresária, Maria Mendonça introduziu na cafetaria e restauração da Madeira o uso das saquetas de açúcar, chegando a ter o monopólio da sua distribuição no arquipélago, e diz-se que, enquanto figura feminina atípica, disputa com a escultora Manuela Aranha o título de primeira mulher a andar de bicicleta na Ilha. Fig. 2 – Fotografia de uma reunião de O Pátio: um cenáculo de escritores e artistas. Maria da Trindade Mendonça (de costas e de preto, à direita), Maria Aurora Carvalho Homem, Luíza Clode, Margarida Macedo Silva, entre outros.Fonte: Colç. de Ângela Morna. Nos últimos tempos passados na Madeira, Maria Mendonça colaborou com a Direção Regional dos Assuntos Culturais, desempenhando o cargo de responsável pela Inspeção Regional de Espetáculos. Publica nos Açores, em 1984, o livro A Personalidade Multifacetada do Jornalista Manuel Inácio de Melo, que será reeditado em 1990. Há registo de Maria Mendonça ter usado o pseudónimo “Maria Júlia” e “Maria da Ilha” (ANDRADE, 1999, 187). O Governo Regional da Madeira distinguiu-a com o troféu Estrelícia Dourada pelos relevantes serviços prestados à sociedade madeirense. Deixa a Madeira em 1986, mas dela não se desligou, visitando-a regularmente. Os amigos do Funchal recebem-na em casa ou fazem-lhe uma visita quando se deslocam à ilha de São Miguel. Publica em 1988 a entrevista que fez à amiga de longa data, O Concelho de Nordeste Visto por Maria Lamas, reeditada em 1990. Nos últimos anos da sua vida, trabalhou na Direção Regional dos Assuntos Culturais dos Açores. Morre na ilha de São Miguel, aos 81 anos. Obras de Maria Mendonça: Férias nos Açores (1955); Os Açores Através da Saudade (1957); Uma Pequena História Madeirense (1957); Grupo Folclórico de São Miguel (1958); Presença Madeirense no Brasil (1958); Isto é a Madeira (1960); Semana da Madeira (1965-1972); Páscoa: Sugestões (1965); Natal: Sugestões (1966); “Evocação” (1980); A Personalidade Multifacetada do Jornalista Manuel Inácio de Melo (1984); O Concelho de Nordeste Visto por Maria Lamas (1988); Eu, Maria, me Confesso (Recordações e Narrativas) (2001); A Ilha da Madeira Vista por Intelectuais e Artistas Portugueses (s.d.).   Thierry Proença dos Santos (atualizado a 01.02.2018)

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