associação cultural encontros da eira (acee)

O grupo musical "Encontros da Eira", em atuação no Curral das Freiras, Madeira (1997) Fonte: Retalhos de aquintrodia [2001]
O grupo musical “Encontros da Eira”, em atuação no Curral das Freiras, Madeira (1997)
Fonte: Retalhos de aquintrodia [2001]

A Associação Cultural Encontros da Eira (ACEE) foi fundada na freguesia da Camacha, concelho de Santa Cruz, pela iniciativa de dois amigos naturais daquela localidade, João Barreto e Jorge de Sousa (presidente da Associação e um dos seus principais impulsionadores), pois sentiam existir ali uma lacuna no âmbito da investigação etnográfica. Surgiu, assim, a ideia de criar uma entidade que se dedicasse à recolha, recuperação e divulgação da música tradicional madeirense, projeto que decidiram levar a cabo.

Considerada Instituição de Utilidade Pública pela Resolução do Governo Regional da Madeira n.º 345/2001 de 5 de abril, a ACEE, com sede ao Sítio da Igreja, vila da Camacha, concelho de Santa Cruz, teve a sua primeira reunião na Casa do Povo da Camacha, no dia 12 de novembro de 1995. Juntaram-se nove amigos com o intuito de formar um grupo de música popular portuguesa, projeto iniciado no ano seguinte, a título experimental, com 16 elementos. Em 1997, o grupo recém-formado a 21 de março daquele ano, denominado Encontros da Eira, apresenta-se ao público, agora constituído por oito elementos, num encontro de música popular realizado na Escola Secundária Dr. Ângelo da Silva, no Funchal. A partir de então, o conjunto Encontros da Eira iniciou uma importante dinâmica no sector etnográfico e cultural madeirense, quer através da sua presença em eventos culturais, produzidos dentro e fora da região, quer pela participação em programas televisivos e radiofónicos, além das muitas referências em órgãos da imprensa nacional e internacional. Cumprindo por diversos meios o propósito de dar a conhecer a música tradicional da Madeira, o agrupamento de cariz tradicional tornou-se a face mais visível da associação com o mesmo nome.

De entre a atividade do grupo, que tem sido reformulado ao longo dos anos, com a saída e entrada de elementos, destaca-se a participação em centenas de concertos, festivais de música e outros eventos culturais, realizados na Madeira, nos Açores, em Portugal continental (Lisboa, Porto, Algarve, Alentejo, Ribatejo e Vila Real) e também no estrangeiro (França, Inglaterra e Venezuela). Salientam-se, assim, as atuações no Festival Internacional de Música Popular da Golegã, Santarém (1998); Festival de Música Popular «Açor das Ilhas», em S. Miguel, Açores (2000); Festival Internacional de Música Tradicional de Alte, Algarve (2000); Festival de Música Popular de Baguim do Monte, Gondomar (2003); XVII Festival Intercéltico do Porto (2008), entre as numerosas atuações em festividades promovidas nas ilhas da Madeira e do Porto Santo.

Em 1998, participam com dois temas («Mourisca» e «A Maré Está Cheia») na antologia de música tradicional madeirense organizada pela editora Almasud Records e pela Associação Xarabanda, com o apoio do pavilhão da Madeira para a Expo 98. No mesmo ano, é lançado o primeiro álbum, intitulado Retalhos de Tradição, com temas de tradição vocal e instrumental madeirense, constantes do reportório do grupo. Seguem-se Aquintrodia (2001), Instrumentais d’Outrora (2002), O Melhor dos Encontros da Eira (2002), Raízes do Povo (2007) e Meia Volta (2008). Como reconhecimento público pelo trabalho desenvolvido, o agrupamento Encontros da Eira recebeu duas distinções: em 2004, foi o vencedor da Gala da revista Saber, na área lúdico-cultural, e, em 2005, da Gala RTP M/Diário de Notícias, na área da música.

Embora a ação do grupo musical tenha contribuído para uma maior projeção da ACEE, esta tem vindo a desenvolver outras atividades de cariz cultural, nas áreas de produção, investigação, formação e edição, em prol da promoção e preservação das tradições madeirenses, particularmente no que diz respeito ao seu património artístico.

Em 2001, a ACEE apresentou uma proposta à Direção Regional de Turismo para promover um espetáculo com o intuito de cumprir a tradição de «Cantar os Reis», ficando a organização do mesmo a seu cargo, até ao ano de 2012. O evento, denominado «Vamos Cantar os Reis», levado a efeito nas noites de 5 para 6 de janeiro no Auditório do Jardim Municipal do Funchal, integra o programa de festas de final do ano e habitualmente encerra as comemorações da quadra natalícia na capital madeirense. Já em 2008, a Associação organizou o I Encontro de Instrumentistas de Cordofones Tradicionais da Macaronésia, fomentando um importante intercâmbio cultural entre os intervenientes.

Além do disco Aquintrodia, a ACEE editou, em 2001, o livro Retalhos de Aquintrodia, retratando a vida da associação e do seu grupo musical, incluindo vários artigos de opinião, partituras e letras dos temas gravados nos dois discos editados até então. Em 2008, publicou o livro Maria Ascensão e o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, da autoria de Vítor Sardinha (professor, músico e investigador que esteve destacado na ACEE), uma obra, em edição bilingue, que recorda o percurso de uma figura de referência daquele grupo de folclore e da cultura madeirense.

Na área da formação musical, a ACEE ministrou vários cursos de instrumentos tradicionais de cordas (braguinha, rajão e viola de arame (Instrumentos Musicais Regionais)), cursos de guitarra portuguesa e o curso «A Tocar e Cantar Instrumentos e Cantigas Tradicionais da Madeira» (braguinha, rajão, viola de arame, acordeão, guitarra e viola baixo), este último destinado essencialmente a crianças dos 6 aos catorze anos.

A Associação conta ainda com a realização de exposições, integradas nas comemorações dos seus aniversários, a promoção de seminários sobre a música tradicional, o trabalho de recolha e preservação do património musical e com o fomento de conferências, em escolas da Região, com o intuito de divulgar aos jovens estudantes os instrumentos, as músicas e as cantigas do espaço insular madeirense.

Bibliog.: «Encontros da Eira: Música Tradicional Madeirense», Diário de Notícias, Funchal, 20 set. 2001, suplemento, pp. I-VIII; ABREU, Paula, «Encontros da Eira Apostam na Investigação», Jornal da Madeira, Funchal, 13 jul. 2007, p. 12; ASSOCIAÇÃO CULTURAL ENCONTROS DA EIRA, Encontros da Eira, Usos e Costumes da RAM, Boletim de Aniversário: 11 Anos a Recolher e a Divulgar a Tradição Musical da Madeira, Camacha, s./d.; BORGES, Helena Paula (org.), Encontros da Eira: Música Tradicional Madeirense: Retalhos de Aquintrodia, Camacha, Encontros da Eira, 2001; CORREIA, Octaviano, «Encontros da Eira “Aquintrodia” e no Futuro», Jornal da Madeira, Funchal, 22 nov. 2001, suplemento, p. VII; FREITAS, Marco, «Encontros da Eira Voltam a Cantar aos “Reis”», Diário de Notícias, Funchal, 2 jan. 2012, p. 19; GOUVEIA, Odília, «Música que Nunca Passa de Moda», revista Olhar – Jornal da Madeira, Funchal, 30 dez. 2006, pp. 28-29; LACERDA, Sofia, «Tradição de “Cantar os Reis” Voltou a Cumprir-se no Jardim Municipal», Jornal da Madeira, Funchal, 6 jan. 2012, p. 29; MARQUES, João Maurício, «Antologia da Música Tradicional Madeirense», Revista Xarabanda, n.º 12, 2.º sem. 1997, pp. 64-66.

Sílvia G. Gomes

(atualizado a 29.07.2016)