associação dos amigos da arte inclusiva – dançando com a diferença

A Associação dos Amigos da Arte Inclusiva – Dançando com a Diferença (à frente referida como AAAIDD) nasce em maio de 2007, tendo como objetivo a promoção e utilização das diferentes linguagens artísticas. Estas atividades constituem-se como elemento de inclusão social das pessoas com deficiência e outras, e podem estar inseridas nos âmbitos artístico, educacional, terapêutico e/ou de apoio a estes processos. Surge no sentido de dar continuidade ao projeto Dançando com a Diferença, que teve o seu início em 2001, como um projeto piloto, na então Direção Regional de Educação Especial e Reabilitação (DREER), da Secretaria Regional de Educação e Cultura (SREC), órgãos do Governo Regional da Madeira. Este projeto, da responsabilidade de Henrique Amoedo, pretendia a implementação da atividade de Dança Inclusiva, onde os trabalhos incluem [simultaneamente] pessoas com e sem deficiência, onde os focos terapêuticos e educacionais não são desprezados, mas a ênfase encontra-se, em toda a elaboração e criação artística. Todo este processo deve levar em consideração a possibilidade de mudança da imagem social e inclusão destas pessoas na sociedade, através da arte de dançar, uma necessidade premente em vários países onde este tipo de trabalho existe. (AMOEDO, 2002: 21)

Associac-a-o dos Amigos da Arte Inclusa - foto de Ju-lio Silva Castro-min
Associação dos Amigos da Arte Inclusiva – foto de Júlio Silva Castro

Através da implementação do referido projeto, surgiu também o Grupo Dançando com a Diferença (à frente referido como GDD), comprovando a sua eficiência e disseminando o conceito de Dança Inclusiva, primeiro na RAM, depois no continente português e, até 2014, em diferentes países europeus e da América do Sul. Mesmo, tendo como foco primordial as atividades artísticas, os aspetos educativos e de apoio terapêutico foram sempre relevados, em todas as ações promovidas por esta entidade.

O estabelecimento e manutenção de diferentes parcerias, com instituições públicas e empresas privadas, que desenvolvem atividades nos mais diferentes ramos, destacando-se a hotelaria, através do Grupo Porto Bay, as artes performativas, por intermédio da Associação Cultural Companhia Clara Andermatt e do Teatro Viriato, e o atendimento às pessoas com deficiência, com o “Grupo em Movimento” da Associação de Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental – APPACDM de Ponte de Lima, são alguns exemplos de entidades que fizeram com que a AAAIDD conseguisse alargar os seus campos de ação e número de pessoas atendidas, no âmbito das suas diferentes atividades.

Com o Grupo Dançando com a Diferença (GDD), a AAAIDD apresentou os seus espetáculos nos mais importantes teatros portugueses, como o Teatro Camões, o Teatro Municipal São Luiz e o Teatro Viriato. Internacionalmente verifica-se o mesmo, com a integração dos seus espetáculos em programações regulares de diferentes teatros e a participação em festivais. Tanto os segmentados, aqueles que direcionam a sua programação dando especial relevo à participação dos grupos inclusivos, como aqueles formados somente por pessoas com deficiência, para além de festivais gerais, onde não há este tipo de preocupação na definição das suas programações.

Até o final do ano de 2014 realizou, no estrangeiro, espetáculos em mais de 50 cidades, de 17 países diferentes. Tem no seu repertório de 18 coreografias, criações dos mais importantes coreógrafos da contemporaneidade, onde se destacam de Portugal, Clara Andermatt, Elisabete Monteiro, Paulo Ribeiro, Rui Horta e Carolina Teixeira, Henrique Rodovalho e Ivonice Satie, do Brasil.

Relativamente aos coreógrafos portugueses é importante destacar-se o pioneirismo do Grupo Dançando com a Diferença (GDD), em convidá-los para criarem coreografias para um elenco, que integrava pessoas com diferentes tipos de deficiência algo, que mesmo com toda a experiência dos referidos criadores, nunca haviam experienciado.

“Desmanchar o medo e confrontar os limites, os deles e os meus” foi uma das frases de Clara Andermatt, para definir a sua peça “Levanta os Braços como Antenas para o Céu”, de 2005, dançada até a atualidade pelo GDD e sendo a obra, entre as diversas criações da coreógrafa, que mais vezes foi apresentada e permanece, há mais tempo em programação, por uma companhia de dança. Em 2012, “Dez Mil Seres” foi o resultado do segundo encontro, para uma criação, da coreógrafa com “os dançando”.

[…] A declaração do desejo é um direito que habitualmente reconhecemos uns aos outros. A proposta de Rui Horta para o Grupo Dançando com a Diferença devolve-nos esse desejo e leva-nos a reflectir até que ponto estamos preparados para aceitar os desejos dos outros corpos. […] referiu Daniel Tércio, em 2008, no texto de apresentação, na folha de sala, da criação de Rui Horta.

A “solidez precária das certezas temporárias”, a exploração das dualidades e dos contrastes além da “noção de um ‘incerto exato’, como a própria vida – efémera, sublime e vulnerável. Por um pequeno nada tudo muda, por um breve instante, um eterno retorno ao mesmo” estiveram na base do processo de criação artística de Elisabete Monteiro, que resultou em “Tempus Incertus”, uma criação de 2009.

Dez anos depois de iniciar a sua trajetória artística, o Grupo Dançando com a Diferença (GDD) atinge a sua maioridade artística, com a criação de “Desafinado”. Num trabalho completo, onde música e dança estão completamente integradas, o coreógrafo Paulo Ribeiro, com a colaboração de Leonor Keil e direção musical dos Drumming Grupo de Percussão, com Miquel Bernat e António Serginho, teve a capacidade de explorar ao máximo as capacidades artístico-expressivas do elenco, que num momento ímpar de dedicação e entrega, responderam positivamente. Foi considerada pelo semanário Expresso como a segunda melhor coreografia apresentada em Portugal, no ano de 2011, escreveu Claudia Galhós.

Para além das suas atividades no âmbito artístico, a AAAIDD tem colaborado e participado em diferentes ações de âmbito educacional (em Portugal e também no estrangeiro), com o objetivo de disseminar as suas boas práticas de inclusão, através da arte de dançar. Destacam-se as suas colaborações com a Universidade de Lisboa, através do curso de “Especialização em Dança em Contextos Educativos”, na Faculdade de Motricidade Humana, a colaboração e a supervisão artística ao grupo “Em Movimento”, do Centro de Atividades Ocupacionais de Ponte de Lima da Associação de Pais e Amigos dos Cidadãos com Deficiência Mental – APPACDM, os diversos workshops, palestras, conferências e artigos científicos e de opinião publicados, o acompanhamento e orientação de trabalhos académicos em todos os níveis de ensino através do Centro de Documentação e Investigação (CDI) gerido por esta entidade além do Dançando com a Diferença – ROAD, projeto que levará a experiência iniciada na Madeira a diferentes localidades do país e do estrangeiro, promovendo a criação de diferentes núcleos do Dançando com a Diferença. Viseu, numa iniciativa do Teatro Viriato, foi a primeira cidade do país a abarcar esta iniciativa, nos meses de outubro a dezembro de 2014.

O desenvolvimento de projetos específicos, em parceria com diferentes instituições públicas ou privadas, nacionais e estrangeiras, também se reveste de grande importância para o desenvolvimento artístico dos membros do GDD e da consolidação nacional e internacional do conceito de Dança Inclusiva. Neste âmbito, destacam-se as criações de Henrique Amoedo, nomeadamente “GROTOX” (direção musical de Paulo Maria Rodrigues), para o festival “Ao Alcance de Todos” da Casa da Música (Porto), em 2009, “Máquina Letal” (2011) em parceria com a Fundación Psico Ballet Maite León (de Madrid) e, por fim, “ENDLESS”, com estreia em maio de 2012, um projeto de aprendizagem ao longo da vida, com a duração de dois anos, com parceiros da Alemanha, da Lituânia, da Polónia e da Estónia.

A temporalidade do conceito de Dança Inclusiva, prevista desde a criação do mesmo, é algo em que continuamos a acreditar sendo este, também, um dos motivos da existência do Dançando com a Diferença, já que quando bailarinos com corpos diferentes forem aceites em todas as companhias de dança pelas suas qualidades artísticas e esta diferença não for mais alvo de tantos estudos, atitudes incrédulas e/ou de condescendência dúbia, pensamos, teremos cumprido o nosso papel na procura de uma real inclusão destas pessoas no universo da dança e nesse momento o termo Dança Inclusiva poderá ser desprezado, ficando somente para os registos históricos – sintoma de plena aceitação da unicidade na diversidade, pois de bailarinos se trata, que dançam com o corpo e não “apesar do corpo”. (AMOEDO, 2002: 124).

Pretende-se, portanto, que num futuro próximo, a Inclusão pela Arte tenha o seu reconhecimento, para além do que acontece atualmente, ou seja, que não se fique apenas como uma estratégia de intervenção, mas que os seus resultados sejam valorizados artisticamente de tal forma que os seus praticantes, com ou sem deficiência, sejam considerados unicamente ARTISTAS.

Bibliog.: AMOEDO, Henrique, Dança Inclusiva em contexto artístico – Análise de duas companhias. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade Técnica de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana, Lisboa, 2002; Arquivo da Associação dos Amigos da Arte Inclusiva – Dançando com a Diferença.

Henrique Amoedo

(atualizado a 15.07.2016)