associação escola de samba caneca furada

A oficialmente denominada Associação Escola de Samba Caneca Furada, fundada em 1986, é uma associação sem fins lucrativos, criada com o objetivo de divulgar e implementar a cultura brasileira na RAM. Conhecida como “Caneca Furada”, é a mais antiga instituição que, de entre as trupes de carnaval, anima as festividades populares na ilha, nomeadamente o cortejo de Carnaval, a Festa da Flor e a Festa do Vinho, cartazes turísticos da Madeira. Esta associação funcionou com sede à R. das Pretas, n.º 56, tendo os seus estatutos sido elaborados por Adolfo Brazão, que integrou regularmente o conjunto dos figurantes. Dos corpos sociais fundadores fizeram parte: Ângela Figueira, Artur Camacho, Carlos Jorge Andrade, Énio Andrade, Ferdinanda Sousa, Fernando Cruz, Jaime Sousa, José Azevedo Teixeira, Norberto Fernandes, Ricardo Pita Ferreira, Ricardo Silva e Romano Caldeira.

A Caneca Furada, enquanto grupo organizado, foi criada em 1979, sob iniciativa da empresária Ângela Figueira, que reuniu um conjunto de senhoras então frequentadoras do Club Sports Madeira. As mesmas, para distração e por graça, juntava-se anualmente, por altura do Carnaval, em casas de particulares, onde faziam os conhecidos “assaltos”, próprios daquelas festividades. Desafiadas por algumas personalidades, das quais não se exclui João Carlos Abreu, e com um forte apoio de Ângela Figueira e dos meios que colocou à disposição, foi possível estrearem-se como grupo no cortejo de Carnaval de 1980, com o projeto Mulatas, do qual se enunciam alguns elementos participantes: Alda Fernandes, Anabela de Castro, Clara Aguiar, Élia Sousa, Fátima Calado, Ferdinanda Sousa, Guida Tomás, Hélder Santos, Ida Bacanhim, Jaime de Sousa, Magda Ferreira, Maria José Gomes, Marisete Olim, Rolanda Abreu, Zita Brandão Luís e Zulmira Rodrigues, entre outros, num total de 40 elementos, número largamente ultrapassado ao longo das décadas (esta trupe chegou a ter entre 200 a 300 participantes nos desfiles). É de salientar a colaboração valiosa dada depois por Flávia Fernandes e Alice Rodrigues, que integraram o grupo em 1982 e 1988, respetivamente. Fizeram ainda parte do conjunto entusiastas suecos, amigos de Ferdinanda Sousa, que vinham de propósito à Madeira para integrar o cortejo carnavalesco. Vindy Forsberg, Sven, Isabel Forsberg, Susana e outras bailarinas participaram nos festejos entre 1984 e 1994. Na comemoração do 30.º aniversário da Caneca Furada, voltaram, apoiados por Ferdinanda Sousa, para se juntarem ao cortejo, contribuindo assim para a preservação da memória identitária da trupe e do evento.

O Carnaval do Brasil, nomeadamente a sua Escola da Mangueira, foi sempre uma referência. Esta última foi igualmente uma fonte de inspiração, pela alegria e movimento que incutia, tendo a Caneca Furada, inclusivamente, adotado as suas cores: verde, rosa e dourado.

Em 1980, aquando da primeira produção, o coreógrafo era Ricardo Sousa, um jovem madeirense de 18 anos. Na ocasião, predominava o número de elementos femininos sobre o de elementos masculinos no grupo, tendo algumas mulheres adotado este último figurino para que se pudessem formar casais. É de registar o disfarce requintado na pele de negros, na medida em que tinham receio das críticas e não queriam ser reconhecidas pela sociedade.

A primeira música escolhida para os festejos carnavalescos intitulava-se “Bota no Copo que a Caneca está Furada”. Pela alegria e animação que proporcionava, foi inspiração para a elaboração do hino da trupe da Caneca Furada, sendo a sua letra de Helena Câmara e os seus arranjos do pianista João de Deus. Nesse ano (1983), a Caneca Furada estreou-se com música original ao vivo, tocada por uma grande fanfarra e acompanhada pela precursão de um grupo de entusiastas, integrando, entre outros, Artur Camacho, Carlos Jorge Andrade (grande aficionado da música e responsável pela introdução dos metais na banda musical) e Énio Andrade. Leia-se o poema da música intitulada “Alegria de Carnaval”: “P´ra quê chorar / P´ra quê sofrer / Vamos cantar / Vamos sambar / Té o sol nascer / P´ra quê chorar / Se nos faz mal / Vamos cantar / Vamos sambar / Porque é Carnaval / E se a tristeza vier chamar por si / Não dê entrada / A alegria vem aí na batucada do Carnaval / Toma lá esta caneca / Tá furada não faz mal / Vai encher de alegria / Vai encher de alegria / Este nosso Carnaval / Caneca, caneca / Caneca furada / Escola de Samba / A mais afamada”.

Ainda em 1983, a Faculdade de Escolas de Samba, fundada em 1977, homenageou a Caneca Furada pelo trabalho desenvolvido a sambar, emitindo um diploma de homenagem onde se lê: “Sente-se honrada em conferir […] o presente título, em reconhecimento aos serviços prestados à Faculdade do Samba”. Neste ano, Ângela Figueira foi eleita rainha do Carnaval pelos elementos da trupe. Cabe destacar também, os concursos de rainha do Carnaval ganhos pela Caneca Furada, com Nini Andrade Silva, estilista do grupo, e Cristina Rodrigues, respetivamente em 1986 e 1987.

O bailarino Francis Cardoso foi o coreógrafo residente durante vários anos, tendo deixado o seu legado a Colin Vieira que, em 2013, era ainda, juntamente com a bailarina Tina (Dalila Chaves), coreógrafo da Caneca Furada. Desde 2003 que a Caneca Furada conta com a importante colaboração de Silvério Andrade na produção de armações para as costas e a cabeça.

Sem esquecer o patrocínio e o apoio de entidades e individualidades como António Henriques, Joe Berardo e Lourdes Costa, a quem o grupo se mostra muito grato, destacam-se também outros contributos, nomeadamente a participação de personalidades de renome da sociedade madeirense (Constantino Palma, José Carlos Ramos, Fernando Neves, Paulo Fontes e Pedro Calado, entre outros), ou a proposta efetuada pelas unidades hoteleiras para desfilar e animar os seus espaços, nas alturas festivas, e ainda as viagens à ilha Grã Canária, a convite do alcaide Javier Melián (1984, 1985, 1986 e 1988), a fim de integrar as festividades locais, tendo recebido uma menção especial em 1986. Em relação ao ano de 1988, destaca-se o facto de o calendário local ter sido alterado para poder incluir a Caneca Furada, participação que se revestiu de sucesso nas atuações de rua e nos hotéis.

Estes projetos, contudo, não fazem sentido sem um forte apoio do GRM, nomeadamente da tutela do turismo, sobretudo quando depositam no grupo a confiança de que ele contribuirá para um cartaz turístico de sucesso em celebrações como o Carnaval, a Festa da Flor e a Festa do Vinho, entre outras a que o grupo possa corresponder.

Em 2009, cumpria a Caneca Furada o seu 30.º aniversário, quando o GRM, através da Secretaria Regional do Turismo e Transportes, lhe atribuiu a medalha de ouro de mérito turístico (resolução n.º 1264/2009, de 17 de setembro, do Conselho do Governo Regional).

Em 2013, integrou ainda o projeto a fundadora Ferdinanda Sousa, grande impulsionadora do grupo que, desde 2003, também o lidera, por testemunho passado por Ângela Figueira.

Caneca Furada
Quadro n.º 1 – Relação das produções com maior relevo entre 1980-2013

Ferdinanda Sousa

(atualizado a 23.09.2015)