associação orquestra clássica da madeira

Fundação

A Orquestra Clássica da Madeira foi fundada a 13 de Fevereiro de 1964, sob designação de Orquestra de Câmara da Madeira, tendo como seus fundadores professores e antigos alunos da Academia de Música e Belas Artes da Madeira. De entre os seus fundadores, podemos destacar Agostinho Jorge Henriques, Alice Ribeiro Pereira, Anjos Teixeira, Elmano Gomes, Fernando Eldoro, Guyonne de Bekdelièvre, Humberto Abreu, João Figueira de Quintal, João Luís dos Santos, Maurílio Lourenço Teixeira, Noé Gonçalves Vieira e Raúl Lino de Abreu. Os primeiros estatutos foram registados em cartório notarial vinte anos mais tarde, a 17 de maio de 1984.

O primeiro diretor artístico foi o Prof. Jorge Madeira Carneiro, professor de Violino e Diretor da Academia. No início não havia direção, sendo o diretor artístico o responsável por toda a organização. O grupo era totalmente amador, e não recebia qualquer pagamento pelos concertos.

Ao nível das direções, consultadas as atas disponíveis, chegámos aos seguintes nomes: a primeira direção eleita para o triénio 1987-1989 foi, José Clemente Tavares (presidente), António Filipe Gouveia Silva, Maria Teresa Vaz Pinheiro, José Manuel Oliveira, Manuel João Pereira Esteves e João Sílvio Ascensão Vieira. Seguiram-se-lhe de 1989 a 1995, José Manuel Oliveira (presidente), António Filipe Gouveia Silva, Maria Teresa Vaz Pinheiro, José Luís Câmara Ferro, Manuel João Pereira Esteves e João Sílvio Ascensão Vieira; de 1995 a 1999, João Carlos Abreu (presidente), Margarida Pestana, Teresa Brazão, Rui Correia, Agostinho Henriques e Robert Bramley; de 1999 a 2000, Margarida Pestana (presidente), Teresa Brazão, Norberto Gomes, Rui Correia, Agostinho Henriques; de 2001 a 2004, José Alberto Gonçalves (presidente), Paulo Amaral, Norberto Gomes, Rui Correia e Gil Manso; de 2004 a 2012, uma Comissão Administrativa, composta pelos seguintes elementos: José Alberto Gonçalves (presidente), Rui Correia e Gil Manso. Entre 2013 a 2016, uma Direção com a seguinte composição: Carlos Gonçalves (presidente), António Neto, Laszlo Szepesi, Vitúrio Batista, Rui Correia, Gil Manso e José António Valente Silva.

Foi declarada Instituição de Utilidade Pública a 17 de dezembro de 1991, através da Resolução do Governo Regional da Madeira n.º 1286/91, publicada no JORAM, I série, n.º 169, de 17 de dezembro. Os primeiros espaços utilizados para ensaios foram os da Academia e, mais tarde, do Conservatório (Rua da Carreira e Quinta Vigia). Em 1987, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal, passa a ensaiar numa sala do Teatro Municipal Baltazar Dias, regressando, sempre que necessário, às instalações do Conservatório, na Avenida Luís de Camões, onde permanece até 1996, ano em que se muda para a sua primeira sede, no edifício situado na Travessa das Capuchinhas, n.º 4 – 1.º andar, cujo protocolo é assinado pelo Secretário Regional do Turismo e Cultura, apenas a 11 de fevereiro de 2004.

Destacam-se como seus diretores artísticos, Jorge Madeira Carneiro, Eurico Tomás de Lima, Haydn Beeck, Augusto Pereira de Sousa, Raúl Gomes Serrão, Agostinho Henriques, Manuel Esteves, Victorino Gomes, Zoltán Sánta, Roberto Perez e Rui Massena.

Entre os anos 60 e 80 do século XX, a orquestra teve uma programação modesta e de acordo com as suas disponibilidades financeiras, no entanto há referências que a orquestra acompanhou, com regularidade, o Coro de Câmara da Madeira e solistas vindos do continente como a pianista Olga Prats e dirigida por alguns maestros convidados como Gunter Arglebe e Silva Pereira. Quanto ao repertório, na década de 1970, verificou-se alguma diversificação tocando Carlos Seixas, Britten, Corelli, Beethoven, Monteverdi, Handel, Purcell, Bellini, Challey, Sampayo Ribeiro, Lopes Graça, entre outros.

Na pesquisa realizada na imprensa regional, salienta-se que entre 1985 e 1989 não aparecem registos sobre a orquestra nos periódicos do Funchal. Segundo músicos desta época teria havido um certo afastamento da comunicação social. As atuações realizadas não tinham cobertura jornalística. Neste período havia pouca atividade, resumindo-se ao cumprimento dos pedidos municipais no Funchal, tais como o Dia da Cidade (21 de agosto), o 1.º de maio, o Dia da Região (1 de julho) e o Te-Deum de fim-de-ano, na Sé. Até esta data os músicos que integravam a Orquestra eram madeirenses e alguns continentais que eram contratados como professores na Academia/Conservatório e que, ou dirigiam ou tocavam na orquestra.

A Orquestra na década de oitenta

No início da década de 80, a orquestra teve alguma atividade relevante, com concertos dirigidos por maestros convidados como, por exemplo, Manuel Teixeira, Bruno Pizzamiglio, num concerto integrado nas Festas de Fim de Ano de 1981 e George Duker, em dois concertos integrados na “Semana da Alemanha”, que decorreram na Sé do Funchal e no Teatro Municipal, em maio de 1984.

A partir de 1987 a direção tentou conseguir apoio financeiro através das Autarquias da Região Autónoma da Madeira (RAM). A Câmara Municipal do Funchal foi a primeira entidade a apoiar esta Associação. Em 1987 apoiou com um valor de 350.000 escudos anuais [1.750€], que foi aumentando gradualmente: em 1988 para 400.000 escudos [2.000€]; em 1989 para 450.000 escudos [2.250€]; etc. Em 1996 o subsídio anual rondava os 12.000 contos [60.000€). Outras autarquias, como as de Câmara de Lobos e Santa Cruz, apoiaram com pequenos subsídios. O Governo Regional, em 1989, através da DRAC, concede um apoio de 1.000 contos [5.000€] para aquisição de fardamentos. Só a partir do ano de 1995 é que, através de contrato-programa, o Governo Regional passou a apoiar financeiramente a atividade da Orquestra.

Com a direção presidida por José Manuel Oliveira, iniciada em 1989, foi contratado o Violinista Zoltán Sánta para dirigir a Orquestra. Sob a sua orientação foram contratados músicos dos países de Leste, da Hungria e da Ucrânia, entre outros, para reforçar os vários naipes das cordas e dos sopros da Orquestra. Com estes novos reforços, a Orquestra passa por um período áureo entre 1992 e Fevereiro de 1995. Em 1994 a Orquestra faz a sua primeira saída da Região, realizando um concerto no Teatro da Trindade em Lisboa.

Apesar do trabalho consistente que o maestro Zoltán Sánta vinha a realizando com a orquestra, dificuldades financeiras, devidas a atrasos nos subsídios oficiais, levaram a que a direção se viu impossibilitada, durante alguns meses, de proceder ao pagamento dos vencimentos dos músicos e do maestro. Na sequência deste facto, no concerto de aniversário da RDP Madeira, a 22 de outubro de 1994, pelas 18h00, no Auditório da RDP Madeira, com transmissão em direto através da Antena 2 para todo o País, e na presença do Administrador da RDP, o maestro Zontán Sánta, antes de iniciar o concerto, [volta-se para o público, que enchia literalmente a sala, e] lê um pequeno comunicado onde refere que, tendo os músicos ordenados em atraso, o concerto não seria realizado. [Foi um escândalo em direto para todo o País. Nos dias seguintes vários órgãos de comunicação social da Região e do Continente relatavam este rocambolesco episódio.] Depois deste episódio, o maestro foi demitido, passando a mesma por mais um período difícil em que os concertos eram escassos, e sempre com um maestro convidado, nomeadamente o oboísta Bruno Pizzamiglio, do “Opus Ensemble” de Lisboa.

A mudança organizativa: nova denominação – de “Câmara” a “Clássica”

Em Maio de 1995, um grupo de músicos, em representação dos seus colegas, reúnem com o então Secretário Regional de Turismo e Cultura, João Carlos Abreu, expõem-lhe a situação em que se encontrava a Orquestra e pedem-lhe que assuma a presidência da direção. João Carlos Abreu aceitou, convidando Carlos Gonçalves para Diretor Executivo. A direção escolheu para Diretor Artístico e Maestro-titular o argentino Roberto Perez, que lecionava na Escola Superior de Música de Lisboa. Ao longo de cinco anos, esta equipa desenvolveu um trabalho no sentido de: (1) reorganizar a constituição instrumental que passou pela substituição de alguns instrumentistas de menor nível artístico por outros [entretanto contratados]; (2) planificar cada temporada de forma antecipada e com base nas disponibilidades financeiras; (3) aumentar a carteira de associados, criando várias categorias, tais como: Sócio Executante; Sócio Contribuinte; Sócio Empresa; Sócio Benemérito e Sócio Honorário; (4) gerir os meios financeiros e patrimoniais de forma rigorosa.

Em 1998, sob proposta do maestro-titular e do diretor executivo, a direção concordou em aumentar a formação orquestral para cerca de 36 instrumentistas e a Assembleia-geral aprovou a alteração de designação, passando a designar-se por “Orquestra Clássica da Madeira” (OCM). Os novos Estatutos foram registados em cartório notarial a 12 de março de 1998. Foram criados novos regulamentos internos que incluíam um órgão representativo, a Comissão Artística, composta pelo maestro-titular, pelo diretor executivo, pelo concertino e por um representante, quer dos instrumentistas de cordas, quer dos sopros e percussão. Esta Comissão tinha a responsabilidade de analisar e aprovar, previamente, todo o plano de atividades.

No período compreendido entre 1995 e 2000 a atividade orquestral foi assinalável. Em média eram realizados 50 concertos com a formação orquestral, e cerca de 50 de música de câmara, por ano. Neste particular, os grupos de música de câmara eram constituídos por iniciativa dos próprios músicos, sem qualquer imposição da direção, consoante as suas preferências e também em função dos programas a apresentar. As temporadas eram planificadas antecipadamente e divulgadas através de um flyer, totalmente pago com publicidade de empresas privadas que aderiam ao projeto. Por questões orçamentais, a maioria dos concertos com a formação orquestral eram dirigidos pelo maestro-titular. Pontualmente eram convidados outros maestros, nacionais e estrangeiros, para dirigir a orquestra. Os concertos eram descentralizados por toda a Região Autónoma da Madeira, contando com o apoio de várias entidades, das quais se destacavam a maioria das Autarquias. A grande dificuldade era encontrar os locais para a realização dos concertos. Nesse período, os grandes equipamentos culturais ainda estavam em obras ou simplesmente não existiam. Assim, tirando o Funchal, onde a maioria dos concertos eram realizados no Teatro Municipal “Baltazar Dias”, nas zonas rurais eram utilizados salões paroquiais e, nas situações em que estes não existiam, ou não tinham as condições mínimas, os concertos realizavam-se nas igrejas. Para tal a orquestra tinha sempre que adaptar o seu programa para que fosse aprovado pelo Bispo da Diocese.

Em outubro de 1997 foi criada a Madeira Camerata, constituída por 11 dos melhores instrumentistas dos naipes das cordas. A direção artística foi entregue ao violinista madeirense Norberto Gomes. Este agrupamento passou a realizar concertos dentro da Temporada Artística da Associação.

Período áureo em digressões

Em maio de 1998 a orquestra fez a sua primeira digressão ao Continente Português, realizando seis concertos no Auditório Carlos Alberto no Porto, na Sé de Braga, no Auditório Municipal de Mirandela, no Teatro São Luiz em Lisboa, no Auditório do Conservatório de Faro e no Centro Cultural de Lagos-Algarve. Em maio de 1999, a Madeira Camerata tocou no Auditório da Fundação Eng.º António de Almeida no Porto, no Centro Cultural de Belém (espaço Café Concerto) e em Ferrol, na Espanha, seguindo para Macau, onde, a convite do Presidente do Leal Senado, participou no X Festival de Música de Macau, realizando dois concertos: um na Igreja de São Domingos e outro no Centro Cultural de Macau. Em fevereiro de 2000, a Madeira Camerata é convidada pelo maestro Luiz Esquierdo para uma digressão em Espanha, realizando cinco concertos no Auditório Nacional de Música de Madrid, no Centro Cultural El Monte em Sevilha e na Casa da Cultura de Pozuelo de Alarcón. Nesta digressão foram interpretadas obras de 5 compositores contemporâneos espanhóis. Uma das obras foi apresentada em estreia mundial. O concerto principal foi realizado no Auditório Nacional de Música de Madrid – Sala de Câmara (cerca de 500 lugares), com lotação completa e contou com a presença de quatro dos compositores do programa. Esta digressão foi um verdadeiro sucesso. Na oportunidade, o maestro Luiz Esquierdo, acompanhado pelo Diretor Executivo da OCM, foram recebidos pelo Diretor-geral da Música no Ministério da Cultura de Espanha, onde foi formulado um convite para que a Orquestra Clássica da Madeira participasse, em setembro de 2001, no Festival Internacional de Música de Alicante (um dos mais importantes festivais de música contemporânea da Europa), o que não aconteceu porque nessa data já a Orquestra se encontrava entregue ao Conservatório.

A orquestra realizou outra digressão ao Continente Português, em julho de 2000, com concertos no Teatro Académico Gil Vicente, no âmbito do “III Festival Internacional de Música de Coimbra”; no Auditório Municipal de Gaia, para o “VII Festival Internacional de Música de Vila Nova de Gaia”; e na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira, no programa do “III Festival Internacional de Música de Santa Maria da Feira”. No final desta digressão, os músicos despediram-se do maestro e do diretor executivo, pois já sabiam que a orquestra, por ordem do Governo Regional, seria “transferida” para o Conservatório. De salientar que nesta temporada de 1999-2000 as contas aprovadas apontavam para receitas próprias na ordem dos 40%, ficando a dependência do erário público na ordem dos 60%. Esta situação só foi possível graças a um trabalho realizado ao longo de cinco anos, na constante procura de associados nas várias categorias, incluindo os Sócios-empresa e Sócios-beneméritos, na venda de concertos e na receita de bilheteira. Nesta altura, e a médio-longo prazo, os objetivos eram reduzir progressivamente a dependência dos fundos públicos, o que não aconteceu devido à orientação política adotada.

As mudanças inesperadas sob imposição do Governo Regional

Os responsáveis por esta reviravolta foram o diretor do Conservatório, Miguel Rodrigues, e o Secretário Regional da Educação, Francisco Santos. No ano de 2000-2001 a orquestra ensaia nas instalações do Madeira Tecnopolo, por aluguer do Conservatório. O Diretor do Conservatório contratou o maestro Rui Massena, recém-licenciado pela Academia Superior da Orquestra Metropolitana de Lisboa. A gestão da Orquestra passou a ser feita por ambos, deixando a Comissão Artística de funcionar e, neste sentido, deixado os músicos de ter qualquer “voz” nas tomadas de decisão.

Em setembro de 2001, com a mudança do Secretário Regional da Educação e do Diretor do Conservatório, e com nova orientação política, a constituição orquestral regressou à sua sede e voltou a ser gerida pela Associação OCM. No entanto, com o modelo de gestão anteriormente implementado, quem geria os destinos da Orquestra era uma “Direção Orquestral” composta por 6 membros (3 da Associação OCM e 3 do Conservatório), ao abrigo de um protocolo de colaboração institucional entre o Conservatório – Escola de Artes da Madeira e a Associação Orquestra Clássica da Madeira, assinado a 31 de julho de 2001, sob a égide do Secretário Regional da Educação, Francisco Fernandes, que permitiu à primeira outorgante integrar a Associação com plenos direitos. A leitura deste protocolo com 6 páginas será elucidativa da continuidade de “ocupação” desta instituição de direito privado por parte do Governo Regional da Madeira. Este protocolo teve vigência até à criação da Fundação Madeira Classic. A 19 de setembro de 2001 foi aprovado, pela “Direção Orquestral”, um novo Regulamento Interno da atividade orquestral, alterando o anterior que vinha da Associação OCM.

Nos primeiros oito meses (setembro de 2001 a abril de 2002) e a convite do Presidente da Direção da Associação OCM, José Alberto Gonçalves, Carlos Gonçalves volta a ocupar o cargo de diretor executivo, tendo pedido a demissão e afastado por discordância na forma de gestão e organização daquela instituição.

Neste período (2002) a orquestra desloca-se a Itália, a convite da Fondazione Arts Academy, realizando dois concertos na Cidade de Roma.

A criação da Fundação Madeira Classic: uma oportunidade financeira perdida!

O modelo criado em 2001-2002 funcionou até ao ano de 2006, altura em que, novamente por proposta do Governo Regional, é criada, a 8 de março, a Fundação Madeira Classic, que tem como fundadores o Governo Regional, como maioritário, e a Associação OCM como minoritário. O Maestro-titular continua a ser Rui Massena, agora com mais poder pois, para além de exercer os cargos de Diretor Artístico e Maestro-titular, passou a ser um dos Administradores da Fundação, em conjunto com José Alberto Gonçalves, que presidia, na qualidade de representante do Governo Regional. A Administração da Fundação deveria ter três membros, mas o terceiro nunca foi nomeado (os Estatutos referem que seria por escolha dos dois Administradores), o que manteve este Órgão de forma ilegal em toda a sua vigência. Paralelamente, desde a temporada de 2001-2002 que, neste novo modelo, a Associação deixou de ter os seus Corpos Sociais devidamente legalizados. Em 2001, numa Assembleia-geral, e porque o mandato dos Corpos Sociais tinha terminado, foi decidido constituir uma Comissão Administrativa por seis meses para que nesse período preparasse o processo eleitoral, o que nunca veio a acontecer ao longo de 12 anos. No período de funcionamento da Fundação, os Associados da Associação OCM não foram ouvidos em nenhum processo da mesma, nem aprovaram Planos e Orçamentos, ou Relatórios e Contas.

Os concertos da Orquestra, e depois os ensaios, passam a realizar-se no Centro de Congressos da Madeira, através de um acordo entre o Grupo Pestana e a Secretaria Regional do Turismo e Cultura, que é anulado em junho de 2006, passando a Orquestra a ensaiar nas instalações do Madeira Tecnopolo, através de um valor de aluguer, realizando também ali os seus concertos. De referir que a mudança para a Penteada reduziu, de forma significativa, o número de espetadores aos concertos, muito em especial os estrangeiros, pelo facto de ser zona suburbana e não estar no centro do Funchal.

Nestes sete anos (2006-2012) de funcionamento da Fundação, graças aos altos valores disponibilizados pela Governo Regional através de contratos-programa, a Orquestra passou por alguns momentos altos com a realização de grandes concertos, nos quais se incluem os integrados nas comemorações dos 500 anos da Cidade do Funchal, contando com a presença de variadíssimos solistas e maestros convidados. Também de realçar a estratégia de popularização da orquestra e aproximação a novos públicos, através da parceria musical com nomes e grupos famosos da música popular portuguesa, tais como Jorge Palma, Rui Veloso, Da Weasel, entre outros, bem como uma aproximação a grupos e alguns solistas madeirenses, de que são exemplo os concertos com o grupo de música tradicional Xarabanda e o concerto com o bandolinista Norberto Cruz, entre outros. De destacar a digressão a Angola, em novembro de 2011, que não deixa de ser um marco importante para a Orquestra.

Mas se, por um lado, esta estratégia de popularização teve um impacto positivo junto da comunidade madeirenses, por outro, será de referir-se alguns exageros como, por exemplo, a participação no desfile de carnaval, num contexto em que a orquestra chega a roçar algum ridículo.

Neste período, o grande problema foi a programação ser feita de acordo com as disponibilidades do maestro-titular. A gestão, quer financeira quer de recursos humanos, complicou-se ao ponto de a Fundação ir acumulando passivos até ao final da sua existência, sendo, em finais de 2012, entregue à Secretaria Regional da Cultura, Turismo e Transportes para ser resolvido. Incluía dívidas a fornecedores, pagamento de vencimentos a músicos e funcionários e, entre outros, o aluguer dos espaços utilizados no Madeira Tecnopolo.

A extinção da Fundação Madeira Classic: Razões?

No período de 2010 a 2012, com a nomeação do maestro Rui Massena como programador de Guimarães – Capital Europeia da Cultura, a atividade da OCM perde impacto, na medida em que, sendo os concertos com toda a formação orquestral muito raros, fica praticamente reduzida à realização de concertos de música de câmara.

A partir do dia 1 de julho de 2012, a formação orquestral não voltou a realizar qualquer concerto. Apenas os grupos de música de câmara realizaram alguns concertos entre setembro e dezembro de 2012. Os ordenados em atraso aos músicos foi a razão pela qual o maestro decidiu deixar de ensaiar e realizar concertos.

Passado mais de um ano sem atividades, em dezembro de 2012, com a anunciada extinção da Fundação Madeira Classic, por ordem do Governo da República, José Alberto Gonçalves convoca os Associados da Associação OCM para colocar esta situação e assumir as suas responsabilidades pelo período em que não apresentou contas à Associação. Realizaram-se algumas reuniões que culminaram com a apresentação de uma lista única candidata aos Órgãos Sociais da Associação e com a sua eleição, por grande maioria de votos, no dia 4 de janeiro de 2013. A nova direção estava convicta de que a Orquestra passaria a ser gerida pela Associação que lhe tinha dado origem no ano de 1964.

A criação da ANSA

O Governo Regional, uma vez mais, decide de forma diferente. Cria uma nova Associação, à qual foi atribuído o nome de “Associação Notas e Sinfonias Atlânticas” (ANSA), que passaria a gerir a Orquestra. Para integrar o corpo de fundadores, convida a Associação OCM e o Violinista Norberto Gomes em representação dos músicos. Assim, esta nova associação foi constituída a 27 de maio de 2013, tendo como sócios fundadores o Governo Regional, representado pelo Secretário Regional da Educação e Recursos Humanos, Jaime Freitas, a Associação OCM e o representante dos músicos (nomeado pelo Secretário Regional da Educação e Recursos Humanos e não eleito pelos seus pares). A direção foi [entretanto] nomeada da seguinte forma: Presidente e Tesoureiro indicados pelo Governo Regional (Tomásia Alves e Susana Costa, respetivamente Presidente e Diretora Financeira do Conservatório); Vice-presidente e Vogal indicados pela Associação OCM (António Neto e Vitúrio Batista); e Secretário indicado pelo Conservatório (Norberto Gomes). Assim, esta direção passou a assumir a gestão da formação orquestral a partir de junho de 2013, escolhendo para Diretor-artístico o concertino Norberto Gomes. Também decidiu que, na temporada de 2013-14, não iria nomear um maestro-titular mas sim trabalhar com vários maestros-convidados. O primeiro concerto foi realizado no dia 1 de julho, integrado nas comemorações do Dia da RAM; no entanto os músicos não receberam qualquer pagamento por este serviço. A apresentação da temporada de 2013-2014 aconteceu no dia 8 de outubro, no Conservatório – Escola das Artes da Madeira, com a presença do Secretário Regional da Educação e Recursos Humanos, Jaime Freitas.

A AOCM com programação cultural própria: que futuro?

Por outro lado, a Associação OCM, desde a tomada de posse dos seus novos corpos sociais, em janeiro de 2013, e de acordo com o seu plano de atividades, ainda que restrito à música de câmara, realizou o seu primeiro recital no Teatro Municipal, a 20 de fevereiro, comemorando assim o seu 49.º aniversário. O plano de atividades, com dois ciclos distintos – “Madeirenses & Amigos em Palco” e o Ensemble de Música Barroca “O Sonho de Orpheus” – resultou na realização (quase) semanal de concertos. No primeiro ciclo, a ideia foi “dar palco” aos madeirenses que deixaram a Madeira e que no Continente ou no estrangeiro faziam a sua carreira artística (muitos deles vieram pela primeira vez apresentar-se na terra que os viu nascer). O segundo ciclo foi constituído por quatro instrumentistas madeirenses e estrangeiros que residem permanentemente na Madeira e que manifestaram interesse em juntar-se para divulgar o reportório dos séculos XVII e XVIII. A intenção de realizar esta programação, para que não viesse a criar transtorno à organizada pela ANSA, foi comunicada pela Direção da Associação OCM ao Secretário Regional da Educação e Recursos Humanos, nas reuniões preparatórias da criação da novel Associação, e aceite pelo mesmo. De destacar que a Associação OCM, não recebeu qualquer apoio financeiro por parte das instituições públicas e toda a sua atividade é financiada por meios próprios e pela receita dos concertos.

O futuro ditará aos desígnios da AOCM se esta estratégia, ora adotada por parte do Governo Regional, foi a mais acertada, tomando em suas mãos a organização da Orquestra em vez de depositar na sociedade civil essa responsabilidade, apoiando e fiscalizando a boa utilização dos recursos públicos investidos.

Bibliog.: Impressa: Programas de concertos; Flyers com a programação de várias temporadas artísticas; Manuscrita: Atas da Associação Orquestra de Câmara da Madeira/Orquestra Clássica da Madeira; Outras fontes: Diário de Notícias da Madeira; Entrevista com um dos fundadores, Prof. Agostinho Henriques.

Carlos Gonçalves

(atualizado a 15.07.2016)