astronomia

A resolução de um telescópio (capacidade de separar objetos pontuais muito próximos no céu, como estrelas) melhora com o aumento do seu diâmetro e com a diminuição do comprimento de onda (λ) escolhido para a observação (no caso da luz visível, p. ex., vermelho, verde ou azul). No entanto, na superfície da Terra, em poucos locais se consegue uma resolução melhor do que o chamado limite do seeing, com 1” a 2” (segundo(s) de arco; 1”=1/3600 do grau), pois a radiação de objetos celestes tem de atravessar toda a turbulenta atmosfera: nesta perspetiva, a partir dos 10cm de diâmetro todos os telescópios valem o mesmo. O Hubble Space Telescope (HST) é, por isso, tão relevante, por estar no espaço. Igualmente relevantes, são os locais na Terra com boa qualidade para a observação astronómica (bom seeing). A Madeira é um desses locais.

O seeing diurno é significativamente diferente do seeing noturno. Os telescópios solares são colocados em torres com dezenas de metros de altura e em locais com céu limpo, excelente seeing, baixa humidade, poucos escapes de aviões e pouca poeira no ar. Durante os anos 60 e 70 do séc. XX, desenvolveram-se técnicas de medição de seeing. A Joint Organization for Solar Observations (JOSO) liderou os estudos diurnos que incluíram a Madeira. Os estudos do seeing noturno foram liderados por Merle F. Walker, do Observatório de Lick, Califórnia (EUA). A técnica desenvolvida por Walker, o polar star trailing method (PSTM), utiliza um telescópio refrator (com lentes) de 15cm de diâmetro (a que se chama polaris trail telescope – PTT), rigidamente fixo ao solo (e.g., com uma base de betão) e com a objetiva a 2-3m de altura. A Estrela Polar é observada no hemisfério norte (onde se inclui a Madeira) e a estrela Oct (σ) no hemisfério sul, por se manterem quase imóveis enquanto a noite avança (estão aproximadamente alinhadas com o eixo de rotação da Terra). Fazem-se exposições fotográficas com alguns minutos de duração, ficando registado um trilho. Este é depois comparado com os trilhos-standard do Observatório de Lick (3m) (Fig. 1), sendo estimado um valor para o seeing. Devido a alterações gerais de longo prazo na atmosfera, as medições de seeing devem ser feitas ao longo de vários anos. Por outro lado, para medir o seeing tem de se utilizar exatamente o mesmo equipamento nos vários locais que se pretende comparar.

 

Fig1
Fig. 1- Padrões de seeing do Observatório de Lick (3m). Estes começam nos 0.75”, embora o seeing excelente se defina como inferior a 0.5”. O seeing é considerado bom para valores de 1-2” Fonte: HARLAN e WALKER, 1965, 248.

Os melhores locais do mundo para a observação astronómica encontram-se entre as latitudes 30º e 40º (N ou S), onde o ar marítimo tropical é estável e flui de forma laminar. A chamada “camada de inversão de temperatura” (aí, esta aumenta com a altitude, em vez de diminuir), com espessura de 400-800m, funciona como uma tampa e cria condições de ar limpo e seco acima do seu topo. No lado leste dos grandes anticiclones oceânicos, junto a correntes frias, a camada de inversão baixa. Assim, picos localizados perto de costas ou em ilhas são os melhores locais (estando a Madeira nessa situação privilegiada), havendo também hipóteses para picos com altitude superior a 2100m em regiões áridas interiores e para pequenos planaltos com vento moderado (ter vento calmo é pior). Neste caso, até telescópios próximos do solo têm bom seeing, apesar de a pior camada atmosférica ser nos 10-40m mais próximos do solo. O problema das zonas interiores é que a degradação do ar estável marítimo sobre terra é bem rápida.

Se o seeing for (quase) sempre fantástico num dado local, este não precisa de ter a grande maioria das noites do ano limpas para ser bom. De facto, “um telescópio num bom local montanhoso obtém cerca de 160 noites limpas e escuras por ano [40%]” (DISNEY, 1981, 133). À melhor noite astronómica possível chama-se fotométrica, quando é possível fazer medições do brilho das estrelas com alta precisão (1%) durante, pelo menos, seis horas seguidas e o vento é inferior a 64km/h. Noites com menos horas seguidas de céu descoberto chamam-se espectroscópicas. As exigências para um bom local astronómico são as seguintes (de notar que na Madeira é possível passar quase todos os critérios): 1) latitude entre 30ºN e 30ºS, para se ter acesso a uma maior fração da esfera celeste e a mais horas de noite por ano; 2) cobertura por nuvens mínima (e.g., locais entre 10ºN e 40ºN), com uma elevada percentagem de céu limpo; 3) elevada transparência do ar: acima de 2-3 km em locais continentais ou acima da camada de inversão em ilhas ou costas (ar seco); 4) céu escuro (sem poluição luminosa); 5) turbulência ótica (seeing) mínima: o ideal é um pico numa ilha, com uma orografia convexa e, pelo menos, 16º de inclinação da vertente, de forma a que o vento turbulento possa fugir para os lados; o local específico ficaria num bordo, do lado do vento dominante; 6) humidade relativa inferior a 90% e vento inferior a 54 km/h; 7) pouca vegetação e, de preferência, rochas espalhadas em torno do local; 8) ausência de emissão rádio; 9) sem perspetivas de futura deterioração de alguma das condições 1) a 8); 10) ausência de atividade sísmica/vulcânica; 11) baixos custos de manutenção e operação; 12) bons acessos; 13) eletricidade e água próximas; 14) comodidade das instalações (e.g., altitudes superiores a 3000 m são desconfortáveis); 15) proximidade da instituição/país-mãe (redução de custos); 16) um país politicamente estável.

Da antiguidade portuguesa à descoberta da Madeira e à primeira metade do séc. XX

A astronomia em Portugal

É possível que o círculo de 95 pedras do Cromeleque dos Almendres, perto de Évora (o maior da Península Ibérica no género), tenha por base orientações astronómicas, como era comum em monumentos do género na mesma altura um pouco por toda a Europa (e.g., Stonehenge, em Inglaterra). Com uma datação entre 6000 e 3000 a.C., este é provavelmente a primeira manifestação astronómica em Portugal. Os árabes, que ocuparam Portugal em várias fases durante cerca de 300 anos, introduziram conhecimento astronómico que remonta ao séc. VIII. Logo a partir do século seguinte, a cuidadosa tradução árabe da obra de Ptolomeu, o Al-Magiste (O Maior, mais tarde Almagesto na versão em latim) surge em Portugal.

Pouco antes do arranque de Portugal como nação, o ensino formal inicia-se, ligado ao clero e depois aos burgueses. Os mestres eram licenciados e conduziam os estudos gerais, que, mais tarde, geraram as universidades, já com mestres estrangeiros (a de Lisboa foi criada em 1290). Os portugueses que o podiam fazer preferiam as universidades estrangeiras pois que, durante um século, só se estudou Direito. O Tratado de Astronomia de Afonso Dinis (1334) é considerado a primeira obra astronómica publicada em Portugal (por um português), embora seja ainda muito astrológica. A astronomia verdadeira (henriquina) só se iniciou em Portugal quase 100 anos depois. O próprio infante D. Henrique  era um fervoroso estudioso da astronomia, tendo contagiado o pai (D. João I) e o irmão D. Duarte. Este foi até o primeiro a sugerir o uso da Estrela Polar para a determinação da latitude à noite. De facto, para se fazerem em segurança viagens longínquas no oceano, a astronomia tinha de estar presente: orientação pelo Sol e pelas estrelas, com instrumentos trazidos pelos árabes, como o astrolábio e outros. O quadrante terá sido utilizado pela primeira vez por um português (Diogo Gomes), em Cabo Verde (1462), devendo muito a expansão portuguesa à ciência náutica avançada (matemática e astronomia).

No séc. XVI, os Jesuítas iniciam a educação nacional (liceal) nos seus colégios com mestres portugueses, incluindo a astronomia. Eram os únicos que conseguiam manter a população portuguesa com algum nível de cultura, mesmo que mais para o lado do crer do que do saber. Em 1722, foi inaugurado o primeiro observatório astronómico português, o do Palácio Real, três décadas mais tarde totalmente destruído pelo grande terramoto de 1755. Chegou a ter relevância internacional, graças aos padres cientistas italianos que o utilizavam – a primeira observação astronómica feita num observatório astronómico permanente em Portugal (eclipse lunar) teve publicação, em 1724, na Philosophical Transactions of the Royal Society, a revista científica mais conceituada do mundo de então. Na altura, a moda europeia da astronomia também chegou a Portugal.

No séc. XVIII, os Oratorianos passam também a ter a responsabilidade do ensino em Portugal (incluindo astronomia), ganhando a exclusividade após a expulsão dos Jesuítas, em 1759, e sendo protegidos como pedagogos modernos. No Convento das Necessidades, em Lisboa, mantinham um laboratório de Física, contudo a escassez de astrónomos portugueses era evidente, de tal maneira que o país teve de recorrer a estrangeiros para marcar as nossas fronteiras no ultramar. Portugal era um país onde falar de ciência era motivo de zombaria. Até então, a Universidade de Coimbra (UC) nunca ensinara mais do que línguas e filosofia. A reforma pombalina cria a Faculdade de Matemática e reforma a de Filosofia para incluir astronomia e outras ciências. As invasões francesas do início do séc. XIX e a fuga da família real para o Brasil perturbaram o funcionamento do país, e a educação não era então uma prioridade. Seguiram-se as guerras liberais e a instabilidade política.

Só no virar do século a Casa Pia colmatou a falta de ensino intermédio, ensinando línguas e ciências (incluindo astronomia), mal disfarçando as três gerações sem a educação da classe média portuguesa. Os liceus nacionais (um em cada capital de distrito) foram criados em 1836 por Passos Manuel, mas só com a substancial melhoria das redes viária e ferroviária conseguiram, umas décadas mais tarde, os alunos e professores chegar em bom número às escolas. As universidades não deixaram Passos Manuel criar um Instituto de Ciências Físicas e Matemáticas onde se ensinaria astronomia. Os investigadores continuaram a ser autodidatas e a escassez de astrónomos portugueses manteve-se. Vergonhosamente, em 1850 Portugal não respondeu a um pedido internacional de observação de uma estrela para determinar a sua distância (era crítica a participação de Portugal, por se encontrar no extremo da Europa), de nada tendo servido a existência dos dois observatórios nacionais, em Lisboa e em Coimbra.

O séc. XX começou com grandes planos reais de mais reformas, que foram anulados pela República e, logo a seguir, pelos graves problemas económicos do país. Os planos de fomento dos anos 50 a 70 pretendiam recolocar Portugal no caminho do progresso e da ciência, o mesmo acontecendo com a Revolução de 25 de abril de 1974 e a entrada de Portugal na CEE, em 1986. Contudo, ainda que parcialmente se tenham conseguido alguns progressos, nunca se logrou resolver o problema da dívida galopante, que já no presente século atingiu níveis nunca vistos.

A Madeira astronómica

Em meados do séc. XIV, organizou-se a primeira expedição do Estado português às Canárias para ocupação de novas terras, sendo que estas, a Madeira e os Açores já eram conhecidas pelos europeus (e.g., italianos e catalães). Logo em 1431, os dividendos do açúcar madeirense ajudaram o infante D. Henrique a reestruturar fisicamente a UC e a criar aí cadeiras de matemática e astronomia, decisivas para os avanços científicos na navegação pelos astros. Com o Tratado de Alcáçovas (1479) (Tratados (até séc. XVIII)), as Canárias passaram para a posse espanhola e, assim, foi na Madeira que os marinheiros e pilotos nacionais se continuaram a treinar nas técnicas modernas (e.g., astronomia), no extremo sul do território nacional.

A partir da déc. de 30 do séc. XVI, e durante 300 anos, a pirataria (Corso e pirataria) fez parte da estratégia político-económica dos franceses e ingleses (e, mais tarde, dos holandeses), que pretendiam conquistar os espaços comerciais portugueses e espanhóis. Foram especialmente ferozes os ataques dos corsários franceses, em 1566, à Madeira e dos argelinos ao Porto Santo (Porto Santo), em 1617. Houve expedições científicas (incluindo também objetivos astronómicos) promovidas por reis que tinham a obscura subfunção de espionagem, descrevendo em pormenor as povoações visitadas (e.g., Funchal), especialmente os seus fortes e a sua capacidade militar.

No séc. XVI já estavam a astronomia, matemática, ciências náuticas e afins bem avançadas na Madeira (por oposição a áreas como a medicina): em 1570, os Jesuítas fundam o seu Colégio no Funchal (formalmente instituído em 1575 por D. Sebastião). A partir de 1615, terão sido construídos telescópios para equipar alguns colégios jesuítas em Portugal. De facto, o padre jesuíta francês Laval fez observações astronómicas na Madeira, entre fevereiro e abril de 1720, no Observatório do Funchal, no Colégio dos Jesuítas, cujo bom tempo elogiou: com um quadrante e uma luneta de 6m de distância focal, mediu a longitude e a latitude pelo Sol e pela Lua. Observou uma ocultação de Vénus pela Lua, mediu o diâmetro do Sol e a passagem meridiana de três satélites de Júpiter. Meio século mais tarde, o Observatório do Funchal mantinha-se em plena utilização, agora sob tutela do Estado. A Quinta do Monte Palace Hotel, que pertencia aos Jesuítas, acabaria por ser vendida, nessa altura, em hasta pública.

De 25 de dezembro de 1753 a 9 de janeiro de 1754, esteve no Funchal uma expedição de astrónomos franceses liderada por De Bory para fazer observações que regulassem as cartas hidrográficas, com recurso à astronomia, tendo sido recebidos de forma agressiva pelo povo, devido à fama de piratas que os franceses então ainda tinham. Escolheram para posto de observação uma casa bem no centro do anfiteatro funchalense, tendo medido a longitude e a latitude do Funchal com o recém-inventado sextante, graças a ocultações estelares pela Lua, a observações dos satélites de Júpiter e a observações diretas de estrelas. Em 1768, o capitão James Cook (Cook, James) passa na Madeira a caminho do Taiti, onde observou o trânsito de Vénus. Na tripulação, seguia o astrónomo Charles Green, que acabou por falecer durante a viagem.

Thomas Heberden (Heberden, Thomas), médico no Funchal, fez observações astronómicas entre 1763 e 1768 (longitude), publicadas em 1790. Em 1789, Jean Joseph D’Oquigny foi encarregado pelo Governo português de estudar vários aspetos da física e da história natural da Madeira e Bowdich (Bowdich, T. E.) fez medições astronómicas no Funchal (determinação da latitude graças a observações da Lua, a partir da casa do cônsul britânico); mas foi o Dr. Franks quem recebeu um prémio, por determinar a latitude e a longitude do Funchal na mesma altura, com grande precisão.

A 10 de março de 1843, Anne Blandy, irmã de Charles Blandy, fez observações de um cometa na Madeira, quer a olho nu, quer com um telescópio. Manuel Ferreira Pestana, nascido na Ribeira Brava, doutorou-se em matemática em Coimbra no início do séc. XIX e aí desempenhou o cargo de ajudante do Observatório Astronómico, enquanto o também madeirense Jacinto António de Sousa (Sousa, Jacinto António de) se doutorou na Faculdade de Filosofia de Coimbra, em 1858, e foi escolhido como um dos representantes portugueses na observação do eclipse solar total, dois anos depois, em Espanha. Na mesma altura, o funchalense Luiz da Costa Pereira (Pereira, Luís da Costa (1819-1893)) formou-se em matemática em Coimbra e, uns anos mais tarde, publicou Leituras sobre Astronomia.

A propósito de uma “memorável” oposição de Marte (ocorrida a 5 de setembro de 1877), o astrónomo amador Nathaniel Everett Green observou este planeta a partir da Madeira de 19 de agosto a 4 de outubro desse ano, devido à “reputação de céu limpo” da ilha. Montou o primeiro observatório a leste do Funchal, a uma altitude de 360m, mas a 14 de setembro mudou-se para os 660m de altitude: “[esperávamos] imagens com excelente definição mas, aparentemente, correntes de ar quente e frio em conflito afetaram seriamente [as observações]” (GREEN, 1877, 39). Mesmo assim, Green viu melhor Marte a partir da Madeira do que colegas seus na Irlanda com um telescópio quatro vezes melhor. Mudou de local quatro vezes, tendo conseguido duas noites soberbas, entre as que tiveram céu limpo (um pouco mais de metade do total; dois terços dessas noites foram, no mínimo, boas). Confirmou, pela primeira vez, a existência de uma atmosfera em Marte (com nuvens e tudo), claramente menos densa que a da Terra, e ainda detetou poeira; verificou a diminuição das calotes polares e desmistificou os canais escuros antes observados por Schiaparelli, mas invisíveis a partir da Madeira (fig. 2). Green agradeceu a William Hinton e família, especialmente pelo alojamento e alimentação, bem como a Charles R. Blandy, pelo seu interesse nas observações e pela sua disponibilidade.

Fig2
Fig. 2- Imagem do planeta Marte. Segundo Green, este foi, sem comparação, o seu “melhor desenho feito na Madeira” Fonte: GREEN, 1879, 132.

Outro grande momento para a astronomia na Madeira foi a visita do famosíssimo Charles Piazzi Smyth (com a esposa), astrónomo real da Escócia, de maio a julho de 1881. Embora Tenerife (Canárias) fosse, claramente, a sua preferência (já lá tinha estado em 1856), as difíceis relações anglo-espanholas na altura, devido a Gibraltar, levaram-no à Madeira. Aqui, efetuou observações espectroscópicas solares de forma a confirmar as recentes teorias na área. Instalou o observatório no Jones’ Private Hotel (antiga casa do cônsul dos EUA – Qt. do Carvalho) (Quintas Madeirenses), a 80m de altitude, na altura fora da cidade do Funchal. Utilizou um helióstato e redes de dispersão. Embora só 10% dos dias tenham sido em condições, estes foram de excelente qualidade. Detetou grupos espectrais cruciais, confirmou a “grande risca de hidrogénio” (Hα) e a risca Hβ como genuinamente largas, pois não havia região nebulosa no espectro que não fosse resolvida nas mais bem definidas riscas (fig. 3). Descobriu riscas de oxigénio e confirmou, pela primeira vez de forma inequívoca, a difícil risca dupla do “provisoriamente chamado ‘hélio’” (PIAZZI SMYTH, 1882, 15), um novo elemento da recém-criada tabela periódica de Mendeleev.

Fig3
Fig. 3- Aqui ilustra-se bem o que permitiu um excelente espectrógrafo num excelente local (Madeira): descobrir duas, três ou mais riscas espectrais (espectro de baixo – Piazzi Smyth) onde antes se pensava existir uma única ou apenas duas riscas (espectro de cima – Langley) (PIAZZI SMYTH, 1882, 38).

A 14 de novembro de 1896, Anderson observou a chuva de meteoros a partir das Leónidas da Madeira, tendo contado 29. O posto de observação era na Qt. Cuibem, no Caminho do Til (Funchal), depois Qt. Deão, entretanto desaparecida (urbanizada), à exceção de algumas árvores. Talvez sejam ainda as mesmas que na altura das observações de Anderson o obrigaram a utilizar uma janela superior do edifício da quinta, virada a sudeste. Em agosto de 1924, o astrónomo amador E. A. L. Attkins observou Marte a partir da Madeira, em mais uma espetacular oposição. Instalou-se a 550m de altitude, no Monte Palace Hotel (fig. 4). Em metade das 13 noites em que observou, o céu esteve quase perfeitamente estável, tendo visto Marte com facilidade e uma sua calote polar bem definida.

Em 1892, esteve na Madeira uma missão americana a fazer observações de latitude e longitude astronómicas (por triangulação com marcos no Paul da Serra e Forte de São Tiago – Funchal (Arsenal de Santiago)). A Direção dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos observou em 1914, no Forte de São Tiago (origem do sistema), o azimute astronómico de um dos lados da triangulação com o Paul da Serra. Em 1936, fizeram-se novas medições de triangulação (novos marcos), utilizando para origem o marco astronómico da ilha de Porto Santo (Porto Santo). Uns anos depois, a Missão Hidrográfica observou 15 estrelas para a medição da latitude e 12 estrelas para medir a longitude (erro inferior a 0.1”).

Fig4
Fig. 4- Fotografia Attkins e o seu telescópio de 22 cm de diâmetro, no Monte Palace Hotel. Fonte: MCKIM, 2003, 197.

O mundo astronómico de então

Já em 1730 Newton sugeria, no seu tratado de ótica, os topos de montanhas acima das nuvens como locais ideais para observatórios astronómicos, de forma a fugir à turbulência atmosférica. Mas só no séc. XIX se começou a procurar tais locais (fora das grandes cidades). Os britânicos, e.g., fugindo ao seu péssimo clima, instalaram um observatório na África do Sul em 1820, o Royal Observatory of the Cape of Good Hope, que chegou a ser visitado por John Herschel de 1834 a 1838, durante uma expedição pioneira a locais potenciais para a astronomia no hemisfério sul; seguiram-se, uns anos depois, o Observatory of Transvaal (1909) e o de Pretória (1934). Outros países europeus fizeram o mesmo, bem como os americanos (Observatório de Yale, instalado em 1925 na África do Sul e em 1952 transferido para o Mt. Stromlo, na Austrália; Observatório de Boyde-Bloemfontain, na África do Sul, instalado em 1927 pela Universidade de Harvard, depois de ter sido transferido do Peru, onde se encontrava desde 1889), que já se tinham iniciado no estabelecimento de observatórios no topo de montanhas na Califórnia, como o Observatório Astronómico de Lick no Mt. Hamilton, desde 1888.

De julho a outubro de 1856, Piazzi Smyth fez observações astronómicas em Guajara (2714m; Tenerife) com um telescópio de 18cm de diâmetro, espectrómetro, polarímetro e detetor de infravermelhos (ainda se encontram aí os restos do seu observatório). Conseguiu um excelente seeing em cinco de seis noites. Segundo os responsáveis canários “estavam sempre dispostos a favorecer os propósitos dos cientistas de qualquer país” (MARTIN, 2009, 16).

A Madeira entre os melhores (1950-1981)

No pós-Segunda Guerra Mundial, cada instituição/indivíduo deixou de fazer ciência próximo de casa e passou a considerar os melhores locais possíveis, nem que ficassem do outro lado do mundo, passando assim as viagens aéreas intercontinentais a ser rotina. As complexas tecnologias inerentes aos novos telescópios tornavam-nos dispendiosos, e a união de várias instituições para a gestão de observatórios astronómicos passou a ser padrão (e.g., a Association of Universities for Research in Astronomy (1957) e o National Optical Astronomical Observatory (EUA); os Royal Observatories (Reino Unido) e o ESO – Observatório Europeu do Sul, logo a partir de 1953).

Na euforia do pós-guerra, foi inaugurado, em 1948, o Hale Telescope, o maior e mais bem equipado telescópio do mundo (5 m de diâmetro), no Mt. Palomar, Califórnia, já planeado desde 1929. Em 1967, os EUA detinham dois relevantes observatórios: um no Havai (Mauna Kea, 4200m, bem acima da camada de inversão) e outro no Chile, em Cerro Tololo, a 2200m de altitude. Merle Walker estudou ambos desde 1965, obtendo 63% de noites fotométricas e 15% extra de espectroscópicas para o último local e 56% e 20%, respetivamente, para o primeiro. O seeing de ambos valia entre 1” a 1.5”. Mas o primeiro grande telescópio nacional americano foi inaugurado apenas em 1973 (4m; Kitt Peak, Arizona), 15 anos após a escolha do local. Os planos americanos para um telescópio espacial (iniciados em 1974) implicavam cerca de 10 telescópios de 5 m na superfície terrestre para investigações complementares. Assim, encorajava-se um Northern Hemisphere Observatory (NHO), com telescópios grandes, cuja oportunidade a Europa (Reino Unido, em particular) não enjeitou.

Em janeiro de 1954, doze astrónomos de renome de seis países europeus (Alemanha, Bélgica, França, Reino Unido, Holanda e Suécia) declararam-se a favor da instalação de um grande telescópio europeu no hemisfério sul. A preferência ia para a Namíbia ou África do Sul, após a confirmação da qualidade do seeing. A Holanda já detinha neste último país um observatório em Hartebeespoort desde esse ano (e até 1978), após uma primeira instalação em Joanesburgo, em 1938. As medições de seeing iniciaram-se em 1955 com um telescópio de 25 cm (análise dos anéis de difração de estrelas). Nas décs. de 50 e 60, ainda havia uma grande variedade de métodos para aferir a qualidade do céu. O ESO arrancou em 1962, com a participação formal de cinco países (Alemanha, Bélgica, França, Países Baixos e Suécia), e no ano seguinte La Silla (Chile) foi escolhido como potencial local, seguindo o exemplo dos americanos: o ESO ocupou o local desde 1969. Após estudos que se prolongaram até 1970-72, a Namíbia/África do Sul foram definitivamente excluídas da lista. O primeiro grande telescópio do ESO foi inaugurado em La Silla em 1976 (ESO 3,6m), e em 1989 foi a vez do New Technology Telescope (NTT). O plano do Very Large Telescope (VLT; quatro telescópios de 8 m e outros quatro de 2 m) foi então elaborado e conceptualmente testado em La Silla, de forma a ser colocado num local ainda melhor (Cerro Paranal, 1998-2001).

Quanto ao hemisfério norte, os alemães estiveram em Tenerife a fazer medições (em 1959), mas apanharam uma tempestade de poeira do Saara na atmosfera, o que os desapontou. De 1966 a 1970, estudaram a Grécia e Calar Alto (2165 m; SE de Espanha), obtendo medianas de seeing idênticas: 0.6”. Principalmente devido ao forte apoio de Espanha (construção de estrada, fornecimento de água e eletricidade), que ficou com 10% do tempo de observação, este último local foi o preferido pelo recém-criado Max-Planck Institute fur Astronomie. Em 1973-75, foi transferido da Alemanha o telescópio Schmidt 0,8 m e inaugurou-se um novo, de 1,2 m. Em 1979, foi a vez de um de 2,2m, enquanto em 1985 foi inaugurado outro de 3,5 m. Apesar das 240 noites por ano em que é possível observar e das 160 com mais de seis horas limpas, o local não é brilhante em termos de seeing: ar continental, camada de inversão alta, a que acresce a poluição luminosa de grandes cidades próximas. Foi, há poucos anos, abandonado pelos alemães e entregue ao cuidado exclusivo de Espanha. Os Franceses estudaram vários locais na Europa continental, o México e também Izaña (Tenerife). Acabaram por optar pelo Havai, em colaboração com o Canadá (telescópio de 3.6m), apenas tendo como base curtas exposições de planetas (feitas com um telescópio de 62cm).

Na área específica da astronomia solar, a Joint Organization for Solar Observations (JOSO), fundada em 1969, em Itália, por 11 países da Europa ocidental (incluindo Portugal), pretendia colocar um observatório solar internacional num excelente local (Large [European] Earth-based Solar Telescope – LEST). Em 1970-76, estudou-se 40 locais no Mediterrâneo e Atlântico (a turbulência por cima de água é menor do que sobre terra), construindo perfis de temperatura até 15km de altitude e obtendo, assim, informação sobre toda a atmosfera causadora do seeing. Os três locais finalistas foram Tenerife e La Palma (Canárias) e a ilha da Barreta (mid-lake location; Faro, Portugal). Para uma decisão final, os dois primeiros foram estudados com telescópios em torres rígidas 10-20 m acima do solo, mas a Barreta nunca. A JOSO, entretanto, terminou, sem cumprir os seus objetivos, embora se tenha instalado telescópios solares nas duas ilhas das Canárias.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, o presidente da Royal Astronomical Society (RAS), Harry Hemley Plaskett, propôs um novo grande telescópio britânico de 2.5m, em homenagem a Newton (Isaac Newton Telescope – INT), mas só em 1959 se iniciou a sua construção no recém-criado polo de Herstmonceux (Sussex) do Royal Greenwich Observatory (RGO), sendo inaugurado em 1967. Após terem participado, em 1954, na reunião inicial para a criação do ESO, os britânicos foram os únicos a sair antes de 1962, quando o ESO foi formalmente criado, daí terem avançado por conta própria para a instalação de um NHO.

Em 1965, o Science Research Council (SRC) foi instituído e, para a astronomia, foi buscar o RGO ao almirantado e o Royal Observatory of Edinburgh (ROE) ao Serviço Civil Britânico. Nesta altura, o diretor do ROE, Hermann A. Brück, propôs a instalação de observatórios a latitudes mediterrânicas, rapidamente secundado por outros astrónomos influentes e pelo próprio SRC: o NHO, um telescópio de 4m num local espetacular. Em 1967, os britânicos ainda utilizavam um observatório em Itália (Mt. Porzio-Catone), bem pior do que os do Havai (americanos) ou os de La Silla (Chile; ESO).

Como no caso dos americanos e dos outros países europeus, o hemisfério sul avançou mais depressa do que o hemisfério norte: em 1950, foi inaugurado um observatório astronómico no Mt. Stromlo (Austrália) e, em 1964, o de Siding Spring (1130m). Em 1973, também o UK Schmidt Telescope (1,2 m) é aqui instalado, bem como, em 1974, o Anglo-Australian Telescope (AAT, 3,9 m). Naturalmente, os observatórios na África do Sul passaram para segundo plano.

O NHO teve um comité inicial liderado por Fred Hoyle (1969-1971), com quatro milhões de libras disponíveis para a instalação de um grande observatório em 1974-1975. Para definir o local, em 1970 iniciou-se o Site Testing Project do SRC e, após uns meses de liderança do RGO, em abril de 1971 este passou para a responsabilidade do ROE: o Planning Committee era liderado por George Harding, e Mr. Bennet Mc Innes foi designado project officer, tendo-se revelado um organizador entusiástico e hábil. McInnes agregou as primeiras equipas de testadores de seeing que visitariam topos de montanhas no Mediterrâneo, mas também, inicialmente, Izaña (Tenerife), aproveitando um observatório de infravermelho do Imperial College já instalado no local. McInnes discutiu a metodologia com o perito Merle Walker e construiu três conjuntos telescópicos PTT exatamente iguais, que foram utilizados na campanha que durou até ao final de 1975 para selecionar o melhor entre três locais (sul de Itália, sudeste de Espanha e ilhas Canárias), estudando-os com o apoio de jovens estudantes, mas, infelizmente, sem simultaneidade de observações nos três locais. Um ano e meio de observações em 1972-73 revelou o sul de Itália fraco, enquanto no sudeste de Espanha “não foram autorizadas medições próximas de Calar Alto [aos britânicos] uma vez que já havia informação suficiente dos estudos alemães” (BRÜCK, 1974, 45). Já em fevereiro de 1972, Hosie (RGO) mencionava questões políticas a dificultar testes no sul de Espanha. As Canárias foram, então, identificadas como um bom local, confirmando a sugestão de Walker (Tenerife (Izaña, 2391m), estudada 11 meses em 1972, e La Palma (Fuente Nueva, 2366m), só agosto e setembro de 1972, mas J. B. Alexander (RGO) já a tinha também estudado em 1971). Em 1972, foi inaugurado em Izaña o telescópio de 1,6 m do Imperial College (Reino Unido), coletor de fluxo de infravermelho: era o protótipo do britânico UKIRT 3.8m, que foi instalado no Havai em 1979. “Em [novembro de] 1972 tornou-se óbvio que as ilhas Canárias tinham mais a oferecer do que os outros locais mas problemas políticos/diplomáticos com Espanha para a colocação de telescópios britânicos foram considerados insuperáveis” (MCINNES, 1984, 176): Espanha pretendia concessões em Gibraltar por troca com a colocação de um observatório britânico e obrigou a equipa a regressar a Tenerife uns meses depois. O SRC decidiu, então, criar uma segunda lista de locais, juntando aos dois das Canárias também o Havai e a Madeira, todas ilhas com perfil topográfico semelhante. No confuso ano de 1973, quando houve desentendimentos e demissões entre astrónomos de renome, apenas o Havai era visto como alternativa às Canárias. Após março de 1974, o SRC ouviu a comunidade astronómica britânica e retransferiu a responsabilidade do NHO para o RGO em abril de 1975. Brück, deixando o cargo de diretor do ROE após 20 anos, reportava no relatório anual de 1974 (escrito em 1975) que as medições de seeing se iniciaram de forma contínua nesse ano no Havai e nas Canárias (embora também se tenham iniciado medições na Madeira no decurso do mesmo ano, esta foi ignorada no relatório). O ROE largou, então, o NHO, mas manteve a responsabilidade do UKIRT no Havai e, até 1976, as operações com a câmara Schmidt em Itália (Mt. Porzio).

As medições de seeing nos dois locais das Canárias prolongaram-se até novembro de 1975 (em La Palma até 1976). Entretanto, o SRC já tinha aprovado o conjunto Isaac Newton Group (ING) de três telescópios para o NHO, num local de primeira classe: 1m, 2.5m e de 4.5m. Entre agosto e dezembro de 1974 o Havai, a Madeira, La Palma e Izaña mantêm-se como hipótese quando uma colaboração formal entre Espanha e o Reino Unido se iniciou para os locais canários, agora incluindo uma equipa internacional em La Palma, sob liderança do Prof. Francisco Sanchez (Universidade La Laguna) e a participação de países nórdicos (Holanda, Dinamarca e Suécia). O SRC pretendia uma decisão final no verão de 1975 e, de facto, a mesma foi tomada a meio desse ano, quando o RGO já planeava com Espanha a instalação do NHO em La Palma, “o local claramente favorito do ponto de vista de cobertura de nuvens e seeing” (HUNTER, 1976, 200): apenas 5% das noites eram perdidas devido à poeira do Saara. Os acordos internacionais foram assinados no final de 1975, embora só formalizados em maio de 1979. A divisão de La Palma do RGO foi criada em 1982, o Jacobus Kapteyn Telescope (JKT) 1m iniciou observações em 1984, o INT 2.5m foi aí inaugurado em 1985 e o William Herschel Telescope (WHT) 4.2m em 1987, então o terceiro maior telescópio do mundo, estreado 200 anos depois do telescópio original de William Herschel. Os britânicos tiveram de alterar o nome de NHO para Roque de los Muchachos Observatory, sendo o ING apenas uma parte deste.

Graham Smith assume a liderança do RGO em janeiro de 1976, com instruções do SRC para dar máxima prioridade ao NHO. Logo nesse ano, o INT termina o seu serviço no Reino Unido para ser transferido para La Palma. Para muitos, o RGO foi condenado à morte precisamente devido à saída do INT do Reino Unido. Já em 1975 escrevia o seu diretor “Que nuvens carregadas obscurecem o caminho a seguir!” (Id., ibid., 192). Em 1981, Alexander Boksenberg torna-se diretor do RGO, sucedendo a Graham Smith, e, exatamente seis anos depois, McInnes assume aí o posto de secretário e chefe do pessoal. Após, ironicamente, em julho de 1984 se terem comemorado os 100 anos do Meridiano de Greenwich, a SERC (ex-SRC) decidiu, em 1986, mover o RGO para Cambridge. Em abril de 1989, o RGO saiu do Castelo de Herstmonceux e em 1990 concretizou-se a transferência de forma definitiva. O epílogo deu-se em 1998 quando o RGO fechou (juntando-se os respetivos restos ao ROE), sobrevivendo apenas como museu.

Nas Canárias, a camada de inversão localiza-se, geralmente, entre os 1000 m e os 1400 m, acima dos quais o ar é especialmente seco e transparente. Em 1958, R. O. Redman recomendou Tenerife para instalar um observatório de Cambridge. A pretexto de um eclipse solar (quase) total no ano seguinte, instalou-se em Izaña (2391 m; Tenerife) um pequeno observatório astronómico espanhol associado à Universidade de La Laguna.

De 1963 a 1975, quando é criado o Instituto de Astrofísica de Canárias, a Universidade de Bordéus instala em Izaña um telescópio e colabora com os astrofísicos de Tenerife, especialmente com Francisco Sánchez Martínez, que passou quase toda a déc. de 60 a efetuar medições da qualidade do céu noturno. Em 1969, o Governo espanhol instalou aí um telescópio solar de 25 cm numa torre de 13 m e, na sequência, o JOSO percorreu todas as Canárias com uma avioneta, estudando La Palma e Izaña de 1971 a 1979 com um seeing monitor: em um quarto dos dias, Izaña tem seeing diurno inferior a 1”, 30% melhor do que La Palma. Contudo, as medições noturnas mostram La Palma excecional no que respeita ao seeing, devido a uma orografia favorável (convexidade da montanha, em declive até ao oceano, desviando o vento norte dominante para os lados), sendo Izaña pior, mesmo que com 2/3 das noites boas (apenas 8-10% perdidas devido à poeira do Saara, principalmente em julho-agosto).

Em 1974, o Prof. Sánchez Martínez reúne com as autoridades científicas espanholas (CSIC) para preparar um observatório em La Palma: Espanha construiria a estrada de acesso (uma versão florestal ficou pronta em 1976), restaurante, alojamento, água e eletricidade e os seus astrónomos teriam direito a 20% do tempo de observação. Depois do acordo internacional de 1979, em 29 de junho de 1985 foram solenemente inaugurados (por quatro famílias reais e seis chefes de estado europeus) os dois observatórios internacionais canários (ING e Nórdico). Dados de 1984 a 1993 indicam para La Palma 76% das horas como espectroscópicas, metade das quais com seeing inferior a 1”; só 2% das noites mais escuras do ano são inutilizadas devido à poeira do Saara. Passadas três décadas, as Canárias têm acordos no campo da astronomia com mais de 60 instituições de 20 países.

Renato Antero da Costa Carvalho, meteorologista português falecido em 2006, esteve envolvido com a JOSO. Em Portugal, em 1970, para além da ilha da Barreta, estudou-se a ilha da Culatra (Algarve), Sines e a ilha do Pessegueiro. Numa lista inicial de 15 finalistas, Faro (Barreta) e Sines mantinham-se (low-level oceanic sites, que evitavam efeitos orográficos). Na fase de testes seguinte (1973-75; Working Group 1 – Site testing), foi a vez do também português J. Tavares se envolver. A ilha da Barreta foi estudada de julho a agosto de 1974 por Cornelius “Kees” Zwaan, da Universidade de Utrecht: os ventos vêm do mar até 300 m de altitude e acima dos 2-3 km; o seeing médio é de 0,6” (idêntico ao de Tenerife), e, mesmo assim, os cálculos para Faro começaram a 1km, ainda dentro da camada turbulenta, enquanto para Tenerife o foram a partir dos 3800 m (mais alto do que o pico Teide). Em Faro, a turbulência nos 10-17 km é bem menor do que em Tenerife, mas nem por isso existe em Portugal qualquer observatório solar.

Após visitas em fevereiro de 1973 e abril de 1974, os Franceses consideraram o norte de Portugal como hipótese para o seu grande telescópio (3,6 m), o qual acabou, no entanto, por ser colocado no Havai. De realçar que também existiam planos portugueses para instalar um observatório no norte do país, certamente com o envolvimento do Prof. Manuel de Barros, cujo nome foi dado ao Observatório Astronómico do Porto. A ilha do Fogo (Mt. Liso da Fonte; 2700 m), no então arquipélago português de Cabo Verde, foi estudada pelos britânicos de maio a julho de 1973, mas o ativo vulcanismo, a poeira na atmosfera e o facto de a ilha ser côncava na face virada para os ventos dominantes levaram-nos a riscá-la da lista de hipóteses. Também propensa a vulcanismo (fumarolas), a ilha do Pico (2351m), nos Açores, teve igualmente visitas dos britânicos, mas as dificuldades de (eventuais) futuros acessos e a alegada orografia desfavorável no que respeita ao seeing levaram a preferência para a Madeira. Mesmo assim, Walker, já em 1976, mantinha esta ilha açoriana como hipótese, por lhe parecer ideal a forma da montanha, independentemente da opinião dos britânicos sobre o assunto.

O caso da Madeira

O ensino superior na Madeira até aos anos 80 do séc. XX resume-se à Escola Médico-Cirúrgica do Funchal (1837-1910), extinta pelo diretor de Saúde Pública Dr. Ricardo Jorge. A partir de 1917, durante alguns anos, funcionou na Madeira uma escola de pilotagem marítima com um curso de dois anos, que, entre outras disciplinas, lecionava astronomia geral e navegação astronómica. Após a letargia e até retrocesso que foi o séc. XIX em Portugal, é natural, p. ex., que só em 1914 a altura do pico Ruivo (1861m) tenha sido medida com exatidão por Alfredo Durão. A carta geográfica com escala de 1 para 25.000, executada no terreno pelo Instituto Geográfico e Cadastral em 1915 e publicada em 1938, continuou a ser utilizada; a versão do séc. XXI atualizou a rede viária, extensões urbanas e pouco mais.

Só a partir de 1901, muito lentamente, começou a tomar forma a rede viária da Madeira (demorou várias décadas). As vias de comunicação eram, então, “sem contestação possível, as piores de todo o nosso país […] não merecia[m] o nome de estradas” (SILVA e MENEZES, I, 1978, 800). A estrada regional até Santana (Santana) só ficou pronta em 1968, o que encorajou os estudos de McInnes na encumeada Alta não muitos anos mais tarde. Em 1939-40, a Pousada do pico Ruivo foi construída, pois “apesar da dificuldade [da sua] ascenção muitas personagens ilustres [o] têm visitado […] atraídas […] pelo particular interesse que oferece aos cultores das ciências físico-naturais” (Id., ibid., III, 395). Em meados do séc. XX, a Junta Autónoma dos Portos do Arquipélago da Madeira editou uma publicação anual que incluía as tabelas do nascimento e ocaso do Sol no Funchal ao longo do ano (de 10 em 10 dias). Também por esta altura (anos 40), o posto meteorológico do Monte possuía um heliógrafo, enquanto o do Funchal, além de idêntico equipamento, incluía também dois solarógrafos e um solarímetro.

Os problemas políticos de 1972 na colocação de telescópios britânicos nas Canárias trouxeram a oportunidade de a Madeira aparecer no “mapa astronómico internacional”, cimentada como alternativa a partir do final de 1973, tendo-se até iniciado medições de seeing em outubro do mesmo ano. Antes, em junho, o general Franco abdicou do Governo de Espanha, mas as convulsões políticas só acalmaram após a sua morte, em novembro de 1975.

Os locais do mundo onde a camada de inversão surge, de forma continuada, associada ao lado leste de grandes anticiclones oceânicos situam-se nos oceanos Atlântico (norte – Madeira, Canárias; sul – África do Sul), Pacífico (Califórnia, no norte, e Chile, no sul) e Índico (Austrália ocidental). A primeira menção escrita do vento de nordeste como dominante na Madeira (interior da ilha) foi feita por De Bory em 1753-54. Em 1601, o francês Jean Mocquet já referia o “ar doce e temperado” e “o serão mais agradável do mundo” na Madeira (DES CILLEULS, 1961, 12). Os ventos amenos e calmos no mar foram apontados por Thomas Heberden, na déc. de 1750, como a razão do excelente clima da Madeira (Clima e meteorologia); mais de um século depois (1881), Piazzi Smyth alterou a explicação (humidade), mesmo que registando o vento nordeste de Lisboa à Madeira (mas que corre todo o Atlântico até à linha do Equador).

A Selvagem Pequena foi estudada pela JOSO (Zwaan) em 1970-1972, mas a primeira excursão principal a uma montanha acima da camada de inversão foi na Madeira, com um grupo de Meudon, seguindo-se R. Hammersehleg, que conduziu observações em 1972 no pico do Areeiro (1818m), apoiado pela Junta Nacional de Investigação Científica (JNICT). Os resultados, no entanto, foram dececionantes. Talvez devido aos pioneiros estudos da JOSO, em 1971 Walker incluía a Madeira na lista de potenciais locais astronómicos, juntamente com as Canárias.

Devido aos problemas políticos nas Canárias, o pico Ruivo foi estudado durante 10 dias, em agosto de 1973: como o seu miradouro era muito frequentado e havendo dificuldade em aí instalar um observatório, passou-se para um local muito próximo, a encumeada Alta ou cumiada Alta (1784m). O regime meteorológico da encumeada Alta é muito semelhante ao de La Palma, embora com menos influência da poeira do Saara. Revelou-se, topograficamente, o local ideal na Madeira: como em La Palma, a montanha é convexa na vertente norte, estando esta virada para os ventos dominantes de N/NE, forçando o ar a desviar-se para os lados, sem subir. Ainda no séc. XIX, Orlando Ribeiro (Ribeiro, Orlando) verificou que a encumeada Alta é dominada por ventos de nordeste dois terços do ano.

Os observadores britânicos estudaram a encumeada Alta entre 1973 e 1975, durante 15 meses. No início, acamparam em tendas, mas ao fim de uns meses construíram uma cabana de madeira (fig. 5). Registaram apenas seis meses de tempo excelente (verão/outono), embora o ano tenha sido (aparentemente) pior do que o normal. As observações na encumeada Alta foram feitas em dois locais diferentes (fig. 6). No pior (pico no lado sul), de janeiro a novembro de 1974, e no melhor (pico norte), de maio de 1974 a junho de 1975. Para além da questão de o ano ter sido pior do que o normal, McInnes compila tudo num ano “médio” (jan.-dez.), prejudicando, assim, os melhores resultados da Madeira. O número de horas limpas é ligeiramente inferior ao das Canárias devido à latitude ser um pouco superior, e a poluição luminosa já era pior na Madeira do que em La Palma. Em 1976, Walker continua a listar Tenerife e a Madeira entre os melhores locais atlânticos, juntas com a fantástica La Palma. Para além destas ilhas, no hemisfério norte só menciona o Havai. A encumeada Alta, para além do seu potencial astronómico, é também uma zona de enorme valor botânico, com duas espécies endémicas raras (está na Rede Natura 2000) (Flora – Espécies protegidas, raras ou extintas).

Fig5aFig5aa

 Fig5aaa

Fig. 5 – Fotografia da cabana de madeira instalada pela equipa de McInnes em Fuente Nueva, La Palma (em cima, à esq.; foto de Lluís Tomas Roig), como exemplo da que terá existido na encumeada Alta, que tem as suas ruínas mostradas na fig. de baixo (vista para sudeste, da parede noroeste): a lareira ficava ao centro e tinha um cano metálico por cima, para a saída dos fumos para o exterior; a porta de entrada fica à esq.. Em cima, à dir., com ajuda de uma vista de cima destas ruínas (via Google Earth), apresentam-se as partes principais da acomodação na encumeada Alta (o norte fica para cima).
Fig6a  Fig6aa

Fig. 6 – Fotografias dos restos dos dois pilares de betão colocados por McInnes na encumeada Alta para apoio do telescópio que fez as medições do seeing. À esq., o pilar (sul), com os piores resultados (na foto, vê-se também o marco geodésico do ponto mais alto da encumeada Alta, nos 1784m) e à dir., o pilar norte.

McInnes mediu 44% (76%) de noites fotométricas (espectroscópicas) para o Havai, 41% (62%) para a Madeira, 56% (68%) para Tenerife (Izaña) e 53% (81%) para La Palma. Curiosamente, os resultados pré-normalização (devido às diferentes latitudes) colocaram a Madeira em primeiro lugar. Os valores fotométricos das Canárias são excelentes, uma vez que estão no máximo mundial previsível para qualquer local. Quanto ao seeing, a percentagem de noites no ano com valor inferior ou igual a 1” é de 41% em La Palma, 27% em Tenerife, 33% no Havai e 51% na Madeira, ou seja, embora com menos noites limpas por ano, a Madeira tem excelente seeing com mais frequência (quase duas vezes mais em relação a Izaña). A Madeira tem durante 2/3 do ano a camada de inversão com o topo entre os 1000 m e os 2400 m; embora os picos aparentem ser baixos demais (1800 m), os 62% de noites descobertas sugerem que quase sempre estão acima da camada de inversão, nesse período “mais baixo”. No 1/3 do ano (inverno/primavera), a camada de inversão tem o topo mais alto que os 1800 m.

O papel central de James Bennet McInnes nos estudos para o NHO justifica falar um pouco mais sobre a sua pessoa. Nasceu em 1929 em Edimburgo, Escócia, e aí viveu com os pais até 1960, quando casou, mudando-se dentro da mesma cidade. Estudou física na Universidade de Edimburgo, no início dos anos 50, tendo-se dedicado a estudos da aurora boreal. Em 1960, ingressou como experimental officer no Satellite Tracking Group, seguindo satélites artificiais, tendo este grupo, em 1963, transitado para o ROE, antes de McInnes assumir as funções de officer do projeto de medições de seeing para o NHO. Assim que saiu deste, em 1976, McInnes manteve-se no ROE (até 1987), como secretário, a tratar de assuntos administrativos. De outubro de 1987 a abril de 1989, transferiu-se para o RGO, em Sussex, como chefe do pessoal, tendo-se reformado depois, ainda antes da saída definitiva do RGO para Cambridge, em 1990.

Acabou de forma abrupta a estadia dos astrónomos britânicos na Madeira. O estudante Andrew Harry Carter, de 18 anos, faleceu num acidente na encumeada Alta no dia 8 de maio de 1975. Pelo menos, essa é a data oficial, conforme noticiada pelos dois jornais regionais da Madeira (DNM e JM) (Diário de Notícias; Jornal da Madeira) e pela nota de óbito no jornal The Scotsman de Edimburgo, no dia 10 do mesmo mês. Uma concatenação dos dois relatos jornalísticos madeirenses (com algumas pequenas notas extra de testemunhas, ex-bombeiros que participaram na missão de salvamento): “cerca das 3 horas da madrugada, Andrew Carter perdeu a vida ao se despenhar de um rochedo, de uma altura aproximada de 400 metros [na verdade, 20 metros]. Encontrava-se na casa de observação com dois companheiros. Segundo um dos seus dois camaradas, o rapaz sentira-se indisposto e saíra para (tentar) vomitar; desequilibrou-se, caiu da altura de (mais de) 5 metros e fraturou uma perna. Devido ao nevoeiro, não tendo dado conta de que estava à beira dum precipício, Carter, mesmo com a perna partida, tentando endireitar-se e agasalhar-se quis mudar de posição. Voltou-se e caiu no abismo.” (DNM, 1975, 8). Quanto aos pormenores do alerta e salvamento: “Um elemento da missão, Martin Berkeley, deslocou-se ao Posto Meteorológico do Pico do Arieiro tendo alertado os Bombeiros Municipais do Funchal [BMF] e a Polícia de Segurança Pública [PSP] às 6h45 para socorrer Andrew Carter, que havia caído. Após a chegada dos BMF, cuja ambulância ficou no Areeiro à espera do ferido, Martin Berkeley conduziu-os ao sítio onde se encontrava a vítima, pela vereda que liga o Pico do Areeiro ao Pico Ruivo, a partir do meio do percurso com a companhia do médico Dr. Rui Silva, conhecido praticante de montanhismo; [foram] longas horas de caminho, com material às costas [BMF], frio intenso [máxima de 4ºC], nevoeiro cerrado e entre precipícios [seguiram amarrados juntos com uma corda. Nas proximidades do Pico Ruivo, o Dr. Rui Silva seguiu sozinho para o local, à frente de toda a gente, tendo sido o primeiro a chegar e não tendo lá encontrado ninguém; andou à procura do corpo até à chegada dos bombeiros. Pelas 10h30,] os BMF chegaram ao local onde o ferido tinha sido deixado (encostado à casa/abrigo) mas não o encontraram. Foram mais seis horas de trabalho para localizar e remover o cadáver, despedaçado e mutilado. Martin ficou muito perturbado quando viu o corpo do colega. [Houve muita dificuldade em encontrar o corpo no meio dos pedregulhos; foi o Dr. Rui Silva quem o encontrou próximo da casa, já dia claro, sem nevoeiro] e foi depois transportado [numa maca improvisada] pelos bombeiros até ao cemitério de Santana (casota/capela), [a pé até abaixo do pico das Pedras e depois de carro]. Eram já 19h30 quando os bombeiros regressaram aos quartéis. Hoje (dia 9 de maio) será realizada a autópsia à vítima”(Id., ibid., 8 e Id., ibid., 7).

A autópsia foi efetuada no cemitério de Santana sob responsabilidade do Ministério Público de Santa Cruz, constando no Conservatório do Registo Civil de Santana que “Andrew Harry Carter [faleceu às] 20h00 do dia sete de maio [de 1975; causa da morte:] fractura do crânio; […] vai ser sepultado no cemitério de Inglaterra” (ASSENTO DE ÓBITO, 1975). Há, assim, uma discrepância de sete horas entre a hora da morte estimada pela autópsia e a inferida pela informação dada por Martin Berkeley, quando deu o alarme 11 horas depois (pelas 7h). O funcionário da Estalagem do Areeiro mencionou que dois dos astrónomos aí estiveram “na farra” na noite anterior à da desgraça. Bennet McInnes, presumivelmente o “terceiro astrónomo”, não foi visto por ninguém durante todo o tempo de busca e resgate do corpo. Mas escreve, nove anos depois: “Apesar da zona [encumeada Alta] parecer bastante segura, houve lá um acidente fatal. Numa noite escura um observador saiu para uma pequena caminhada, porque se estava a sentir mal e achou que o ar fresco lhe faria bem; infelizmente desequilibrou-se e caiu por uma encosta inclinada. O outro observador localizou-o algum tempo mais tarde, inconsciente e numa posição quase inacessível; fez o que pôde para o manter em segurança e para o manter quente antes de ir buscar ajuda. A equipa de salvamento levou algumas horas a chegar ao local e, quando tal aconteceu, o homem ferido já tinha morrido. Este trágico acidente levou o trabalho na Madeira ao seu término, apenas umas poucas semanas antes [do planeado]” (MCINNES, 1984, 176-177).

O consulado britânico entregou uma placa de reconhecimento aos BMF, em nome do ROE, embora em 2011 tenha afirmado desconhecimento da ocorrência. Infelizmente, também não constam registos desta nos arquivos da PSP nem nos dos BMF. Coincidentemente, a RAS reuniu em assembleia ordinária no dia seguinte ao da morte de Andrew Carter (9 de maio de 1975), 24 horas depois de concluído o resgate do corpo por parte dos BMF. Não há, nas atas da reunião (vide SMITH, 1975), qualquer alusão à morte do malogrado astrónomo. Já o relatório do ROE, relativo ao ano de 1975, não menciona o que quer que seja sobre o NHO – o projeto tinha passado para as mãos do RGO em abril desse mesmo ano, mas ainda havia vários observadores no terreno em 1975 (Madeira, La Palma, Havai).

Pelo relevante papel que teve na recuperação do corpo de Andrew Carter, resume-se aqui a vida do Dr. Rui Silva, que também teve direito a uma placa de agradecimento do ROE. Nasceu a 15 de agosto de 1919 no Funchal e faleceu no dia 7 de dezembro de 2011, com 92 anos. Estudou medicina em Lisboa e exerceu-a no Hospital dos Marmeleiros, no Funchal (Hospitais). Não cobrava as consultas a quem não podia pagar. Dos quatro aos 85 anos, fez da serra o seu passatempo, tendo-se especializado em escalada. Na déc. de 60, dedicou-se à vertente mais técnica desta, quer em cerro, quer em basalto, com a utilização de novos materiais e técnicas e a abertura de vias de acesso a picos madeirenses dificílimos (e.g., Torres e pico do Gato; pico Cidrão; pico das Torres; Torre do Curraleiro; montado do Paredão). Foi um dos maiores escaladores portugueses de todos os tempos. A astronomia não lhe passou ao lado, especialmente por ter um irmão (Rafael) entusiasta desta ciência, que faleceu pouco depois de si. Observou várias vezes a chuva de meteoros das Perseidas do pico Ruivo, em agosto. Uma vez que ajudou à implementação no terreno dos programas de conservação e proteção da Freira-da-Madeira (Fauna – Espécies protegidas, raras ou extintas), em sua homenagem foi inaugurado, em 2012, no pico do Areeiro, o Centro da Freira-da-Madeira Dr. Rui Silva, onde também se expõe parte do seu espólio alpinista.

A redescoberta da Madeira para um observatório astronómico (1994-1996)

Principalmente devido aos planos do Hubble Space Telescope (HST), em 1984-85, a astronomia no solo continuava a ser fundamental a nível mundial, como o demonstra a criação da comissão IAU Commission on Site Identification and Protection. Exatamente nessa mesma altura (1984-1985), arrancou em Portugal a primeira licenciatura em Astronomia (Física/Matemática aplicada) da história do país, na Universidade do Porto (UP), e, a partir de 1987, a JNICT, precursora da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), passou a considerar a Astronomia como uma das áreas científicas com direito a financiamento. No ano seguinte, foi criado o Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP), sob liderança da Prof.ª Teresa Lago. O acordo de pré-adesão de Portugal ao ESO foi assinado a 10 de julho de 1990 (a adesão formal teve lugar em 2001). O país iniciou, de imediato, o treino de novos astrónomos (especialmente no estrangeiro) e criou algumas infraestruturas nacionais (centros de investigação). Uma destas, que constava no acordo de pré-adesão, era a ressurreição do plano de um observatório astronómico na Madeira, desta vez apenas nacional, uma perspetiva muito atrativa e que não devia ser excluída a longo prazo, mesmo que pudesse ser mais vantajoso recorrer a observatórios internacionais que já existiam, como os do ESO. Os editores da Messenger, revista do ESO, congratulavam-se, em junho de 1993, com as verbas nacionais destinadas à astronomia e ainda com os “planos atuais para estabelecer um observatório nacional na ilha da Madeira [aberto à cooperação internacional], considerado uma aposta de relevância nacional e em discussão a nível governamental” (WEST, 1993, 8). Estava prevista uma decisão final nesse mesmo ano, com início da construção em 1994.

De uma forma paralela, aparentemente independente, o Prof. Theodor Schmidt-Kaler (Universidade de Bochum (UB)) esteve ligado a uma proposta para o VLT (12 m) nos anos 80, que não foi implementada; propôs depois, junto com Gerhard Schnur, um grande telescópio alemão, de 10 m, o Deutsches Gross Teleskop (DGT), tendo o apoio governamental chegado em 1986, mas com obrigação do desenvolvimento da indústria na região alemã em torno da mesma universidade. Assim, criou-se o Optical Science and Technology Centre (Optik-Zentrum), que também desenvolveu uma montagem especial para o DGT: uma armação, o próprio tubo do telescópio e os apoios do secundário em fibra de carbono em estilo HexaPod – SVELT ou SVELTE (Six Variably Extended Legs Telescope). Em 1987-89, iniciou-se a lenta construção de um protótipo de 1,5 m de diâmetro, que só ficou concluído em 1994. É nesta altura que a hipótese La Silla é trocada pela Madeira. De facto, de fevereiro de 1992 a maio de 1993, a UB estudou o seeing na África do Sul, em Sutherland, com o método de star-trailing (telescópio Questar de 9 cm, que 20 anos antes fora utilizado na Grécia e em Espanha), de forma a comparar esse local com Gamsberg (Namíbia) e com ESO/La Silla. O objetivo era aí instalar um HexaPod de 3,5 m, mas só 40% das noites tiveram condições para medições, com mediana de seeing 0.5”, comparável com os valores em La Silla medidos em 1971-72 e, pelo menos em número de noites limpas, com os resultados de McInnes para a Madeira. A primeira publicação da UB onde a Madeira é mencionada data de 1993: pretendia-se mais de 200 noites limpas por ano e um excelente seeing para um projeto de monitorização de quasares (de facto, procurava-se um observatório alemão no hemisfério norte que fosse a contraparte do do ESO no hemisfério sul).

Coincidentemente com o trabalho da UB, em 1994, no Joint European and National Astronomical Meeting (JENAM), ironicamente em Edimburgo, a Prof.ª Teresa Lago apresentou o póster “A new observatory in northern europe – Madeira”. De facto, existiam, então, dificuldades para a instalação do VLT no Chile, o que levou o ESO a estabelecer, ainda nesse ano, o grupo de trabalho ESO Search for Potential Astronomical Sites (ESPAS), com a participação da Prof.ª Teresa Lago (até 1996). A proposta de Gamsberg, na Namíbia, estava em cima da mesa e, apesar de o problema do Chile se ter resolvido entretanto, considerou-se pertinente continuar com os trabalhos da Comissão para a promoção de atividades astronómicas entre o ESO e países não-membros. Na reunião do ESPAS de março de 1996, fez a Prof.ª Teresa Lago “uma proposta detalhada, incluindo pormenores do observatório e as infraestruturas associadas no local, bem como a criação de um instituto de investigação de apoio no Funchal, [que] foi submetida em 1995, a pedido do Governo; aguarda-se agora aprovação pelo Ministro, havendo abertura para cooperação internacional, incluindo em projetos de instalação de telescópios” (SARAZIN, 1996, 7).

Entretanto, de 23 a 30 de novembro de 1995, o Prof. Schmidt-Kaler visita, de forma exploratória, três locais na Madeira: pico Ruivo de Santana, encumeada Alta e pico Ruivo do Paul. Foi acompanhado por Josef Gochermann (físico) e Ralf Vanscheidt (matemático), todos da UB. As medições do seeing começaram logo no dia seguinte (Ralf Vanscheidt), e em meados de dezembro foi lançado um anúncio a pedir colaboradores para a campanha (orçamentada em mil contos), que decorreria durante todo o ano civil de 1996 e veio a ser aprovada pelo reitor a 2 de janeiro desse ano. Após o Departamento de Física da Universidade da Madeira (UMa) (Universidade da Madeira) se ter envolvido no projeto (Hanna Nencka, que aí lecionava astronomia), 15 alunos foram divididos em grupos de três: i) Angelino Gonçalves, Dina Vieira e Márcia Marques; ii) Arlindo Cruz, José Laurindo Sobrinho e Rui Baptista; iii) Carla Faia, Irene Freitas e Marco Sardinha; iv) Maria Graça Gomes, Orlando Silva e Sónia Abreu; v) Duarte Gouveia, Duarte Vasconcelos e Sidónio Pestana.

O ano de 1996 iniciou-se com o Prof. Schmidt-Kaler já fora do projeto HexaPod. Em entrevista ao DNM de 7 de dezembro de 1995 (após a semana das visitas exploratórias), este professor tinha proposto o pico Ruivo do Paul como o melhor local da Madeira, “consideravelmente mais adequado do que a zona do Pico Ruivo de Santana” (ROCHA, 1995, 7), onde os ventos e as nuvens eram constantes; haveria turbulência na encumeada Alta, sendo a situação, previsivelmente, melhor no Paul da Serra, com ar estável marítimo inalterado (mar 3,7 km a NNE, de onde também vem o vento; por trás, os ventos podem escapar livremente; nas raras vezes em que o vento sopre de E ou SE, há aí planos suaves cobertos de vegetação; cf. 10 km de distância do mar no caso do pico Ruivo de Santana e encumeada Alta). Os quinze Students Taking Observational Research Measurements (STORM) frequentaram um curso intensivo de iniciação à astronomia, que incluiu o contacto com o telescópio Questar (para medir o seeing) e visitas aos três locais. O plano de trabalhos de cada grupo era o seguinte:

i) estudar, de forma sequencial, cada um dos três locais, em intervalos de cinco dias;

ii) ao final da tarde do dia escolhido, confirmar, com um telefonema para o Instituto de Meteorologia, as boas condições meteorológicas para essa noite;

iii) durante a visita a cada local (toda a noite), fazer duas exposições fotográficas (6 + 6 min.) em três momentos (uma hora antes do nascer e depois do pôr-do-Sol; outro a meio da noite), de forma a medir o seeing (graças a uma de 26 estrelas previamente selecionadas por passarem mais próximo do que 10º do zénite); em simultâneo, registar dados meteorológicos (temperatura, humidade, direção do vento) e, se possível, estimar o número de horas “boas” para observações;

iv) enviar a película para digitalização e processamento na UB.

Mas as coisas começaram mal: os primeiros três meses de 1996 passaram sem disponibilidade de transporte nem de equipamento para a equipa STORM. Foi o Centro de Ciência e Tecnologia da Madeira (CITMA) a apoiar o projeto com uma tenda, sacos-cama, mantas térmicas, lanternas, mochilas, botas de montanha e impermeáveis, resolvendo o problema do transporte mediante a contratação de um serviço de táxi: o motorista, Sr. Abreu, acabou por ser a pessoa que mais vezes foi aos locais estudados. Finalmente, a 1 de abril iniciaram-se as observações.

A interseção/colisão entre os planos do ESO/ESPAS/Prof.ª Teresa Lago e a UB (Ralf Vanscheidt) tornou-se evidente com um telefax urgente enviado por este a 15 de julho de 1996, a solicitar ao STORM o ponto de situação, após contacto da Prof.ª Teresa Lago, como representante da comunidade astronómica portuguesa: a UB precisava de informações detalhadas para conseguir apoio nacional para o projeto, assumido até então como uma “iniciativa pessoal”; foi-lhe exigida a confirmação do envolvimento da comunidade astronómica portuguesa no projeto e “a Prof. Lago [deu] conta de ainda não estar envolvida ou ao corrente do que se está a passar. Gostaria de saber quem são os responsáveis pelas medições na Madeira” (VANSCHEIDT, 1996). Ralf Vanscheidt pediu os negativos com observações feitas até a data, um relatório sobre o estado do equipamento e informações sobre os apoios recebidos da UMa e do CITMA. O pacote completo foi-lhe enviado pelo STORM até ao final de julho. Como se não bastassem os “problemas políticos”, em setembro de 1996 começaram a surgir problemas graves de equipamento que não permitiam fazer observações: nem a máquina fotográfica, nem o sensor de temperatura funcionavam bem. O projeto foi então suspenso, uns meses mais tarde, de forma definitiva. De facto, a 11 de dezembro, a então responsável pela astronomia na UMa, Hanna Nencka, reuniu com Laurindo Sobrinho. Na sequência da reunião, este redigiu uma ata, divulgada por toda a equipa STORM, onde se manifestavam as intenções de Hanna Nencka em levar ao reitor uma proposta para criação de um Grupo de Astronomia para continuar as medições de seeing de forma autónoma (com apoio científico de Marek Demianski e equipamento próprio) e ainda a opinião de que “não podem ser só os alemães ou os continentais a tomarem conta de tudo. O observatório deve ser internacional e a UMa deve ter a sua quota parte de participação […] Congelar o envio de dados e informações para a Alemanha até que a situação seja esclarecida.” (Ata, 1996). Também se propunha divulgar a astronomia nas escolas para aumentar o número de alunos de física. A questão ficou arrumada quando numa entrevista ao DNM, publicada no dia 17 de dezembro de 1996, o ministro da Ciência e Tecnologia, Prof. Mariano Gago, afirmou que a construção do observatório na Madeira era, para já, inviável, mesmo não estando em causa as condições oferecidas pela Madeira (tão boas como as das Canárias), mas sim o “interesse da comunidade astronómica internacional” (ROCHA, 1996, 6), não parecendo ser o momento certo para avançar com o observatório. Após uma sondagem por 17 instituições e organismos governamentais na Europa, EUA e países do hemisfério sul, as respostas obtidas (da parte de alguns deles) em relação a uma eventual utilização do observatório foram todas negativas (por estarem em contenção e indisponíveis para dispensar pessoal para a Madeira, não conseguindo sequer assegurar estruturas semelhantes nos respetivos países), aparentando não ser (ainda) necessário um observatório na Madeira. Esta conclusão estava em nítido contraste com o otimismo do Prof. Schmidt-Kaller um ano antes, quando disse que “a comunidade científica internacional provavelmente disputará a possibilidade de utilizar um telescópio na Madeira” (ROCHA, 1995, 7). O Ministro disse ainda aguardar resposta das instituições em falta antes de tomar uma decisão final (prevista para março de 1997). Acrescentou que “a qualificação científica da Madeira como novo local apropriado para observações deve prosseguir até ao fim, para se obterem dados totalmente conclusivos” (ROCHA, 1996, 6). Para o ministro não era provável que a situação de desinteresse internacional mudasse até 2006. É curioso que já em junho de 1994 o Prof. Ferraz-Mello (IAU e Observatório de São Paulo) tinha proposto oito anos de medições na Madeira para a demonstrar como um bom local.

No final de 1997, a UB exigiu o envio de todo o equipamento que era sua pertença. Na sequência de tudo isto, a Madeira nunca conseguiu entrar na Site List para o Extremely Large Telescope (ELT) do ESPAS, mantendo-se, até abril de 1997, como “site not yet investigated”. A não continuidade do projeto Madeira tornou-se evidente em 2000, quando já não aparece a Prof.ª Teresa Lago na lista de membros da ESPAS. Nesse mesmo ano, a Madeira também já não é mencionada como estando associada ao projeto HexaPod da UB. Com os seus próprios percalços, este só foi instalado no Chile (Cerro Armazones) em 2006. Como testemunha das intenções da altura, cinco das salas da UMa, as siglas IAF (Instituto de Astronomia do Funchal), nomeadamente na Sala do Senado (fig. 7).

Fig7
Fig. 7 – Fotografia da Sala do Senado da UMa – Penteada com iniciais do Instituto de Astronomia do Funchal (IAF), que nunca foi criado.

A prevista instalação do observatório astronómico na encumeada Alta incluía a construção de uma estrada de acesso, desde a achada do Teixeira. Este ponto terá também colidido de forma crítica com os interesses ambientalistas de boa parte dos atores em todo o processo. Quanto a resultados, só foram observados cinco meses, de 1 de abril a 31 de agosto de 1996, de forma contínua (106 saídas): 57% das noites foram limpas no pico Ruivo de Santana, 50% na encumeada Alta e apenas 39% no pico Ruivo do Paul. Sem apresentar dados concretos, a UB mencionou maus valores de seeing, atribuindo-os à instabilidade da montagem devido ao vento, dizendo não ter feito uma análise quantitativa como deveria ser por terem faltado os apoios.

A astronomia na Madeira no virar do século (1998-2013)

O terceiro estudo na história da ilha acerca das condições do céu noturno e do seeing foi feito de 1 de fevereiro de 2008 a 5 de março de 2009 (58 semanas, ao longo de 13 meses completos). Desta vez, oito locais tiveram uma visita semanal (zona A), quinzenal (zonas B e C) ou mensal (B2 e B3) (figs. 8a,b). Ilídio Andrade, então aluno do curso de Astronomia, e Pedro Augusto foram os observadores. Foi um projeto de “elevado esforço físico e intelectual em que nunca se voltou para trás” (ANDRADE, 2009, 14): as deslocações eram feitas em automóvel e a pé, com o total de cerca de 80 itens (50kg) de equipamento repartido pelos dois observadores.

Fig8
Fig. 8 – a): Os oito locais estudados, em três zonas (A, B e C) (ANDRADE, 2009, 36).

 

 

 

Fig8a Fig8aa Fig8aaa Fig8aaaa Fig8aaaaa Fig8aaaaab Fig8aaaaaba Fig8aaaaabaa

Fig. 8 (cont.) – b): Fotografias dos oito locais (em todos, a vista é para norte). Da esq. para a dir. e de cima para baixo (rodado), incluindo altitudes: A1 – Juncal (1796m); A2 – achada Grande (1580m); B1 – achada do Teixeira (1590m); B2 – encumeada Alta (1784m); B3 – pico Ruivo de Santana (1862m); C1 – Loiral (1403m); C2 – pico Ruivo do Paul (1640m); C3 – Bica da Cana (1620m) (ANDRADE, 2009, 39-42).

Os estudos de campo, de facto, começaram no dia 13 de novembro de 2006, com a simulação diurna dos primeiros percursos combinados (de automóvel e a pé). Durante mais de um ano, prepararam-se as visitas formais, medindo o horizonte em todos os locais, construindo a base elevatória, decidindo a estratégia para o transporte do material (tendo-se inventado um saco/mochila especial para o efeito, com 354 l de capacidade) e definindo o setup mais adequado para que as observações tivessem sucesso (fig. 9), para além de estimar o seu tempo total (cerca de 70 min.). A preparação de cada saída começava dois dias antes, com o carregamento de todas as pilhas e baterias e, já no próprio dia, com a colimação e alinhamento do telescópio e a verificação das previsões meteorológicas (modelos) no site do Instituto de Meteorologia.

 

Fig9
Fig. 9 – Setup para as medições do seeing: 1 – Telescópio Mizar; 2 – Base elevatória; 3 – CCD; 4 -Barlow 3X com filtro Johnson B (azul); 5 – Bateria de 12V/20Ah (7kg); 6 – Adaptador para isqueiro de automóvel; 7 – PC portátil; 8 – Grampo universal para segurar telescópio à montagem (funcionando como contrapeso a todo o equipamento colocado no lado oposto); 9 – Ferros para prender a base ao solo (com a ajuda de areia, que se coloca por baixo da base). Utiliza-se uma ocular de 25mm para focar o telescópio antes de colocar a CCD (em 3), uma bússola para o apontar para norte (Estrela Polar) e um nível de bolha para garantir que a base fica horizontal (adaptado de ANDRADE, 2009, 67).

O método utilizado para as medições de seeing foi o de Walker (exposição com um detetor eletrónico CCD de trilhos da Estrela Polar – fig. 10), mas para se conseguir visitar, numa mesma noite, vários locais, inventou-se uma plataforma especial para o telescópio (figs. 11 e 12): leve, sólida, rígida (não oscilando para ventos inferiores a 50 km/h) e flexível (várias latitudes/inclinações). Para além da medição do seeing, registava-se também a temperatura e humidade relativas do ar, a velocidade e direção (qualitativas) do vento e recolhia-se ainda informações qualitativas sobre a cobertura de nuvens. Foi também medido o brilho do céu noturno (direções zénite; a 45º de elevação para o Norte, Sul, Este e Oeste – fig. 13), a partir de 4 de abril de 2008. Os resultados destas observações feitas até 26 de setembro (seis meses) só são em bom número para o Juncal (A1) e a achada Grande (A2): valor típico de 21.0 mag/arcseg2 para o Zénite, Norte e Oeste, ficando as outras duas direções 0.5 magnitude mais brilhantes (devido à zona litoral Funchal – Santa Cruz – Machico). Isto significa que a Madeira tem algo a melhorar para se classificar, pelo menos, com “bom” no que respeita ao brilho do céu noturno (21.5 mag/arcseg2).

   a)                                                                              b)

Fig10          Fig10a

Fig. 10 – Exposição de 5min. de um trilho da Estrela Polar. Há saturação, já que cada pixel é exposto durante 4 segs. a) Imagem obtida pela CCD; b) Percurso da Estrela Polar em relação à parábola teórica: é a partir da diferença que se calcula o valor do seeing (adaptado de ANDRADE, 2009, 66 e 98).

 

Fig11
Fig. 11 – Fotografia do telescópio Mizar Tal-1 da UMa, refletor newtoniano com 11cm de diâmetro, utilizado nas medições.

 

a)                                                                  b)

  Fig12 Fig12a

Fig. 12 – a) A base elevatória vista de lado; note-se os dois parafusos que controlam o ângulo de inclinação (até 2.5º); b) pormenor da cama almofadada da base elevatória, onde o telescópio Mizar assenta perfeitamente. Fonte: ANDRADE, 2009, 53 e 57.

 

Fig13
Fig. 13 – Base, construída por Andrade e Augusto, de apoio ao medidor do brilho do céu, conferindo-lhe 45º de inclinação (no caso da fig.). Também pode ser colocado em posição vertical, encostando-o ao plano inclinado, na sua face mais próxima (ANDRADE, 2009, 186) – medição do Zénite.

No período de 1 de fevereiro de 2008 a 5 de março de 2009, as noites boas (fotométricas + espectroscópicas) foram, em percentagem, as seguintes, para cada local: Juncal (41%+4%), achada Grande (27%+7%), achada do Teixeira (27%+0%), encumeada Alta (39%+0%), pico Ruivo de Santana (35%+0%), Loiral (29%+0%), pico Ruivo do Paul (32%+0%) e Bica da Cana (25%+0%). Há, assim, uma clara diferença entre os locais, sendo os mais baixos os piores (~1600m; incluindo o “candidato dos anos 90” pico Ruivo do Paul), com valores de 25-34%. Mas só um dos mais altos (~1800m) se destaca, o Juncal. De facto, quer o pico Ruivo de Santana, quer a consagrada encumeada Alta têm valores algo baixos. Quanto ao vento, este só teve a direção estimada de 4 de julho de 2008 a 5 de março de 2009 (8 meses). Como esperado, o vento de norte domina em todos os locais (num mínimo de dois terços das vezes, o vento sopra de N, NW ou NE). Finalmente, o seeing, este foi medido durante os 13 meses. Dos 36 trilhos obtidos, 26 (72%) foram-no em condições fotométricas. Os resultados só são estatisticamente significativos para os seguintes três locais (medianas com erros): Juncal (2.2”±1.6”), achada Grande (2.0”±1.8”) e achada do Teixeira (1.9”±1.4”). Estes valores são equivalentes a cerca de 1” num telescópio de 2 m de diâmetro. Acresce que até 3 m de altura do solo pode haver efeitos perturbadores da atmosfera (seeing local), pelo que estes valores têm de ser considerados conservativos, possivelmente pecando por excesso.

As ondas rádio, como a luz visível, fazem parte do espectro eletromagnético, mas são invisíveis ao olho humano, tendo comprimentos de onda da ordem dos centímetros aos metros. São detetáveis com equipamento específico, acoplados a radiotelescópios, cuja forma típica é uma antena parabólica. Devido aos longos comprimentos de onda, a resolução dos radiotelescópios é baixíssima, razão por que se desenvolveu a técnica da interferometria, em que vários, em conjunto, observam o mesmo objeto no céu, com resolução equivalente à de uma parabólica com o diâmetro da distância máxima entre os elementos. Contudo, o poder coletor continua a ser proporcional apenas à soma das áreas das parabólicas utilizadas.

A Very Long Baseline Interferometry (VLBI) utiliza radiotelescópios espalhados pelo planeta, conseguindo resoluções 50 vezes melhores do que a do HST, que está no espaço. Em particular, a European VLBI Network (EVN) centra muitas antenas na Europa, mas combina-as com outras na África, Ásia e até na América (Porto Rico). Um radiotelescópio na ilha da Madeira seria uma grande oportunidade para aumentar a qualidade destas observações ao permitir reduzir a falha do meio-Atlântico que está presente em observações atuais com o VLBI (fig. 14). Os radiotelescópios, por serem tão sensíveis, devem ser colocados em locais remotos, longe de interferência, idealmente em vales em altitude, não muito cavados (horizontes amplos, sem obstáculos visuais de altura superior a 0º a toda a volta) e pouco expostos a ventos fortes (velocidades médias inferiores a 50 km/h ou a 70 km/h, no caso de rajadas).

 

Fig14
Fig. 14 – O EVN tem o grosso das suas 18 antenas na Eurásia. A mais ocidental destas está em Madrid (Ro). Para se chegar à seguinte, para oeste, tem de se saltar o Atlântico, até Porto Rico (Ar). Existe uma antena no hemisfério sul, na África do Sul (Hh). Seria muito útil colocar uma antena na Madeira (Ma) para reduzir a infame falha do meio-Atlântico. Fonte: AUGUSTO, 2011, 16.

Na ilha da Madeira, após uma seleção inicial de sete locais feita por peritos em 1999 (Roy Booth, Richard Davis, Gavril Grueff), entre 2003 e 2007 foi estudada no terreno a meteorologia, a interferência rádio e o perfil de horizonte de três locais candidatos: nenhum ultrapassou 36 km/h em rajadas de vento; todos com bons horizontes; dois (no concelho do Porto Moniz, a 1200 m de altitude) não têm interferência rádio relevante (20 vezes melhores que as recomendações mínimas da International Astronomical Union (IAU) para um rádio-observatório), revelando-se com excelente potencial para a instalação de uma antena VLBI. Uma grande vantagem da Madeira, e.g. em relação aos Açores, é ser sismicamente estável, vulcanicamente inativa e virtualmente imune a furacões. Mesmo sem radiotelescópio, em 1999, durante a tempestade de meteoros das Leonidas, fizeram-se observações no rádio na Madeira (utilizando antenas de automóveis).

A UMa, fundada em 1988, abriu vagas para as estreantes licenciaturas em Física – ramo de Ensino e Física – ramo de Investigação logo no ano letivo de 1990-1991, mas só em 1992-1993 o corpo docente foi reforçado com quatro professores estrangeiros, passando então a ser oferecida aos alunos do ramo ensino a cadeira de Introdução à Astronomia. Mas houve outras cadeiras de física com componentes astronómicas (estudo e construção de pequenos telescópios, buracos negros e estrelas de neutrões), tendo a Prof.ª Teresa Lago, em 1994, apresentado um seminário sobre estrelas na UMa.

Houve várias consequências colaterais da existência do projeto STORM na Madeira em 1996. A apresentação de um póster no 6.º Encontro Nacional de Astronomia e Astrofísica (ENAA), que até conseguiu o título de Melhor Póster, mostrou a Madeira ativa em astronomia. Levaram-se alunos do 8.º ano de físico-química a uma sessão de observação no pico Ruivo, incluindo pernoita. Fizeram-se várias observações do cometa Hale-Bopp no início de 1997 (pico Ruivo de Santana). Ainda a colaboração na divulgação da astronomia, participando ativamente no programa Astronomia no Verão do Ciência Viva.

A astronomia solidificou-se de vez na Madeira no início de 1998, após a contratação do primeiro doutor na área pela UMa (Pedro Augusto). Este iniciou o trabalho com pedidos de financiamento interno (UMa) e externo (FCT), que tiveram sucesso: telescópio de 30cm de diâmetro e detetores CCD adquiridos em 1999, observatório astronómico, estudo para um radiotelescópio e projeto científico em galáxias ativas com equipa hispano-heleno-britânica nos anos imediatos (2000 a 2004). Com a contratação de um assistente (Laurindo Sobrinho) e a permanência na UMa de vários bolseiros, em junho de 2000 foi formalmente criado o Grupo de Astronomia (GAUMa) (Grupo de Astronomia da UMa) dentro do Departamento de Matemática da UMa. Este teve a particularidade de abrir as suas portas a interessados em astronomia em geral (e.g., professores dos ensinos básico e secundário), inclusive a astrónomos amadores. O repto não foi acolhido por alguns destes, que formaram, em 2001, o Núcleo Regional da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores (APAA). No entanto, as relações entre o GAUMa e a (mais tarde) Associação de Astrónomos Amadores da Madeira (AAAM) foram sempre sãs. Logo a começar, a 8 de setembro de 2001, houve uma colaboração conjunta entre o GAUMa, a AAAM e uma equipa internacional liderada por dois astrónomos profissionais (W. Hubbard e R. Hill, do Lunar & Planetary Laboratory (LPL) da University of Arizona) para a observação de uma ocultação de uma estrela pelo satélite Titânia de Urano (saiu em 2009 uma publicação com 153 autores, quatro dos quais associados à Madeira – três amadores e um profissional).

Em julho de 2000, no X ENAA, é aprovada a organização do XI ENAA pela UMa, no Funchal, a ter lugar em 2001. Em setembro de 2000, chega uma tonelada e meia de livros e revistas do Reino Unido, que constituiu a base da Biblioteca de Astronomia e Astrofísica da UMa, tendo por doador principal o Prof. Emérito Rod Davies (Jodrell Bank Observatory): nos começos do séc. XXI, a Biblioteca tinha mais de 6000 volumes, quase todos em inglês, incluindo os primeiros volumes de várias revistas (e.g., Monthly Notices of the Royal Astronomical Society), o que fazia dela uma das mais importantes bibliotecas de astronomia do país (fig. 15).

Fig15
Fig.15 – A maior parte  da coleção de Astronomia da UMa foi instalada, em 2000, na sala de documentação do Centro de Competência de Ciências Exatas e da Engenharia.

Foi, assim, entre todo este frenético ambiente que, em 26 e 27 de julho de 2001, se realizou na UMa o XI ENAA, tendo sido na sua sessão de abertura publicamente autorizada a instalação do Observatório Astronómico na encumeada Alta pelo Presidente do Governo Regional da Região Autónoma da Madeira (RAM), com as palavras: “a região não é rica e tem poucos recursos […], tem de procurar novas estratégias de desenvolvimento” (FREITAS, 2001, 9). Ainda na sequência do XI ENAA, em outubro de 2001, escrevia-se no DNM que até os Açores já tinham um observatório, sendo que a Madeira tem céus com melhor qualidade, criticando-se também o GRM por relegar o local para fora da encumeada Alta (que foi o que, de facto, aconteceu, tendo sido proposta a achada do Teixeira). Ao XI ENAA veio a grande maioria dos astrónomos profissionais do país, especialmente graças aos apoios conseguidos para suportar integralmente o custo das viagens e a estadia de todos os participantes (fig. 16). O XI ENAA foi, também, um excelente pretexto para lançar as, desde então, anuais Semanas da Astronomia: durante uma semana, faz-se o encontro com o público com sessões de observação diurnas e noturnas, palestras, exposições, filmes e outras atividades (abertos ao público em geral e/ou estudantes). Durante muitos anos, a Semana de Astronomia encerrou com uma AstroFesta durante toda a noite na achada do Teixeira (fig. 17). A fama das Semanas da Astronomia já extravasou Portugal, especialmente após a publicação de um artigo em revista internacional sobre as mesmas.

Fig16
Fig. 16 – Fotografia de grupo dos participantes no XI ENAA no exterior do edifício da UMa – Penteada.

 

 

Fig17
Fig. 17 – Fotografia da primeira Astrofesta na história da Madeira, realizada em 19 e 20 de julho de 2002.

No ano letivo de 2001/2002, com o acordo de seis unidades da UMa e tendo por mentor Pedro Augusto, iniciou-se nesta universidade a Licenciatura em Engenharia de Instrumentação e Eletrónica – Ramo de Astronomia, tendo sido, inclusivamente, amplamente divulgada pelo DNM, de janeiro a julho de 2002, em separatas mensais sobre a UMa. Estas incluíram uma breve descrição da investigação em astronomia na UMa, numa altura em que o GAUMa tinha sete elementos remunerados. Pretendia-se criar um Centro de Astronomia de razoável dimensão. Os projetos do GAUMa, de instalação de um observatório na achada do Teixeira destinada a alunos e ao público em geral, do curso inédito na UMa e o projeto do radiotelescópio foram também publicitados em 2002, num artigo de fundo do referido jornal.

Em março de 2004, o texto “Observatório por um Canudo” (PASSOS, 2004, 7) fez manchete na imprensa madeirense, pois aquele ainda aguardava armazenado a sua instalação na achada do Teixeira, desde abril de 2001, faltando apenas 2500 €, “que a Universidade disse não ter” e que “em 2002 a Câmara de Santana […] afirmou resolver em 15 dias. […] Potencial de observação desaproveitado [e] perda de um pólo de desenvolvimento científico” (Id., ibid.,). De facto, uns meses antes, um projeto de investigação financiado pela FCT, que incluía cientistas ucranianos, foi cancelado devido à inexistência do observatório. Dois meses depois, uma base de betão e uma vedação foram finalmente colocadas pela Câmara de Santana na achada do Teixeira e o observatório astronómico efetivamente montado pela UMa a 14 de outubro de 2004. Contudo, a cúpula foi destruída cinco dias depois de ter sido montada, devido à força do vento (160 km/h). Felizmente, tinha sido feito um seguro, mas o novo observatório volta a aguardar, agora desde julho de 2006, nova instalação na achada do Teixeira. Foi também a partir de 2006 que o GAUMa se colocou à disposição do público de expressão portuguesa do mundo inteiro, criando a secção “Pergunte ao Astrónomo” na sua página da Internet. Em abril de 2014, esta secção comportava quase 200 respostas a milhares de perguntas comuns que têm sido feitas ao GAUMa.

Em junho de 2007, foi inaugurado o Laboratório de Astronomia e Instrumentação da UMa (LAI), que se destina a armazenar equipamento e a ser utilizado para apoio às atividades do GAUMa, bem como a aulas de astronomia em vários cursos da UMa. Entre os visitantes ilustres que o LAI já teve, destacam-se a Prof.ª Teresa Lago, em 2007, e o casal Prof. Rod e Mrs. Beth Davies, em 2008.

Para a promoção de discussões científicas internas no GAUMa, de outubro de 2006 a abril de 2012, realizaram-se 28 Sextas Astronómicas, as quais começavam sempre por um tema quente discutido ao jantar, prosseguindo-se a noite, conforme o estado do tempo, ou com observações com os telescópios/equipamento do GAUMa (com o objetivo de o utilizar de novas formas – fig. 18), ou com trabalho no LAI, usualmente para aprofundamento do tema científico em pesquisas bibliográficas e online, ou para estudo/melhoria de equipamento. Começaram por ter uma frequência mensal (última sexta-feira de cada mês), mas nem sempre se conseguia o quórum de três pessoas. O Ano Internacional da Astronomia 2009 (Ano Internacional da Astronomia) na RAM implicou uma paragem das “Sextas Astronómicas” desde meados de 2008 até ao início de 2010, sendo que, após uma média bimestral em 2010 e 2011, desde novembro de 2013 só se realizaram mais dois eventos destes (separadas por um mês, em março e abril de 2012).

Fig18
Fig. 18 – A 27 de outubro de 2007, o asteróide Pallas foi identificado de forma inequívoca em imagens em bruto com a CCD e o telescópio Meade do GAUMa. As magnitudes astronómicas de Pallas e de duas estrelas de referência são indicadas entre parêntesis.

Em 2011, doutorou-se Laurindo Sobrinho na especialidade de Física matemática, com uma tese sobre buracos negros. Desta forma, assegurou-se a continuidade de pelo menos um doutorado profissional da área da Astronomia na Madeira (UMa), em permanência desde 1998. Já lá vão 16 anos seguidos, numa universidade que comemorou em 2014 os 25 anos de idade.

Astronomia amadora

Tradicionalmente, os amadores de astronomia dedicam-se à observação dos objetos celestes mais brilhantes a olho nu (planetas, nebulosas, cometas e estrelas brilhantes), mesmo que recorrendo a binóculos e telescópios. Estes tornaram-se acessíveis aos amadores da RAM a partir dos anos 60 do séc. XX. Por esta altura, na comunicação social madeirense abundavam fotos de objetos astronómicos captadas pelos grandes observatórios mundiais de então, e os amadores da RAM começaram também a dedicar-se à fotografia, acoplando máquinas fotográficas aos seus telescópios. Mesmo assim, como os comerciais eram caros por serem construídos de forma quase artesanal, restava-lhes penosamente construir o próprio telescópio, muitas vezes recorrendo aos vidros das vigias dos navios. Abrasivos, pez, óxido de ferro em pó e placas de cera de abelhas eram utilizados no seu polimento e o espelhamento era feito com nitrato de prata. O processo completo poderia levar muitos meses.

Houve três pioneiros madeirenses na construção de telescópios: i) Rui Aguilar Antunes, em conjunto com seu tio, Raul Camacho (1962 a 1966). Tendo sido pioneiro na RAM, Rui Aguilar prosseguiu nesta atividade durante muito tempo e nos começos do séc. XXI tinha cerca de 10 no seu portfólio (e.g., um refletor newtoniano de 31 cm de diâmetro – fig. 19); ii) Toríbio Câmara, já falecido, construiu um telescópio refletor newtoniano de 20 cm de diâmetro no início da déc. de 70; iii) De 1965 a 1971, Luís Vasconcelos Gomes Barreto construiu oito telescópios (fig. 20), um deles de tipo Cassegrain, um feito complexo, pois o espelho secundário tem uma superfície hiperbólica. Em janeiro de 1971, o JM publicou uma entrevista com este astrónomo, incluindo uma foto sua da Lua na primeira página. Na altura, dedicava-se também à venda de telescópios por ele construídos a entusiastas madeirenses para “observações [pois que] para a construção de telescópios exige-se paciência e perseverança”. Mencionou, ainda, pretender fundar uma associação de amadores (de notar que a APAA só foi fundada em 1976) e que “acharia oportuna a construção de um observatório público” apesar do “ceticismo do público madeirense em geral [perante a astronomia]” (ABREU, 1971, 5).

Fig19
Fig. 19 – Fotografia do primeiro telescópio construído na Madeira (1962-1966) por Rui Aguilar e Raul Camacho. Foto de Rui Aguilar.

 

Fig20
Fig. 20 – Fotografia do terceiro telescópio construído por Luís Barreto, nos anos 70 do séc. XX (com o próprio ao lado).  Foto de Luís Barreto.

 Em 1996, iniciou-se em Portugal o programa Astronomia no Verão, promovido em todo o país pelo Ciência Viva, uma iniciativa de divulgação da ciência do Ministério da Ciência e do Ensino Superior. O programa iniciou-se na Madeira e em Porto Santo pela mão de Máximo Ferreira, responsável pelo Museu de Ciência da UL. De facto, foram oferecidos, por este museu, telescópios Mizar, como o que a UMa possui (fig.11), a escolas da Madeira (e à UMa) com o objetivo principal de dinamizar a Astronomia no Verão, mas também apoiar outras atividades durante o ano. Fernanda Freitas, professora de físico-química e uma entusiasta pela astronomia, foi em 1996-1997 orientadora de estagiárias do curso de Ensino de Físico-Química da UMa, tendo chegado a pertencer ao respetivo Departamento de Química. Foi a ela que coube acolher o Mizar na universidade (trazido por Máximo Ferreira em abril de 1997) e dinamizar a Astronomia no Verão na Madeira logo a partir desse ano, com a ajuda de alguns elementos do STORM. No Porto Santo, ficou responsável Maria José Vital, da respetiva Escola Básica e Secundária, de 1998 a 2000, após uma primeira visita de Máximo Ferreira (com apoio de elementos do STORM). A partir de 2001, a organização da Astronomia no Verão em toda a RAM passou para as mãos da AAAM.

A progressiva facilidade de aquisição e acessibilidade económica de telescópios de grande qualidade (e.g., Celestron e Meade) fizeram desmoronar o interesse mundial pela construção destes aparelhos (Madeira incluída), mas não o interesse pela astronomia amadora na RAM.

De facto, em 2001 é fundado o Núcleo Regional da APAA, destinando-se à divulgação da astronomia nas escolas e junto do público da RAM em geral. E apenas dois anos mais tarde este transforma-se na AAAM, com primeira Assembleia Geral realizada a 22 de fevereiro de 2003, “tendo em vista dar um maior impulso à astronomia, em parceria com instituições similares” (GÓIS, 2003, 15). Em 2006, foi inaugurada uma sede da AAAM no Madeira Magic (Funchal), aí tendo funcionado durante uns anos. A partir de 2009, aproveitando o Ano Internacional da Astronomia, as atividades da AAAM e do GAUMa começaram a ser quase sempre comuns. A Semana da Astronomia, p. ex., já é partilhada desde então e a colaboração é constante ao longo do ano, para atividades de divulgação.

Bibliog. impressa: AA.VV, Histoire de L’Académie Royale des SciencesAnnée MDCCLXXII. Seconde Partie. Avec les Mémoires de Mathématique & de Physique, pour la Même Année, tirés des registres de cette Académie, Paris, Imprimerie Royale, 1776; ABREU, A., “Sob o signo dos astros… Os ‘amadores’ da Astronomia constroem ‘galáxias’ de ambição! Cada vez mais longe é o lema ditado pelos vidros dos telescópios – uma entrevista com Luís de Vasconcelos Barreto”, Jornal da Madeira, 31 de jan. de 1971, p. 5; ANDRADE, I. G., Medições do Seeing em Oito Locais da Ilha da Madeira e seu Estudo Comparativo, Relatório de Projeto da Licenciatura em Engenharia de Instrumentação e Electrónica (ramo de Astronomia) apresentado à Universidade da Madeira, Funchal, 2009; ASSENTO DE ÓBITO n.º 37, mç. n.º 3, registo no “Diário” sob o n.º 3024, Conservatória do Registo Civil de Santana, 11h30, 12 de maio de 1975, declarante João Carlos Pereira Ferreira de Andrade, conservador António David Mendes de Sousa e Freitas; ATA da reunião de Laurindo Sobrinho (STORM) com a responsável pela astronomia na UMa (Hanna Nencka), assinada por todos os 15 elementos do grupo STORM, 11 de dez. de 1996; AUGUSTO, P., “Procura de um Local para um Rádio Telescópio na Ilha da Madeira”, Gazeta de Física, vol. 34, 2011, pp. 14-18; BRÜCK, H. A., “Royal Observatory, Edinburgh”, Quaterly Journal of the Royal Astronomical Society, vol. 15, 1974, pp. 38-49; COULMAN, C. E., “Fundamental and Applied Aspects of Astronomical ‘Seeing’”, Annual Review of Astronomy and Astrophysics, vol. 23, 1985, pp. 19-57; DES CILLEULS, J., “Les Grands Voyages de Jean Mocquet, Apothicaire du ‘Cabinet des Singularitez’ de Louis XIII aux Tuileries”, Revue d’Histoire de la Pharmacie, 49e année, n.º 168, 1961, pp. 10-17; DISNEY, M. J., “New Techniques and Telescopes in Optical Astronomy”, The Observatory, vol. 101, 1981, pp. 133-142; E.M., Diário de Notícias (Madeira), 9 de maio de 1975, p. 8; FERREIRA, M., Para a História da Astronomia em Portugal, Lisboa, CTT – Correios de Portugal, 2002; FREITAS, S., “Observatório regional recebe ‘luz verde’”, Diário de Notícias (da Madeira), 27 de jul. de 2001, p. 9; GÓIS, F., “As Estrelas Variáveis”, Revista Mais (Suplemento Diário de Notícias da Madeira), 2 de mar. de 2003, p. 15; GREEN, N. E., “Observations of Mars Made at Madeira, August and September 1877”, Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, vol. 38, 1877, pp. 38-42; Id., “Observations of Mars, at Madeira, in August and September 1877”, Memoirs of the Royal Astronomical Society, vol. 44, 1879, pp. 123-140; HARLAN, E. A. e WALKER, M. F., “A Star-Trail Telescope for Astronomical Site-Testing”, Publications of the Astronomical Society of the Pacific, vol. 77, 1965, pp. 246-252; HUNTER, A., “Whatever Happened to British Optical Astronomy?”, Journal of the British Astronomical Association, vol. 86, 1976, pp. 192-202; Jornal da Madeira, 9 de maio de 1975, p. 7; LAVAL, A. F., Voyage de la Louisiane fait par ordre du Roy en l’année mil sept cent vingt […], Paris, J. Mariette, 1728; MARTÍN, E. L., Historia del Departamento de Astrofísica de la Universidad de La Laguna, San Cristóbal de La Laguna, Instituto de Astrofísica de Canarias, 2009; MCINNES, B., “Site Testing on Havai, Madeira and the Canary Islands”, Quaterly Journal of the Royal Astronomical Society, vol. 22, 1981, pp. 266-271; Id., “Astronomy from Mountains”, The Alpine Journal, 1984, pp. 173-178; MCKIM, R., “Mars at its Nearest: E.A.L. Attkins on Madeira, 1924”, Journal of the British Astronomical Association, vol. 113, 2003, pp. 196-200; NEPOMUCENO, R., Uma Perspectiva da História da Madeira, Funchal, s.n., 2003; PASSOS, E., “Observatório por um Canudo”, Diário de Notícias (da Madeira), 30 de mar. de 2004, pp. 1 e 7; PIAZZI SMYTH, C., Madeira Spectroscopic: Being a Revision of 21 Places in the Red half of the Solar Visible Spectrum […], W. & A. K. Johnston, Edinburgh, 1882; ROCHA, L., “Observatório Astronómico Deve Ficar no Paul da Serra”, Diário de Notícias (da Madeira), 7 de dez. de 1995, p. 7; Id., “Observatório Astronómico sem Viabilidade na Madeira”, DNM, 17 de dez. de 1996, p. 6; SARAIVA, J. H., História de Portugal, Lisboa, Publicações Alfa, 1993; SILVA, Fernando Augusto da e Menezes, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., 3 vols., Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1978; SMITH, F. G., “Meeting of the Royal Astronomical Society – Friday 1976 May 9”, The Observatory, vol. 95, 1975, pp. 161-168; VANSCHEIDT, R., Fax do autor (Universidade de Bochum) para o grupo STORM, 15 de jul. de 1996; WEST, R. M. (ed.), “The ESO-Portugal Cooperation”, The ESO Messenger, n.º 72, jun. de 1993, p. 8; digital: SARAZIN, M. (ed.), “ESO Search for Potential Astronomical Sites (ESPAS) – Minutes of the Working Group Spring Meeting”, 8 de maio de 1996, pp. 1-14: https://www.eso.org/gen-fac/pubs/astclim/espas/espas_minutes.ps (acedido a 17/02/2015).

Pedro Augusto

José Laurindo de Góis Nóbrega Sobrinho

(atualizado a 07.10.2016)