áustria, beato carlos de

Beato Carlos de A╠üustriaCarlos de Áustria foi beatificado a 3 de outubro de 2004. Os seus restos mortais estão sepultados na Igreja Paroquial de N.ª S.ª do Monte, onde é visitado constantemente por devotos, tanto madeirenses como estrangeiros, especialmente da Áustria, sua terra natal. A sua comemoração litúrgica celebra-se no dia 21 de outubro. Neste dia, reúnem-se numerosos fiéis junto do seu túmulo a prestar-lhe homenagem, cheios de reconhecimento, gratidão, súplica e fé na intercessão do beato, que, apesar de ter sido rei e político, está inscrito no reino dos Céus.

Nasceu a 17 de agosto de 1887, um sábado. Filho de Otão Francisco, sobrinho de Francisco José, e Maria Josefa, foi batizado a 19 de agosto. Foi educado sob a influência direta da mãe. Os anos da infância são “serenos e tranquilos” (FARIA, 2011, 20). Aos nove anos, recebe pela primeira vez o sacramento da Reconciliação e entra na Irmandade de N.ª S.ª do Carmo, usando o escapulário até à morte. Aos 12 anos, faz a primeira comunhão, e é crismado a 8 de setembro de 1900. Ainda aos 12 anos, é enviado para o Colégio beneditino Schottengymnasium. Fala bem o inglês e o francês, aprende o húngaro e o checo. Com 13 anos, visita diversos países do império, tomando nota dos seus problemas económicos e culturais. Visita Paris e o Louvre e parte da França. Aos 16 anos, encontra-se em Inglaterra e na Alemanha. Demonstra grande facilidade em fazer amigos. Aos 18 anos, entra para o exército, vive numa caserna e toma parte nas refeições dos oficiais. Inscreve-se na Universidade de Praga como arquiduque herdeiro, em virtude da morte do filho do imperador, estudando direito e ciências sociais. Em 1905, é agraciado pelo imperador Francisco José com a Ordem do Tosão de Oiro, a mais alta condecoração da dinastia dos Habsburgo. A morte do pai, aos 41 anos de idade, no dia 1 de novembro de 1906, torna o jovem de 19 anos um sério pretendente ao trono.

A 13 de junho de 1911, Carlos e Zita de Bourbon realizam os desposórios e casam a 21 de outubro seguinte. Zita é filha de Roberto de Bourbon, duque de Parma, e de Maria Antónia de Bragança, filha de D. Miguel, rei de Portugal. Na véspera do casamento, Carlos diz a Zita: “Agora vamos ajudar-nos mutuamente a ir para o Céu” (Id., ibid., 25). Nas alianças, gravam o Sub tutum praesidium: “À tua proteção nos refugiamos, Santa Mãe de Deus”. Os esposos peregrinam ao Santuário mariano de Mariazelli, dedicado à Magna Mater Austriae (“Grande Mãe da Áustria”). Passam a lua-de-mel nas costas do Adriático. Depois regressam à vida normal.

Assassinados o duque Ferdinando e sua esposa em Sarajevo, Carlos torna-se herdeiro do trono. Entretanto, surge a Primeira Grande Guerra, entre as diversas nações europeias. Carlos discorda, mas será o bode expiatório que irá carregar a derrota, a destruição do império e o exílio.

A 11 de novembro de 1916, às 21h05, falece Francisco José. O príncipe Lobkowicz aproxima-se de Carlos, faz-lhe o sinal da cruz na testa e diz-lhe: “Deus abençoe Vossa Majestade” (Id., ibid.,29). Carlos torna-se imperador aos 29 anos e Zita imperatriz aos 24.

A sua preocupação é a paz: “Eu quero fazer tudo para acabar, no mais breve tempo possível, os horrores e os sacrifícios da guerra, para conceder aos meus povos as bênçãos da paz” (Id., ibid., 29), escreve no seu primeiro comunicado. É coroado rei da Hungria, a 30 de dezembro de 1916, na Igreja de Matheus. Os países em guerra anelam esmagar o império e o imperador. Maquinam a sua derrota, enquanto ele quer a paz. Não aceitando o jugo da abdicação das suas funções de imperador, só lhe resta a solução do caminho do exílio.

A Conferência dos Embaixadores (dos aliados) decide exilar o soberano. A 31 de outubro de 1921, Carlos e Zita são levados de comboio para Baja, junto do Danúbio, onde são confiados à autoridade do comandante da frota inglesa. No 1.º de novembro, embarcam no Glowworm, navio de guerra inglês. A ordem vem de Londres: seguir para o Funchal, aonde chegam a 19 de novembro de 1921. Bento XV comunica ao bispo para atender da melhor forma o novo hóspede e ajudá-lo em tudo o que seja necessário. As autoridades civis têm instruções precisas. O cônsul britânico sobe a bordo. O bispo envia o cónego Homem de Gouveia a oferecer ajuda. Carlos pede apenas que lhe seja permitido ter em casa uma capela com o Santíssimo Sacramento, o que lhe é concedido. O casal imperial fica hospedado na Casa Vitória, uma dependência do Reid’s Hotel (Hotelaria na Madeira). Dois dias depois, recebe a visita do bispo D. António Manuel Pereira Ribeiro, que lhe concede a devida licença para a capela privada e nomeia seu capelão o referido cónego Homem de Gouveia, que se tornará grande amigo e devoto do imperador.

Aos filhos, que ficam lá longe, é-lhes permitido corresponder-se com os pais. O casal imperial está sem dinheiro. Portugal concede asilo político, mas recusa-se a cuidar das questões de subsistência. Os estados que sucedem à dupla monarquia, Checoslováquia, Polónia, Jugoslávia e Roménia, de nada se responsabilizam e jamais entregam um cêntimo para a família real, que está mais pobre que Job. A venda de algumas joias alivia a primeira situação. Com o passar do tempo, os madeirenses começam a admirar a família real, vendo nela um modelo de verdadeiros cristãos, frequentando a missa na Catedral () ou na Capela da Penha de França e aceitando resignadamente os acontecimentos. Entretanto, os filhos vêm juntar-se aos pais, agravando-se a situação económica. Luís Rocha Machado empresta a Quinta do Monte, sua casa de férias junto da igreja paroquial. Fazem a mudança. A sala é adaptada a capela. Estão felizes por estarem juntos, mas ao frio e à fome, sem queixas nem revoltas contra o destino, confiados na Providência e cheios de esperança. Carlos escreve nessa data: “Estou grato a Deus, por tudo quanto me manda” (Id., ibid., 55). Em janeiro de 1922, chega ao Funchal o P.e Zsamboki, capelão da casa imperial, vindo proporcionar maior confiança e esperança.

A 14 de março, depois de uma descida ao Funchal, Carlos confessa não sentir-se bem. Tem uma bronquite generalizada. Os dois pulmões estão infetados. Carlos sente-se corajoso e não se lamenta. Todos oram pela sua saúde, colocam um altar no quarto, onde é celebrada a Eucaristia todos os dias. O povo associa-se. A 26 de março, organiza uma procissão para pedir a cura do imperador que há 12 dias está retido no leito. Ele, porém, não se lamenta nem permite que o façam à sua frente. “Devo sofrer, para que o meu povo continue unido de novo” (Id., ibid., 57), afirma. Zita pede à Ir. Virgínia que interceda pela saúde de Carlos. Depois de orar e fazer as suas petições, ela comunica a mensagem recebida de Jesus: “O Senhor não restituiria a saúde ao imperador. Tinham chegado à Madeira espiões da Europa com a missão de assassinar o Imperador e o filho Otão. Deus queria poupar o seu servo de uma morte ignominiosa, morreria de morte natural” (Id., ibid., 58). Não obstante, Zita continua a rezar. No 1.º de abril, Sábado Santo, baixa a febre para volver a subir. Carlos diz a Zita: “Tenho dificuldade em respirar”. Paralisam as articulações. Os médicos dizem a Zita que é uma questão de horas. O capelão dá-lhe o sagrado viático e expõe o Santíssimo no seu quarto. Carlos pede a Zita que se sente junto dele. Ela vai estar durante quatro horas junto do seu leito, segurando a mão de Carlos com a cabeça encostada ao seu ombro. Otão, o filho mais velho, também está presente. Carlos diz que ama a esposa e os filhos, acusando porém estar muito cansado. Carlos entra em agonia. Balbucia algumas palavras. Zita convida-o a repousar e a pensar somente agora no Salvador. Ainda dirige uma prece pedindo a sua cura, mas acrescentando “se for da Vossa vontade” (Id., ibid., 60). Reza ainda pela sua família. A cabeça do exilado descai sobre o ombro de sua esposa e exclama: “Jesus, vem, vem” (Id., ibid., 60). Ainda encoraja a esposa. E murmura: “Meu Jesus, quando tu quiseres” (Id., ibid., 60). Após um momento de silêncio profundo, suspira “Jesus” (Id., ibid., 60) e dá o último suspiro. A imperatriz fecha-lhe os olhos, coloca-lhe nas mãos o crucifixo oferecido por Pio X, ajoelha-se com o filho Otão, ora e soluça.

A notícia do seu falecimento rapidamente se espalha pela Madeira e Europa. Os sinos tocam a finados em Viena e Budapeste. O cardeal primaz da Hungria celebra a missa de Requiem. As exéquias são marcadas para o dia 5 de abril. Na Madeira, é decretado luto: as lojas fechadas e uma multidão vinda de todas as partes da ilha sobe ao Monte a prestar homenagem ao falecido imperador e pedir-lhe graças. Na quarta-feira, 5 de abril, pela tarde, realiza-se o funeral. Durante o percurso, encontram-se muitas pessoas que ajoelham à passagem da urna que encerra o cadáver do imperador, tendo os homens os chapéus na mão. Na Igreja do Monte, é levantado um catafalco coberto de crepes, sobre o qual é colocado o ataúde, rodeado de seis tocheiros de prata e ornamentado com muitas flores. O bispo procede à oração do Libera Me e à absolvição. São cantados responsórios. A imperatriz Zita com o filho Otão e os arquiduques estão presentes.

Procede-se à soldagem do caixão, que termina cerca das 20h. A imperatriz Zita, seu filho Otão e outros membros da família imperial voltam de novo à igreja, assistindo à colocação do ataúde sob o altar da capela lateral, até que seja construído o lugar definitivo na Capela de S.to António.

A imperatriz, juntamente com Otão e os filhos, despede-se da assistência com um “muito obrigado” (Id., ibid., 63) em português e seguem para a Quinta do Monte.

A cidade do Funchal promove a 27 de abril, na Catedral, exéquias solenes. A Sé está repleta de fiéis. Zita e familiares estão presentes. Preside o bispo do Funchal, e o cónego Homem de Gouveia profere a oração fúnebre. Começa a sua homilia com uma citação do Livro da Sabedoria: “A sua alma era agradável ao Senhor, e por isso Ele apressou-se a tirá-lo do meio da maldade” (Sab 4, 14). Ao saudar a imperatriz Zita, diz: “Permiti que invada o santuário da vossa dor… que avive chagas que, embora nunca cicatrizem, podem lenificar… Seja-me permitido fazer votos por que um dia possamos ver venerado nos altares aquele que foi um escrínio de virtudes, que vós tão de perto apreciastes” (Id., ibid., 64). Falou do imperador como chefe do exército, diplomata e político, chefe de família e crente.

A ideia de beatificar o imperador nasce na Madeira. Entretanto, muitos milhares de pessoas, na Áustria e no mundo inteiro, acreditam que Carlos é um santo. Em 1929, a Gebetsliga (Liga de Oração) recebe aprovação eclesiástica para serem feitas orações pela canonização do imperador, a qual vai reunir muitos testemunhos de católicos que afirmam ter invocado o imperador nas suas orações.

A 11 de julho de 1949, o cardeal Innitzer, em Viena, assina a carta da introdução do exame para a causa da canonização de Carlos. A 3 de novembro desse ano, a Rádio Vaticana anuncia oficialmente a abertura do processo de beatificação e canonização. No Funchal, em 1952, o bispo, D. António Manuel Pereira Ribeiro, introduz também o mesmo processo. Em 1954, são entregues em Roma os atos do processo na Congregação dos Ritos, hoje chamada Congregação para as Causas dos Santos.

A 1 de abril de 1972, Sábado Santo, faz-se o ato de reconhecimento dos restos mortais do servo de Deus, exigência do processo de beatificação. Passados 49 anos, ou seja, a 12 de abril de 2003, a mesma congregação apresenta o dec. sobre a santidade do servo de Deus e a 20 de dezembro do mesmo ano, na presença do santo padre, é promulgado o dec. sobre o milagre.

A 10 de maio de 2004, é dada a notícia de que o ato de beatificação está programado para o dia 3 de outubro seguinte, conjuntamente com outros quatro servos de Deus. A 20 de julho do mesmo ano, Mons. Piero Marini, arcebispo titular de Martiano e mestre das cerimónias litúrgicas pontifícias, envia uma carta a D. Teodoro de Faria, comunicando o cerimonial da beatificação do servo de Deus, Carlos da Áustria. No dia 3 de outubro, a partir das 10h, realiza-se a grande solenidade da beatificação, presidida por João Paulo II, na presença de alguns cardeais, muitos bispos, familiares do imperador e ainda de muito povo, incluindo os peregrinos idos do Funchal, entre os quais se encontra o presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Alberto João Jardim, e o bispo D. Teodoro de Faria, que é quem oficialmente pede a beatificação. No Monte, o povo enche toda a igreja para presenciar a cerimónia da beatificação, transmitida pela RAI através dum ecrã gigante.

O 21 de outubro é o dia escolhido para a comemoração litúrgica do beato Carlos, por ser o dia do seu casamento. Esse dia é imediatamente comemorado na Igreja do Monte, com a celebração da Eucaristia presidida pelo então bispo do Funchal, com o templo repleto de fiéis devotos. Participa também neste ato o filho mais velho do imperador, o arquiduque Otão de Habsburgo. Por vez primeira se invoca litúrgica e publicamente o beato Carlos de Áustria. A partir de então, todos os anos, a 21 de outubro, tem sido celebrada a Eucaristia dos confessores da Fé, na Igreja do Monte, junto aos seus restos mortais, intensificando a devoção ao beato Carlos de Áustria.

Bibliog.: FARIA, D. Teodoro, Beato Carlos da Áustria: Os Habsburg na Madeira, Funchal, DRAC, 2011.

Manuel Gama

(atualizado a 08.07.2016)