azevedo, antónio pedro de

Os militares representaram um importante papel na vida madeirense, da mesma forma que alguns militares madeirenses também o representaram a nível nacional, tendo sido o seu desempenho nas obras públicas e na informação da decisão política, através da cartografia e da informação, dos contributos mais notáveis nos meados do séc. XIX. As obras públicas da Madeira dessa época vão ser marcadas por três engenheiros militares: Manuel José Júlio Guerra (1801-1869), cuja atuação não terá sido particularmente notável, Tibério Augusto Blanc (c. 1810-1875) e António Pedro de Azevedo (1812-1889), que, pelo contrário, deixaram uma obra verdadeiramente notável, e que se viriam, entretanto, a desentender aberta e violentamente. Em princípio, não estavam em causa assuntos técnicos e profissionais entre estes dois engenheiros, mas sim filiações ou amizades políticas e partidárias.

António Pedro de Azevedo nascera em Caminha a 9 de fevereiro de 1812 e assentou praça a 4 de setembro de 1826, apenas com 14 anos de idade, sendo promovido a alferes a 9 de julho de 1827 e entrando no ano seguinte para a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho. As alterações políticas dos anos seguintes levaram-no a interromper os estudos, prestando uma comissão de serviço em Elvas e sendo colocado na Madeira em 1830, integrando, depois, as forças absolutistas da reocupação do Porto Santo, a 29 de maio de 1832, quando se procedeu, de novo, à aclamação de D. Miguel. Talvez por isso, nunca deixou de fazer constar nos seus documentos que desde estudante sofrera represálias devido às suas ideias liberais, o que no Funchal, em 1834, era confirmado pelo cônsul Henry Veich (c. 1770-1857).

O futuro engenheiro viria a completar o curso em 1837, sendo promovido a tenente a 5 de setembro desse ano. Estagiaria no continente até finais de 1840, chegaria a capitão a 22 de fevereiro do ano seguinte e seria enviado de novo para a Madeira, então como responsável pelo estabelecimento das linhas telegráficas. Logo nesse ano de 1841, percorre toda a linha de costa da ilha, périplo de que resulta o Reconhecimento Militar da Ilha da Madeira, com as plantas das principais vilas e linhas de fortificação, Reconhecimento que ainda repetiria, ampliado, em 1860. No ano seguinte, trabalharia com o coronel Alexander Thomas Emeric Vidal (1792-1863) e outros oficiais do vapor de guerra inglês Styx no levantamento das cartas geo-hidrográficas do arquipélago da Madeira, sucessivamente publicadas em Londres nos anos seguintes e, depois, em Lisboa, em 1877, a do Porto Santo, em 1879, a da Madeira, e em 1886, a das Desertas, quando António Pedro de Azevedo era já general reformado.

Os primeiros trabalhos de António Pedro de Azevedo seriam geo-hidrográficos e geodésicos, por vezes com complexas memórias descritivas, como as que acompanharam os seus levantamentos geodésicos, algumas com interessantes descrições botânicas, contando-se por muitas dezenas as plantas, alçados e cortes que chegaram aos nossos dias e, inclusivamente, a planta da casa e quinta que adquirira na rua do Vale Formoso, no Funchal. Casara-se, entretanto, na Madeira, com Maria Rosa Bernes, sendo pai de Elisa Azevedo de Meneses, que se casou depois com o médico Antero Drumond de Meneses (1830-1916), filho de Sérvulo Drumond de Meneses (1802-1867); Antero e Elisa foram pais do naturalista Carlos Azevedo de Meneses (1863-1928), coautor do Elucidário Madeirense, que refere como data de nascimento de António Pedro de Azevedo 7 de fevereiro de 1814, embora a que consta nas suas folhas de matrícula militar seja 9 de fevereiro de 1812.

As desavenças entre Tibério Blanc e António Pedro de Azevedo datavam de, pelo menos, os inícios de 1848. Tibério Blanc fora nomeado por despacho régio de 23 de janeiro de 1839, em comissão de serviço civil, como encarregado da direção das obras públicas civis do distrito, ou seja, passara para a dependência direta do governador civil. Entretanto, com o afastamento de Júlio Ribeiro Guerra, passara o capitão António Pedro de Azevedo a chefiar o Comando da Engenharia da 9.ª Divisão Militar, pelo que entendeu dever Tibério Blanc, embora mais velho, dar-lhe conhecimento dos trabalhos em que andava. A questão entre os dois, por certo de carácter político, chegou a Lisboa e teve como despacho a suspensão de ambos, em 31 de março de 1848, nomeando-se mesmo um capitão engenheiro, de nome Cunha, para substituir ambos, como consta no processo arquivado no Arquivo Histórico Militar.

A suspensão acabou por não ter efeito com a chegada do governador José Silvestre Ribeiro a Lisboa, no mês de junho, e ambos se mantiveram em serviço na Madeira nos anos seguintes. Durante o governo de José Silvestre Ribeiro, Tibério Blanc desenvolvera uma enorme atividade, visitando toda a ilha, especialmente as antigas levadas, dando parecer sobre os melhoramentos a efetuar e das novas obras a empreender. Ao mesmo tempo, ficava no Funchal o capitão António Pedro de Azevedo, trabalhando em São Lourenço e, por certo, em estreita relação com Sérvulo Drumond de Meneses (1802-1867), mais tarde, em 1862, seu compadre.

Os problemas entre os dois engenheiros agudizam-se decididamente após a oficialização da direção das obras públicas distritais, ocorrida em 1852, na sequência da criação, em Lisboa, do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, em 28 de agosto desse ano, pelo também engenheiro militar António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887). À frente da repartição do Funchal foi colocado Tibério Blanc, que já em 27 de julho de 1847 fora encarregado da inspeção geral e superior das obras da Junta Geral e que estava há mais tempo na Madeira, embora, mais velho, não fosse hierarquicamente mais antigo.

A época corresponde a uma nova inflexão política da regeneração, proclamando-se o major António Pedro de Azevedo adversário político do anterior governador José Silvestre Ribeiro, considerado localmente pelos “novos regeneradores” como pouco dialogante e até autoritário. Com a nova situação, e não tendo sido nomeado como diretor geral das obras públicas do distrito, António Pedro de Azevedo consegue ser nomeado inspetor das mesmas obras, escrevendo então a Tibério Blanc a comunicar-lhe as suas novas funções, solicitando-lhe vários elementos sobre as obras do Rabaçal e, inclusivamente, alojamento no local para proceder à inspeção das mesmas, ofícios depois divulgados nos periódicos do Funchal.

As notícias das desavenças entre os dois engenheiros só poderiam chegar aos periódicos do Funchal através do major António Pedro de Azevedo, mesmo os protestos pelo atraso com que decorria a inspeção à levada do Rabaçal, a primeira a efetuar-se àquela obra, uma das mais importantes obras públicas da Madeira. A questão arrastou-se pelos meses de outubro e novembro de 1852, embora Tibério Blanc tivesse logo colocado toda a obra à disposição de António Pedro de Azevedo, inclusivamente os serviços do apontador-geral, José Maria Passos. Os resultados acabaram por revelar que tudo se encontrava a decorrer conforme os projetos inicialmente definidos, havendo perfeita consonância entre os trabalhos desenvolvidos pelo major Tibério Blanc e a inspeção efetuada pelo major António Pedro de Azevedo, como consta na carta do apontador-geral José Maria Passos, de 20 de novembro desse mesmo ano, divulgada nos periódicos locais, especialmente em A Ordem (Funchal, 25 set., 13 nov., 4 e 18 dez. 1852), que representava então uma certa ala esquerda da regeneração.

O Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, em Lisboa, no entanto, parece não ter entendido assim a situação, passando a encarregar logo António Pedro de Azevedo de vários projetos na área das obras públicas e determinando a Tibério Blanc que entregasse o projeto final das obras da levada do Rabaçal. Nessa sequência, em fevereiro de 1853, exonerava Tibério Blanc do cargo da direção das Obras Públicas, indicando que deveria entregar a comissão a António Pedro de Azevedo. A passagem dos diversos materiais e, especialmente, o arquivo das obras públicas do distrito levantou inúmeros problemas, patentes em vários ofícios trocados entre o Governo Civil e o Ministério.

A atividade do major António Pedro de Azevedo na área da cartografia foi verdadeiramente notável, a ele se ficando a dever uma excecional coleção de plantas das diversas vilas e lugares da ilha da Madeira, referentes, essencialmente, à fortificação, mas também ao urbanismo, constituindo o mais importante conjunto iconográfico dos meados do séc. XIX legado à posteridade. A sua atividade como engenheiro construtor, no entanto, conheceu vários percalços. A 3 de outubro de 1853, por exemplo, a ponte do Porto da Cruz, após ter-lhe sido retirado o “simples”, ruiu, o mesmo vindo a acontecer, no mês seguinte, à ponte da vila de São Vicente, que por pouco não vitimava 15 dos trabalhadores que aí se encontravam. Talvez por isso, já a 31 de outubro, o visconde de Fornos de Algodres suspendia o major Azevedo das suas funções de diretor interino das Obras Públicas.

O correspondente do periódico A Ordem em São Vicente, que geralmente defendia Tibério Blanc, perante o acidente não deixa de relembrar a atuação do anterior engenheiro, que se não poupava a incómodos e fadigas, expondo-se muitas vezes a perigos eminentes, como quando “mandou abrir a estrada do Passo da Areia, e deu princípio à da Rocha para o Seixal”, só para que as obras não sofressem algum inconveniente, do qual resultasse prejuízo público e à Fazenda (A Ordem, 8 out., 5 e 26 nov. e 3 dez. 1853).

O major António Pedro de Azevedo havia de se retirar para Lisboa em meados de 1865, onde Tibério Blanc também já se encontrava, mas conheceria uma outra carreira política. Coronel por dec. de 9 de agosto de 1865, pouco depois de chegar ao continente seria nomeado chefe de gabinete do ministro da Guerra, a 18 de novembro de 1869, e, com essa nomeação, seria general um mês depois, a 13 de dezembro. Passaria ainda a diretor do arquivo da Engenharia Militar, reformando-se a 31 de dezembro de 1878, mas mantendo-se à frente do arquivo e preparando a edição das suas cartas geográficas do arquipélago. Faleceria em Lisboa, a 10 de agosto de 1889.

Nos arquivos da Engenharia Militar constam quase uma centena de trabalhos assinados e determinados por António Pedro de Azevedo, incluindo as plantas da levada do Rabaçal, mas nenhum com a assinatura de Tibério Augusto Blanc, salvo um mapa de gastos da estrada da Pontinha, de outubro de 1847. Parece, assim, que nos mais de 10 anos que António Pedro de Azevedo esteve à frente daquele arquivo se não apagou a antagonismo cultivado na Madeira em relação a Tibério Blanc.

Bibliog. manuscrita: AHM, Processos Individuais, Cunha, cx. 842, e António Pedro de Azevedo, cx. 965, proc. 593-3; DSIE, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, capitão de Engenheiros António Pedro de Azevedo, Reconhecimento Militar da Ilha da Madeira, Memória de 1841, 1344, 1A/12A/16 e 1345-43; Ibid., 1860, 2772, 1A/12A/16; ARM, Arquivos Particulares, Rui Carita, plantas várias; ARM, Governo Civil, liv. 6, fl. 91v.; ARM, Governo Civil, liv. 135, fl. 187; ARM, Governo Civil, liv. 421; Diplomas; impressa: A Ordem, Funchal, 25 set. 1852, 13 nov. 1852, 4 dez. 1852; 18 dez. 1852; 8 out. 1853, 5 nov. 1853; 26 nov. 1853; 3 dedz. 1853; Carta Geo-Hidrographica da Bahia de Machico em que Desembarcaram as Tropas de D. Miguel em 22 de Agosto de 1828, editada em 1842, que reproduzimos no anterior volume, assim como: Planta da Ilha Terceira; Planta da cidade de Angra e Monte Brasil e Planta da acção de 11 de Agosto de 1829 na Villa da Praia da Ilha Terceira, plantas que foram depois reproduzidas no t. VI dos Documentos para a História das Cortes Gerais, Lisboa, Imprensa Nacional, 1889; CARITA, Rui, Arquitectura Militar da Madeira dos Sécs. XVI a XIX, catálogo da exposição realizada no Teatro Municipal do Funchal por ocasião das Comemorações Nacionais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, 10 de Junho de 1981, Funchal, Zona Militar da Madeira, 1981 (colaboração de Álvaro Vieira Simões); Id., Arquitectura Militar da Madeira. Séculos XVI a XIX, catálogo da Exposição realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982; Id., Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, DRAC, 1982; Id., História da Madeira, VI e VII vols., Funchal, SRE, 2003 e 2008; MENEZES, Sérvulo Drumond de, Collecção de Documentos Relativos á Construção da Ponte do Ribeiro Seco, Funchal, Typographia L. Vianna Junior, 1848; Id., Uma época Administrativa da Madeira e Porto Santo a Contar do Dia 7 de Outubro de 1846, 2 vols., Funchal, Typographia Nacional, 1849-1850; SANTOS, Rui, “Um capitão de engenheiros (Tibério Augusto Blanc, Santarém, 1810?; m. 1875)”, Jornal da Madeira, 25 dez. 1991 e 5 jan. 1992; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, DRAC, 1940-1946, fac-simile de 1998; VITERBO, Sousa, Diccionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, 1899-1922, reedição fac-simile, 3 vols., INCM, 1988.

Rui Carita

(atualizado a 30.08.2016)