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Maximiliano de Azevedo. Fonte - BNP
Maximiliano de Azevedo. Fonte – BNP

Nasceu no Funchal a 16 de fevereiro de 1850 e faleceu em Lisboa a 4 de dezembro de 1911. Mais conhecido por Maximiliano d’Azevedo (ainda que utilizando também os pseudónimos de Alberto de Magalhães, Silvestre, Zélio e Max), exerceu funções de coronel no Exército Português, distinguindo-se como autor de diversas obras de caráter histórico e de peças teatrais, jornalista e crítico da arte dramática.

Filho de António Pedro de Azevedo e de D. Teresa Rosa Bernes foi, também, afilhado de batismo do príncipe Maximilian Von Eichstätt, duque de Leuchtenberg e príncipe de Eichstaedt, que, na altura do seu nascimento, se encontrava na Madeira. Concluídos os estudos secundários no Liceu Nacional do Funchal, frequentou os estudos preparatórios da Escola Politécnica em Lisboa, ingressando depois na Escola do Exército e concluindo o curso de Artilharia, em 1875.

Iniciou a carreira de oficial de artilharia, sendo 2.º tenente em Santarém e na Companhia de Artilharia n.º 1 aquartelada na cidade da Horta, nos Açores. Seria promovido a tenente em 1878. Casou em 1879, na Horta, com Valentina Morisson, permanecendo na ilha do Faial até 1881, ano em que foi transferido para Lisboa. Aí, construiu o resto da sua carreira, sendo promovido a capitão em 1884, a major em 1897, a tenente-coronel em 1903 e a coronel em 1911, posto que detinha quando faleceu, sendo então o coronel comandante do Regimento de Artilharia n.º 12.

Aquando do seu falecimento, a revista Brasil-Portugal dedica a este seu assíduo colaborador, com um relato sentido da celebração fúnebre, uma saudosa secção elogiosa onde descreve o coronel de artilharia e o escritor dramático de espírito culto como “oficial de uma arma científica dos mais ilustrados, autor de uns contos militares que tiveram muita voga”. Acrescenta a mesma revista que o escritor viajou muito e que “durante alguns anos foi secretário de Latino Coelho, cujo convívio grandemente contribuiu para a ilustração que tinha”, destacando ainda a sua colaboração em numerosos jornais e revistas, o cargo de gerente do teatro D. Maria II que exerceu, a infinidade de peças que deixou, principalmente traduções, que escolhia a primor de entre as melhores obras literárias europeias, e a sua inteligência e caráter sem mácula. Todavia, terá sido “no teatro que mais deixou vincados os traços da sua individualidade”, conhecendo como poucos a “alma popular” (“Maximiliano de Azevedo”, Brasil-Portugal, 16 dez.1911, 343).

Com forte pendor intelectual, ligou a sua carreira militar a várias atividades culturais realizadas no contexto militar e na sociedade civil, com destaque para trabalhos no âmbito da historiografia, da arquivística militar e da imprensa, tendo sido redator de vários jornais. Aplicou-se, igualmente, na escrita e crítica dramáticas e na tradução de textos dramáticos, sendo vogal do Conselho de Arte Dramática e comissário do Governo junto do teatro D. Maria Pia, em Lisboa.

Manifestou grande pendor para o teatro, detendo um vasto conhecimento da história teatral nas suas vertentes literária e artística. Escreveu e traduziu, por vezes em colaboração com outros autores, várias peças e, no final da vida, geriu, como comissário régio, a companhia Teatro Normal de Lisboa. A sua obra mais popularizada é o drama Inez de Castro (1894), peça estreada no teatro do Príncipe Real, em 1894, com enorme sucesso por contrariar os moldes da geração romântica e privilegiar caracterizações psicológicas das personagens articuladas com as coordenadas sociais e políticas do quadro histórico em que se moviam, envoltas nos seus conflitos sentimentais e com lances de exacerbado melodramatismo. Trata-se de um drama em cinco atos, representado depois em Matosinhos, que inclui um parecer do censor de 1953, classificando a peça para maiores de 13 anos, com respetiva apreciação.

No âmbito militar, foi várias vezes nomeado para missões culturais, entre as quais a organização da biblioteca e arquivo do Ministério da Guerra (1890), tendo sido também vogal da comissão encarregue de elaborar a história da artilharia em Portugal (1893). Como resultado, veio a colaborar, tal como fizera o seu pai, na elaboração de Documentos para a História das Cortes Geraes da Nação (1883/1891), com relatos e contos artísticos e elucidativos da situação histórica do país.

Jornalista de mérito, foi redator do Jornal da Noite entre 1882 e 1884, estando a sua extensa produção escrita igualmente espelhada em diversos periódicos, entre os quais o Discussão (na redação, a convite de Pinheiro Chagas), O Occidente, Revista illustrada de Portugal e do Estrangeiro, o Jornal do Domingo e o Atlântico. Colaborou, ainda, na Revista das Ciências Militares e nas revistas Brasil-Portugal e Serões.

Coadjuvou, com Latino Coelho, durante mais de 10 anos, a preparação da História Política e Militar de Portugal, desde Fins do Século XVIII até 1834 (3 volumes publicados entre 1874 e 1891), colaboração que se iniciou na déc. de 1880 e se estendeu por vários anos. Exerceu também funções de sócio correspondente nacional do Instituto de Coimbra, em 1898. Entretanto, viajando pela Europa, entre os anos de 1889 e 1900, redigiu notas e apontamentos, apresentando longos e circunstanciados relatórios dessas viagens.

No âmbito da sua obra, destaca-se Em Campanha e no Quartel (Lisboa, 1900), conjunto de 15 contos e narrativas de índole militar com significado histórico, entre as quais se salienta “A Execução dos Martyres da Patria” (contada por um soldado), ilustrada com reproduções a preto e branco e belíssimas aguarelas da autoria de P. Marinho, bem como a coletânea de contos Histórias das Ilhas: Reminiscências dos Açores e da Madeira (Lisboa, 1899). Esta última obra reflete a experiência insular do autor nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, tendo sido na época um sucesso editorial. Trata-se de uma agradável e bem humorada recolha de pequenos contos sobre os arquipélagos portugueses, na qual se consegue sentir, em cada história, a cor das ilhas e o caráter dos ilhéus. Destacam-se, neste contexto, as seguintes narrativas: “O Casamento do Veterano” (Terceira), “Os Filhos do Frade” (Madeira), “O Primeiro Desengano” (Madeira), “Alegria do Mar” (Faial), “A Lampreia” (S. Miguel), “Mau Homem” (Terceira), “A Licença do Domingo” (S. Miguel), “O Contrabando” (Faial), “Piloto” (Faial), “Na Vindima” (Pico), “O Jantar do General” (Madeira), “O Aprendiz de Barbeiro” (Pico), “A Alemã” (Madeira), “O Marraxo” (Porto Santo), “O Pai do Jacinto” (Madeira), “A Folga” (Faial), “O Paiol” (S. Miguel), “As Feiticeiras” (S. Miguel) e “Mary” (Madeira).

Sendo já reconhecido no teatro, escreveu também, em coautoria com Gervásio Lobato, O Rapto de um Noivo, comédia em um ato representada no teatro D. Maria II. Esta peça trouxe um novo alento à dramaturgia nacional, brilhando junto dos ilustres D. João da Câmara, Eduardo Schwalbch, Marcelino Mesquita, Henrique Lopes de Mendonça, Lino d’Assunção, Ernesto da Silva, António Enes, Lorjó Tavares, Abel Botelho e Alberto Braga, reconhecidos entusiastas nacionais da escrita dramatúrgica. Ainda no contexto da sua atividade no mundo do teatro, Maximiliano de Azevedo participou num momento memorável ao fazer parte do júri de admissão ao conservatório da famosa e genial atriz Maria de Matos, juntamente com Eduardo Schwalbch, D. João da Câmara, Júlio Dantas, Carlos Malheiro Dias e Henrique Lopes de Mendonça.

Enquanto correspondente nacional do Instituto de Coimbra, em 1898, foi autor da Enciclopédia do Comerciante e do Industrial e diretor da revista A Nossa Pátria. Na revista Brasil-Portugal, vemos anunciada a colaboração de Maximiliano de Azevedo na peça “Sá da Bandeira e os Dois Patacos”. A revista Serões (dez. 1911) acolhe também uma publicação do autor, desta vez sob o pseudónimo de Alfredo Guimarães, mais especificamente o texto “O Jornal do Mar” (com duas vinhetas e oito ilustrações). Para além disso, traduziu e apresentou Consciência dos Filhos, drama em quatro atos por Gustave Dévore, como anuncia a revista Serões (“Variedades”, Serões, maio-jun. 1903, 7). A produção e a tradução de várias obras teatrais valeram-lhe a presença no Diccionario Bibliographico de I. F. Innocencio, continuado por Brito Aranha.

Em Serões (1904), é-nos dada a conhecer outra publicação de Maximiliano de Azevedo: Em Casa do Filho (comédia em um ato sobre costumes madeirenses, datada de 1905). No número seguinte, em 1905, é-nos apresentado o início do seu extenso texto intitulado “Emilia Adelaide: Recordações de Theatro”, em 13 páginas e 16 ilustrações, que fixa memórias da talentosa atriz esquecida que representava com garbo e gentileza, inclusive em papéis masculinos e que, na opinião do autor, seria a segunda melhor atriz portuguesa.

O seu discurso dedicado ao marquês de Pombal, recitado em forma de composição superior, no teatro Valenciano, por ocasião do sarau literário-musical realizado a 8 de maio de 1882, reflete o espírito magnânimo deste escritor, que, numa longa composição poética, antecedida de uma dedicatória intitulada “Aos Meus Amigos”, na qual justifica a sua modesta publicação e alude ao seu apreço pelo marquês, nos diz: “I. De joelhos heróis! Baixai a fronte altiva,/ Que passa triunfante, aureolada e viva/ A sombra de outro herói! – a lusitana gloria/ Que há um século morreu para viver na História./ […] É justo que façais dupla consagração:/ Ao génio da Epopeia e ao génio da Instrução!”

Ernesto do Canto atribui a Maximiliano de Azevedo o discurso sobre Garrett proferido no sarau realizado pelo Grémio a 10 de junho de 1880 (CANTO, 1882), nas comemorações do tricentenário de Camões.

Num dos momentos sensíveis da sua vida, em maio de 1885, aquando do falecimento de Gervásio Lobato, seu grande amigo, Maximiliano de Azevedo fez parte obrigatória da comissão de homenagem à memória do ilustre escritor, com dedicatórias efusivas.

Em 1909, o dramaturgo coordenou com D. João da Câmara, José António de Freitas e Raul Brandão O Livro das Creanças Portuguezas e Brazileiras. Ainda com Raul Brandão e João da Câmara elaborou distintamente, em 1903 e 1904, o compêndio Livro de Leitura para as Escolas de Instrução Primária, destinado à 1.ª, 2.ª, 3.ª e 4.ª classes, que foi aprovado pelo ministro de então e pela comissão técnica (Diário do Governo, 22 nov. 1910) e considerado o manual perfeito com que sempre o governo sonhara. Este surgiu, assim, como um manual inovador no panorama nacional, como considerou João de Barros, diretor-geral na altura, convencido de que todo o aluno que por ali estudasse ficaria informado e mergulhado no sentido patriótico e moral. Com os mesmos autores, Maximiliano de Azevedo organizou Patria Portugueza, em 1906, livro destinado aos alunos distintos nas escolas de instrução primária.

Dois anos antes da sua morte, em 1909, os seus conhecimentos bélicos e literários valeram-lhe a nomeação para integrar a comissão que desenvolveu o enorme programa da exposição para as comemorações da Guerra Peninsular, com a participação de todas as bibliotecas do país, juntamente com João Carlos Rodrigues da Costa (general e presidente da comissão), Alfredo Pereira Taveira de Magalhães (coronel do Estado-Maior e vice-presidente), Jaime Leitão de Castro (coronel de artilharia), Adelino Augusto da Fonseca Lage (tenente e tesoureiro), João Severo da Cunha (major de engenharia), Guilherme Luís dos Santos Ferreira (major de infantaria), Cristóvão Ayres de Magalhães Sepúlveda (tenente-coronel de infantaria), Luís Henrique Pacheco Simões (capitão de infantaria) e José Justino Teixeira Botelho (capitão e secretário).

Agraciando a sua longa amizade com o autor, Raul Brandão publica, em 1914, o registo de cariz histórico intitulado A Conspiração de 1817, em memória de Maximiliano de Azevedo.

Obras de Maximiliano Eugénio de Azevedo: Inez de Castro (1894); Histórias das Ilhas: Reminiscências dos Açores e da Madeira (1899); Em Campanha e no Quartel (1900); “Sá da Bandeira e… os Dois Patacos” (1903) (em colaboração com Ribeiro Carvalho); Em Casa do Filho (1905); “O Jornal do Mar” (1911) (pseud. Alfredo Guimarães); O Epílogo, Por força!; Rosinha do Castelo; Santos de Casa; Zefa; Veteranos e Galuchos; Tiro das Bocas de Fogo; Causa Célebre; Crime das Picoas; O Amor; Susana; A Tosca; O Convento do Diabo; O Incêndio do Lugre Atlântico; A Mendiga; Os Dois Órfãos; O Sargento de 5 de Linha; A Sereia; O Capitão de Bandidos; O Mestre de Obras; Educação Errada; O Romance de uma Actriz; João José; Os Filhos do Capitão Grant; Naná; Maridos e Amantes; Os Jesuítas; A Honra; Paulo; Vida Curada; Duas Crianças; Os Anos da Menina; O Epílogo; Cinto e Bordão; Templo de Salomão; Rapto de um Navio; Entre a Vítima e o Carrasco; Gostos Não se Discutem; Ralham as Comadres; Maridos que Choram; Um Pai da Pátria; Sozinha; Marido Ó; Paulo e Virginia; Capricho de Sogra; Prisioneiro da Palavra; Um Homem Sério; O Diário do Governo; O Homem das 16 Mulheres; Engaiolado; Lua Cheia; As Vitimas do Folhetim; No Dia do Noivado; O Às de Paus; A Feiticeira; A Galdéria; Luis XI e os Senhores Feudais; O Segredo do Padre; O Demónio dos Mares; A Moda; A Ave Agoureira; A Mãe da Minha Mulher; Frou-Frou; A Pesca Milagrosa; Condecorado; As Surpresas do Divórcio; Os Beijos do Diabo; Margarida do Monte; Ideias de Mme. Aubry; Marchas e Estacionamentos (em colaboração com Artur Perdigão); A Rosinha do Castelo; Contos e Bordão; Purgatório de Casados; Homenagem ao Marquês de Pombal (pseud. Alberto de Magalhães).

Bibliog.: ANDRADE, Adriano Guerra, Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1999; Boletim das Bibliothecas, 9.º ano, n.º 13, 1908; BRANDÃO, Raul, A Conspiração de 1817: Quem Matou Gomes Freire, Porto, Typ. da Empresa Literária e Typographica, 1914; “Maximiliano d’Azevedo”, Brasil-Portugal: Revista Quinzenal Illustrada, n.º 310, 16 dez. 1911, p. 343; CANTO, Ernesto do, “O Gremio Litterario”, Archivo dos Açores, n.º 49, VI, Faial, Tip. do Archivo dos Açores, 1882; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; Diário do Governo, n.º 41, Direção Geral da Instrução Primária, 22 nov. 1910; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, 3 vols., Funchal, CMF, 1949-1953; “Variedades”, Serões, n.º 19, maio-jun. 1903, pp. 1-8; Ibid., n.º 24, 1904; Ibid., n.º 78, dez. 1911; SILVA, Inocêncio F., Dicionário Bibliographico Portuguez, vol. XVII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1973; SILVA, F. A., e MENEZES, C. A., Elucidário Madeirense, vol. I, Funchal, CMF, 1965.

Helena Paula F. S. Borges

(atualizado a 30.08.2016)