azulejaria

A utilização do azulejo em Portugal é uma herança da cultura islâmica, mas face ao seu baixo custo e às suas capacidades de requalificação arquitetónica, como a higienização dos espaços muito concorridos, em especial das igrejas e capelas, assumiu-se rapidamente como um elemento essencial de decoração e, depois, também de catequização. O azulejo transcende assim a sua função utilitária de revestimento de chãos e paredes nos edifícios religiosos e civis, transformando-se num importante suporte do imaginário estético português e passando aos espaços públicos urbanos. Com as suas diferentes características, desde as possibilidades de uma rápida lavagem, à reflexão da luz ambiente, à possibilidade de ampliar visualmente os espaços e de lhes dar infinitas variantes cromáticas, o azulejo veio a assumir-se como uma das produções mais originais da cultura portuguesa.

As ilhas atlânticas, infelizmente, não possuem terrenos capazes de fornecer bons materiais para cerâmica, mas, tal como na generalidade do espaço português, a Madeira é depositária de um acervo notável de azulejaria, cobrindo toda a história desta atividade no nosso país, desde os sécs. XV e XVI à atualidade. Acresce ainda o facto de terem chegado até nós com revestimento de azulejaria sevilhana os coros do Convento de S.ta Clara, os dois únicos pavimentos completos dos princípios do séc. XVI no quadro nacional, tal como a única pia batismal daquelas oficinas andaluzas de tradição islâmica que chegou aos nossos dias e que se encontra ainda em utilização.

Sob a especial influência do rei D. Manuel, que visitou pessoalmente Sevilha em 1498, mas dentro de uma tradição já vigente no território continental, terão sido muito avultadas as importações de azulejaria hispano-mourisca, sobretudo nos inícios do séc. XVI. Diversificada a esmaltagem e a utilização com a colocação de azulejos em paredes, emolduramentos vários, tetos e coberturas, terá vindo para a ilha uma grande quantidade e variedade destes materiais, infelizmente deslocados e retirados nas contínuas obras de adaptação dos edifícios ao longo dos tempos, mas muitos deles também posteriormente reaproveitados em outros espaços e funções.

Entre os vários edifícios decorados com azulejos hispano-mouriscos poderemos citar o coruchéu da torre sineira da Sé do Funchal, por determinação expressa de D. Manuel, em 1514, que sobre o pedido de informação de como deveria ser rematado, respondeu que deveria ser de ladrilho e não de madeira, apresentando por fora azulejos (FERREIRA, 1963, 52), e assim chegou aos nossos dias. Para além do Convento de S.ta Clara, que referimos acima, igualmente possuiria, por certo, revestimentos cerâmicos mudéjares o Convento de S. Francisco do Funchal, tendo sido recuperadas várias losetas e outros fragmentos nas escavações de 2004, nos entulhos da área do solar de D. Mécia, por certo desse antigo convento. O demolido Convento da Piedade de S.ta Cruz também possuía este tipo de revestimento, encontrando-se parte desses azulejos aplicados na sacristia da matriz do Salvador, outros no Museu Quinta das Cruzes e na coleção Frederico de Freitas, provenientes das escavações arqueológicas de emergência realizadas em 1960 pelo Dr. António Aragão (1924-2008), quando da construção na área do aeroporto de Santa Catarina (FREITAS, 1986, 194)

Num curto espaço de tempo, e ainda nos meados do séc. XVI, as oficinas de Lisboa produziam também azulejos designados por “majólica”, de muito boa qualidade, a avaliar pelos grandes painéis policromos assinados por Francisco de Matos, artista, por certo, flamengo, ativo na década de 80. Por essa data teriam vindo também azulejos desse tipo para a Madeira, subsistindo na Capela de S. Gonçalo de Amarante do Convento de S.ta Clara alguns azulejos deste tipo aplicados no chão e igualmente existindo exemplares semelhantes na coleção Frederico de Freitas. Também por esses anos foram aplicados azulejos monocromáticos portugueses no chão da pequena Capela de N. S.ª Senhora do Faial, na encosta de Santa Maria Maior, então da família Lomelino e, em 1601, quando se recolocou a grimpa da torre da Sé, derrubada no temporal de 28 de dezembro de 1591, igualmente se utilizaram azulejos monocromáticos, repetindo, sumariamente, o desenho geral da colocação dos mudéjares aplicados por 1514.

Os finais do séc. XVI e os inícios do XVII marcaram o início da grande produção de faiança azul-e-branca pelas oficinas da área de Lisboa. A faiança é uma forma de cerâmica branca, de massa menos rica em caulino do que a porcelana e associada a argilas mais plásticas, mas também mais porosas, necessitando assim de ser vidrada para o uso doméstico. Os modelos utilizados foram os da porcelana chinesa, que em breve passavam também aos azulejos.

Os primeiros anos do séc. XVII devem ter conhecido uma especial necessidade de revestimentos cerâmicos para várias igrejas, para que isso tivesse sido assumido pela Fazenda Real, responsável pelo equipamento das mesmas. Nesse quadro, entre 1620 e 1630, vieram do continente alguns milhares de azulejos pseudoenxaquetados azuis e brancos para constituírem painéis, tal como barras de anjinhos com albarradas e outras, que decoram ainda hoje as paredes da Capela de N. S.ª de Lourdes da Sé do Funchal, o coro alto e o coruchéu da torre do Convento de S.ta Clara, toda a nave da matriz de S. Pedro e a cruz sobre a entrada do recolhimento do Bom Jesus, subsistindo ainda este tipo de azulejos em rodapés das matrizes de S.ta Luzia e da Calheta, e ainda na torre da matriz de S. Jorge.

A originalidade destes azulejos de padrão é imitarem os chamados painéis de caixilho ou painéis enxaquetados, que utilizavam várias peças de diferentes tamanhos através da pintura a azul-cobalto do engobe branco de esmalte estanífero mas em azulejos únicos, dentro da tradição do alicatado islâmico. Se as barras que os acompanham são muitos comuns no continente, deste tipo de azulejos não se conhecem exemplares, em princípio, fora da Madeira, pelo que deduzimos ser uma encomenda algo retrógrada da Fazenda Régia do Funchal.

Salvo casos pontuais como este, até os inícios do séc. XVII, na generalidade, os azulejos eram entendidos como simples revestimentos de parede, não apresentando especiais cuidados decorativos. No entanto, começaram nestes anos a ocorrer alterações de gosto, especialmente fruto dos contatos com o Oriente. Nesse quadro, quando o Convento de S.ta Clara encomendou novos painéis policromos em Lisboa, teve algumas dificuldades na sua colocação, dados os motivos utilizados serem muito pouco próprios para um convento de freiras clarissas. A barra em questão, e provavelmente os demais painéis que não chegaram até nós, apresentava motivos inspirados nas tradições indianas, como “nagas” ou “nagiras”, de seios nus e corpo de serpente, que acabou colocada no remate junto ao teto da igreja, totalmente fora do alcance de qualquer observador.

Os azulejos do séc. XVII inspiraram-se depois nos têxteis orientais, formando complexos tapetes, assim designados porque o efeito decorativo obtido pela repetição ritmada do padrão utilizado se assemelhava ao dos brocados ornamentais ricos, que ainda hoje preenchem muitas das igrejas da Madeira, acompanhando e realçando os elementos arquitetónicos, emoldurando retábulos e pinturas. Pontualmente, como nas capelas do transepto da igreja do Colégio, apresentam mesmo imaginária religiosa, mas parece ser o único caso que chegou até nós. Alguns conjuntos envolvem vários azulejos diferentes, como na igreja do Convento de S.ta Clara, que apresenta o “padrão Marvila” o mais complexo, com 12 x 12 azulejos. Estes complexos painéis acompanham os do chamado “padrão Santa Clara”, mais simples e comum a quase todos os conventos de clarissas portugueses, daí lhe advindo o nome.

Os painéis mais comuns na madeira desta época são os de “massarocas” e de “camélias”, nas suas várias versões, comuns por todo o território português, incluindo ainda o Brasil, Cabo Verde, etc., mas pontualmente houve encomendas especiais, como a que cobria as paredes da demolida igreja de N. S.ª de Guadalupe, no Porto da Cruz, de um padrão dos finais do séc. XVII que não se conhece fora da Madeira. Subsistem, entretanto, alguns azulejos deste padrão no salão paroquial da atual igreja do Porto da Cruz.

Os finais do séc. XVII marcam a passagem do gosto da decoração da porcelana chinesa para o azulejo, que destes os inícios do século era comum na faiança de uso doméstico e outra, como eram os canudos de farmácia, etc. Nascem assim os azulejos historiados, que passam a preencher as paredes das igrejas e capelas com as principais cenas da vida dos oragos. A primeira oficina a desenvolver este tipo de temática teria sido a de Gabriel del Barco (m. antes de 1708), que deu início ciclo dos “grandes mestres”. Desta oficina pode ser o conjunto de painéis da vida de S.to António da Capela das Angústias, na atual Quinta Vigia, de cerca de 1690, embora sejam azulejos não assinados e, com maiores reservas, os painéis da Capela da Nazaré, em São Martinho, no Funchal, que poderiam ter sido executados de colaboração com a oficina inicial de António de Oliveira Bernardes.

A ilha possui ainda exemplares dos trabalhos das grandes oficinas de Lisboa do séc. XVIII, da chamada época de apogeu dos “grandes mestres” e do reinado de D. João V, oficinas dirigidas pelos mestres António Oliveira Bernardes (m. 1732) e seu filho Policarpo Oliveira Bernardes (m. 1778), responsáveis, provavelmente, pelas grandes urnas com versículos do Apocalipse da igreja do Colégio do Funchal, pelos painéis das paredes da entrada e do coro com anjos músicos, datáveis de 1730 a 1735, até porque, poucos anos depois, o mestre Policarpo deve ter pintado os óleos do Martírio de S.ta Quitéria desta mesma igreja e os azulejos da capela da Santa, sob o coro.

Outras oficinas poderiam ter trabalhado para a Madeira, como a de Teotónio dos Santos, cujos trabalhos, por vezes, se assemelham com os de outras oficinas, dada a circulação de artífices entre essas várias oficinas. Encontram-se ainda obras atribuíveis às oficinas de Bartolomeu Antunes (1685-1753) e de Nicolau de Freitas (1703-1765), aos quais se poderiam atribuir os trabalhos da Capela do Amparo e da sala da Confraria do Santíssimo da Sé (1731-1735), enviados de Lisboa em 1732 (FERREIRA, 1963, 25). Desta oficina também devem ser os azulejos da matriz da Lombada da Ponta do Sol, existindo deste último mestre o único exemplar assinado e datado conhecido: o registo de N. S.ª do Carmo colocado nas traseiras da igreja do recolhimento do Bom Jesus, “Nicolau de Freitas fez em 1744”.

Da mesma época também devem ser os azulejos da sacristia da igreja do Colégio, tal como os da sala da Confraria do Santíssimo da Sé com cenas bucólicas e profanas, sendo os do colégio de uma outra oficina. A curiosidade é o aparecimento, especialmente nas paredes das sacristias da Madeira, mas também nas do Brasil, de cenas não religiosas e até galantes, ou de caça, como no colégio do Funchal. Esta situação só parece explicável para as sacristias, tal como para as salas das confrarias, por serem locais para reuniões fora do âmbito da igreja, para celebração de contratos, etc., demarcando-se assim do espaço sagrado que são os interiores das igrejas.

De uma oficina ainda não identificada são os magníficos painéis da varanda do antigo paço episcopal, representando as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade, de muito boa execução e que deveriam estar encomendados, senão mesmo colocados, entre 1760 e 1765. Dos finais do século, entre outros conjuntos de azulejos neoclássicos, ainda subsiste na varanda da atual Quinta Vigia uma coleção das fábulas de Esopo, copiada de gravuras francesas e executada na Real Fábrica da Louça ao Rato pelo pintor Francisco de Paula e Oliveira (c. 1760-c. 1820), pelos anos de 1790. Dado manter, inclusivamente, as legendas em francês, foi encomenda, por certo, do comerciante e cônsul francês no Funchal, Nicolau de La Tuillerie, que habitou por esses anos nessa quinta.

Nos meados do séc. XVIII também se divulgou o azulejo como equipamento público e religioso, como é o caso da divulgação das Alminhas, registos destinados a solicitar orações pelas almas do purgatório, mas também mais utilitário. O primeiro caso que detetámos foi a encomenda pela Misericórdia do Funchal de azulejos para identificarem os prédios que pagavam foro na cidade, encomendados em 1787, no que foi seguida por outras associações, como foi o caso, pelo menos, da Confraria do Rosário da Sé do Funchal, de que resta um azulejo na rua dos Tanoeiros.

O interesse pelos azulejos não esmoreceu ao longo do séc. XIX, como prova a encomenda do vigário do Monte, P.e Francisco José Rodrigues de Almada, em 1884, e cujos rodapés com o seu nome, data e símbolos religiosos se encontram na igreja matriz e em várias capelas da freguesia. Também não esmoreceu ao longo do séc. XX, como é patente na recolha feita nas décadas de 30 e 40 pelo Dr. Mário Perestrelo de França do Nascimento (1870-1941) para a sua casa de família, edifício revivalista e ao gosto da época onde se encontra hoje a sede da Cruz Vermelha Portuguesa do Funchal. Tal situação manteve-se nos edifícios civis, como na reformulação do edifício da CMF, em 1940, ou nas paredes do novo Tribunal do Funchal, em 1962. O mesmo não aconteceu no séc. XXI, continuando-se a revestir os interiores das igrejas e mesmo de edifícios civis com azulejos.

Ao longo do séc. XX ainda se incentivou o gosto pelos registos religiosos em azulejos, especialmente após a célebre viagem da imagem peregrina de N. S.ª de Fátima, em 1948, costume que se manteve nas viagens seguintes, como na ocorrida em 2010. Idêntico gosto se divulgou em algumas autarquias no equipamento de sinalética urbana, identificando ruas, praças e edifícios.

Proveniente de todo este espólio geral, periodicamente desmontado por obras várias e reformulações de gosto, veio o Dr. Frederico de Freitas (1894-1978) a reunir no Funchal um acervo notável de azulejos hispano-mouriscos e portugueses, mas também de origem estrangeira, como holandeses, persas, turcos, ingleses, chineses, etc., de grande ecletismo estético. Foi com o seu apoio que o Eng.º João António dos Santos Simões (1907-1972), em 1963, estudou os azulejos portugueses nos Açores e na Madeira, trabalho depois revisto em parte pelo Dr. Rafael Calado (1937-2006), em 1999, dentro da montagem museográfica desta coleção, entretanto legada à Região e nesse ano aberta ao público na Casa dos Azulejos.

Bibliog.: CALADO, Rafael Salinas, Azulejaria na Madeira & na Colecção da Casa-Museu Frederico de Freitas, Lisboa, DRAC, 1999; CARITA, Rui, História da Madeira, 7 vols, Funchal, 1986-2008; Id., “A Pompa e o Aparato das Sacristias da Expansão”, Oceanos, n.º 36/37, Azulejos Portugal-Brasil, Lisboa, CNCDP, 1998 e 1999, pp. 114-124; FERREIRA, P.e Manuel Juvenal Pita, A Sé do Funchal, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo, 1963; FREITAS, Paulo de, “Azulejaria na Madeira”, Islenha, n.º 4, jan.-jun. 1989, pp. 25-29; GUERRA, Jorge Valdemar, “O Convento de Nª. Sª. da Piedade de Santa Cruz. Subsídios para a sua história”, Islenha, n.º 20, jan.-jun. 1997, pp. 125-156; LIZARDO, João, “Arte Mudéjar na Madeira: A Pia Baptismal da Matriz da Ponta do Sol”, Atlântico, n.º 18, 1989, pp. 149-152; SAINZ-TRUEVA, José de (coord.), Convento de Santa Clara do Funchal, Madeira – Roteiro, Funchal, DRAC, 2000; Obras de Referência dos Museus da Madeira, 500 Anos de História de Um Arquipélago, catálogo de mostra comissariada por Francisco Clode de Sousa, Galeria de D. Luís, Palácio da Ajuda, nov. 2009; SIMÕES, João Miguel dos Santos, Azulejaria Portuguesa nos Açores e na Madeira, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1963.

Rui Carita

(atualizado a 28.07.2016)