bandas filarmónicas madeirenses

18-2-1850 Banda dos Artistas, RAcamacho (1)-min
Banda Municipal do Funchal Artistas Funchalenses. R. Camacho.

O aparecimento das bandas filarmónicas na Madeira dá-se na segunda metade do séc. XIX. A Filarmónica dos Artistas Funchalenses (primeira denominação para a atual Banda Municipal do Funchal) surge em 1850. O século tinha começado com uma guerra e posterior ocupação da ilha da Madeira pelas tropas inglesas. Nesse período conturbado das invasões francesas, os grandes contingentes militares não dispensavam as fanfarras nos seus longos desfiles e na inevitável ordem unida. A presença do exército inglês no Funchal, entre 1801 e 1814, vai dar a conhecer aos madeirenses um certo tipo de banda, que será posteriormente desenvolvida em Portugal continental, primeiro na Banda da Armada e depois nos batalhões e regimentos de infantaria espalhados pelo país. Este formato musical, que integrava sopro e percussão, tem uma primeira localização, Lisboa, e um propósito, a reformulação da Marinha Portuguesa e das restantes forças. Será sobretudo a partir de 1828, com a presença da Banda do Regimento e da Banda do Batalhão, que os ouvidos dos madeirenses se concentrarão nos desfiles e concertos ao ar livre destas novas formações musicais.

Banda Nova da Câmara de Lobos, Rui Camacho, 1998.
Banda Municipal de Câmara de Lobos, 1998,  Rui Camacho.

O modelo, a formação e direção das bandas civis iria ser decalcado das congéneres militares, sendo os seus mestres contratados pelas mais importantes sociedades musicais madeirenses. Assim aconteceu com a Banda Municipal do Funchal (1850), a Banda Municipal de Câmara de Lobos (1872) e a Banda Distrital do Funchal (1872), as três mais antigas formações que durante muito tempo disputavam entre si não só aspetos de rivalidade mas os talentosos mestres militares, únicos ao tempo no saber musical específico para este tipo de agrupamento.

O séc. XIX iria ver nascer muitas bandas tanto no Funchal como no mundo rural, algumas de vida curta, das quais a história se resume a uma ou duas atuações, registadas pelos diários de então. No entanto, é, sem dúvida nenhuma, fora do Funchal que o fenómeno das bandas ganha expressão. Primeiro no Paul do Mar (1874), depois na Ponta do Sol (1882) seguindo-se Faial (1895), Santa Cruz e Machico (1896). Centrando a sua atividade à volta da escola de música, as bandas ganharam a simpatia das populações e a convivência fácil com a comunidade, que as prestigiaram apoiando-as na compra de instrumentos ou contratando os serviços musicais para as diversas festas tradicionais ao longo do calendário, fonte de receitas para manter os ativos, tanto os músicos como os mestres. O arraial madeirense, na sua ideia chave de partilha do profano e do sagrado, encontraria na banda de música o seu perfeito aliado. Dois momentos, o da procissão e o da festa, estariam doravante com acompanhamento musical adequado: marcha grave e música religiosa, por um lado, e, por outro, um repertório que passaria do pasodoble à marcha portuguesa e outras melodias popularizadas, primeiro pelo teatro de revista e num segundo momento pela rádio e disco.

Banda Filarmónica de Câmara de Lobos. R. Camacho.
Banda Filarmónica de Câmara de Lobos. R. Camacho.

Os contratos para estes eventos designavam-se de contrato a seco ou de contrato a comer. No primeiro, a coletividade musical levava o seu próprio cozinheiro, que faria as refeições necessárias às expensas da direção. No segundo caso, a banda ganharia menos dinheiro, uma vez que o festeiro descontava nas refeições por ele cedidas. A banda começava a sua prestação musical pela manhã, logo depois da missa, indo depois tocar à casa do festeiro. A banda podia também ir de porta em porta, acompanhada pelo festeiro e mordomos. Existem episódios em que os músicos contavam centenas de hinos tocados, pois era necessário tocar para todos os que tinham contribuído para a festa. A meio da tarde servia-se o almoço, geralmente espetada, batatas com atum ou caldeirada de bacalhau. Ao princípio da noite iniciava-se a festa que durava até à meia-noite. No dia seguinte a procissão era o momento mais alto da prestação musical, seguindo-se uma atuação ao longo da tarde e noite.

Os contratos não eram escritos. Cabia ao festeiro escolher uma banda da sua preferência, a banda da festa, podendo convidar mais uma ou até várias outras bandas, as bandas convidadas. No adro da igreja eram colocados dois coretos, o da direita era da banda da festa e o outro, o da banda convidada. Quando existiam mais bandas, os coretos espalhavam-se pelos arredores do recinto do arraial. A banda da festa seguia na frente da procissão e a banda convidada atrás. Os mestres das bandas, também angariadores de serviços musicais, tentavam a todo o custo que a sua banda fosse a banda da festa, a banda principal, o que era visto com prestígio.

No mundo hierarquizado das filarmónicas só a direção e eventualmente o mestre saberiam o valor exato do contrato. Os músicos não recebiam todos por igual, existindo a designação de partes, meias partes e quartos de parte, contemplando a antiguidade dos executantes, mas nunca revelando o montante final pelo serviço musical. O fardamento era fornecido pela banda, assim como o instrumento, existindo casos em que o próprio executante adquiria à banda, em prestações, tanto o fardamento como o instrumento. A entrada para a filarmónica dava-se por volta dos 15 anos, aprendendo o jovem primeiro o solfejo e só mais à frente tomando contato com o instrumento.

Nas bandas estudadas, verificou-se uma longa permanência dos instrumentistas. Até 25 de abril de 1974, era frequente os músicos tocarem até aos 70 anos de idade, sendo a experiência da filarmónica a única da sua vida artística. Nas décadas de 30 e 40 do séc. XX, o fato da banda era para o instrumentista o único que possuía, tal como os próprios sapatos, servindo estes para ocasiões solenes. Conta-se que esse foi um dos motivos para nas décadas seguintes as fardas das filarmónicas madeirenses terem várias cores, nomeadamente o dourado, em riscas nas calças ou casaco. O propósito era simples: evitar a utilização do fato fora da atividade musical. Eram tempos de miséria a todos os níveis, mas que, apesar de tudo, serviram para muitos dos executantes aprenderem a ler, escrever e contar, já que cabia também esse papel às próprias bandas.

Destaca-se nos registos o concelho de Santana, que reunia três filarmónicas: Banda Filarmónica do Faial (1895), Banda Municipal de Santana (1926) e Banda Escola de N. S.ª de Fátima do Arco de São Jorge (1933). A atividade da escola da banda variava conforme os mestres, o seu saber, a sua persistência e o seu carisma. No entanto há um traço geral quanto ao modo de operacionalizar o estudo e ensaio: duas vezes por semana para acompanhamentos e contra cantos, duas vezes para canto (solistas) e duas vezes ensaio geral, significando, em termos de dias de semana, uma ação que se desenrolava de segunda a sábado. As bandas filarmónicas foram também das primeiras sociedades recreativas que reuniram executantes masculinos de nível socioeconómico e cultural mais humilde.

A formação, mas sobretudo a continuação da atividade, gerava muitos problemas e mesmo obstáculos. O fardamento, os instrumentos, o mestre de música e os músicos, bem como a casa de ensaio, careciam de uma capacidade organizativa, que passava pelas quotas dos sócios e beneméritos, de modo a suprir as despesas contratadas. Isso mesmo se pode entender quando em 1913 surgiu a Federação das Filarmónicas, numa tentativa de apoio às coletividades.

16-9-94 Banda da Camacha, RAcamacho-min
Banda Paroquial da Camacha, Rui Camacho.

Desde 1850, com o aparecimento da primeira banda civil, a Sociedade dos Artistas Madeirenses, se conjugava nos concertos públicos, na Pç. da Constituição e na Pç. Académica, a já citada banda e a Banda do Regimento, entre outras formações marciais nacionais e estrangeiras, que estando de passagem pela Madeira se disponibilizavam a tocar num gesto de cortesia. O fenómeno aos poucos estendeu-se às vilas e freguesias do sul da ilha, como Câmara de Lobos, Santa Cruz e Machico, incentivado pela colocação de coretos nos centros históricos das localidades. A organização das sociedades musicais remetia-se para os estatutos, onde se plasmavam os direitos e deveres do mestre, dos aprendizes e executantes.

As normas de comportamento, em geral severo, decalcavam-se do modelo militar e impunham restrições e coimas. Em resumo, o dever de assiduidade, pontualidade e respeito à banda, sem esquecer a obediência ao chefe. A disseminação das bandas pelo restante espaço a sul é rápido, potenciado pela maior densidade populacional, facilidade de transportes terrestres e marítimos e desenvolvimento socioeconómico. Do Paul do Mar até Machico, as sociedades musicais iriam deixar a sua marca até ao fim do séc. XIX. Esta, revelar-se-ia não só no domínio dos sopros como também nas orquestras características (com cordofones tradicionais), nas orquestras de palheta ao estilo italiano (com instrumentos da família do bandolim e viola dedilhada) e nos pequenos conjuntos de música religiosa e festiva, que atuavam nas igrejas constituídos, para além das vozes humanas, por violino, violoncelo, flauta transversal e órgão. Era frequente também os mestres das filarmónicas serem convidados a dirigir estes pequenos núcleos musicais ou a fazer arranjos para os seus instrumentos.

Banda de Música da Camacha, 1998, Rui Camacho.
Banda de Música da Camacha, 1998, Rui Camacho.

A par do padre e do professor primário, o mestre da banda, pelos seus conhecimentos musicais ou patente militar (sargento, tenente, capitão), assumia nestes contextos sociais uma importância acrescida. Por toda a ilha, a presença das bandas fazia-se notar no dia da festa da paróquia, entusiasmando as forças vivas dos concelhos a constituir a sua própria banda. Com a exceção histórica do Porto Moniz e de São Vicente, por alguns motivos já atrás formulados, mas também pelo fenómeno da emigração, não se conhecem dados de tentativa ou constituição de agremiação de sopros. Outros casos existiram de pouca duração, ou que simplesmente não passaram do solfejo inicial.

13-10-1993 Banda do Arco de S. jorge, RAcamacho-min
Banda Escola de Nossa Senhora de Fátima do Arco de São Jorge, 1993, Rui Camacho.

No mundo rural madeirense, estas bandas, como a do Paul do Mar e Faial, tinham pouco mais de 13 elementos, sendo necessário reforçá-las com elementos vindos do Funchal ou de Câmara de Lobos. Estes músicos disponíveis eram na sua maioria militares das bandas existentes na Madeira. Esta prática persistiu até depois do 25 de abril de 1974. A falta de registos por parte das bandas leva-nos a recorrer aos diários da época para auscultar a sua presença e importância na comunidade e sociedade do seu tempo. Na verdade, o trabalho profícuo de vários investigadores tem trazido novos dados sobre a constituição destas sociedades. Ainda no séc. XIX, e no norte da Madeira, surgiu, por cerca de 1875, a Filarmónica União de S. Jorge, regida pelo mestre Francisco Ribeiro, músico militar, responsável pela Banda Regimental. Outro caso, de grande atividade musical, mas de poucos e incompletos documentos, tem lugar no concelho de Santa Cruz.

Uma primeira fundação da Filarmónica União Santacruzense, por volta de 1877, que se iria dividir em 1906 por desentendimentos entre músicos, passando a ser conhecidas pela população como Banda do Sr. Ângelo e Banda do Sr. Franco, tendo este último sido um dos fundadores da Banda Municipal de Santa Cruz em 1922. Também no concelho da Calheta existiu a tentativa de criação de uma banda, na década de 50 do séc. XX, pela mão do regente e músico militar Raúl Serrão, que não chegou a atuar. Outras formações de curta duração surgem aqui e ali nas várias investigações, como por exemplo a Filarmónica Recreio União Comercial em 1898, a Filarmónica Recreio Lusitano e a Filarmónica Recreio Artístico do Campanário, ambas na primeira década do séc. XX. A constituição deste tipo de agrupamento chegou também aos Bombeiros Voluntários do Funchal, Polícia de Segurança Pública e Escola das Artes e Ofícios, sendo no caso desta última constituída apenas por alunos internos. Algumas bandas tinham patrono ou mecenas, referindo na sua designação tal facto.

A Filarmónica Restauração da Ponta do Sol ficou conhecida como príncipe D’Oldemburgo, como reconhecimento ao tenente-general do exército russo que por cá viveu durante dois anos, ficando conhecido pela sua filantropia. A Filarmónica D. Carlos I, depois Banda Municipal de Machico, adotaria esta nomenclatura em homenagem ao monarca português, possuindo título de autorização para tal designação, passado pelo rei. Também a Filarmónica Artístico Madeirense (depois Banda Distrital do Funchal) se designava de Real Filarmónica Artístico Madeirense, em 1908, por diploma passado pelo já citado rei.

14-12-1989 Sr. Anselmo, , Banda de Santa Cruz , RACamacho
Sr. Anselmo, Banda de Santa Cruz, R. Camacho, 1989.

Na vida das diferentes coletividades muitas personalidades se distinguiram, entre presidentes e benfeitores, mas um lugar de relevo tem de ser dado aos mestres, pois deles dependia a própria atividade da banda, na sua preparação e apresentação pública. Ainda no séc. XIX, o destaque vai para Anselmo Serrão, natural de Câmara de Lobos (1846-1922). Compositor multifacetado, foi também mestre da Banda dos Artistas Funchalenses e regente de orquestras de igreja, uma das quais no Estreito. É o autor do hino da Banda Municipal de Câmara de Lobos. Ângelo Álvares de Freitas, natural de Santa Cruz, surge como outro dos compositores, regentes e fundadores de núcleos musicais de grande evidência, como foi o caso da Sociedade Fraternal e Recreativa de S.ta Cruz, uma sociedade de concertos com estatutos e contabilidade organizada, em atividade por volta de 1886. Destacou-se ainda como orquestrador e educador, fez muitos arranjos para diferentes configurações artísticas e lançou muitos apontamentos para ajudar na formação individual dos executantes, quer de sopro, quer de cordas. Entre as suas composições destacam-se os hinos, a música sacra e música de dança com que pontuava nos salões do concelho, com orquestras dirigidas por si.

Arraial do Senhor Bom Jesus da Ponta Delgada, Madeira, 2005 Rui Camacho
Arraial do Senhor Bom Jesus da Ponta Delgada, Madeira, 2005, Rui Camacho.

Ao longo do séc. XX, foram muitos os nomes mencionados em vários trabalhos de investigação musicológica. O mestre Francisco da Silva, de Câmara de Lobos, orientou por mais de 50 anos a Banda Municipal de Câmara de Lobos, revelando-se no seu tempo como um dos únicos mestres civis. Desenvolveu a sua atividade entre 1916 e 1966. Em Machico, José da Costa Miranda (1908-1987), salientou-se enquanto mestre da Banda Municipal de Machico, organista e compositor. O seu nome é muito conhecido no meio filarmónico, sendo o seu trabalho reconhecido na sua extensa composição musical, que inclui marchas graves, hinos e repertório ligeiro para banda, sem esquecer a música sacra, que apresentava durante anos na igreja de Machico onde, para além de organista, dirigia o coro. Da Ponta do Sol para o Brasil, onde foi primeiro conhecido, deve ser referido o mestre Moisés Alves Pita (1922-2002). Depois de muitos anos na Banda da Ponta do Sol como executante e uma passagem pela Academia de Música da Madeira, partiu para o Brasil em 1950. Do seu currículo consta o cargo de mestre e presidente da Banda de Niterói, membro da bancada examinadora de carteiras profissionais, cidadão honorário do Estado do Rio de Janeiro, Ordem de Benemerência de Portugal e medalha de Honra e Mérito. As suas composições alcançaram, tanto no Brasil como em Portugal, um grande reconhecimento artístico. Apresentou algumas das suas obras em Lisboa, dirigindo a Banda de Música da Força Aérea em 1987, por altura da condecoração recebida da Secretaria de Estado da Emigração.

Num leque mais alargado, ao longo das décadas de 50 e 70 do séc. XX, no que diz respeito a direção e composição para banda, o destaque vai para João Ornelas Abreu, Raul Serrão, João Figueira Quintal e Abel Teixeira Mendes, sendo os últimos três músicos militares de carreira que receberam uma sólida formação e que a souberam reverter nas bandas civis por onde passaram.

Formação e fardamento de Banda Municipal
Formação e fardamento de Banda Municipal, Rui Camacho.

A presença das bandas nas festas tradicionais, nos concertos públicos patrocinados pelo governador ou Câmara colocou em evidência esta subcultura musical, tornando-se já na primeira década do séc. XX um incontornável ativo cultural. Em 1909, num intercâmbio com as vizinhas canárias, deslocou-se à ilha de Tenerife a Filarmónica Artístico Madeirense (atual Banda Distrital do Funchal) para uma série de concertos e animações. Seria a primeira vez que uma banda madeirense saía em digressão, neste caso para uma atuação na Festa de Maio de Santa Cruz de Tenerife. O acontecimento foi muito relatado nos jornais da época e gerou um grande entusiasmo por parte da população. Em 1913, outra formação, a Banda dos Artistas Funchalenses (atual Banda Municipal do Funchal), teve igual privilégio na participação das mencionadas festas em Tenerife. Fica também registado para a história o facto de nessa digressão se ter tocado, pela primeira vez, o hino republicano português no estrangeiro, o qual é atribuído até hoje apenas a esta banda madeirense.

dezembro de 1985, Funchal, RAcamacho-min
Banda Filarmónica a tocar no largo da fonte Funchal, 1985, Rui Camacho.

A Banda dos Artistas Funchalenses seria a protagonista durante décadas de um envolvimento e aprofundamento musical e artístico devido ao seu maestro e diretor musical, o capitão Gustavo Augusto Coelho, uma personalidade que marcaria também o mundo filarmónico madeirense, enquanto referência por causa da qualidade no desempenho do seu ofício como maestro, compositor e professor. Em 1927, ainda no posto de tenente do exército, orientou a Banda dos Artistas Funchalenses na célebre digressão aos Açores, vencendo a grande dificuldade de entrosamento entre as ilhas portuguesas. E, mais uma vez, pela originalidade de tal evento, esta filarmónica alcançou um grande sucesso testemunhado pelos jornais da época. A filarmónica apresentava-se com 40 figuras, exibindo também um novo fardamento. O nível do repertório apresentado foi tema de análise pela imprensa. O maestro foi elogiado pelo rumo em que direcionava a coletividade musical, colocando-a num novo ciclo e patamar de qualidade.

A atividade das bandas centrava-se em três grandes áreas: a escola de música, a festa tradicional madeirense (os arraiais) e os concertos públicos. Nem todas as formações conseguiam o pleno nessas linhas mestras. De entre o leque das filarmónicas madeirenses, a Banda Municipal do Funchal, a Banda Distrital do Funchal, a Banda Municipal de Câmara de Lobos e a Banda Recreio Camponês são as mais ativas, atendendo a um período continuado pelas décadas de 30, 40 e 50 do séc. XX. As bandas viviam, sem margem para dúvida, do dinheiro ganho pelos serviços prestados nas principais festas da ilha, entre elas as do Estreito da Calheta, Monte, São Pedro da Ribeira Brava, Ponta Delgada, Loreto e Santo António, que chegavam em certos anos a solicitar 5 a 7 bandas de música. Estas festividades foram potenciadas pelo forte contributo dos emigrantes que se encontravam no Brasil, Curaçau, Venezuela e África do Sul, atingindo o pique da procura das formações musicais nas décadas de 50 e 60 do século passado.

Banda do Arco de S. Jorge - Madeira, arraial do Senhor Bom jesus, da Ponta Delgada, Madeira, 2005 RAcamacho, IMG_0976 (3)-min
Banda do Arco de S. Jorge – Madeira, arraial do Senhor Bom jesus, da Ponta Delgada, Madeira, 2005, Rui Camacho.

Enquanto atividade interna, dirigida a sócios e familiares, as filarmónicas madeirenses apostavam em bailes e festas por altura do Carnaval e Santos Populares. Desenvolveram-se também grupos de teatro amador e coros que entrelaçavam vários espetáculos anunciados na imprensa diária, alguns incluindo número de variedades, fado, teatro de revista e até projeção de filmes. Destacou-se neste tipo de festa, patrocinado em exclusivo pela banda, o carnaval da Banda Distrital do Funchal. Este, realizado ao estilo brasileiro, reunia toda a formação numa troupe musical, com um enredo apropriado. A festa começava com o percurso da Pontinha até ao cais da cidade, como se a banda viesse de fora. Todos os anos havia um ou dois trajes diferentes, e a música, ao estilo brasileiro, era enviada para um dos membros da direção, o Sr. Brazão, que, sendo brasileiro, tinha inúmeros contactos com escolas de samba cariocas. Essa ligação permitia tocar todo o tipo de repertório recente, uma grande vantagem perante as congéneres que se limitavam a tocar temas antigos. O Funchal aderia em massa ao carnaval dos “guerrilhas”, o nome pelo qual eram conhecidos pela população. Para além do concerto no Jardim Municipal do Funchal, uma série de bailes animavam a sede da banda, acompanhados por uma formação musical criada no seu seio, que se designava Orquestra Brilhante. Os bailes iam pela noite dentro, até às quatro horas da manhã, com uma autorização especial do governador civil da Madeira. Seguia-se um périplo pelos hotéis da cidade para animação dos turistas. Os músicos atuavam de forma graciosa, sendo todo o dinheiro arrecadado para o cofre da coletividade, que via assim uma nova forma de financiamento para compra de instrumentos e fardamento.

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Banda Recreio Camponês, de Câmara de Lobos, Rui Camacho.

Até 25 de abril de 1974, o movimento artístico das filarmónicas esteve em expansão, quer pelo número de elementos, quer pelas solicitações para atuar. Por esta altura, também as bandas começaram a admitir executantes femininos, sendo a Banda Paroquial da Camacha a primeira a fazê-lo com a admissão de seis elementos, em 1971. Esta banda difere de todas as outras, uma vez que nasceu dentro de uma paróquia fomentada pelo seu mentor, o P.e Martinho. Após a Revolução de Abril, muitas alterações se iriam dar, a mais importante das quais foi o facto de os mestres passarem a ser na sua maioria civis, com cursos de instrumentos, e levarem métodos específicos para cada instrumento e naipe da banda, o que não acontecia antes, pois tudo se concentrava no mestre (que era geralmente um músico militar que ensinava todos os instrumentos).

Outra formação que marcou o mundo das bandas filarmónicas madeirenses foi a Banda Orquestral de Câmara de Lobos – Os Infantes. Nesta, o instrumentário vulgar de uma banda foi acrescentado de bateria, piano, baixo elétrico e guitarra elétrica. As suas atuações, ao contrário das outras bandas, requeriam um palco, já não um coreto. Também o serviço musical de acompanhamento à procissão era executado por uma parte da banda, pressupondo dois tipos de ensaio, um para espetáculo e outro que atendia ao tradicional arraial insular.

Arraial do Senhor Bom Jesus, Ponta Delgada, R. Camacho, 2005.
Arraial do Senhor Bom Jesus, Ponta Delgada, R. Camacho, 2005.

O fenómeno das bandas ressurgiu nos anos 90, com a Banda Juvenil do Gabinete de Apoio à Expressão Musical e Dramática, relançando nas camadas mais novas o gosto pelos instrumentos de sopro. Um ponto alto destas formações é a apresentação musical no Encontro de Bandas que se realiza anualmente na Ribeira Brava, no qual têm sido homenageados músicos e mestres que marcaram a história das filarmónicas madeirenses.

Bibliog.: SARDINHA, Vítor e CAMACHO, Rui, Rostos e Traços das Bandas Filarmónicas Madeirenses, Funchal, Direção Regional dos Assuntos Culturais e Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2001; MORAIS, Manuel (coord.), A Madeira e a Música, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008.

Vítor Sardinha

(atualizado a 05.07.2016)