barreto, manuel agostinho

Manuel Agostinho Barreto nasceu a 7 de dezembro de 1835, em Coentral Grande, localidade situada em Castanheira de Pera, distrito de Leiria. Os seus pais, José Agostinho Barreto e Maria Barreto, velaram por que rumasse a Coimbra, depois de completada a instrução básica, para frequentar o seminário, de onde passou à universidade, na qual, em 1858, concluiu licenciatura em Teologia. Teria começado a carreira de presbítero na sua terra, de onde depois voltou a Coimbra, passando daí para o Porto, levado pela fama que os seus dotes de oratória e escrita já lhe iam granjeando. No Porto, cedo se notabilizou como pregador, sendo frequentemente escolhido para os sermões mais solenes e as festas de maior relevo. Em crescendo de notoriedade, não tardou que o bispo de Lamego o convidasse para trabalhar na sua Diocese onde, a partir de 1864, veio a desempenhar funções de docente no Seminário e, depois, sucessivamente de cónego, vigário geral, provisor e governador do bispado, continuando a sua “palavra fácil e pensamento claro, conciso e profundo” a atrair as atenções (COELHO, 2015, 1). Em reconhecimento dos seus extraordinários dotes e serviços, Roma fez dele prelado doméstico de Sua Santidade, uma das dignidades que se abrigam debaixo da designação genérica de monsenhor.

Em 1877, e contrariando as expetativas de Agostinho de Ornelas Vasconcelos, irmão de D. Aires de Ornelas Vasconcelos, anterior bispo do Funchal que, em carta de 22 de abril de 1874 informava o irmão de que, depois de ouvidos os ministros do reino, se dava como sucessor na mitra funchalense o arcebispo de Mitilene ou o bispo de Cabo Verde, Manuel Agostinho Barreto acabou por ser designado prelado para o arquipélago madeirense. Confirmado em 29 de setembro de 1876, foi sagrado bispo na basílica da Estrela, em Lisboa, a 4 de fevereiro de 1877, e rapidamente se deslocou para a Madeira onde entrou solenemente a 25 do mesmo mês de fevereiro.

Pouco tempo depois de chegar, a 2 de março, tornava pública a primeira das muitas pastorais que produziu, na qual fazia a sua apresentação aos diocesanos e deixava já algumas pistas para os valores que orientariam o seu episcopado, designadamente algum ultramontanismo, expresso na exaltação que fazia da figura do Papa: “Veneração e amor, caríssimos filhos, respeito e submissão à pessoa e à voz infalível de Pedro, representada e escutada em Pio IX” (BARRETO, 7 abr. 1877, 305).

Dois dias depois desta publicação, suicidou-se, no Funchal, um jovem artista, Coutinho Gorjão, cujo enterramento se fez no cemitério das Angústias com licença da Câmara Municipal, depois de o bispo ter proibido a sua sepultura em solo consagrado. Tendo o facto chegado ao conhecimento do prelado, este de imediato interditou o cemitério e, sem perda de tempo, assumiu, do púlpito da Sé, uma vigorosa posição contra o senado funchalense, que lhe granjeou, com certeza, alguns inimigos, designadamente entre os liberais. O estrépito desta polémica ouviu-se logo na imprensa madeirense e não só, pois até no Porto, na sequência destes acontecimentos, surgiu um folheto intitulado A Sepultura Eclesiástica e os Suicidas, que pretendia responder à crítica posição localmente assumida pelo periódico A Lei. A reforçar as palavras acesas com que comentou o sucedido em sermão na Sé, D. Manuel Agostinho Barreto publicou uma admoestação pastoral, na qual verberava o suicídio e condenava, sem rebuços, todos os seus praticantes. À semelhança da pastoral anterior e de várias posteriores, também este texto teve honras de publicação na imprensa nacional, pois foi divulgado pelo periódico Bem Público – um jornal católico que se publicou em Lisboa entre 1857 e 1877 – a 14 de abril de 1877.

A ação destemida do prelado, a forma como pretendia reganhar um rebanho no qual “a ausência de pastor” se tinha feito sentir “talvez como em parte nenhuma”, (COELHO, 2015, 2), a frequência com que publicava pastorais, as visitas à Diocese, o empenho em diversos projetos, contristavam, porém, uma parte da população da Madeira. Em 1881, Frederico Pinto Coelho publicava um opúsculo designado O Sudario Negro ou Apontamentos para a Biographia de D. Manuel Agostinho Barreto, Bispo do Funchal, obra onde se compendiavam, contra o bispo, uma série de irregularidades cometidas, ou por ele diretamente ou por uns missionários que tinha levado para pregar na Diocese e a quem se atribuíam os mais escuros desígnios. O bispo via-se acusado de fazer, ou mandar fazer, comércio com catecismos, bentinhos e outros itens semelhantes, de favorecer a delação do segredo da confissão, de obrigar o clero a frequentar formação no Seminário, a fim de se inteirar dos pecados de cada pároco ou cura, e, até, de ter tido comportamentos menos próprios na Diocese de Lamego dos quais teriam resultado filhos. Esta obra, bastante mal intencionada e claramente parcial, foi de pronto contestada pelo Cón. António Aires Pacheco, que lhe respondeu com o Sudario Negro no Banco dos Reos, bem como por um autor de Lamego que fez sair um folheto intitulado O Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo do Funchal Desagravado pelos Lamecenses, com data de abril de 1882, no qual se reafirmava a honra do prelado e até dos próprios habitantes de Lamego.

Polémicas à parte, D. Manuel Agostinho Barreto foi prosseguindo, na Diocese, com a sua ação pastoral, da qual há que destacar o empenho que pôs na reestruturação do Seminário do Funchal. Tendo chegado à Madeira em fevereiro de 1877, logo em outubro do ano seguinte a sua intervenção no Seminário se tornava visível através da reforma que empreendeu, e que passou pela criação de um ciclo de estudos preparatórios, pelo aumento do número de alunos internos e pela remodelação do espaço. Nesta obra, pôde D. Manuel Agostinho contar com a ajuda de um Alemão, o padre Ernst Schmitz, a quem foram entregues, além da direção do estabelecimento, funções docentes e de modernização curricular, a qual se materializou, em parte, pela criação de um museu de zoologia de renome, assessorado por um gabinete de física, matérias bastante distintas daquelas que se costumavam ministrar em escolas de formação sacerdotal. A coadjuvar este padre, instalaram-se outros, também provenientes da congregação da Missão, os chamados Lazaristas, sendo toda esta equipa, no seu conjunto, a responsável pela transformação do Seminário do Funchal numa escola responsável pelo “alto nível” que caracterizou o clero madeirense na primeira metade do séc. XX, no dizer de D. Maurílio Gouveia, arcebispo emérito de Évora (COELHO, 2015, 4).

Em prol do seminário, financiaria ainda o prelado, em grande parte a expensas suas, pois aqui gastou os réditos de uma generosa herança que recebera, a construção de um edifício de raiz na cerca do antigo Convento da Encarnação. Esta construção, ainda que não inteiramente pronta, começou a ser ocupada em 1909, mas, logo em 1910, as forças da recém-implantada República haveriam de a confiscar, retirando-lhe a possibilidade da formação de clérigos. No edifício, passou a funcionar a Escola de Belas Artes até 1933, altura em que voltou a ser um seminário. Em 1974, na Revolução de Abril, o Seminário foi ocupado para nele se instalar a Escola Preparatória Bartolomeu Perestrelo, que ali funcionou até 2004.

Outra figura com origens no estrangeiro, que igualmente se notabilizou em ações religiosas na Madeira no tempo do episcopado de D. Manuel Agostinho Barreto, foi a madre Mary Jane Wilson, protestante convertida ao catolicismo que se tornou colaboradora próxima do bispo na obra das escolas paroquiais fundadas por sua iniciativa. Estes estabelecimentos de ensino, designados como Escolinhas de S. Francisco de Sales, espalharam-se pela Ilha, com particular incidência em Machico, no Santo da Serra, em Santana, no Arco de São Jorge e no Porto Moniz, e, além de alfabetizar, também ensinavam catequese, contribuindo, assim, para o desígnio de cativar para o catolicismo as crianças de tenra idade. Nesta função, colaborou de perto a madre Wilson e nela poderá ter estado o gérmen da criação da Congregação das Franciscanas de Maria que Mary Jane haveria posteriormente de fundar, na medida em que, no desempenho daquelas tarefas, a jovem Jane terá tomado consciência das profundas necessidades de formação humana e espiritual de que enfermava a população madeirense.

Outro dos aspetos notáveis do episcopado de D. Manuel Agostinho Barreto foi a produção de pastorais, textos que profusamente publicou e onde se condensa o pensamento religioso do antístite. Quase todas se encontram transcritas no Livro do Registo de Provimentos e Visitações Pastorais da freguesia de Ponta Delgada (1862-1910) e foram estudadas por Francisco Senra Coelho, em artigo dedicado à figura deste bispo. De acordo com este autor, o antístite demonstra uma escrita excelente e um pensamento profundo e claro, sendo possível elencar, a partir dos textos, os eixos à volta dos quais se desenvolvia a sua atitude pastoral. Assim, a primeira carta, publicada a 15 de abril de 1877, salienta a dificuldade de conduzir um rebanho indócil, apela à união entre os capitulares e à do cabido com o demais clero e a população, recomenda um comportamento exemplar para os eclesiásticos, apela ao ensino da doutrina, salienta a importância da formação no seminário e releva o papel da ciência naquele contexto. Dirigindo-se, depois, à sociedade civil, relembra as responsabilidades dos pais de família na construção de lares cristãos bem formados, sublinhando o que por todos deve ser evitado, por mau e pernicioso – o teatro e o jornalismo. No tocante às restantes autoridades insulares, a sua preocupação vai para a necessidade de colaboração com as instâncias religiosas e para a atitude de interajuda que deve regulamentar as suas relações com os poderes da Igreja, e termina solicitando que se reze pela Coroa portuguesa, ao mesmo tempo que reafirma a sua fidelidade ao rei, D. Luís. Na segunda carta, que saiu à luz a 2 de fevereiro, na preparação para a Quaresma de 1878, D. Manuel Agostinho Barreto propunha aos seus párocos uma reflexão sobre o valor dos sacramentos, em particular o do batismo, acerca do qual deixava instruções para se poder inquirir, a posteriori, da validade do sacramento quando ministrado por parteiras, nos casos em que surgissem dúvidas. Passava, a seguir, para os preceitos da confissão e a obrigação da renovação anual das licenças para a sua prática, advertia para o uso de uma linguagem inteligível nas pregações, solicitava cuidado nas horas de celebrar missa, a fim de que nenhum freguês dela ficasse privado por permanentes alterações de horário, e terminava com uma chamada de atenção para assuntos do quotidiano das paróquias, como seja o levar viático aos moribundos, e a preparação das crianças para a primeira comunhão e dos noivos para o casamento.

Nestas, como noutras pastorais subsequentes, D. Manuel Agostinho Barreto mostrava-se conservador e preocupava-se com a reafirmação dos valores tradicionais da Igreja, ameaçados pelos turbulentos tempos de liberalismo e anticlericalismo que a sociedade atravessava.

Em visita que pessoalmente efetuou a Ponta Delgada, em 21 de agosto de 1878, o bispo fez registar no livro de provimentos algumas indicações que desde há muito tempo tinham deixado de figurar em tais documentos. Recomendava, então, o prelado ao povo da freguesia que dedicasse um particular cuidado ao cumprimento da devoção ao apostolado da oração, instituição recente da responsabilidade de um dos missionários de que se tinha feito acompanhar desde o reino – o P.e Tomás Vital, precisamente uma das personagens mais atacadas no Sudario Negro. Solicitava ao pároco que não se esquecesse de tocar o sino três vezes ao dia, para chamar à oração, que ensinasse frequentemente doutrina, que pugnasse pelo correto comportamento dos fregueses dentro da igreja, elogiando o estado de asseio em que a encontrara, e, finalmente, censurava a ausência de algumas circulares do livro de registos paroquial. Este é um bom exemplo da forma de operacionalização do conteúdo das pastorais que o bispo ia difundindo localmente, de forma adequada à vivência de cada paróquia. Outra estratégia de aproximação entre o bispo e o clero era a promoção anual de retiros espirituais de sacerdotes no Seminário, os quais, acompanhados do antístite, poderiam ser utilizados para, à semelhança do soldado que não pode “defender a pátria sem se adestrar”, adquirir utensílios a usar no combate à perda dos valores cristãos (ARM, APEF, doc. 412, fl. 118).

Outra das áreas em que se destacou D. Manuel Agostinho Barreto foi o combate à maçonaria, que seria, no dizer de Eduardo Pereira “o maior obstáculo da época à ação religiosa na Madeira”, o que lhe terá valido a colocação de um engenho explosivo na sua residência, na Penha de França, a 28 de março de 1890 (PEREIRA, 1968, II, 454). Este bispo tinha, com efeito, optado por usar permanentemente a residência da Penha, mais discreta, mais austera e mais afastada do centro da cidade, onde vivia com algum ascetismo, sendo a sua vida considerada “modesta e despida de todo o aparato” (SILVA e MENESES, 1984, I, 130). Apesar deste esforço por alguma reclusão, a atividade do prelado não deixava de despertar a consideração de muitos dos seus pares, pelo que chegou a ser convidado para patriarca de Lisboa, o que, porém, se não chegou a concretizar.

Considerado, por muitos como um dos “maiores prelados de Portugal” (PEREIRA, 1968, 454), D. Manuel Agostinho Barreto faleceu no Funchal, após 34 anos de episcopado, a 26 de junho de 1911, muito desgostoso com o destino final do “seu” seminário, que a república encerrara. Os seus restos mortais foram sepultados no cemitério das Angústias mas, por determinações testamentárias, cinco anos após o falecimento, os seus ossos foram colocados numa urna e definitivamente enterrados no adro da capela da Penha de França.

Bibliog.: manuscrita: ARM, APEF, doc. 412; impressa: ALMEIDA, José Fortunato de, História da Igreja em Portugal, vol. iii, Barcelos, Livraria Civilização, 1970; BARRETO, Manuel Agostinho, “Pastoral”, Bem Público, 7 abr. 1877, pp. 305-306; Id., “Admoestação Pastoral”, Bem Público, 14 abr. 1877, pp. 313-314; Id. “Pastoral”, Bem Público, 12 maio 1877, pp. 345-348; Id., “Pastoral”, Bem Público, 26 maio 1877, pp. 361-363; CARITA, Rui, História da Madeira, vol. vii, Funchal, DRAC, 2008; COELHO, Frederico Pinto, O Sudario Negro ou Apontamentos para a Biographia de D. Manuel Agostinho Barreto Bispo do Funchal, Funchal, Typographia Funchalense, 1881; GOMES, Fátima Freitas, “Agostinho de Ornelas Vasconcelos. O Morgado Liberal e a Decisão Criativa”, Islenha, n.º 21, jul.-dez. 1997, 79-109; O Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo do Funchal desagravado pelos Lamecenses, Lamego, s.n., 1882; PEREIRA, Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, 3.ª ed., vol. ii, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1968; SILVA, António Ribeiro Marques da, Apontamentos sobre o Quotidiano Madeirense (1750-1900), Lisboa, Caminho, 1994; SILVA, Fernando Augusto, Diocese do Funchal, Sinopse Cronológica, Funchal, Tip. Esperança, 1945; Id. e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, Funchal, DRAC, 1984.

Ana Cristina Trindade

Rui Carita

(atualizado a 18.04.2016)