barrow, john

A viagem do pintor e botânico John Barrow à China, em 1792-93, integrando a embaixada de George Macartney, enquadra-se no culminar de um século de afirmação britânica na navegação oceânica. Este autor daria à estampa as suas impressões de viagem, descrevendo a sua passagem pelo Funchal e acompanhando o texto com duas litografias. A sua litografia da capela dos ossos é o único elemento iconográfico que se conhece daquela capela.

Palavras-chave: Capela dos Ossos; Descrições de viagem; Guerras Napoleónicas; Litografias; Sociedades de Geografia; Viagens oceânicas.

(c) Ministry of Defence Art Collection; Supplied by The Public Catalogue Foundation
John Barrow (c) Ministry of Defence Art Collection; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Nascido na aldeia de Dragley Beck, na freguesia de Ulverston, em 1764, John Barrow seguiu depois para o Lancashire, trabalhando, muito novo, numa fundição de ferro em Liverpool e, posteriormente, já com cerca de 20 anos, como professor de Matemática numa escola particular em Greenwich. Teve como aluno o filho de sir George Leonard Staunton (1737-1801), botânico da East Indian Company, que o integrou na primeira embaixada britânica à China, em 1792-94, liderada por lorde George Macartney (1737-1806). John Barrow adquiriu então bons conhecimentos da língua chinesa, contribuindo, inclusivamente, com dados para a documentação daquela missão, a qual foi depois publicada.

Após o retorno da embaixada em 1794, Barrow foi consultor do governo britânico em diversos assuntos relacionados com a China e, em 1797, já como secretário particular de lorde Macartney, partiu com o mesmo em missão para a recém-adquirida colónia do cabo da Boa Esperança. Decidiu então estabelecer-se na África do Sul, casando-se em 1800 e comprando, inclusivamente, uma casa na Cidade do Cabo. No entanto, a entrega da colónia, em 1802, alterou o projeto, levando-o a regressar a Inglaterra, onde acabou por ser nomeado, em 1804, segundo secretário do Almirantado pelo visconde Melville (1756-1823); ocupou este cargo durante 40 anos, sendo sucessivamente reconduzido ao longo de 11 direções e apenas suspenso no período de 1806-1807, durante a vigência de um Governo liberal em Inglaterra.

Alguns anos depois da edição da documentação oficial da viagem de sir George Leonard Staunton à China, em 1797, Barrow editaria, em 1804, outros elementos recolhidos na mesma viagem, essencialmente sobre a China; em 1806, para além dos seus trabalhos sobre a África do Sul, publicaria também a sua própria descrição da sua viagem inicial, a que anexou então outros elementos que recolhera, entretanto, na África do Sul, com o título Viagem à Cochinchina, onde se encontra a descrição da passagem pela Madeira (Descrições de viagem). Adquirira, entretanto, uma boa prática de desenho e também conhecimentos de botânica, que deu à estampa em várias obras. O pequeno apontamento que faz da passagem pela Madeira apresenta dois desenhos da sua autoria, então litografados, mas não fornece especiais dados respeitantes à botânica. O seu texto foi traduzido e publicado no Heraldo da Madeira, nos n.ºs 290 a 292 e 297 a 298, provavelmente pelo Ten.-Cor. Alberto Artur Sarmento (1878-1953), pois uns anos depois (em 1952) voltou a publicá-lo.

John Barrow escreve, acerca da sua chegada ao Funchal, que

“com o alvorecer, gradualmente se vão dissipando os nevoeiros e o desenrolar do panorama é cheio de atrativos para um estrangeiro, pela variação do colorido e da novidade. Na límpida baía vem mirar-se a cidade, escoante pela encosta, amparada aos lados por íngremes e escabrosas rochas vulcânicas, e a contrastar singularmente com a branca casaria e a ridente vegetação que vai trepando ao mais alto da montanha. Destacam-se, a cavaleiro, pelos socalcos do aclive, igrejas e capelas, vivendas e conventos, bizarramente dispostas, e casinhas minúsculas, perdidas à distância. A espelhante baía coalhada de embarcações, os pequenos barcos dormentes na praia, o grande ilhéu, lavado da maresia e montado de canhões dão ao conjunto um aspeto soberbo e grandioso” (SARMENTO, III, 1952,131-132).

O porto do Funchal estava assim coalhado de embarcações e era dominado pelo “grande ilhéu”, “montado de canhões” (Fortaleza do Ilhéu), que dava ao conjunto “um aspeto soberbo e grandioso”. Era considerado um bom ancoradouro e encontrava-se abrigado em quase todo o tempo, mas, salienta o autor, tornava-se perigoso “quando sopra o rijo vento do sul”, citando a ocorrência com o Hindostan, naufragado numa dessas situações, enquanto o comandante Makintosh estava em terra, “sem o poder ir socorrer” e toda a tripulação perecera (Id., Ibid., 133).

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Voyage Cochichina, John Barrow, 1806. Arqui. Rui Carita.

John Barrow esteve somente alguns dias no Funchal, mas visitou a Sé, o hospital da Misericórdia e os conventos de Santa Clara e de S. Francisco. Queixa-se, entretanto, de que “varas de porcos atraídos pelo engodo dos monturos vagueavam em liberdade pelas ruas”, o que causava dificuldades aos estrangeiros, tanto mais que os suínos se arrogavam de franca familiaridade, dando, não raro, uma focinhada no transeunte a título de saudação. A cidade do Funchal tinha poucas habitações boas, no seu entender, e essas pertenciam aos vários negociantes ingleses que estavam estabelecidos com negócios de vinho. Eram casas bastante espaçosas, mas que não ofereciam a comodidade e conforto desejados (Arquitetura). Escreve que as casas eram cobertas por telhas, sendo reforçadas por “pedras escuras, em contrapeso até aos beirais, para impedir o escorregamento e neutralizar, até certo ponto, a violência do vento que às vezes as faz bailar” (Id., Ibid., 132-133).

O autor refere a utilização de odres feitos de pele de cabra para o transporte de vinho, a preparação do coiro branco para o calçado, o fabrico das lãs grosseiras para os barretes e os tecidos de linho para o vestuário. Anota que os homens vestiam camisa de linho ou de algodão, calças de cotim e usavam um barrete azul ou encarnado (Trajes e costumes), mas não refere o pormenor dos altos espigões dos barretes que impressionaram a maioria dos viajantes, especialmente alemães. As mulheres do campo, na ceifa e no mato, vestiam apenas camisa, saia e barrete com um lenço atado à cabeça, enquanto as senhoras e donzelas invariavelmente trajavam de preto, com um capucho cobrindo a cabeça. Contrariamente aos costumes dos outros países, onde os pedintes se apresentavam com “aparência que imprime compaixão, aqui os pobres usavam o seu melhor fato na missão de mendigar, tendo observado um de cabeleira e espadim” (Id., Ibid., 133).

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Litografia do Porto do Funchal, Voyage to Cochinchina, BNF. Arqui. Rui Carita.

A descrição da ilha da Madeira não é assim especialmente importante, embora apresente uma pequena ilustração do porto do Funchal (Litografia); mas inclui uma litografia inédita da capela dos ossos do Convento de S. Francisco do Funchal, depois copiada noutras publicações.

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Litografia da Capela dos Ossos do Convento de S. Francisco, Funchal, por John Barrow. Arqui. Rui Carita.

A viagem de John Barrow integrou-se na época de afirmação do domínio da navegação atlântica , que levaria ao grande conflito das Guerras Napoleónicas. Como secretário permanente do Almirantado britânico, Barrow ficou com a fama de ter sido o proponente da ilha de Santa Helena como local de exílio para Napoleão Bonaparte (1769-1821) após a derrota na batalha Waterloo, em 1815. Foi membro do Raleigh Club, fundado por sir Joseph Banks (1743-1820) em 1788 e, depois, um dos fundadores, com sir John Franklin (1786-1847) e Francis Beaufort (1774-1857), da Royal Geographical Society (Sociedades de Geografia). Recebeu, em 1821, o grau académico da Universidade de Edimburgo e, em 1835, foi agraciado com o título de barão, por indicação do ministro sir Robert Peel (1788-1850). Nos últimos anos da sua vida, dedicou-se a escrever as suas memórias, somente publicadas em 2009, e a fomentar as viagens científicas no Ártico, ação que iniciara como secretário permanente do Almirantado, tendo ficado vários acidentes geográficos dessa área com o seu nome. Morreu em 1848.

Obras de John Barrow: Travels in China: Containing Descriptions, Observations, and Comparisons, Made and Collected in the Course of a Short Residence at the Imperial Palace of Yuen-Min-Yuen, and on a Subsequent Journey Through the Country from Pekin to Canton (1804); A voyage to Cochinchina in the Years 1792 and 1793, Containing a General View of the Valuable Productions and the Political Importance of This Flourishing Kingdom (1806); An Auto-Biographical Memoir of Sir John Barrow, Bart, Late of the Admiralty, Including Reflections, Observations, and Reminiscences at Home and Abroad, from Early Life to Advanced Age (2009).

Bibliog.: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. vii, Funchal, SRE/Universidade da Madeira, 2008; SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha terra: Ilha da Madeira, 3 vols., 2.ª ed., Funchal, JGDAF, 1952; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, DRAC, 1998; STAUNTON, George Leonard, An Authentic Account of an Embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China Including Cursory Observations Made, and Information Obtained in Travelling Through That Anciente Empire; Together With a Relation of the Voyage Undertaken on the Occasion of His Majesty’s Ship The Lion, and the Ship Hndostan, in the East India Company’s Service, to the Yellow Sea and Gulf of Pekin, as well as of their Return to Europe; Taken chiefly from the papers of His Excellency the Earl of Macartney, Sir Erasmus Gower, and of Other Gentlemen in the Several Departments of the Embassy, 3 vols., London, W.Bulmer & Co. for G.Nicol, 1797; WILHEM, Eberhard Axel, “Os Madeirenses na Visão de Alguns Germânicos: o seu Aspecto e Carácter e a sua Maneira de Viver (I) (1825 a 1860)”, Xarabanda, n.º 7, 1995, pp. 2-13.

Rui Carita

(atualizado a 20.05.2016)