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Segundo visconde das Nogueiras, ministro de Portugal em Washington, deputado, escritor e tradutor, nasceu no Funchal, em 1824, e morreu em Washington, a 24 de janeiro de 1888. Secretário dos Governos Civis dos distritos do Faial e Aveiro e deputado às Cortes (onde fez parte da Comissão de Fazenda). Auxiliou, em 1851, o golpe de Estado do marechal duque de Saldanha (interrompendo o seu curso de matemática na Universidade de Coimbra).

Escreveu Grito do País, texto curto (16 pp.) e claramente político onde podemos encontrar uma crítica panfletária contra o ministro da Coroa (o conde de Tomar) e um testemunho interessante da união entre a sua vida política e literária. Acrescente-se ainda, no âmbito das suas funções políticas, a redação de um Relatório sobre o imposto de consumo 1863 e 1870. No campo literário, traduziu do francês o romance Os Talismãs (Rio de Janeiro, 1848) e publicou aquela que seria a sua obra mais afamada: Pátria e Amor, versos que mereceram um prólogo de Latino Coelho, que escreve: “as suas poesias são todas revestidas desta forma imaginosa, deste colorido brilhante, sem o qual a poesia, limitada ao ornato mecânico da rima, deixa de merecer o nome de lírica para se aproximar das loas, ou das cantigas e toadas populares. Isto não significa que o estilo do Sr. Santana seja sempre irrepreensível e que não haja algumas falsas lantejoulas mescladas às palhetas de bom quilate, que refletem a luz do talento vigoroso e um pouco indómito do poeta” (BETTENCOURT, 1852, XXXI). A imprensa da época saudou elogiosamente esta publicação, “tecendo os merecidos encómios ao seu autor” (SILVA, 1859, 237). Destacamos, a título de exemplo, uns versos (o excerto do poema que se segue apresenta como mote uma citação de Proudhon, o que julgamos ser significativo):

“Mal hajam ricos altivos,

Tremam feroz corações,

Que nos trouxeram cativos

Por todas as gerações!

Escravos na antiguidade,

De servos na média idade,

Vestimos torpe sudário;

Mil vezes hoje maldito

Quem nos pôs na fronte escrito

O mote infame: salário!”

(BETTENCOURT, 1852, 129);

este conjunto de poemas de cariz apologético reitera o apelo à bravura e à honra: “na alma não entram ferros” (BETTENCOURT, 1852, 120), e: “Viver na infâmia é desonra, / Morrer com honra é prazer!” (BETTENCOURT, 1852, 121).

Colaborou em vários periódicos, tais como: A Semana (periódico literário) e O Português (jornal político, de que é um dos fundadores).

Obras de Jacinto de Santana Vasconcelos de Bettencourt: Grito do País (Lisboa, Tipografia da rua da Bica de Duarte Bello n.º 55, 1850); Pátria e Amor, Lisboa, P. Plantier Livreiro de S. M. F. A Senhora D. Maria II, 1852; Relatório sobre o imposto de consumo 1863 e 1870, s.d.

Bibliog.: MÓNICA, Maria Filomena (coord.), Dicionário Biográfico Parlamentar (1834-1910), vol. 1, Lisboa, Assembleia da República, 2004, pp. 379-382; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários Para a História Literária da Madeira, vol. 2, Funchal, CMF, 1949, p. 78; PORTUGAL, CÂMARA DOS DEPUTADOS, Pareceres Parlamentares de 1845-1884, Miscelânea-Caminhos de Ferro, n.º 3234, Biblioteca da Assembleia da República; RODRIGUES, José Joaquim, Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira, ed. da CMF, 1950, p. 174; SANTOS, Clemente José dos, Estatisticas e Biographias Parlamentares Portuguezes, Porto, Tipografia do Comércio do Porto, 1887; SILVA, Inocêncio Francisco da, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, 1859, t. III, p. 237.

Rui Gonçalo Maia Rego

(atualizado a 12.10.2016)