bombote e bomboteiros

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Bombote de Vimes e Bordados, Arquivo Rui Carita, 1930.

Do inglês “bumboat”, que define as pequenas embarcações que proviam, de forma direta, os barcos que escalavam os portos, com objetos e produtos da região. Em Singapura, por exemplo, são sinónimo dos táxis aquáticos. No linguajar madeirense, a atividade é apresentada como o “bambote”, isto é, uma pequena embarcação a remos que estava autorizada a aproximar-se das embarcações que aportavam ao Funchal e aí proceder à venda direta dos produtos regionais. Na expressão popular, os homens que se dedicavam a esta atividade eram conhecidos como bamboteiros/bomboteiros, uma figura que está presente no quotidiano do porto e do movimento dos navios que o escalavam. Maria Lamas refere-a, em 1956, como “bombota”.

Semelhante atividade existia no porto de Las Palmas, sendo conhecida como “cambullón”, e os que se dedicavam a ela conhecidos como “cambulloneros”. Não obstante alguns apontarem a origem portuguesa da palavra, que terá chegado aí a partir da Madeira, hoje sabemos que a palavra “cambullón” é uma deturpação da expressão inglesa “come buy on” (em português: “vem comprar”).

O bombote é um dos aspetos característicos do quotidiano da baía do Funchal, tendo como principal assento a zona dos pescadores e barqueiros, nas praias de São Lázaro. Aí varavam as embarcações e se situavam as arrecadações perto do calhau. No mundo e quotidiano do mar funchalense, está sempre presente a figura do bomboteiro que, não obstante só estar documentada a partir do séc. XVIII, deverá existir desde que, na baía funchalense, lançaram âncora as primeiras caravelas ou naus em busca de refresco.

O mesmo burburinho, que se regista em algumas fotografias dos anos 40 e 50 do séc. XX, deveria acontecer no séc. XV – um amontoado de canoas, cheias de diversos refrescos, abeirando-se das embarcações, cuja altura do calado era menor que a dos navios, prontas a vender todo o tipo de produtos que a ilha tinha para oferecer. É certo que os chamados refrescos por grosso eram contratados pelos comandantes das embarcações com os seus representantes e contratadores, assim como as embarcações ao serviço da coroa, que tinham um serviço de refresco contratado pelos funcionários da Fazenda da coroa na ilha, mas a cada um dos marinheiros ou passageiros sempre fazia falta algum produto que a ilha e os seus bomboteiros ou barqueiros estavam disponíveis para oferecer.

Nos sécs. XV e XVI, não se chamavam bomboteiros, tendo sido, certamente, designados como tal pelos ingleses quando, a partir da década de 60 do séc. XVI, começaram a acudir, com frequência, à baía do Funchal para refresco e carga de vinho. Nesta primeira época, serão simplesmente definidos como barqueiros e gente do mar que os barcos de passagem sempre atraem para qualquer serviço ou comércio que assegurasse o seu ganha-pão.

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Bombote de Bordados, Arquivo Rui Carita, 1950.

A atividade do bombote estava legalizada pela Alfândega do Funchal através de uma licença que dava a possibilidade de os bomboteiros exercerem a atividade. No bombote, misturava-se o pequeno comércio e o contrabando, nos pequenos barcos usados para a condução dos passageiros a bordo dos navios ancorados na baía do Funchal, ou especificamente preparados para o efeito, e que eram alugados aos seus proprietários. Vendiam-se bordados, móveis de vimes, frutas, vegetais, postais ilustrados, aves e diversos souvenirs.

Sabemos que a atividade dos bomboteiros era muito antiga no porto do Funchal mas, até ao presente momento, não descortinámos quando terá começado. Os dados mais antigos apontam para o séc. XVIII, altura em que o vice-cônsul inglês, Robert Cock, se queixava da exploração de que eram vítimas os marinheiros britânicos. Por outro lado, parece que a sua insistência e presença era considerada inoportuna, sendo corridos, por vezes, com baldes de água quente e tiros. Idêntica atitude desfavorável tinham as autoridades alfandegárias que quase sempre associam esta gente do pequeno comércio ao contrabando. Assim, em 1775, a Junta da Real Fazenda (JRF) vê-se obrigada a tomar medidas, no sentido de evitar esta atividade paralela. Assim, decide pôr em ação uma pragmática de 1749 que proibia os vendedores a retalho e um alvará de 1765 que determina, de forma perentória, que fossem queimadas as pequenas embarcações, conhecidas como “catraios”, que enxameavam a baía à espera de vender produtos locais ou prontos a recetar qualquer tipo de contrabando. Facto curioso é que, nesta época, ainda não eram conhecidos como bomboteiros e estavam mais associados ao contrabando.

A designação deverá ter começado apenas no séc. XIX. E apenas em 1844, no periódico O Defensor, de 6 de abril, colhemos a expressão “ir no bombote” que era o ato de ir a bordo dos navios ancorados no porto vender fruta. A 28 de março de 1844, foram julgados e condenados Francisco de Andrade, o Russo, e José Fernandes Castro, o Lage, pela morte de um marinheiro do barco de guerra inglês, Megera. Este episódio teria acontecido às 20 horas do dia 29 de janeiro, quando foram contactados para conduzir a bordo o soldado. Pelo facto de este não querer pagar a viagem, decidiu o Lage fazer justiça por suas próprias mãos, matando-o. É a partir do processo que decorreu, e que foi transcrito no referido jornal, que sabemos da importância da atividade, sendo este o registo documental mais antigo que temos da prática do bombote. Sabemos, aliás, que, em 1920, os bomboteiros podiam comprar banana aos produtores ou no depósito para venderem a bordo. Nesta época, é nítida a preocupação das autoridades quanto à venda deste fruto, chegando-se a fiscalizar o seu estado de maturação para venda ao público. Desta forma, vemos em edital, publicado a 28 de dezembro de 1920 no Diário de Notícias, que a venda a bordo pelos bomboteiros só poderia ser feita no perfeito estado de maturação.

Ao contrário destas vozes, a maioria das impressões que se colhem em textos de visitantes são muito favoráveis a este grupo de agentes do pequeno comércio flutuante, que facilitavam a compra dos chamados “souvenirs”, sem haver o incómodo do desembarque em terra. Certamente que quando o Funchal, nos anos 60, ficou servido de um porto adequado ao embarque e desembarque de passageiros, esta atividade perdeu importância e teve de concorrer com idênticas situações de venda em terra seca, feita com melhores condições de segurança para quem as exercia. Atente-se que, em 1957, estavam registados na Alfândega 171 bomboteiros e, após 1964, com a inauguração do novo porto artificial, estes começam a perder importância numérica, nomeadamente na década seguinte. Com o novo porto em pleno funcionamento, a baía do Funchal perdeu todo o movimento a que estava sujeito diariamente, aquando da chegada de um navio.

De acordo com um edital do capitão do porto de 30 de maio de 1920, era elevado o número de embarcações registadas ao serviço do porto: barcos de bombote, de pesca do Funchal, de pesca de costa, de carga e passageiros de costa e de bagagem, de passageiros, de rocega e de lenha. Em 1914, temos referência ao registo de 537 embarcações de pesca e de 519 dedicadas a outros serviços, como o bombote, carga, descarga e passageiros. No sentido de disciplinar a atividade, o presente edital estabelece que os barcos do bombote devem varar no calhau junto ao Teatro-circo na direção da ribeira de S. João. Para além disso, estes barcos deveriam ostentar o respetivo número em tabuleta preta, pregada na parte mais alta do capelo da proa.

No mesmo edital, são determinadas várias regras sobre o exercício da atividade do bomboteiro. Assim, este só poderia aproximar-se do navio depois de receber o sinal favorável da guarda do barco do registo. Ao mesmo tempo, estabelecem-se regras para a decência do vestuário, assim como outras impeditivas de qualquer atividade de contrabando, como o contacto com outras embarcações que não as do bombote e com os navios ancorados, ou o transporte para bordo de qualquer bebida sem a licença da alfândega. Por norma, a atividade do bombote terminava ao sol-posto e a embarcação deveria varar no calhau antes do anoitecer. Todavia, se o capitão autorizasse, os bomboteiros poderiam continuar a trabalhar. O mesmo sucedia quando chegava qualquer navio; caso o comandante o permitisse, poderiam fazer as suas vendas.

Sabemos, por aviso publicado no Diário de Notícias a 14 de setembro de 1905, que os arrais e donos dos barcos denominados de bombote n.os 41, 209, 263, 573, 847, 2310, 2326, 2493, 2630, 2781, 2802 tinham sido intimados a comparecer perante o administrador do concelho por infração ao regulamento. A 8 de agosto de 1907, outro aviso diz-nos que os bomboteiros n.os 119, 839, 847, 2654 e 2781 tinham sido multados por terem atracado ao vapor da mala real inglesa antes da visita da Alfândega. A 31 de maio de 1920, um grupo de 10 bomboteiros publicou, no Diário de Notícias, um aviso em defesa da sua honra, repudiando afirmações do Diário da Madeira, que os acusava de comércio ilícito ou contrabando. Em 13 de abril de 1923, o senador madeirense Procópio de Freitas explicava perante o Senado da República que recebera informação de que a alfândega estabelecera uma ordem de serviço para atalhar “várias irregularidades e faltas de respeito pelas autoridades fiscais e marítimas e desmandos, praticados pelos bomboteiros, que são os vendilhões que vão a bordo dos navios” (Arquivo da Assembleia da República, Diário, n.º 29, 13 abr. 1923).

A 24 de dezembro de 1929, a Direção-Geral das Alfândegas regulamentou, pelo dec. n.º 17790, o exercício da atividade de venda a bordo de artigos regionais e tradicionais portugueses. De acordo com esta regulamentação, todos os que pretendessem dedicar-se à venda a bordo deveriam, para além desta licença, estar munidos da cédula de inscrição marítima, nos termos do dec. n.º 15335, de 21 de março de 1928. A licença de venda era passada pela alfândega da área do porto, enquanto a cédula marítima estava a cargo da capitania do porto. Desta forma, na década de 30, os bomboteiros deveriam estar munidos de ambas as licenças. A Alfândega do Funchal dispõe do livro de registo destas licenças.

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Bombote de Bordados, Arquivo Rui Carita, 1937.

A atividade destes homens não está devidamente definida na legislação e instituições oficiais. Dos documentos que tivemos oportunidade de consultar, temos cédulas marítimas passadas pela Alfândega em 1932, em que a categoria profissional é definida como “vendilhão”. Já na mesma autorização passada pela capitania do porto, em 1983, era definida como “bomboteiro”, enquanto em documento da Direção Regional de Comércio e Indústria é definida como “vendedor ambulante [marítimo]”.

De acordo com os dados disponíveis, podemos assinalar os seguintes produtos de venda: artefactos regionais, artigos de ourivesaria, artigos e fruta, rendas e bordados, câmbios, flores, jornais, metais preciosos, postais ilustrados da Madeira, propaganda de vinhos madeirenses. O período posterior à Segunda Guerra Mundial foi florescente nesta atividade que começou a perder importância a partir da inauguração da última fase das obras do porto em 1964.

Em colóquio sobre o turismo realizado a 31 de dezembro de 1965, foram feitas recomendações no sentido da salvaguarda e valorização desta atividade, tendo em conta os serviços prestados ao turismo. Mas a atividade havia entrado definitivamente na fase de agonia. A aparição do novo molhe parece ter matado os bomboteiros. Entretanto, o Re-nhau-nhau de 10 de novembro de 1967 e de 13 de janeiro de 1968 diz-nos que, com o novo porto, os bomboteiros foram impedidos de entrar no molhe e subir a bordo dos barcos, ficando privados do seu trabalho e ganha-pão.

Ainda hoje temos resquícios desta atividade e alguns bomboteiros persistem em manter a atividade, agora de venda ambulante, à saída da nova gare do porto do Funchal. Os expositores e os souvenirs só são montados em dia em que há barco ancorado no porto, o que não acontece diariamente, como noutros tempos.

Bibliog.: FARIA, Cláudia e ALVES, Graça, “Atividades Sócio-Poéticas: o Bombote, a Mergulhança”, Anuário 2013, Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2013, pp. 261-279; FRANÇA, João, Mar e Céu por Companheiros, O Século, 1979; GOUVEIA, Horácio Bento, Lágrimas Correndo Mundo, Coimbra, Coimbra Editora, 1959; LAMAS, Maria, Arquipélago da Madeira: Maravilha Atlântica, Funchal, Eco do Funchal, 1956; MARSH, A., Holiday Wanderings in Madeira, Londres, 1892, p. 13; MEDINA SANABRIA, Juan, Isleta Puerto de La Luz, Raíces, Las Palmas de Gran Canaria, 1996; NEPOMUCENO, Rui Firmino, A Madeira Vista por Escritores Portugueses (Séculos XIX e XX), Funchal, Funchal 500 Anos, 2008; SILVA, António Marques da, Passaram pela Madeira, Funchal, Funchal 500 Anos, 2008; SILVA, Elisabete, “Bomboteirismo – A Arte de uma Profissão”, Xarabanda, n.º 4, 1993, pp. 13-14; SILVA, Iolanda (coord.), A Madeira e o Turismo: Pequeno Esboço Histórico, Funchal, SRTC, DRAC, Centro de Apoio às Ciências Históricas, 1985; SIMÕES, Álvaro, SUMARES, Jorge, SILVA, Iolanda, Transportes na Madeira, DRAC, Funchal, 2002; SOUSA, João José Abreu de, “O Porto do Funchal no Século XVIII. Alguns Aspectos”, Das Artes e da História da Madeira, n.º 36, 1996, pp. 20-24; Id., O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810: Alguns Aspectos, Funchal, DRAC, 1989; VIEIRA, Alberto, “A Madeira e o Contrabando no Espaço Atlântico”, Anuário 2012, Funchal, CEHA, 2012, pp. 9-16.

Alberto Vieira

(atualizado a 01.06.2016)