braga, teófilo

Filho de aristocratas liberais açorianos, Joaquim Manuel Fernandes Braga e Maria José Albuquerque, nasceu em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores, a 24 de fevereiro de 1843.

Começou a atividade literária ainda muito jovem, na tipografia A Ilha, colaborando nos periódicos açorianos O Meteoro e O Santelmo. Cessados os estudos em Ponta Delgada, matricula-se em Direito na Universidade de Coimbra, vindo a doutorar-se em 1868. Toma parte na célebre polémica Questão Coimbrã com o texto Teocracias Literárias, colocando-se ao lado de Antero de Quental e opondo-se, assim, a António Feliciano Castilho. Em 1872, foi admitido como lente na cátedra de Literatura Modernas no Curso Superior de Letras, cargo disputado por Manuel Pinheiro Chagas e Luciano Cordeiro.

Teófilo de Braga torna-se uma das figuras mais respeitadas nos círculos intelectuais da segunda metade do séc. XIX e inícios do XX em Portugal. Trabalhador incansável, escritor prolífero, deixou uma vasta obra multidisciplinar, tanto a nível literário como científico, reveladora do seu génio brilhante e determinado. Como escritor, destacou-se na poesia, no conto fantástico e no romance histórico, realizando também algumas traduções. Enquanto académico, dedicou-se aos Estudos Literários, História da Literatura, Filosofia e Etnografia, sendo um precursor dos estudos sociológicos em Portugal. O seu pensamento científico estava imbuído da doutrina positivista de Auguste Comte, da qual Teófilo de Braga foi arauto em Portugal, dirigindo, em parceria com Júlio de Matos, a revista O Positivismo (1878-1882), órgão de divulgação da filosofia positivista.

Dedicou-se à política, em particular à causa republicana, mais intensamente entre 1870 e 1890, atingindo a sua carreira política dois pontos altos, o primeiro momento em 5 de outubro de 1910, na ressaca do sucesso da revolução republicana, sendo nomeado para a presidência do Governo Provisório da República, e o segundo em 14 de maio de 1915, quando substitui na presidência da república Manuel de Arriaga, após um levantamento militar, tornando-se o segundo presidente da República Portuguesa.

Relativamente à Madeira, Teófilo de Braga consagra o segundo capítulo do livro Os Poetas Palacianos aos poetas madeirenses presentes no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Este capítulo aparece transcrito por Álvaro Rodrigues de Azevedo nas suas anotações no livro Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso (1873). Teófilo de Braga refere, assim, autores como Manoel de Noronha, Tristão Teixeira das Damas, João Gonçalves e Pero Correia, observando que estes constituem uma escola poética madeirense que germinou no tempo do rei D. Duarte. O insigne académico intitula tal escola “Ciclo Poético da Ilha da Madeira”, defendendo que esta foi influenciada pela poesia aragonesa, com impressões da tradição lendária inglesa denunciadas pela lenda de Machim e Ana de Arfet, e que constituiu um ramo diferente dos poetas palacianos do continente do reino presentes no Cancioneiro Geral.

Contudo, o anotador de Saudades da Terra, Álvaro Rodrigues de Azevedo, faz alguns reparos às ideias de Teófilo de Braga, escrevendo que “o grupo dos poetas madeirenses deste período não constitui ciclo distinto, é apenas ramo do ciclo continental, porque não tem tipo próprio” (FRUTUOSO, 1873, 173). Não obstante, Teófilo de Braga tem o mérito de lançar as bases de uma historiografia literária madeirense.

Apesar de tal desacordo, Teófilo de Braga manterá com Álvaro Rodrigues de Azevedo correspondência e amizade. No seu livro Quarenta Anos de Vida Literária (1860-1900) (1902), podemos ler um total de 12 cartas, com datas compreendidas entre 1861 e 1880, enviadas por Álvaro Rodrigues de Azevedo. Do conteúdo das cartas, destaca-se a influência e inspiração que Teófilo de Braga exerceu em Álvaro Rodrigues de Azevedo, nomeadamente na sua recolha etnográfica e folclórica dos contos e cantigas populares da ilha da Madeira, que originou o livro Romanceiro do Arquipélago da Madeira (1880). Ao mesmo tempo, pela leitura das missivas, acompanhamos o processo de elaboração do livro por Álvaro Rodrigues de Azevedo, as reflexões, dúvidas e constantes pedidos de orientação a Teófilo de Braga.

Teófilo de Braga morre em Lisboa a 28 de janeiro de 1924.

Obras de Teófilo Braga: Folhas Verdes (1859); Tempestades Sonoras (1864); Visão dos Tempos (1864); As Theocracias Litterarias (1865); Contos Fantásticos (1865); A Ondina do Lago (1866); Camões e os Lusíadas: Estudo Crítico Publicado por Ocasião do Tricentenário (1867); Cancioneiro e Romanceiro Geral Portuguez: Confecção e Estudos (1867); Historia da Poesia Popular Portugueza: Ciclos Épicos (1867); Floresta de Vários Romances (1868); Caracteristicas dos Actos Comerciais (1868); História do Direito Portuguez: Os Foraes (1868); Theses Escolhidas de Direito (1868); Torrentes: Últimos Versos (1869); História do Teatro Portuguez (1870-1871); Epopêas da Raça Mosárabe (1871); Historia dos Quinhentistas (1871); Historia das Novellas Portuguezas de Cavalleria de Amadis de Gaula (1873); Historia de Camões (1873); Manual da História da Litteratura Portugueza: Desde as suas Origens até ao Presente (1875); Bocage: Sua Vida e Época Litteraria (1876); Traços Geraes de Philosophia Positiva: Comprovados pelas Descobertas Scientificas Modernas (1877); Historia Universal: Esboço de Sociologia Descriptiva (1878-1882); Theoria da Historia Litteraria Portuguesa. Da Aspiração Revolucionaria e a sua Disciplina Democrática (1879); Camões: Drama Histórico em 5 Actos (1880); Historia das Ideias Republicanas em Portugal (1880); História do Romantismo em Portugal (1880); História do Romantismo em Portugal: Ideia Geral do Romantismo: Garrett-Herculano-Castilho (1880); Origens Poéticas do Christianismo (1880); Os Homens d’Hoje (1880); Dissolução do Systema Monarchico-Representativo (1881); Memórias de Paulina: Episódio do Séc. XVII (1881); Camões: A Tipografia e as Ciências do Século (1882); Systema de Sociologia (1884); Curso de Historia da Literatura Portugueza (1885); O Mandato Imperativo (1887); A Tipografia e as Ciências do Século XVI (1892); As Lendas Christãs (1892); As Modernas Ideias na Litteratura Portugueza (1892); Historia da Universidade de Coimbra nas suas Relações com a Instrução Publica Portugueza (1892-1902); A Pátria Portugueza: O Território e a Raça (1894); Dom Francisco Lemos e a Reforma da Universidade de Coimbra (1894); Sá de Miranda e a Eschola Italiana (1896); Bernardim Robeiro e o Bucolismo (1897); Eschola de Gil Vicente e Desenvolvimento do Teatro Nacional (1898); O Baptismo das Náos: Poemeto (1898); Obra Posthuma (1898); Arcádia Lusitana: Garção; Quita, Figueiredo, Diniz (1899); Gomes Freire de Andrade (18–); Na Tomada de Jerusalem: Às Nações Alliadas, Comemorando o Feito das Tropas Oritannicas e Dos Contígentes Francezes e Italianos (18–); Mais Mundos: Poemeto Comemorando o IV Centenario do Descobrimento do Brazil (1900); Camões e o Sentimento Nacional (1901); Eça de Queiroz e a sua Obra (1901); Quarenta Anos de Vida Litteraria: 1860-1900: Cartas… (1902); Garrett e o Romantismo (1903); Alma Portugueza: Viriatho, Narrativa Epo-Historica (1904); Frei Gil de Santarem: Lenda Faustiana da Primeira Renascença (1905); Garret e os Dramas Românticos (1905); Quem Foi o Auctor do Segundo Don Quixote? (1905); Spinosa: Conferência Philosophica e Histórica (1905); Joaquim Silvestre Serrão e a Música Religiosa em Portugal (1906); Romanceiro Geral Portuguez: Romances Heroicos, Novellascos e de Aventuras (1906-1909); Alma Portugueza: Gomes Freire, Drama Histórico (1907); Camões: Época e Vida (1907); Historia da Literatura Portugueza (1909-1914); O Martyr da Inquisição Portugueza Antonio José Da Silva (1910); Discursos sobre a Constituição Política da República Portugueza (1911); Stoicismo Divino por Joaquim de Araújo (1912); Tristão, o Enamorado: Quadros de Conjunto do Romanceiro Popular Português (1914); Camilo Castelo Branco: Esboço Biográfico (1916); Gil Vicente Ourives e Gil Vicente Poeta (1916); Os Seiscentistas (1916); Os Amores de Camões: Commentario Biográfico (1917); Os Dois Naufrágios de Camões (1916); João de Deus: Escorço Biográfico (1930); Sobre as Estampas ou Gravuras nos Livros Populares Portuguezes (19–); Contos Tradicionais do Povo Portuguez: Com um Estudo sobre a Novelística Geral e Notas Comparativas (s.d.). Bibliog.: impressa: Id., Romanceiro do Arquipélago da Madeira, Funchal, Typ. Voz do Povo, 1880; BASTOS, Teixeira, Theophilo Braga e a Sua Obra, Porto, Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, 1892; BRAGA, Teófilo de, Poetas Palacianos, Porto, Imprensa Portugueza, 1872; Id., Quarenta Anos de Vida Literária (1860-1900), Lisboa, J. A. Rodrigues e C.ª, 1915; CARREIRO, José Bruno (org.), A Vida de Teófilo Braga. Resumo Cronológico, Coimbra, s.n., 1955; CIDADE, Hernâni, Doutor Teófilo Braga. As Directrizes da Sua Obra de História Literária, Lisboa, Imprensa Nacional, 1935; FRUTUOSO, Gaspar, Saudades da Terra. História das Ilhas do Porto-Sancto, Madeira, Desertas e Selvagens, annotado por Alvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, Typ. Funchalense, 1873; digital: “Teófilo Braga”, Presidência da República Portuguesa: http://www.presidencia.pt/?idc=13&idi=37 (acedido a 30 jun. 2015); “Braga (Joaquim Teófilo Fernandes)”, O Portal da História: http://www.arqnet.pt/dicionario/bragateofilo.html (acedido a 30 jun. 2015); “Teófilo Braga”, Infopédia: http://www.infopedia.pt/$teofilo-braga (acedido a 30 jun. 2015).

Carlos Barradas

(atualizado a 12.10.2016)