brandão, raul germano

Nascido no Porto a 12 de março de 1897, Raul Germano Brandão frequentou o curso de Letras da Universidade de Coimbra, mas acabaria por enveredar pela carreira militar por influência dos pais. Sem vocação para o Exército, seriam as letras o seu grande legado. Escreveu numerosos artigos em jornais e revistas; publicou contos, impressões de viagem, peças de teatro e ensaios históricos, entre os quais se podem destacar: Impressões e Paisagens (1890); A Farsa (1903); Os Pobres (1906); Húmus (1917); Memórias (1919-1933); Os Pescadores (1923); O Gebo e a Sombra, O Rei Imaginário, O Doido e a Morte (1923); As Ilhas Desconhecidas (1926); O Avejão (1929); Pobre de Pedir (1931).

Óscar Lopes e António José Saraiva realçam que “o aspeto mais importante da obra de Raul Brandão é a sua dor de consciência perante a humanidade explorada” (SARAIVA e LOPES, 1987, 1035). Esta é uma característica transversal à sua obra, e que também se faz presente no livro de viagens As Ilhas Desconhecidas, no qual o autor narra uma viagem que fez aos arquipélagos dos Açores e da Madeira, descrevendo com mestria a paisagem, mas também a solitária e ímpar condição insular.

Nesta obra, a par do deslumbre que sente perante a paisagem madeirense, Brandão mostra-se sensível à vida difícil que marca o quotidiano dos madeirenses.

No capítulo “Visão da Madeira”, Raul Brandão escreve: “Nunca mais me esqueceu a manhã virginal da Madeira, as cores que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha entreaberta saindo do mar diante de mim, a escorrer azul e verde” (BRANDÃO, 2011, 179). Mas o deslumbramento pela Ilha, que nasce com a observação da paisagem marítima, não ignora as dificuldades adivinhadas na própria orografia: “Acentua-se a dureza, as chapadas, as ravinas, os cortes perpendiculares e cor de ferro, adivinha-se o drama que deve ter sido este parto, cheio de convulsões e de desmoronamentos, quando o grande cataclismo dilacerou e desmembrou o continente submerso, deixando patentes, neste resto, feridas que ainda hoje sangram” (Id., Ibid., 180).

Nas páginas seguintes, Raul Brandão, fascinado pela paisagem da Ilha, narra os seus passeios, descrevendo o declive, as cores, as vistas dos picos mais altos.

No entanto, passado o “primeiro entusiasmo”, declara: “Vejo tudo a frio. Esta ilha é um cenário e pouco mais – um cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo o que lhe não cheira a inglês. Letreiros em inglês, tabuletas em inglês e tudo preparado e maquinado para inglês ver e abrir a bolsa. Eles saem dos paquetes – e logo o Funchal se arma como um teatro” (Id., Ibid., 194 e 195).

É “a frio” que conclui que os negócios do turismo, do álcool e do açúcar degradaram o povo e enriqueceram apenas alguns. A sua visão humanista leva-o a afirmar que, com o teatro “para inglês ver”, “lucraram os negociantes e os hoteleiros”, enquanto “cada vez se cava mais funda a separação entre as classes chamadas superiores e as outras”. “O vilão, que antigamente passava com papas de milho três vezes por dia e dormia feliz com toda a família num buraco térreo, é hoje um alcoólico inveterado, que até desaprendeu de rir” (Id., Ibid., 197). Diz mesmo que o álcool nem as mulheres deixou de fora, as quais “acompanham o homem no grogue e dão às crianças de mama chuchas de álcool”. Apesar das suas descrições impressionistas, descrevendo paisagens como quem pinta um quadro, não deixa de fazer um retrato amargo das gentes que vivem na Ilha, como se a paisagem tivesse contaminado o destino dos homens e das mulheres. Um destino anunciado logo ao avistar a Ilha, onde “a cada momento que passa, mais alto e mais escuro se me afigura o paredão que nos interceta o mundo. Só há uma vaga claridade para o lado do mar; o resto é negrume alcantilado e monstruoso colaborando com a espessura da névoa e o indistinto da noite. É o homem, subvertido, duas vezes isolado entre a montanha e o mar. É uma alma. E essa pequenina luz humilde chega a ser para mim extraordinária de grandeza: é uma estrela que me faz cismar” (Id., Ibid., 181).

Todo o relato desta viagem à Madeira surge, assim, entre o encanto que a Ilha provoca, com as suas paisagens e o seu clima ameno, e a fria e real descrição das condições de vida das populações. A narrativa de viagem oscila entre o poema inspirado pela natureza e o carácter de reportagem crítica da realidade, exprimindo o significado que o mar e a terra encerram na condição insular. O próprio Raul Brandão reconhece, no início do livro, que este “é feito de notas de viagem, quase sem retoques”, embora amplie um ou outro quadro, sem tirar a frescura das primeiras impressões. “Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!…” (Id., Ibid., 10) O que se segue, contudo, é um quadro perfeito de uma época, pintado por um viajante que recusa a mera descrição impressionista, para traçar um retrato crítico que não é esbatido pela poesia da paisagem.

Raul Brandão integrou a Geração de 90 (séc. XIX), a qual foi influenciada pela estética decadentista-simbolista de matriz parisiense. Seria um dos elementos do cenáculo portuense responsáveis pela elaboração do opúsculo Os Nephelibatas (1892), manifesto em prol da arte moderna e pastiche decadentista. O esteticismo e o ludismo decadente e libertário foram conceções que compartilhou com outras vozes suas contemporâneas, como as de António Nobre, Alberto de Oliveira, Júlio Brandão, Justino de Montalvão, D. João de Castro.

Depois da fase “nefelibata” e do artificialismo dândi, Raul Brandão transitou para uma fase de responsabilização ética, na qual fundaria a sua sensibilidade estética. Os textos publicados no Correio da Manhã teriam um elevado sentido ético-social, refletindo sobre um mundo em crise de valores.

As questões sociais e religiosas podem ser encontradas em obras como História d’um Palhaço (1896), enquanto o naturalismo se espelha em Impressões e Paisagens (1890).

Parte integrante da sua obra é também o catastrofismo finissecular de pendor apocalíptico, acompanhado pela reivindicação da necessidade de uma revolução humanitarista, presente em obras como Húmus, Memórias e O Pobre de Pedir.

As suas narrativas de viagens, onde se incluem as obras Os Pescadores e As Ilhas Desconhecidas, anteriormente mencionada, são verdadeiros quadros de paisagem ao jeito impressionista de quem pinta.

Faleceu a 5 de dezembro de 1930, em Lisboa.

Obras de Raul Germano Brandão: Impressões e Paisagens (1890); Os Nephelibatas (1892) (sob pseud. Luiz de Borja), História d’Um Palhaço (1896); A Farsa (1903); Os Pobres (1906); Húmus (1917); Memórias (1919-1933); Os Pescadores (1923); Teatro. O Gebo e a Sombra, O Rei Imaginário, O Doido e a Morte (1923); As Ilhas Desconhecidas (1926); O Avejão (1929); Pobre de Pedir (1931).

Bibliog.: impressa: BRANDÃO, Raul, As Ilhas Desconhecidas. Notas e Paisagens, pref. António Machado Pires, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2009; Id., As Ilhas Desconhecidas. Notas e Paisagens, Lisboa, Quetzal, 2011; NEPOMUCENO, Rui Firmino Faria, A Madeira Vista Por Escritores Portugueses (Séculos XIX e XX), Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 anos, 2008; PIRES, António Machado, O Essencial sobre Raul Brandão, Lisboa, INCM, 1997; SARAIVA, António José e LOPES, Óscar, História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1987; digital: REYNAUD, Maria João, “Raul Brandão e Vitorino Nemésio: Afinidades Espirituais e Estéticas”, Revista da Faculdade de Letras. Línguas e Literaturas, vol. XVIII, 2001, pp. 221-230: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3032.pdf (acedido a 26 jul. 2016); VIÇOSO, Vítor, “Raul Brandão”, in Camões. Instituto de Cooperação e da Língua: http://cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/raul-brandao-35424.html#.Vz3rWfkrLIU (acedido a 26 jul. 2016).

 Raquel Gonçalves

(atualizado a 12.10.2016)