cabo submarino

A posição da Madeira, no caminho para África e América, fez com que assumisse uma função primordial na rede de cabos submarinos. Foi a partir da ilha que se fizeram, em 1874, as primeiras ligações transatlânticas. Todavia, o incremento deste meio, em princípios do séc. XX, veio a confirmar o porto da Horta (Faial, Açores) como o principal eixo do emaranhado de cabos que estabeleciam as ligações entre o continente americano e a Europa: para o período entre 1893 e 1928 estão registados 15 cabos que aí amarravam.

A ideia do cabo submarino havia sido sugerida em 1795, pelo catalão Salvat, numa comunicação sobre o uso da corrente elétrica para transmissão à distância, apresentada à Real Academia de Ciências e Artes de Barcelona. Três anos mais tarde, era lançado, em Madrid, o primeiro circuito com 44 km, mas só a partir da déc. de 40 da centúria seguinte este meio ganhou novo incremento. Para isso, terá contribuído o facto de o português José de Almeida ter trazido da Malásia para a Europa a gutta-percha, apresentada, em 1843, na Royal Asiatic Society de Londres. Este produto passou a ser utilizado como isolador dos cabos submarinos a partir de 1845.

O período que se sucedeu foi marcado por múltiplos lançamentos do cabo e pela criação de companhias para a sua exploração. Em 1856, surgiu a Atlantic Telegraph Company e, em 1783, a Brazilian Submarine Telegraph Co. A última foi responsável pelo lançamento e exploração de um circuito entre Portugal e o Brasil, com passagem pelo Funchal e São Vicente (Cabo Verde). A imersão do cabo começou a 28 de agosto de 1873, sendo executada pelo vapor inglês Seins. A 19 de março de 1874 estava concluída a ligação com o Funchal, estabelecendo-se de imediato a prestação do serviço público. O contrato para a exploração deste cabo foi assinado a 2 de novembro de 1872.

A ligação entre a Madeira e São Vicente foi realizada pelo vapor Hibernia, ficando concluída a 11 de março de 1874, altura em que foram trocados telegramas entre a Câmara de São Vicente e a sua congénere no Funchal. Em janeiro de 1876, rebentou o cabo no percurso de Lisboa ao Funchal, o que levou a companhia a propor o lançamento de outro, concretizado em 1882, mas com o dobro dos circuitos. O lançamento do cabo esteve a cargo de William Thomson, que casara com Ann Blandy, filha de Richard Blandy, a 24 de junho de 1874.

Assim, a partir de 1874, a Madeira ficou ligada ao continente do reino com um meio de comunicação que fazia com que as notícias chegassem de forma célere, para serem atempadamente publicadas na imprensa local, permitindo aos madeirenses ter uma via mais rápida de comunicação com as instituições e autoridades, de maneira a que a sua voz se fizesse sentir também de forma célere. No decurso da déc. de 80, foi insistente o recurso a este meio, designadamente, por parte da ACIF, das câmaras municipais e das associações, para fazer chegar a sua voz e as suas reclamações aos ministérios ou ao Parlamento. O telegrama era, assim, um instrumento de reivindicação, combate e afirmação da presença dos madeirenses na metrópole. Talvez por isso, em 1921, o governador civil Acácio Augusto Correia Pinto queixava-se da falta de dinheiro para enviar qualquer telegrama, uma vez que a sua expedição era feita a pronto pagamento.

Entretanto, a ligação dos Açores a Lisboa só veio a acontecer em 1892. Mas, em 1879, refere-se a possibilidade de uma ligação entre Lisboa, Madeira e a ilha de São Miguel. Depois, a 17 de fevereiro de 1882, foi autorizado o contrato sem concurso público para o lançamento de um cabo submarino entre Lisboa, Açores e América, passando pela ilha da Madeira. A partir de 1889, a companhia de exploração do cabo passou a chamar-se Western Telegraph e foi ela a responsável pelo lançamento de um novo cabo, em 1901. A 21 de setembro, foi assinado um outro contrato com a Eastern Telegraph Company para um cabo submarino que iria ligar a Inglaterra à África do Sul.

A instalação de cabos submarinos nos espaços insulares atlânticos, a partir da déc. de 70 do séc. XIX, revela mais um papel importante atribuído aos espaços insulares na conexão da Europa com a América e África. Na Madeira, São Vicente e Faial estabeleceram-se instalações de apoio à amarração dos diversos cabos que foram servidas por funcionários das companhias envolvidas, muitas das quais provenientes dos países proprietários. Rapidamente se criou, em cada uma das ilhas, a comunidade dos cabos submarinos, que estabeleceu e manteve ligações diretas com a comunidade residente. Assim, na Madeira, eram frequentes os convívios com os locais, despertando esse grupo estrangeiro a atenção de todos. Acrescente-se que a eles se deve a prática de diversas modalidades desportivas, como o futebol e o críquete.

A estação do cabo nas proximidades do convento de S.ta Clara era alvo da atenção de todos. Com a Primeira Guerra Mundial, tornou-se um centro nevrálgico, em termos de circulação de informações, que importava salvaguardar. Desta forma, a partir de março de 1916, foram estabelecidas medidas especiais de segurança do recinto pela polícia cívica. As piores previsões confirmaram-se quando, a 3 de dezembro de 1916 e a 12 de dezembro de 1917, os submarinos alemães bombardearam de forma relâmpago a cidade do Funchal, tendo em linha de mira a estação de S.ta Clara (as bombas acabaram por cair no convento de S.ta Clara).

A afirmação do cabo submarino como um meio privilegiado de comunicação com o exterior foi efémera. A concorrência da telegrafia sem fios, mercê dos progressos técnicos gerados por Marconi, e a afirmação do correio aéreo, associados à depressão de 1929, conduziram a que aqueloutro meio se tornasse obsoleto e com elevados custos, dando lugar a uma complexa rede de telegrafia sem fios. Este foi o primeiro passo para um rápido enlace de todo o mundo, conseguido em pleno na atualidade, com a geração dos satélites. Não obstante as primeiras experiências de rádio serem de 1825, foi em finais do séc. XIX, com Guilherme Marconi, que se deram os grandes progressos na transmissão pela telegrafia sem fios. Foi em 1896, após um ano de experiências, que o mesmo registou a patente, em Londres, criando a Wireless Telegraph Company no ano imediato.

A Madeira começava a ficar ligada de diversas formas aos continentes vizinhos. Assim, em 1947, foi estabelecido um novo cabo entre Gibraltar e o Funchal; em 1960, um outro amarrou no Lazareto e, finalmente, em 1972, foi inaugurada uma nova geração de cabos por iniciativa da Marconi. A companhia inglesa do cabo submarino havia encerrado oficialmente as suas instalações a 31 de dezembro de 1970.

Desde o verão de 1971, ficou estabelecido que a Madeira ficaria servida de um novo cabo submarino, capaz de atender às solicitações dos madeirenses, substituindo assim o antigo e abandonado cabo dos ingleses. As obras iniciaram-se em dezembro de 1971 e, a 11 de maio do ano seguinte, deu-se início ao lançamento do cabo submarino que seria inaugurado a 2 de setembro. Este, com 160 circuitos telefónicos, abriu novas possibilidades às ligações com o exterior e à disponibilização de novos serviços, como o telex. Em 1980, esta oferta de serviços foi ampliada para 144 canais, com a instalação de um sistema duplicado de vias. Com esta nova linha de comunicação, a Marconi não desmantelou as estações de telegrafia sem fios do Garajau e Caniçal, mantendo-as no ativo, como reserva para qualquer eventualidade, até ao aparecimento de um novo meio alternativo, o satélite, em 1982. Durante este período, as estações trabalharam apenas algumas horas por dia, de modo a não se perder a soberania das frequências.

A substituição deste cabo teve lugar com o lançamento de dois novos em fibra ótica: o Euráfrica e o Sat-2. O primeiro estabeleceu a ligação entre o continente, França e Marrocos, passando pela Madeira, enquanto o segundo se estendeu até à Cidade do Cabo. O desmantelamento do CAM-1 (continente, Açores, Madeira) ocorreu pelas 11 horas do dia 29 de junho de 1993. O cabo submarino de sistema analógico, ao fim de vinte e um anos de serviço, passava à história, dando lugar à tecnologia digital. A sua entrada em funcionamento contribuiu para uma melhoria significativa das comunicações com o exterior, uma vez que, aos seis circuitos de rádio existentes, vieram juntar-se os 120 do cabo. O crescimento destes circuitos duplicou com a estação terrena de satélites, atingindo, na atualidade, com os novos cabos submarinos, mais de 15.000 circuitos. Entretanto, concretizou-se o Euráfrica, cujo acordo de construção e manutenção foi assinado a 3 de julho de 1989, com participação francesa, marroquina e portuguesa. Este cabo substituiu o Tágide, o Amite, o Atlas e o CAM-1, estabelecendo uma ligação entre Saint Hilaire de Riez (França), Sesimbra, Funchal e Casablanca. A 28 de setembro de 1992, abriu-se esta via, fornecendo aos utentes um amplo leque de serviços de telecomunicações.

Vale a pena destacar o Sat-1, inaugurado a 18 de fevereiro de 1969, que se estendia ao longo de 10.787 km, ligando a Cidade do Cabo a Lisboa, com amarrações em Ascensão, Cabo Verde e Canárias: tinha capacidade para 360 canais e atingiu, em 1978, o limite da sua utilização, pelo que se tornou necessário lançar um novo cabo, o Sat-2, que surgiu em sua substituição. Este cabo de fibra ótica liga o continente à Madeira, Canárias e África do Sul, tem uma extensão de 9000 km e capacidade para 15.000 mil circuitos bidirecionais e 30 canais de televisão. A 8 de março de 1990, foi assinado um acordo de intenção, subscrito pela Companhia Portuguesa Rádio Marconi, Correios e Telecomunicações de África do Sul, France Telecom, Telefónica de Espanha, British Telecom, Bundespost Telekom.

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Alberto Vieira

(atualizado a 15.06.2016)