cadeirais

Os cadeirais eram um complemento importante das grandes igrejas conventuais e das catedrais, onde o clero beneficiado e o cabido oficiavam em conjunto os serviços religiosos. Geralmente composto por duas fileiras de cadeiras em cada lado, de acordo com a hierarquia dos monges e dos clérigos, o cadeiral apresenta quase sempre uma elevação dos espaldares das cadeiras da fila posterior que compõe as paredes laterais do coro, com cada assento a apresentar apoios para os braços e uma divisória para os assentos contíguos. O assento pode ser recolhido na generalidade, de modo a permitir a permanência de joelhos ou em pé, possuindo na parte inferior um apoio, a misericórdia, que possibilita algum repouso nas permanências de pé nas longas celebrações litúrgicas.

A utilização dos cadeirais nos coros estendeu-se igualmente aos conventos, como os das clarissas, a maioria das vezes dois, em andares sobrepostos de acordo com a hierarquia dentro dos conventos, tal como se estendeu às igrejas colegiadas, ou seja, onde havia um certo número de clérigos, e que, à semelhança das catedrais, celebravam ofícios religiosos em conjunto. Na Idade Média os cadeirais das catedrais envolviam o presbitério, ou capela-mor, fechando-se aos fiéis. Nos inícios do séc. XVI passaram para os compartimentos laterais dessas capelas e, depois, para cima das entradas das igrejas, como quase todos os que chegaram aos nossos dias.

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Coro de cima Santa Clara 1500-1620

Com a instalação das confrarias nas grandes igrejas, foram também levantados cadeirais nas suas capelas, onde os membros da confraria assistiam aos ofícios divinos em destaque e faziam as reuniões. Nos sécs. XVII e XVIII foi introduzida uma mesa nos cadeirais das confrarias, onde o escrivão fazia a ata das reuniões e, depois, os irmãos a iam assinar, evitando-se assim a assinatura das atas em cima dos altares, como se recomendava inúmeras vezes nas visitações. Na transição do séc. XVIII para o XIX, e com a centralização do governo eclesiástico, a maioria das confrarias foram progressivamente afastadas das suas capelas iniciais, que passaram para o controlo da autoridade eclesiástica, passando as reuniões a decorrer, por vezes, em instalações anexas à igreja. Os cadeirais das confrarias passaram então para as paredes da nave, junto às entradas e logo abaixo do coro, assentes em consolas, de onde os confrades assistiam aos ofícios religiosos, demarcando assim a sua condição social da dos restantes fregueses.

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Cadeiras coro de cima St Clara 1500 – 1620

O primeiro cadeiral levantado na ilha da Madeira deve ter sido o do coro de cima do convento de S.ta Clara, nos últimos anos do séc. XV ou nos primeiros do séc. XVI, dado que as freiras ocuparam as suas instalações no Funchal entre os finais de 1496 e os inícios de 1497, estando já prontas desde o ano anterior, só aguardando a sua chegada do continente.

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Coro de baixo St Clara 1600-1736.

O coro de cima apresenta uma ordem de cadeiras separadas por pilastras oitavadas e bancos amovíveis com misericórdias não esculpidas, assentes em estrado de madeira e chão revestido por azulejos sevilhanos mudéjares, relevados e vidrados com óxido de cobre verde-escuro.

O coro de baixo apresenta igualmente chão semelhante, mas com diversos tipos de azulejos mudéjares, tendo sido o cadeiral reformulado por 1736, data inscrita na cadeira da madre vigária da casa.

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Cadeira da madre 1736 St Clara

Também deveriam ter tido cadeirais semelhantes os restantes conventos femininos do Funchal, embora o das Mercês só tivesse um coro (Convento das Mercês), tal como os conventos de S. Francisco do Funchal (Convento de S. Francisco), de S. Bernardino de Câmara de Lobos (Convento de S. Bernardino) ou da Piedade de S.ta Cruz, mas nada desses chegou até nós, mesmo na forma de outra informação documental. Os pequenos conventos da Ribeira Brava e da Calheta, dado o escasso número de irmãos, provavelmente não devem ter tido este tipo de mobiliário.

O cadeiral da Sé do Funchal é o exemplar mais notável da sua época em Portugal e o único que se encontra no local original. Durante a montagem, esteve para ser colocado sobre a porta principal, em 1515, a pedido da CMF, mas entretanto o rei D. Manuel mudou de ideias e não se cumpriu a ordem, muito provavelmente porque o cadeiral já devia estar a ser instalado na capela-mor e a sua remoção significaria custos acrescidos, pois muito raramente aquele rei recuou em relação às suas ordens.

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Cadeiral da Sé do Funchal, BF.

Tendo sido projetado no gabinete régio em Lisboa, onde trabalhava D. Diogo Pinheiro (c. 1437-1525), bispo do Funchal, o conjunto de cadeiral, altar e retábulo da sé fechava-se, por certo, ao corpo da igreja, como também determinara, em princípio, D. Manuel na carta de janeiro de 1517. Deveria possuir em frente ao retábulo, na parede com que se fechava ao transepto, uma cadeira especial destinada ao bispo do Funchal, assim como deveria encerrar junto aos degraus de acesso ao retábulo com outras duas cadeiras ligeiramente mais altas e destacadas, destinadas ao rei e à rainha, no caso de se deslocarem à Madeira, como teria acontecido nos cadeirais de Tomar, de Alcobaça, e em quase todos os castelhanos e aragoneses.

O cadeiral do Funchal foi entretanto “reparado” em 1587 e 1588, como consequência da implantação das diretivas de Trento, na vigência do bispo D. Luís de Figueiredo de Lemos (1544-1608), altura em que foi desmanchada a fiada de cadeiras frente ao altar-mor. Nessas obras foram colocados uns “topos de cantaria” nos degraus da capela-mor e, no ano seguinte, aberta a porta para a capela do Amparo e retiradas “umas cadeiras do coro, que não serviam”, embora se refira que se guardaram então numa das arrecadações da cerca da Sé (FERREIRA, 1963, 249).

O cadeiral do Funchal é composto hoje por duas ordens de cadeiras; uma superior com 11 cadeiras altas de cada lado para os capitulares e outra inferior com oito cadeiras que se destinava aos capelães, sendo o acesso à ordem superior feito pelos espaços entre as segundas e terceiras cadeiras inferiores de ambos os lados. A ordem superior possui sobrecéu, dossel ou guarda-voz e espaldar com santoral, com as primeiras cadeiras superiores destacadas, sendo a do lado do Evangelho destinada a ser ocupada pelo deão e a do lado da Epístola, pelo arcediago, a que se seguiam o chantre e o tesoureiro. As cadeiras dos capelães apresentam espaldar com um pequeno friso de talha já de feição renascentista, utilizando como sobrecéu e guarda-voz o parapeito da estante superior dos cónegos.

As cadeiras são dotadas de braçais superiores, onde os elementos do cabido e os capelães apoiavam os braços nas longas leituras feitas de pé, os quais nos mais complexos cadeirais de Espanha também aparecem com elementos decorativos, sendo os do Funchal mais simples. Todo o conjunto é rematado por um baldaquino entalhado, que esconde o guarda-voz, com as divisórias das cadeiras marcadas superiormente por flechas entalhadas. Os espaldares da ordem superior do cadeiral do Funchal são decorados com nichos cobertos por baldaquinos também finamente entalhados abrigando imagens em baixo-relevo dos principais santos, apóstolos e profetas, na sequência dos antigos santorais ou repositórios de devoções.

A mensagem da Igreja Triunfante ocupa assim o local mais destacado do coroamento superior, comunicando diretamente ao espetador o sentido da religiosidade através das representações das suas figuras cimeiras. Entretanto, nos espaços mais baixos e menos visíveis, aparecem uma série de elementos escultórios mais ou menos dissonantes, com referências aos bestiários medievais e à marginália, muito comum nos congéneres europeus. Essas referências aparecem no cadeiral do Funchal logo em algumas das mísulas do santoral, sem especial relação com as grandes figuras representadas superiormente, nos pomos dos espaldares das cadeiras inferiores, nas paciências dos apoios das mãos e, nem sempre visíveis, nas misericórdias. Os cadeirais de coro medievais devem ser os locais em que a decoração melhor espelha o cariz estremado e contraditório da realidade religiosa e social dessa época, como vários autores têm dito. Na sua decoração confluem pacificamente o sagrado e o profano, o erudito e o popular, o quotidiano e a lenda, numa série de referências históricas ancestrais a que não falta algum sentido de humor. Esta tradição desenvolve-se na marginália que decorre nos locais mais escondidos, como nas altas gárgulas medievais de algumas catedrais, quase fora do alcance visual do transeunte e fora do local sagrado que é o templo, mas interpenetrando-se com a iconografia de cariz sacro no seu interior. A sua apresentação no interior dos templos ocorre somente nos cadeirais e, mais especificamente, nas misericórdias, dado o facto de ficarem escondidas, acrescido ao próprio uso privado a que se destinavam, explicando assim em grande parte a aceitação do cariz tão licencioso e profano de algumas dessas representações.

O cadeiral do Funchal apresenta ainda uma série de representações que parecem remeter para o quotidiano local, como de um camponês a pisar as uvas, de outro a encher um tonel, de homens transportando borrachos e bebendo, etc. Estas figurações nascem dos tradicionais trabalhos dos meses, mas revelam aqui uma preocupação quase documental que se sobrepõe aos modelos divulgados pelas gravuras, que serviram, por certo, como matriz para muitas das esculturas. No Funchal, entretanto, parece haver uma maior abundância de referências aos escravos negros, representados a tocar tambor ou a apanhar cocos ou bananas, tal como uma relativa abundância de macacos e outros animais exóticos, como um camaleão, que ligam e documentam a instituição da “igreja grande” como sede da diocese dos Descobrimentos Portugueses.

A autoria da complexa máquina retabular e do cadeiral do Funchal tem sido atribuída à parceria de Machim Fernandes com o “carpinteiro de Tomar”, João do Tojal, de momento a hipótese mais viável e plausível. O mestre Machim fora recrutado em Toledo e executara alterações no cadeiral da igreja de S.ta Cruz de Coimbra; em fevereiro de 1513, estava à frente da oficina que executava várias obras na igreja matriz de S. João Baptista de Tomar, entre as quais a talha para o cadeiral dos cónegos. Em novembro seguinte, a obra estava pronta e, em fevereiro de 1514, o rei D. Manuel deslocava-se a Tomar para ver pessoalmente os trabalhos. Entre 1514 e 1519 não existe documentação sobre os trabalhos ou presença destes mestres em Portugal, tudo levando a crer que Machim Fernandes e João de Tojal teriam sido contratados para a montagem do retábulo e execução do cadeiral da “igreja nova” do Funchal.

Ao longo do séc. XVI devem ter tido cadeirais as várias igrejas matrizes com colegiada, mas só chegou aos nossos dias o cadeiral da matriz de S. Pedro do Funchal, datado por cartela maneirista numas das misericórdias com “Anno 1633”. Este cadeiral não deixou qualquer rasto na documentação que temos consultado até ao momento, mas é uma obra insular cimeira, que inclui referências bastante eruditas, como a representação de um rinoceronte como braço de uma das cadeiras, indiscutivelmente inspirado na célebre gravura de Albrecht Dürer, editada pela primeira vez em 1515, tal como a de um elefante.

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Cadeiral da Igreja de S. S. Monte.

Ao contrário do cadeiral da Sé, no entanto, o de S. Pedro é uma obra já tridentina, “contrarreformista”, bastante contida e sem vestígios do cariz licencioso e pícaro do congénere levantado haveria cento e poucos anos antes na catedral. Tudo leva a crer que os modelos utilizados foram objeto de apertado controlo dos eclesiásticos, entre os quais, muito provavelmente, figurava o futuro administrador do bispado, o “todo-poderoso” deão Dr. Pedro Moreira (c. 1600-1674), natural da Ponta do Sol e então beneficiado naquela igreja. A autoria do cadeiral parece apontar para o entalhador Manuel Pereira (c. 1605-1679), que teria oficina na freguesia de São Pedro, integrando com o título de “imaginário”, por exemplo, a Confraria das Almas da Igreja de S. Pedro, onde foi eleito mordomo em 1630 e, de novo, em 1632, em conjunto com importantes proprietários locais e o P.e Pedro Moreira, beneficiado daquela igreja, pelo que já era decididamente um elemento de grande recorte local. Assim, encontrando-se nessa época em construção o cadeiral do coro daquela igreja, que se encontra datado numa das misericórdias de 1633, de certeza que Manuel Pereira fazia parte da equipa que o entalhava.

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Cadeiral e órgão matriz de Machico 1770
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Cadeiral colegial de Machico.

Entre os finais do séc. XVIII e os meados do XIX processaram-se profundas alterações na organização religiosa, primeiro com a centralização régia, que de certa forma restringiu a atividade das confrarias, depois com a centralização do poder eclesiástico, que levou o bispo D. José da Costa Torres (1741-1813), entre outras ações, a extinguir as confrarias das antigas irmandades de ofícios da Sé do Funchal, por provisão episcopal de 18 de abril de 1792, alegando a sua “irregular ou nula administração”, passando os seus documentos e receitas para a fábrica da Sé, que se encarregou do cumprimento das respetivas obrigações pias. Ficavam assim somente as irmandades do Santíssimo e dos oragos das igrejas matrizes, mas muitas resistiram durante mais algum tempo. Deve datar assim desses finais do séc. XVIII a colocação dos cadeirais da confraria do Santíssimo e da do orago da freguesia, já de feição neoclássica, polidos e com contidos apontamentos de talha dourada, no início das naves das igrejas matrizes, como subsistem em inúmeras igrejas da região, costume que perdurou até aos inícios do séc. XX, período dos mais recentes, já somente polidos ou pintados.

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Cadeira de SS Machico.

A situação, no entanto, nem sempre foi linear e, pelos finais do séc. XVIII, a matriz de N. S.a da Conceição de Machico voltou a repor o cadeiral da colegiada na capela-mor, como se fazia até aos primeiros anos do séc. XVI.

Os altos alçados apresentam-se pintados com um santoral atribuível à oficina de Nicolau Ferreira e encimados por sobrecéu, sobre o qual de um lado assenta o órgão e do outro, uma tribuna. A Confraria do Santíssimo da Sé, em 1806, também mandava renovar a antiga mesa dos confrades, ou seja, o cadeiral onde faziam as suas reuniões e assistiam, em destaque, às cerimónias religiosas, dado que estava “inteiramente indecente, pela sua antiguidade e grosseria” (FERREIRA, 1963, 313). Foi então feita uma nova estrutura sob a direção do mestre Manuel Fernandes (FERREIRA, ibid.) ao gosto neoclássico da época, com painéis de madeira embutidos representando vasos com flores, retirado para o Museu de Arte Sacra nos inícios de 1970.

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Igreja de S. Brás da Calheta 1830
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Cadeiral matriz da Calheta 1770-1790

 

 

 

 

 

 

 

Bibliog. manuscrita: ARM, Câmara Municipal do Funchal, Registo Geral, t. 1, fl. 315v.; ANTT, Cabido da Sé do Funchal, avulsos, mç. 6, n.º 1; ANTT, Ministério das Finanças, Conventos Extintos, Funchal, cx. 2076; impressa: BRAGA, Maria Manuela Correia, “Apontamentos Acerca do Cadeiral”, Monumentos, n.º 19, Lisboa, DGEMN, 2003, pp. 56-63; CARITA, Rui, “Cadeiral da Sé do Funchal”, dossiê de Invenire, Revista de Bens Culturais da Igreja, n.º 9, jul.-dez. 2014, pp. 30-39; COSTA, José Pereira da, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Século XV, CEHA, Funchal, 1995; FERREIRA, P.e Manuel Juvenal Pita, A Sé do Funchal, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo, 1963; LADEIRA, Paulo Jesus, A Talha e a Pintura Rococó no Arquipélago da Madeira (1760-1820), Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, SREC/CEHA, 2009; MOREIRA, Rafael, “Os Autores do Retábulo e Cadeiral (1514-1516)”, Monumentos, n.º 19, Lisboa, DGEMN, 2003, pp. 64-65; NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, Antigamente Primaz de todas as Conquistas, distribuída na forma do Sysrema da Academia Real da História Portuguesa, Anno de 1722, Funchal, CEHA, 1997; RODRIGUES, Rita, “Manuel Pereira, Entalhador e Imaginário Madeirense do Século XVII, e os Circuitos de Divulgação de Modelos para as Periferias”, Anuário do Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2010, pp. 229-325; digital: BRAGA, Maria Manuela Correia, “A Marginália Satírica nos Cadeirais do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e Sé do Funchal”, Medievalista, 2005: http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA1/medievalista-marginalia.htm (acedido a 19 fev. 2015).

Rui Carita

(atualizado a 27.07.2016)