cadernos ilha

Coleção de 11 títulos de oito autores, fundada e dirigida por José António Gonçalves, entre 1988 e 2001. Inaugura-a com 20 Textos para Falar de Mim (Poemas de 1970-1985), qual “Litania insular”, título do derradeiro poema, em que desagua o geral discurso da ilha (originário da, escrito no e sobre “o dorso” da ilha), e este projeto editorial: “não sinto nunca a necessidade de escrever / um poema magnífico / como o silêncio / dum crepúsculo lento // creio que isto causa apreensão a qualquer artista / mas a obra urge surgir sem apetrechos decorativos, branca e nua / como uma ninfa em pântanos indescortináveis / e distribuir-se simples e concreta – um sorriso breve – / num rosto claro de mulher / ou como o pão fresco e saboroso / sobre a mesa / que bem o conhece e o espera // só assim será possível a conquista de espaços transparentes / na penumbra dos quotidianos aflitos e possessivos / e as manhãs possuirão aquela luz da novidade e da esperança / que apenas os barcos aprenderam a trazer até aos rebordos verdes / – trespassados pela monotonia ecoante do mar rasgando as rochas – / da ilha infatigavelmente prostrada no centro dos horizontes / aguardando certamente a chegada da gaivota calada e serena / para em cada voo erguer o grito do mar sob os céus mais infinitos”. Numa lírica de minúsculas e verso branco libérrimo ‒ assumida pelo octeto ‒, é nesta coletânea que, ainda assim, há visos de rima. No geral, não há rasgos formais a assinalar.

Na página 2, explica-se a iniciativa, “fruto da constatação da imperiosidade de criação de um espaço literário aberto e responsável, integrado porém no espírito que presidiu aos alicerces do Movimento ILHA: afirmação cultural do âmago dos contornos que definem a insularidade como tema criativ”. Os volumes Ilha 1 e Ilha 2 eram de 1975 e 1979; os seguintes, de 1991, 1994, 2008: significava isso a necessidade de outra experiência, por autor, e não em grupo? Não só: temendo a asfixia de assunto em parcos cultores ilhéus, J. A. Gonçalves inaugura, antes do último título, e com título seu, Noites de Insónia (1998), a Coleção Livros de Cordel, extensiva aos que, também continentais, não tinham forçosamente afinidades eletivas com o arquipélago. Agora, impõe-se uma “temática insular” de autóctones ou residentes, com preferência pela poesia, que será exclusiva; e avança-se “derrotando o alheamento e sufocando lacunas – limando o calhau com a força do mar, ali mesmo, sempre presente como uma fronteira”.

Além de convidar artistas locais para ilustração da capa e de prefaciar quatro dos partícipes, outra preocupação animava J. A. Gonçalves: a lembrança post mortem, e justo reconhecimento, de A. J. Vieira de Freitas (1940-1982) e Jorge Freitas (1921-1960), com, respetivamente, 14 Poemas Inéditos (n.º 2, 1988) e Alguns Poemas Insulares e Outros Textos (n.º 7, 1995). Daquele, atento ao social entre laivos surrealizantes, já Ilha 3 (1991) se quisera “homenagem póstuma”, com outros inéditos, cujo roteiro sensacionista de lugares nos adentrava no fenómeno ilhéu como estádio mais vasto da condição humana. Este interviera em edições coletivas entre 1952 e 1958, tendo lançado a expensas suas Alguns Poemas Insulares (1954), tão-somente seis, de sabor marinho, e parca originalidade; agora, acrescem 34 outros textos desde 1946 retirados de espólio mais largo. A soltura da voz, livre, sem peias vocabulares, mantém-se viva, refrescante, quer na reiterada reflexão sobre o fazer poético, quer nas associações insólitas e lições de vida deste velho companheiro de Herberto Helder e Carlos Camacho, em Poemas Bestiais (1954). Veja-se “Calcanhar d’Aquiles”, anúncio de exercícios por outros articulados nas décadas seguintes: “Sagitário feriu / o calcanhar do mundo / e homero e virgílio / escreveram os lusíadas / que luís vaz camões / escrupulosamente assinou. / Então, judas comprou uma guita / por trinta dinheiros / e içou a humanidade / ao infinito”. Ou estoutro: “Li hoje um poeta / Daqueles que fazem versos, / Só versos. / Que estúpido animal. / E pensarmos nós / Que há tanta besta desta / Em Portugal”.

Dalila Teles Veras, emigrada desde 1957 em São Paulo, onde Madeira: Do Vinho à Saudade (n.º 3, 1989) teve 2.ª edição (1997), relembra a atividade vinícola, ou “via profana em cinco atos”, e, a par de evocações de gentes e momentos fortes (“Cena Domingueira”, “Bordadeira”, “Meu Avô José”, “Fragmento”, “Gosto de Cereja Madura”), revisita lugares-chave do turismo (Cabo Girão, Porto Santo): “De que divindade te alimentas / fantástica goela escancarada para os céus? / Falta-te o mar, sobram-te mistérios / e o assombro perene permanece em teu vale / prenhe de lendas e verde. //[…] Pequena e rendida, observo-te / frémito de medo e êxtase / e das flores do rochedo onde me agarro / faço um ramo agreste em oferenda / aos deuses deste lugar” (“Curral das Freiras”).

A Mão que Amansa os Frutos (n.º 4, 1990), de Irene Lucília Andrade, é um eurítmico périplo em 26 etapas regulares: “Longos caminhos percorri / curvos (que é como eu gosto dos caminhos) / e descansei à sombra do silêncio / atrás de ocultos encontros”. Nomear os frutos é conjugar os elementos (em particular, terra e água) – discreta metáfora para cantar, após genesíacas reminiscências ou a “luz grega” de setembro, a reedificada Pasárgada que o poeta em si variamente colhe e acarinha. Essa euritmia volta, contudo, num alfabeto incompleto e solar, apesar de dor, dúvida e protesto se insinuarem.

Antologia Verde (Poemas, 1973-1979; n.º 5, 1991), no nome completo José António de Freitas Gonçalves, é a primeira antologia deste, desde o coletivo Movimento até ao título esgotado A Crista de Neptuno. Se há poetas de antologia – no que isso representa de balanço regular e revisão de impurezas, fazendo-se novo rosto –, J. A. Gonçalves é um deles, na sua permanente inquietação. Explicita-se, logo, assumida “homenagem à ilha, fonte primeira da imagética que à palavra deu cor. É também a assunção da verdura – roupagem indisfarçável no corpo dos poemas escritos na juventude – que alimenta os textos coligidos […]”. Mais consistente, e coerente, será Aventura na Casa dos Livros (n.º 10, 2000). A par do discurso à volta do ‘livro’ (índice, biblioteca, guia, lombada e outros vocábulos da respetiva semântica), que não deixa de ser o desenvolvimento de um conceito resumido ao génesis de outro mundo – o universo da criação literária –, em que o sujeito também descansa ao sétimo dia (ver segundo poema), e pese, ainda, algum tom imperativo, os velhos encavalgamentos vão-se reduzindo a inflexões menos sonoras e, esbatido esse galope, impõe-se “retrato breve”, com diluição metafórica, fixando instantes, “crónica citadina”, poetas e músicos, amigos. Sobrevém o desejo de uma sintaxe, de maiúsculas e pontuação correntes, pulverizadas ou ausentes na produção anterior. Encerrando uma coleção decerto desigual, com sacrifício inclusive financeiro de J. A. Gonçalves, Esquivas São as Aves (n.º 11, 2001) está discretamente invadido de pequenos desaires, maus augúrios, vazio crescente… O verso é mais rápido, fechando em desconforto, quando não desinteresse. E outra é, enfim, a “Ilha Dilacerada”: “Tenho uma ilha dilacerada nas mãos / desfeita em bocados de terra quente e viva / explodindo o seu verde pelos meus dedos. // […] // É uma ilha dilacerada por ausências / com memórias de vinhos e de açúcares / na sua madeira carcomida pelo tempo.” Deve ser lido com As Sombras no Arvoredo (2004) ‒ início de outra coleção ‒, onde o poema “Destino” enuncia a preocupação crescente com o lugar, glosado em ilha, calhau, funcho, meada e tear do destino.

Falta referir os números 6, 8 e 9: Carlos Nogueira Fino, Contemplação do Olhar (1992); São Moniz Gouveia, Cartas para um Tenente (1996); Teresa Souto, Um Olhar Além de Mim (1998). Aqui, é um tropel de sensações – “volúpia antiga” não isenta de interrogações – em estreia que aguarda confirmação. Na também estreante São Moniz Gouveia (assina, hoje, Laura Moniz), as várias frentes (caso de “W. B. Yeats e Batman Numa Banheira”) denunciam dispersão e aleatório atrás de um motivo firme em índices de sensualidade: um corpo feito sentidos, cuja consumação vencesse angústias e mágoa: “queria que fosses / um primeiro sentido do orgasmo / fome de sexo permanente / que se curva à luz solar / e eu manto de veludo quente / ruído de lágrimas / transpirada em gargalhadas / por toda a tua pele” (“Simbiose”).

O continental Carlos Nogueira Fino há muito conquistara outra pátria. No primeiro de 71 sketches, vislumbra-se argumento de uma existência: “pátria pode ser a transparência / do chão onde se enxerta a alma / no mais puro perfume do silêncio // onde se acendem as íntimas janelas / que se abrem para as árvores”. Na irrupção de dícticos (os demonstrativos “este”, “esta”, a par de mais raros “aqui”, “agora”) e interlocução dirigida a uma segunda pessoa ‒ na participação de Ilha 4 (1994), ressalta um tom imperativo (“vem”, “assentemos”) ‒, percebe-se o espírito do lugar, convidando à contemplação de paisagens interiores.

Bibliog.: ANDRADE, Irene Lucília, A Mão Que Amansa os Frutos, Funchal, s.n., 1990; FINO, Carlos Nogueira, Contemplação do Olhar, Funchal, José António Gonçalves/Grafimadeira, 1992; FREITAS, A. J. Vieira de, 14 Poemas Inéditos, Funchal, José António Gonçalves, 1988; FREITAS, Jorge, Alguns Poemas Insulares, Funchal, s.n., 1995; GONÇALVES, José António Freitas, 20 Textos para Falar de Mim, Funchal, José António Gonçalves, 1988; Id., Antologia Verde, Funchal, José António Gonçalves, 1991; Id., Aventura na Casa do Livros, Funchal, Correio da Madeira, 2000; Id., Esquivas São as Aves: Poemas, Funchal, Correio da Madeira, 2001; GOUVEIA, São Moniz, Cartas para um Tenente, Funchal, Correio da Madeira, 1996; SOUTO, Teresa, Um Olhar para além de Mim, Funchal, Correio da Madeira, 2000; VERAS, Dalila Teles, Madeira: do Vinho à Saudade, Funchal, José António Gonçalves, 1989.

Ernesto Rodrigues

(atualizado a 13.10.2016)