calheta

O concelho da Calheta deve o seu nome à configuração da sua costa. Segundo António Carvalho Costa, em Corografia Insulana (1713-17??), “quando se descobriu, fizeram à mão uma calheta, de que tomou o nome a Vila, que depois ali se povoou” (NASCIMENTO, 1949, 71). Paulo Dias de Almeida, em 1821, refere uma qualidade especial deste concelho, dizendo que “É nestas freguesias que as mulheres trabalham mais que os homens. São elas que levam os gados ao pasto, que conduzem o gado à serra, que fazem o corte das lenhas, e por isso são mais robustas e os homens muito acanhados” (CARITA, 1982, 82).

Este lugar foi terra de gente ilustre. Para além da ligação muito forte aos capitães do donatário do Funchal, existem referências que nos elucidam sobre outras famílias que aí se fixaram. Assim testemunha Gaspar Frutuoso tal riqueza: “É esta vila tão nobre em seus moradores, como abastada pelos muitos e baratos mantimentos que nela acham. Desta saíram em companhia dos capitães do Funchal muitos e nobres cavalheiros a servir El-Rei à sua custa os lugares de África, e nos socorros que os capitães levaram: onde todos, além de darem mostras de suas pessoas, gastaram muito do seu, porque eram ricos, pelas grossas fazendas que nesse termo há, como a do Arco, tão afamada”. E remata que “foi o condado do Ilustríssimo Capitão Simão Gonçalves da Câmara, Conde desta vila nova da Calheta” (FRUTUOSO, 1979, 90).

Numas notas de recomendação apresentadas em 1698 ao novo Governador, António Jorge de Melo (1698-1701), refere-se que a Madeira é dividida em duas capitanias, a da Calheta, que tem como donatário o conde de Castelo Melhor, e a de Machico. Este título foi dado, segundo se explica, “por virtude do condado deste título” (NASCIMENTO, 1927, 59). Esta valorização da Calheta manifesta-se igualmente em designações como “capitania do Funchal” e “casa da Calheta”.

Os filhos de Zarco foram os primeiros proprietários de terras. Assim, o título de conde da vila nova da Calheta foi dado, em 20 de agosto de 1576, por D. Sebastião a Simão Gonçalves da Câmara, título que deixou de ser usado com D. Luís de Vasconcellos, que preferiu o de 3.º conde de Castelo Melhor. O de Valledeamores pertenceu a Duarte Pestana de Brito, que fora armador-mor de D. João II e D. Manuel e um conhecido poeta representado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. A toponímia local espelha estas primeiras presenças. Assim, o Lombo do Doutor regista a fixação, em 1480, do valenciano Pedro Berenguer; o Lombo do Atouguia vem de Luis de Atouguia, fidalgo de Beja; já o sítio dos Florenças tem origem no florentino João Salviati.

Temos ainda outros fidalgos estrangeiros que aí assentaram morada, como o galego João Fernandes de Andrade, conhecido como João Fernandes do Arco, por assentar morada no Lugar do Arco. Foi ele quem recebeu de D. João II, em 1486, a capitania de qualquer ilha ou terra firme que descobrisse. Outro estrangeiro, João Polonês, recebeu terras no Estreito, sendo o seu filho, João de França, o fundador da capela de N.ª S.ª da Graça. Refere-se ainda, na Serra de Água, João Fernandes, que, segundo alguns, será filho de D. Afonso V e D. Joana. Salienta-se ainda Diogo Perestrelo, quinto donatário do Porto Santo, que viveu na vila da Calheta. Era casado com D. Maria, filha de Gaspar Homem, que havia estabelecido um morgado dos Reis Magos no Estreito da Calheta.

No decurso do séc. XVI, muitos destes vizinhos da Calheta deram uma boa parte do seu dinheiro para apoio e defesa das praças portuguesas do norte de África, como foi o caso de Francisco de Abreu e António de Abreu, filhos de João Fernandes do Arco. António de Abreu, depois de ter estado no norte de África, partiu para a Índia, em 1511, com Afonso de Albuquerque, onde participou em diversas campanhas militares e de descoberta, sendo considerado o descobridor das Molucas e o primeiro europeu a avistar a Austrália. Em 1526, depois de ter regressado ao reino, foi nomeado capitão de Malaca. Outros, como o capitão Francisco de Figueiroa, tiveram um papel de destaque nas guerras de restauração da Baía e Pernambuco, no Brasil.

Temos ainda de recordar o episódio do rapto de Isabel de Abreu por António Gonçalves da Câmara, que tão bem relata Gaspar Frutuoso. D. Isabel de Abreu, viúva de João Rodrigues de Noronha, filho do 3.º capitão donatário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, vivia no Arco do Calheta. Conta Gaspar Frutuoso: “foram feitas grandes festas e bodas, em que comeram todas aquelas pessoas que os acompanharam. Estavam na sala primeira dos seus passos quatro potes de prata fina em quatro cantos dela, que levaria cada um deles três almudes de água, com quatro púcaros de prata: […] comeram todos em baixela de prata, sem se entremeter no serviço coisa de barro, nem estanho, onde se gastaram ricos e esquisitos manjares de toda a sorte, como os sabem fazer as delicadas mulheres da ilha da Madeira” (FRUTUOSO, 1979, 263). Entretanto, Águeda de Abreu, sua irmã, denunciou a situação junto da coroa, tendo vindo um desembargador resolver o caso. Como desfecho, algumas penas de morte e desterro, a fuga de António Gonçalves para as Canárias e o recolhimento de Isabel de Abreu no convento de Santa Clara.

Muitos destes importantes vizinhos da Calheta tinham propriedades ou casa na cidade. É o caso de Francisco de Abreu Florença, do Arco da Calheta, que, em 1642, tinha casas no Funchal e terras de semeadura e gados na freguesia.

Administração

O município foi criado a 1 de junho de 1502, sendo a sede designada Vila Nova da Calheta. Até 1835, incluíam-se as freguesias que nesta data deram lugar ao município do Porto Moniz. A vila situava-se na foz da ribeira e tinha pelourinho, documentado em 1618. Também sabemos existirem os aposentos da alfândega local, pois que, em 1520, o Francisco Homem recebeu 40.000 réis referentes ao eirado que derrubaram para serventia da alfândega. Em termos eclesiásticos, sabemos da criação de uma ouvidoria com jurisdição sobre a Vila e o seu termo e sobre as freguesias de Porto Moniz e Seixal.

Antes de 1502, a Calheta estava na alçada do município do Funchal, que se representava na área através dos juízes pedâneos e dos alcaides pequenos. O signatário do lugar era apresentado pelos calhetenses e apresentava-se em vereação no Funchal para tomar posse do cargo com dois jurados. Havia ainda os homens-bons, alguns da Calheta, que se apresentavam, muitas vezes, às reuniões da quarta-feira. Estes eram assim definidos por ordem régia, para poderem assistir à vereação, e faziam parte da lista dos que poderiam ser eleitos para os cargos municipais. A estes juntavam-se os oficiais ligados à safra do açúcar, como os lealdadores e o escrivão, os recebedores e os escrivães dos quintos, que faziam parte da estrutura da comarca açucareira da Calheta. De acordo com ordem régia de 1461, o capitão tinha o direito de confirmar os juízes da vereação eleitos, mas os oficiais da câmara da Calheta recusavam-se a tal, tendo por isso sido admoestados em 1624 e 1691.

No princípio do séc. XIX, a Calheta continuava a ser uma jurisdição para arrecadação de imposto, existindo outras no Funchal, Ponta de Sol, Santa Cruz, Machico, S. Vicente e Porto Santo, com escrivão e tesoureiro. No caso do rendimento da sisa, era o segundo contribuinte a seguir ao Funchal.

O município da Calheta integra as freguesias do Arco da Calheta, Calheta, Estreito da Calheta, Fajã da Ovelha, Jardim do Mar, Paul do Mar, Ponta do Pargo e Prazeres, mas nem sempre foi assim. A partir de 1835, surgiu o município do Porto Moniz, desmembrando-se da Calheta as freguesias de Santa, Porto Moniz e Achadas da Cruz. Esta situação perdurou até 1849, altura em que foi extinto o município e as freguesias passaram para o da Calheta. No entanto, em 1855, tem lugar a restauração do concelho do Porto Moniz. A freguesia da Ponta do Pargo voltou a ser incorporada na Calheta, passando definitivamente para tal concelho por lei de 26 de junho de 1871, certamente em apoio de uma representação dos moradores que reivindicavam esta situação.

A designação da freguesia do Arco da Calheta advém da configuração semicircular dos seus montes e da proximidade à freguesia da Calheta. Trata-se de um dos mais antigos locais de ocupação da Ilha. Aí se fixou João Fernandes Andrade, conhecido como “do Arco”, senhor de terras de pão e canaviais, engenho e escravos, que instituiu uma casa vincular com capela e capelão privativo. A capela já existia em 1461 e temos notícia do capelão em 1472. No séc. XVII, ficaram famosos os pêssegos produzidos nesta freguesia, que são celebrados por Manuel Thomaz na Insulana, mas foram fundamentalmente os canaviais que deram riqueza e importância ao local. Alguns destes proprietários, como Fernão Domingues do Arco, usaram essa riqueza para financiar viagens de exploração para Ocidente, antes de 1492.

A freguesia da Calheta enquadra-se no grupo de paróquias criadas nos anos que se seguiram à morte do infante D. Henrique, em 1460. O seu nome, segundo Giulio Landi, deve-se “à abundância de pedrinhas que lá há, chamadas calhaus pelos portugueses” (apud ARAGÃO, 1981, 83). Desde o começo do povoamento da ilha, este local ganhou importância devido à ligação da família de Zarco e dos povoadores que aí se fixaram como o Dr. Pedro Berenguer de Lemilhana, que deu o nome ao sítio do Lombo do Doutor, Luiz de Atouguia, que está ligado ao Lombo do Atouguia, João Rodrigues Mondragão, natural da Biscaia, e Francisco Homem de Gouveia, que criou o dos Reis Magos no Estreito da Calheta. Recorde-se que o título de conde da Calheta foi concedido a Simão Gonçalves da Câmara (1512-1580) por alvará de 20 de agosto de 1576, como prémio pelos seus feitos nas praças africanas. Em 1600, o título foi incorporado no condado de Castelo Melhor.

A sua importância, derivada da produção açucareira, manifesta-se na profusão de capelas (S. José, Santa Quitéria, Jesus-Maria-José, S. Pedro de Alcântara, Nossa Senhora da Piedade, S. João Baptista, Nossa Senhora da Boa Morte, S. Francisco Xavier, Nossa Senhora da Penha de França, Nossa Senhora da Estrela, Nossa Senhora da Vida, Nossa Senhora de Monserrate, Almas, Nossa Senhora do Bom Sucesso, Nossa Senhora da Nazaré e Santa Catarina), bem como na existência de um convento de S. Francisco e de uma misericórdia. Sobre esta freguesia, diz-nos Gaspar Frutuoso: “Neste lugar da Calheta, […] se fundou a Vila, que tomou o nome da Calheta, a mais fértil de todas as da ilha, por ter maior comarca. É esta vila tão nobre em seus moradores, como abastada pelos muitos e baratos mantimentos que nela se acham. Desta saíram em companhia dos capitães do Funchal muitos e nobres cavalheiros a servir El-Rei à sua custa nos lugares de África, e nos socorros que os capitães levaram […]. Esta Vila da Calheta e seu termo foi o condado do Ilustríssimo Capitam Simão Gonçalves da Câmara, Conde desta Vila Nova da Calheta, como se dirá em seu lugar” (FRUTUOSO, 1979, 90).

A freguesia do Estreito da Calheta deverá ter sido criada no princípio do séc. XV. A designação “estreito” (desfiladeiro, vale ou profundidade) deve-se, segundo se conta, ao facto de a passagem para tal território ser estreita. A primitiva povoação teve a sua origem numa fazenda concedida no séc. XV ao fidalgo, natural da Polónia, André Gonçalves de Franças. Foi o seu filho, João de França, que fez construir a capela de Nossa Senhora da Graça, onde, depois, se criou e instalou a nova paróquia, sendo também a sede do morgadio que fundou em 1503. Francisco Homem de Gouveia, juiz dos órfãos e escudeiro fidalgo, também se fixou aqui, no séc. XVI, fundando o morgadio e a capela do Reis Magos.

A freguesia da Fajã da Ovelha deve o seu nome, segundo a tradição, a um acontecimento que envolveu a perda de uma ovelha. A paróquia surgiu em 1550. Em 18 de novembro de 1895, a freguesia das Achadas da Cruz, por extinção do concelho do Porto Moniz, foi-lhe anexada. Esta freguesia teve um lugar de notário desde 1923. O Jardim do Mar foi um curato dependente dos Prazeres ou do Paul, com criação no segundo quartel do séc. XVIII. No séc. XIX, ficou conhecido pela qualidade dos seus vinhos, das castas malvasia e sercial. O local apresentava-se como uma fajã, daí certamente o nome de Paul do Mar. Aí, destacam-se as salinas dos sítios das Lagoas e Serra da Cruz.

A freguesia da Ponta do Pargo terá sido criada em data anterior a 1560. Sobre a origem do nome, diz-nos muito claramente Gaspar Frutuoso: “Da Calheta passou o capitão abaixo até a derradeira ponta sobre o mar, donde parece que não há mais terra; e estando aqui, lhe trouxeram os do batel de Tristão e do batel de Álvaro Afonso um peixe, que parecia pargo, de maravilhosa grandura, e o maior que até aquele tempo tinham visto; por razão do qual peixe ficou nome aquela Ponta a do Pargo. Desta Ponta do Pargo vira a terra para o Norte até outra ponta, que distará desta uns dizem duas, outros três léguas” (Ibid., 90).

O nome da freguesia dos Prazeres provém de uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres que foi edificada nesse território muito antes da criação da paróquia. Esta freguesia tornou-se independente a 18 de dezembro de 1676 e uma nova igreja foi mandada construir pelo Conselho da Fazenda em 20 de novembro de 1745. Posteriormente, foi criada a Quinta Pedagógica dos Prazeres, onde se realizam várias atividades ligadas ao mundo rural, como a Festa da Cidra, a Bênção dos Animais, o Leilão de Animais e a Festa de Debulha do Trigo.

População

Em 1598, um recenseamento da ilha refere, relativamente à Calheta, que “A vila da Calheta tem a igreja principal do Espírito Santo; um hospital com casa da Misericórdia e tem dentro da freguesia 3 ermidas: Nossa Senhora da Estrela; São Sebastião; e Corpo Santo. Tem de fogos, como limite, 297, que contêm em si 1129 almas de sacramento” (GOMES, 1932, 32). Note-se que Gaspar Frutuoso refere para a vila 400 fogos. O mesmo adianta os demais lugares: “A freguesia do Arco tem a igreja principal de São Brás e 2 ermidas: Nossa Senhora da Consolação e Nossa Senhora do Loreto. Foi antigamente rica de açúcar e ainda tem 2 engenhos. Tem 123 fogos e 490 almas de sacramento” (FRUTUOSO, 1979, 125). Quanto ao Arco, Gaspar Frutuoso apenas assinala os povoadores ilustres. Em 1598, diz-se igualmente que “No Estreito sobre a Calheta está a freguesia de Nossa Senhora da Graça, com a ermida dos Reis Magos. Tem 154 fogos 553 almas de sacramento.” Gaspar Frutuoso nada diz em termos de fogos e população. O documento apresenta ainda a seguinte informação: “A Fajã da Ovelha tem como igreja principal São João Batista e 2 ermidas: São Lourenço e Santo Amaro, no Paul, ao longo do mar. Tem esta freguesia 70 fogos e 271 pessoas de confissão. Sobre a Ponta do Pargo está a freguesia de São Pedro, que tem 63 fogos e 198 almas de confissão” (GOMES, 1932, 34-35). Frutuoso, por sua vez, apenas assinala a Ponta do Pargo com 200 fogos.

António Carvalho Costa, em Corografia Insulana (1713-17??), refere a existência de 300 vizinhos da paróquia. Em 1722, segundo Henriques de Noronha, o concelho da Calheta apresentava-se com 7775 almas, 1678 fogos servido por 16 clérigos. A situação do concelho é ainda relatada por Henrique Henriques de Noronha:

“Corre a povoação estreita pela margem da Ribeira, e na parte mais interior tem a sua Paróquia, a qual antigamente esteve na Igreja de Nossa Senhora da Estrela, quando se erigiu freguesia que foi no ano de 1461. A que hoje tem a vila é Igreja grande// mas antiga; o seu orago é o Espírito Santo tem Colegiada, cujos Ministros são um vigário com púlpito, Cura, quatro Beneficiados, Tesoureiro e Organista. […] Tem esta vila, casa de Misericórdia com muito boa Igreja, e um Hospital de Incuráveis, a que deu principio no ano de 1535. Seu primeiro Provedor o Doutor Pedro Giralte Cavalheyro Florentino que passou a viver nesta parte onde casou com D. Catherina Berenguer […]. Além deste Templo tem muitas Igrejas, e ermidas no seu distrito; quais são: Duas das Almas; a do Corpo Santo, a de Nossa Senhora do Monserrate, do Bom Sucesso, da Boa morte e da Piedade, a dos Santos Cosme, e Damião, a de Santo António, de S. Francisco Xavier, de S. João, de S. José, a de Jesus Maria José, e a de Santa Catarina, situada no Lombo do Doutor, assim chamada por ser habitação do Dr. Pedro Berenguer de Leminhana […].” (NORONHA, 1996, 211-212).

Como resultado das devassas realizadas, entre 1794 e 1795, pela diocese ao concelho, temos disponível um registo da população. Assim, para o Arco da Calheta temos, em 1795, a referência a 1977 residentes, sendo 195 menores. Para o Estreito, em 1794, temos 1678 moradores, sendo 91 menores. Na Fajã da Ovelha, em 1794, eram 1502 os moradores, sendo 125 menores. Em 1794, na Ponta do Pargo, temos 1233 e 95 menores. Para os Prazeres, eram 523, com 35 menores. Paulo Dias de Almeida, na descrição que faz da ilha em 1821, refere que esta área era considerada o sétimo distrito militar e que tinha 12.658 habitantes e 2858 fogos.

Em 1827, a Calheta está dividida em dois julgados, da Calheta (Madalena do Mar e Arco da Calheta) e Estreito da Calheta (Estreito, Paul do Mar, Prazeres e Fajã da Ovelha), com 11.779 habitantes. Para o período de 1835 a 1850, nota-se um movimento crescente da população, que abranda com a crise de fome de 1847. Assim, em 1835, temos 2781 fogos e 13.133 almas e, em 1843, 2979 fogos e 13.733 almas. Para 1847, temos 11.522 habitantes, para 1863, 12.360 e, para 1877, eram já 16.580. Em 1911, temos 20.062 habitantes, sendo 13.756 da Calheta, onde ocorreram 692 mortes.

O censo de 1930 refere para a Calheta 21.960 habitantes, número que passa para 23.996 em 1940, 24.255 em 1950, 24.078 em 1960, 21.799 em 1970, 1505 em 1980 e 12.954 em 1990. Tenha-se em consideração que, no período de 1955 a 1966, foram contados 616 emigrantes legais.

No séc. XVI, a Calheta foi alvo de assalto de corsários que geraram uma situação estranha de convívio com a população, explicada pelo seu alheamento relativamente ao meio urbano e poder civil e militar. Esses terão, depois, seguido o seu destino rumo aos Açores em busca de embarcações castelhanas vindas da América. Neste contexto, temos de assinalar que tiveram morada nesta área alguns corsários importantes, como foi o caso de João Rodrigues Mondragão. Por outro lado, este lugar da Calheta era desprotegido em termos de fortificação militar, pois só temos notícia da fortaleza de S. Jorge na vila, em 1688. Além disso, em 1570, organizou-se as companhias das ordenanças, surgindo a Calheta como um distrito com duas companhias. Para o período de 1627 a 1700, registam-se 30 destas companhias distribuídas pela vila, Ponta do Pargo, Paul do Mar, Lombo da Estrela, Lombo de Atouguia, Lombo da Azenha e Serra de Água, Jardim do Mar, Fajã da Ovelha e Estreito da Calheta. Para 1688, no distrito da Calheta, o serviço de defesa das ordenanças apresentava-se com 13 capitães, 12 alferes, 24 sargentos e 1531 soldados. Note-se que depois, em 1818, o distrito de milícias da Calheta tinha 10 companhias com 800 homens.

Vários documentos expressam a situação das localidades do concelho, em termos económicos e populacionais, permitindo entender a sua evolução. Sabemos, por exemplo, que a aluvião de 1803 deixou a vila da Calheta muito arruinada, tendo sido arrasadas 30 casas e o forte. No referido documento de 1817, Paulo Dias de Almeida faz-nos uma descrição do arquipélago e de alguns aspetos em termos militares. A partir daqui, sabemos do estado da fortificação, bem como do estado dos caminhos e da dificuldade de comunicação entre as freguesias. Relativamente ao Arco da Calheta, apenas assinala como favorável o bom vinho, que se produz em quantidade. Quanto ao Jardim e Paul do Mar, diz que são evidentes as dificuldades de circulação e de acercar por mar. Já relativamente à Ponta do Pargo, destaca as suas riquezas agrícolas.

Economia

O lugar da Calheta dominou uma importante área de canaviais, afirmando-se, desde o séc. XV, como o embarcadouro para o escoamento do açúcar. Daqui resultou a sua valorização em detrimento do alto – a Estrela –, onde João Gonçalves Zarco, o primeiro donatário, havia feito doações de terras importantes aos filhos, João Gonçalves da Câmara e D. Beatriz. Em 1502, o lugar foi elevado à categoria de vila, integrando, no seu perímetro, os mais importantes canaviais, pelo que, em termos administrativos, se cria uma comarca ligada às cobranças fiscais. Segundo Gaspar Frutuoso, a Calheta foi “a mais fértil de todas as ilhas, por ter maior comarca. É esta vila tão nobre em seus moradores, como abastada pelos muitos e baratos mantimentos que nela se acham” (FRUTUOSO, 1979, 90).

A vila anicha-se na margem da ribeira, atuando como porta de entrada e de saída para a ilha e para o mundo. Aí estava assente o poder municipal, como o posto alfandegário de controlo do escoamento do açúcar, daí a concentração dos engenhos nas margens das ribeiras. Em 1599, o madeirense Manuel Constantino refere que “é a Calheta a maior das vilas (deverá querer dizer todo o município) da Madeira, quer pelo grande número de cidadãos e de edifícios, quer pelos núcleos de população” (CONSTANTINO, 1930, 17). A Calheta foi também terra de muita produção de cereal, situação que perdura no tempo, pois, na déc. de 40 do séc. XIX, a produção rondava 1186 moios de trigo e 211 dos outros cereais. Todavia, no Arco da Calheta, encontramos terras mais produtivas, nomeadamente a Casa de João França, com 120 arrobas de açúcar, 3 moios de trigo e 3 pipas de vinho.

Por seu turno, a atividade em torno da produção de gado assumia uma importância fundamental no concelho, dominado por uma importante área de pastos. Assinale-se o planalto do Paul da Serra, partilhado com os municípios de S. Vicente, Ponta do Sol e Calheta, cujo usufruto deu azo a motins nas três vilas, em 1755. Ainda em 1884, os proprietários da Calheta referem que o trigo que os do Seixal semeavam no Fanal lhes pertencia.

As ovelhas adquirem, neste contexto, importância, graças à existência de pastos e à utilização da lã. Em 1858, o concelho tem lojas de distribuição e venda de tecidos, nomeadamente Mr. W. Hayward na Ponta do Pargo e Messrs Smith e W. Hayward nos Prazeres. A par disso, destaca-se a produção de panos no concelho, com matéria-prima local. Para além da cultura do linho, que era importante, existe em 1863 o registo de 1958 ovelhas que davam a lã. O tecer do linho era muito importante no abastecimento de tecidos, como provam os diversos teares existentes em 1863, sendo 78 de linho no Estreito da Calheta, 36 na Calheta, 4 no Arco, 6 no Jardim do Mar, 19 nos Prazeres, 18 na Fajã da Ovelha e 4 no Paul do Mar.

A comarca açucareira e município da Calheta foi, no decurso dos sécs. XV e XVI, a que teve maior produção de açúcar, tendo sido também terra de gente importante e com grandes ligações a João Gonçalves Zarco, capitão do Funchal, bem como a gente próxima do mundo açucareiro, como Leonel Rodrigues, mestre de engenho na ilha de La Palma e natural da Madeira, onde havia adquirido este estatuto em 12 anos de trabalho na profissão. Em 1494, a maior safra situava-se nas partes do fundo, englobando as comarcas da Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta, com 64% da produção, enquanto o Funchal e Câmara dos Lobos tinham apenas 16%. Uma análise em separado das diversas comarcas mostra que a do Funchal domina a produção, com 33%, seguindo-se a Calheta, com 27%.

Terra de canaviais é, também, sinónimo de terra de engenhos que aparecem nas proximidades das ribeiras, fundamentalmente junto à orla costeira. Na déc. de 80 do séc. XVI, a jurisdição da Calheta tinha, segundo Gaspar Frutuoso, 10 engenhos de açúcar. Destes, o autor faz referência detalhada aos seguintes:

“Um quarto de légua desta Lombada de Gonçalo Fernandes está outra, que se chama Arco, ou Lombada do Arco, que foi de João Fernandes, irmão de Gonçalo Fernandes, fazenda também muito grossa, que tem engenho, e muitas terras de canas, e grandes aposentos de casas e igreja e capelão. […] Acima da Vila, pela terra dentro um quarto de légua, está o engenho dos Cabrais e, perto dele, está outro do Doutor da Calheta, físico, chamado mestre Gabriel. E logo perto de uma légua da Calheta está a fazenda de João Rodrigues Castelhano, que se chamou assim por falar castelhano, sendo ele genovês de nação, que é grossa fazenda de canas com seu engenho e capelão […]. Da fazenda deste João Rodrigues Castelhano a uma légua está outro engenho de Diogo de França, que teve doze filhos, nobres e ricos, boa fazenda de canas e vinhas, e águas e frutas” (FRUTUOSO, 1979, 126).

Ao longo do tempo, persistiu, neste lugar, o ofício de quintador do açúcar – que, no Jardim e no Paul do Mar, pertenceu a Mr. Smith –, a provar a persistência da cultura. A cultura nunca desapareceu deste concelho, de tal modo que, a partir de meados do séc. XIX, as planícies que nos sécs. XV e XVI haviam sido locais onde medravam os canaviais voltaram a recebê-los com igual pujança. Com o retorno da cultura, na segunda metade do séc. XIX, a Calheta voltou a ser terra de canaviais. Assim, se em 1863 são referenciados apenas dois engenhos, entre 1902 e 1909 eram já sete, subindo para oito em 1912, sendo de destacar que estes produziam igualmente aguardente. Sabemos, assim, que a cana-de-açúcar se divulgou em toda a vertente sul e que a Calheta foi uma das mais importantes áreas de produção nesse tempo, tendo preservado um importante nicho da sobrevivência da cultura sacarina na ilha.

O litoral da vila ganha importância com os engenhos de água de Vicente Lopes (1894) que, em 1901, dão lugar a outros, a vapor, como o da firma Lopes & Duarte e, em 1908, o de António Rodrigues Brás, de que restaram vestígios nos jardins da vila. Este engenho, tendo surgido como fábrica de destilação de aguardente, firmou sociedade, algum tempo depois, com a Firma Lopes & Duarte. Deste engenho, apenas restou a parte da fornalha e da chaminé, integradas no jardim público da vila.

O hotel Saccharum ergueu-se precisamente nas ruínas de um dos engenhos que surgiram no séc. XIX para sustentar uma nova fase da agricultura açucareira madeirense. Situa-se no litoral, numa das margens da Ribeira da Serra de Água, tendo sido mandado construir em 1857 por Diogo de Ornelas Frazão, funcionando como fábrica de destilação de aguardente, com um moinho de 3 cilindros e 2 alambiques. As despesas com a construção do edifício foram de 8000$000 réis e a referida maquinaria do engenho de 6300$000.

O engenho que se manteve ativo na vila da Calheta é herdeiro daquele a vapor que surgiu em 1901. Nesse ano, o engenho já existente foi alvo de uma profunda remodelação, com a instalação de uma máquina a vapor para espremer a cana, que veio substituir a que existia, movida a água.

Relativamente à Calheta, deveremos ainda salientar os engenhos de Luís Agostinho Henriques no Estreito da Calheta (1895) e de Francisco João Vasconcelos no Jardim do Mar (1900). Ainda em 1901, surgiram novos engenhos de aguardente no Estreito da Calheta, um de D. Juliana Lopes Jardim e outro de Tibúrcio Justino Henriques & Ca. Finalmente, em 1905, destaca-se o engenho de José Gomes Henriques no Paul do Mar. De acordo com o decreto de 1954, procedeu-se à concentração das diversas unidades industriais fora do Funchal, em três empresas distintas: Sociedade de Engenhos da Calheta Ltda., Companhia de Engenhos de Machico Ltda. e Companhia de Engenhos do Norte.

Património

O património resultante do açúcar não se confina aos engenhos. Outras manifestações patrimoniais perduraram no tempo, a começar pela igreja matriz construída no séc. XV. Entra-se por um portal em ogiva e, perante nós, depara-se a única nave coberta de um teto de alfarge, que atinge inegável beleza na capela-mor, que é dominada pelo sacrário em ébano, com incrustações de prata. A cruz processional do séc. XVI foi oferta do rei D. Manuel. A pintura está representada através de dois painéis laterais de um tríptico, invocativos da Virgem da Anunciação e do Anjo, que passaram a estar disponíveis no Museu de Arte Sacra do Funchal.

Na vila, surgiu, no princípio de 1670, o oratório de S. Sebastião, fundado por Pedro de Bettencourt de Atouguia, que havia herdado o morgado da casa de seu pai, em 13 de abril de 1654. Em 1751, este oratório apresentava-se com sete frades e três irmãos leigos.

No Estreito da Calheta, na primitiva povoação, surgiram algumas capelas vinculadas, sendo de destacar a dos Reis Magos, construída em cerca de 1529 por Francisco Homem de Sousa. Nela, causa deslumbramento o retábulo da escola flamenga, em madeira de carvalho policromada e dourada, representando a Adoração dos Reis Magos. No Loreto, destaca-se a célebre capela de Nossa Senhora do Loreto, local de romaria e grande devoção. A capela, que esteve integrada num solar, apresenta um alpendre sustentado por colunas de mármore branco de origem sevilhana. No interior, o teto é de alfarge.

Personalidades

A Calheta foi terra de gente importante que teve uma participação muito ativa no processo do descobrimento no Atlântico, na defesa das praças africanas de Marrocos, na conquista do Índico e descoberta do Pacífico. Estas atividades iam ao encontro do espírito da época e eram uma forma de granjear o reconhecimento social e conseguir a gratidão da coroa, através de novas doações ou títulos. Por força disto, organizava-se viagens de exploração e descobrimento de novas terras, sendo solicitadas junto da coroa as terras que se descobrissem. Arriscava-se a vida e a fortuna na defesa das praças africanas, assim como na conquista de Terras no Oriente. Foi disso exemplo António de Abreu, filho de João Fernandes de Andrade do Arco, que esteve nas campanhas de Afonso de Albuquerque na Índia.

Outros naturais tiveram lugares de destaque, como Aleixo de Abreu do Arco, que foi médico da câmara de Filipe III de Portugal, Duarte Pestana de Brito, que foi armador-mor no tempo de D. João II e D. Manuel, e o padre Crisóstomo de Mondragão, filho de João Rodrigues Mondragão da Biscaia, que se afirmou no Vaticano no tempo do papa Paulo III.

Ainda na Calheta, outros se afirmaram pela sua atividade intelectual: António da Gama Pereira (1520-1595), doutor nas universidades de Bolonha e Salamanca, foi desembargador do Paço; António de Veloso Lira (1616-1691) formou-se em Teologia na universidade de Salamanca, sendo bispo no Funchal e deixando vários escritos, de que salientamos Espelho Lusitano; António João de França Betencourt (1827-1882) foi professor de Teologia na Universidade de Coimbra, tendo publicado Verdade Philosophica do Mystério da Encarnação. Outro homem das letras apareceu na Ponta do Pargo: Manuel da Costa Dias (1883-1930), major de administração militar que foi deputado e lente da Escola da Guerra. Publicou Campanha contra Soult. As Subsistências no Exército Aliado Anglo-Luso (1909) e Recordações da Guerra (1930). No Estreito, destacam-se João de França e Andrade e Manuel Gomes Uzel, que, viúvos, decidiram professar, chegando este último a cónego da Sé do Funchal.

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Alberto Vieira

(atualizado a 30.08.2016)