câmara, antónio de carvalhal esmeraldo e

 

Fig. 1 – Retrato de António de Carvalhal, segundo uma aguarela da época Fonte: BNP d-347-p.
Fig. 1 – Retrato de António de Carvalhal, segundo uma aguarela da época
Fonte: BNP d-347-p.

Nasceu na Madeira, cerca de 1662. Desconhece-se parte do seu percurso de vida e aponta-se como data do seu falecimento aproximadamente 1731.

Muito pouco ou nada conhecida ficou a obra deste inspirado poeta seiscentista, com acérrimo interesse pelas Letras. De ascendência fidalga, era filho de Simão Gonçalves da Câmara e de Maria Correia, e recuperou o mesmo nome do avô paterno, António de Carvalhal Esmeraldo (casado com Jerónima Pereira). Parece ter crescido sem a presença do pai a partir de 1677, data em que aquele terá falecido.

Desempenhou o cargo de vereador da Câmara Municipal do Funchal (CMF) em 1727, cargo em que foi considerado indómito e temerário, e foi ainda fidalgo cavaleiro da Casa real (por alvará de 1662). António Carvalhal, distinto membro dos Correias, era, por essa razão, homem dos principais da terra, como se comprova pelo desempenho do cargo de vereador e pela ocupação de alguns lugares na Misericórdia do Funchal, na qual, à semelhança de muitos dos seus colegas de vereação, foi escrivão de 1.ª condição em 1707, 1713, 1714, 1720 e informador em 1716, circunstâncias reveladoras do prestígio social de que usufruía. Com efeito, a passagem pela Misericórdia era muito significativa, sinónimo de elevado estatuto social, pois os 100 irmãos de 1.ª condição que a constituíam eram recrutados entre pessoas da mais elevada estirpe social, que precisavam de disponibilidade económica e presencial para se poderem dedicar às funções que lhes estavam cometidas.

Da amizade próxima com Henrique Noronha, a quem pediu a diligência de lhe corrigir a obra, resulta uma profunda dedicatória deste a António Carvalhal nas Memórias Seculares e Eclesiásticas: “Meu amigo. Estas Memorias que por obrigação dos Estatutos, se devem dedicar a El Rei, buscam primeiro na vossa correção, aquela decorosa emenda, com que devem aparecer em público reverentes; porque saindo da minha mão informes, só assim conseguiram nas vossas, pela doutrina, o carácter que por minhas desmerecem. E se por voto, se oferecem nas aras de uma Majestade Augusta, por afetos se dedicam a uma amizade recíproca” (NORONHA, 1996), retribuída por António Carvalhal, na página seguinte, com um soneto, que assina como A. A. Edo: “As Memorias da pátria Antiguidade / Contai Henrique e saiba o Tejo afano, / Se sois ArgolaLusa, Maropusulano, /Que Lípio também sois na nossa idade. // Para viver a par da eternidade / Grande assento vos deu se não me engano, / No seu Museu, Congresso soberano, / A Lusitana, e Régia Majestade. // Mas cale a minha Euterpe que se infama / Em querer requintar as vossas glórias, / Por quem de balde sei quem vos aclama. // Da Real Academia entre as Histórias / La viverá eternal a vossa fama, / Por quem vão imortais estas Memorias” (Id., Ibid.).

Com descendência dos Carvalhal, de Ponta Delgada, conhecida como a corte do Norte pelo facto de aí ter existido um grupo significativo de famílias importantes com muitos interesses fundiários, a sua ascendência remonta a Manuel Afonso Sanha, seu 5.º avô, escudeiro do infante D. Fernando, 2.º senhor da Ilha e pai de D. Manuel I, que viera para a Madeira com comissões da Fazenda do Infante, fazendo o seu assento naquela freguesia, no tempo de Afonso V. O seu 3.º avô, António Carvalhal, “o das forças”, fora cavaleiro do hábito de Cristo e fidalgo escudeiro, por mercê de D. Filipe I de Portugal e II de Castela, falecido em 1598. Terá escolhido o pseudónimo Poeta Aónio, segundo António Aragão, pela relação direta à região da Grécia antiga, a Aónia, região da Beócia, de inspiração das musas e dos deuses, também cognome de Baco Hércules e Apolo; tal era o nome que os poetas atribuíam aos montes Parnaso e Hélicon, onde teria vivido Áon.

Julga-se que nunca terá saído da Ilha, local que só por si já o inspirava, recitando os seus poemas provavelmente acompanhado do som da viola. Contrariamente à ideia de que teria estado preso numa fortaleza por motivos amorosos, a julgar por elementos autobiográficos indiciados pelo soneto 42 da sua obra magistral, Chitara de Aonio, António Carvalhal, então vereador da cidade do Funchal, conheceu o cárcere em 1727, por um período aproximado de três anos, por desentendimentos político-religiosos, mais concretamente por ter defrontado o bispo, D. Fr. Manuel Coutinho, manifestando, juntamente com seu sobrinho, António Correia Lomelino (procurador do concelho), ideias contrárias às do prelado e conformes às da CMF no que respeitava às ordens e incumbências resultantes de um edital acerca da procissão do Corpo de Deus na cidade. Carvalhal e Lomelino nada mais fizeram do que acelerar um conflito já mais ou menos latente entre o bispo e o senado funchalense, representativo da elite insular, denunciador de exigências do prelado. Entretanto, e com o conhecimento e consentimento de D. João V, que demorou cerca de três anos a pronunciar-se sobre este assunto delicado de índole regional, António Carvalhal obtém, finalmente, ordem para ser libertado, mas o seu estado débil de saúde não lhe permitiu resistir, vindo entretanto a falecer.

Apesar de não se ter casado, teve um descendente, a 18 de outubro de 1700, o P.e Félix Lucas de Carvalhal Esmeraldo (que se recusou a obedecer ao bispo na questão do exame para confessores e que veio a tornar-se procurador da Câmara, em Lisboa, representando o senado em causas contra o prelado). Lucas de Carvalhal foi um presbítero do hábito de S. Pedro que se dedicou com desvelo à compilação, ao arquivo, à correção e aos comentários dos poemas de seu pai, formando um manuscrito de 626 páginas intitulado Cithara de Aonio, Poema Erótico Dividido em Seis Descantes (ou assuntos, que surgem tematicamente distribuídos em cânticos: “Requebros”, “Desprezos”, “Carinhos”, “Ciúmes”, “Delícias” e “Lágrimas”), que esteve durante muito tempo na posse de António Aragão Correia (1921-2008), sendo depois depositado na Biblioteca Nacional. Desconhece-se outra obra produzida por António Carvalhal, para além de sonetos dispersos. António Aragão refere a existência de três volumes do autor em latim e português, mas esta hipótese parece pouco provável, uma vez que Félix Lucas de Carvalhal apenas diz na prefação (ver abaixo) que “compondo com o natural furor e com o adquirido estilo nas Línguas Italiana, Castelhana, e na Portuguesa já em heroico e já em lírico Epitalâmios, Epicedios, Genetilíacos, Parenéticos, Epibaterions, Panegíricos, Perpenticons, Eucarísticos, Sotérias, e outras muitas obras como Festins, Loas, Bailes, Folias e Entremeses; de forma q. se fizesse coleção de todas as obras poéticas, que fez em vulgar, e em latim faria, sem encarecim.to, ou duvida alguma, três grandes volumes” (BNP, Reservados, António do Carvalhal Esmeraldo, Cythara, “Prefação”).

No Catálogo de Manuscriptos da Biblioteca Pública Eborense, existem alguns sonetos em português, outro em castelhano e um epigrama em latim, integrados numa compilação de poesias de vários autores, “em louvores dos sucessos gloriosos, e ações heroicas, que no Estado a Índia fez o Ex.mo Sr. Vasco Fernandes Cesar, Vice-Rei, e Capitão General daquele Estado: oferecidas ao Ex.mo Sr. Luiz Cesar de Menezes pelo P. M. Fr. Francisco Xavier de Santa Tereza, Leitor de terça era a Sagrada Teologia” (RIVARA, 1850). A Gazeta de Lisboa Occidental dá conta de uma notícia, confirmando que houve “um certame Poético intitulado: Triunfo Académico, dos melhores engenhos daquele povo” na ilha da Madeira (Gazeta de Lisboa Occidental, 12 ago. 1728), reproduzida por Teófilo Braga na Arcádia Lusitana, onde menciona que, a 24 de maio de 1728, nesse “Triunfo académico por ocasião ou em obséquio dos felices casamentos dos sereníssimos Príncipes dos Brasis e das Astúrias foi celebrada no palácio do governador da ilha da Madeira D. Filipe de Alarcão Mascarenhas, recitaram Epitalâmios, Epigramas latinos, Sonetos, Romances e Glosas, os seguintes personagens: Domingos de Sá Martins, P. António Pereira da Costa; F. António do Sacramento, António do Carvalhal Esmeraldo, Fr. Manoel da Visitação, Pedro Valente, Gregório Carlos Bettencourt, Fr. Manoel de San Thomaz e o Dr. Agostinho de Órnellas e Vasconcellos” (BRAGA, 1899); Teófilo Braga refere a existência destes textos manuscritos no acervo da Biblioteca Nacional, nos reservados da Coleção Pombalina, onde haverá epigramas latinos, uma glosa e sonetos epitalâmicos da autoria de António de Carvalhal Esmeraldo.

Segundo António Aragão, o manuscrito ainda desconhecido de Carvalhal, Chitara de Aonio, foi encontrado no Convento de S.ta Clara. Trata-se, de facto, de uma preciosidade literária, “em ótimo estado de conservação, capa de cabedal, com lombada larga, dourada a ouro fino, e caligrafia que se desenvolve sempre num desenho muito certo, claro e cuidado” (ARAGÃO, 1964, 34). Outra informação curiosa que nos fornece é a de que, por altura do terramoto de Lisboa (1755), o P.e Félix Lucas de Carvalhal se encontrava retirado num convento, conseguindo salvar-se e consigo o texto, como se tivesse feito promessa a seu pai, por quem nutria uma enorme admiração, como o afirma no prefácio, que lhe confiou a tarefa de escriba, de emendar e reformar a obra, tal a confiança e crença na sua erudição e nos seus méritos literários. Esse manuscrito, no qual se contam 50 sonetos caracteristicamente heroicos e elegíacos, corrigidos, respondidos ou comentados, inicia-se com um longo prefácio (“Prefação – segundo o original: Ao Poema Erótico intitulado Cithara de Aonio”), pela mão de Félix Lucas de Carvalhal, com mais de 100 páginas, enlaçado por notas ou reformas aconselhadas, laterais e em rodapé, que inclui a transcrição de citações de clássicos, como Ovídio, Vergílio, Horácio, Séneca, Plauto, comparando-os com grandes poetas seus contemporâneos. Inclui poemas e louvores de amigos dirigidos a António Carvalhal e, em nota de abertura, a dedicatória de Carvalhal a Henrique Noronha Pina (Lício) e a Francisco de Vasconcelos Coutinho.

No longo prefácio que Lucas de Carvalhal Esmeraldo dedica ao pai, apoiado nos autores clássicos e confrontando-o com os da época que opinaram sobre a sua escrita, diz que “se dá uma breve notícia de A. deste Poema, em que, para o eximir da Rigorosa censura, se declara o motivo, que teve p.a fazer os Sonetos, e Razões que o precisaram a ordenar delas o mesmo Poema, em que se faz juízo Apologético sobre as palavras […], por serem sem necessidade de novo inventadas, em q. finalm.te se pede ao sapientíssimo e erudito N. a Revisão desta poética obra, e a emenda dos seus defeitos, erros, e vícios, sobre os quais também superficialm.te se toca. António de Carvalhal Esmeraldo, Cavaleiro da Casa de Sua Majest., por alvará passado no ano de 1676, […] natural da Ilha da Madeira, a versar e instruir-se nas Universidades, Colégios e nas Academias […], sabia as Línguas Francesa, Italiana, Castelhana e Portuguesa […] tinha bebido das fontes da poesia as puras lições […] e os graves estilos das melhores Musas […], compunha com elegância Poemas Heroicos, Elegíacas e Líricas, que eram com louvor aprovados, não só pelos naturais, mas ainda pelos melhores Poetas Portugueses, e Latinos, que passavam desta Corte p.a aquela Ilha. Igualmente foi inclinado á poesia vulgar, e ainda que a natureza p.ª esta o considerava, com tudo, como ignorava os primores, e preceitos da arte, p.ª com a melhor arte a exercitar, se lhe fez preciso aprendê-los, não pelas Artes métricas, ou versificatórias […] mas sim pela Arte Poética de Aristóteles, de Horácio […] como também na Poetic. Aristot. de Paulo Belini, de António Minturo, de Moratori, e pelas de outros, que todos estes, com os magistrais, e mais famigerados poetas […] se instruía na lição deles, lhe ia está dispondo, e facilmente com Entusiasmo, porque assim como o estudo sem engenho não faz o poeta, assim também não o faz a natureza sem arte, […] porque para conseguir está, por meio de estudo, muito neste, p.ra com mais ligeiro curso alcançar a arte por premio” (BNP, Reservados, António do Carvalhal Esmeraldo, Cythara, “Prefação”). Alude-se, nesta extensa introdução, ao facto de que António de Carvalhal fora, por diversas vezes, e pelos seus melhores conselheiros poéticos e amigos, aconselhado a publicar estas suas composições, revestidas de talento e erudição. Contudo, recusava-o com os sólidos fundamentos de que certamente serviria mais de descrédito do que de abono aos seus sérios e adiantados anos, porque nesta obra se publicariam somente as verduras da sua mocidade, do quanto nesta fizera, tão cheias de puerilidade, certamente considerando-as incapazes desse êxito, por poderem “ofender o paladar com o seu amargo mel” (Id., Ibid.). Mais adiante, surge-nos a informação de que Lucas de Carvalhal Esmeraldo ponderou alterar o título da obra atribuído por seu pai, alvitrando outras possibilidades, fundamentalmente com receio dos censores. Contudo, a obra Chitara de Aonio manteve a designação original: Cithara de Aonio, Poema Erótico que Compunha e Escrevia Antonio de Carvalhal Esmeraldo, Fidalgo Cavalleiro da Caza de Sua Magestade Fidellissima.

António Carvalhal poderá ser recordado como o poeta aflito e perdido de amor platónico, de fina lira infeliz, mas de irrequieta sensibilidade, autor de mui belos sonetos de inspiração clássica firme e elevada, bem ao tom de uma Fenix Renascida ou Obras Poéticas dos Melhores Engenhos Portugueses. Como ele próprio se autocaracteriza, na dedicatória da sua Cithara, “um fino namorado, outro verso achado em penas, se de amor perdido” (BNP, Reservados, António do Carvalhal Esmeraldo, Cythara). O manuscrito deste desconhecido e inspirado poeta madeirense que, segundo Noronha, foi um bom poeta em tudo constitui um marco nas mais antigas poesias insulares barrocas, senão nas primeiras de que se tem conhecimento.

Bibliog. manuscrita: BNP, Coleção Pombalina, Miscelâneas, n.º 126, fls. 152 a 174; BNP, reservados, cód. 11521, António do Carvalhal Esmeraldo, Cithara de Aonio, Poema Erótico Dividido em Seis Descantes; BNP impressa: ARAGÃO, António, “António de Carvalhal Esmeraldo, Aónio: Desconhecido e Inspirado Poeta Madeirense que Viveu na Época de Seiscentos”, Das Artes e da História da Madeira, vol. vi, n.º 34, 1964, pp. 33-35; BORGES, Ângela, et al., Antologia Literária, Madeira, Sécs. XVII e XVIII, Funchal, SRE, 1987; BRAGA, Teófilo, História da Literatura Portuguesa. Arcádia Lusitana, Lisboa, Imprensa Moderna, 1899; BOTELHO, Sebastião José X., História Verdadeira dos Acontecimentos da Ilha da Madeira depois de Memorável Dia 28 de Janeiro, Escrita por Ordem Chronolgica por Sebastiaõ José Xavier Botelho e Comprovada com Testemunhos da Melhor Fé dos Seus Empregos, Jerarquia e Independencia para Destruir Hum Libello Famoso Impresso em Londres por Hum Cidadaõ Funchelense, Lisboa, Officina de António Rodrigues Galhardo, 1821; A Fenix Renascida ou Obras Poeticas dos Melhores Engenhos Portuguzes [sic], 2.ª impr. acrescentada por Mathias Pereira da Sylva, Lisboa, Offic. dos Herd. de Antonio Pedrozo Galram, 1746; Gazeta de Lisboa, 21 jul. 1832; Gazeta de Lisboa Occidental, 12 ago. 1728; JARDIM, Maria Dina dos Ramos, A Santa Casa da Misericórdia do Funchal: Século XVIII, Funchal, CEHA, 1996; MARINO, Luís, Musa Insular, Funchal, Eco do Funchal, 1959; SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3.ª ed., vol. i, Funchal, Typografia Esperança, 1965; NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal, na Ilha da Madeira, transcr. e notas Alberto Vieira, Funchal, CEHA, 1996; Id., Nobiliário da Ilha da Madeira, São Paulo, Revista Genealógica Brasileira, 1948; RIVARA, Joaquim Heliodoro da Cunha, Catálogo de Manuscriptos da Biblioteca Pública Eborense, Que Comprehende a Noticia dos Codices e Papeis Relativos ás Cousas da America, Africa e Asia, t. i, Lisboa, Imprensa Nacional, 1850; TRINDADE, Ana Cristina Machado, Plantar Nova Christandade: Um Desígnio Jacobeu para a Diocese do Funchal. O Episcopado de D. Frei Manuel Coutinho, 1725-1741, Dissertação de Doutoramento em História apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2011.

Helena Paula F. S. Borges

(atualizado a 25.01.2017)