câmara, jaime sanches

Nasceu no Funchal, na R. das Cruzes, freguesia de São Pedro, a 13 de março de 1881, e faleceu na mesma cidade, a 24 de dezembro de 1946. Era filho de António José Câmara e de Helena Celisa Gomes Câmara, e casou com Maria Alice Spranger Conceição Rodrigues.

Passou a sua vida na Madeira, onde trabalhou como ajudante de conservador do Registo Predial, exercendo também funções como presidente da assembleia geral da Associação de Socorros Mútuos 4 de Setembro de 1862 e vice-presidente da direção do Club Sports da Madeira.

Poeta e jornalista, Jaime Câmara era, na opinião dos seus contemporâneos, um homem de caráter inquieto e com um núcleo limitado de amigos. Chegou mesmo a envolver-se em polémicas com outras personalidades do meio funchalense da época, estando no centro de contendas com o jornalista Ciríaco de Brito Nóbrega (Nóbrega, Ciríaco de Brito e) e com o escritor Gastão de Nóbrega Pereira, depois de ter publicado Sátira (1910) e Versos Humorísticos (1914). Também se desentendeu com Armando Pinto Correia (Correia, Armando Eduardo Pinto), por este ter publicado no Diário de Notícias da Madeira uma crítica literária a Fructos (1920), o seu então recente livro de poemas. A apreciação não terá agradado ao autor, dando origem a querelas entre os dois intelectuais. Entre novembro e dezembro de 1920, Pinto Correia fez sair cinco missivas naquele periódico, nas quais criticou veemente o poeta, refutadas num artigo assinado com o pseudónimo Urraca Gomes e com a publicação, no ano seguinte, de Carta em Prosa. A polémica não ficaria por aqui, chegando a resposta dois meses depois deste último texto, com o opúsculo Um Poeta em Frangalhos, no qual o alferes aviltava publicamente o autor da Carta.

Jaime Câmara participou em tertúlias do restrito grupo Artistas Independentes (1918-1933), que se reunia no café Golden Gate, do qual também faziam parte os irmãos e artistas Henrique e Francisco Franco (Franco, Francisco), o pintor Alfredo Migueis (Migueis, Alfredo Vital), o naturalista Adolfo de Noronha e o médico João Francisco de Almada, mas acabou por se afastar devido a discrepâncias com os companheiros.

Nas letras, dedicou-se essencialmente à poesia, género predominante na sua produção literária, tendo publicado na imprensa e em volume. Usando a ilha da Madeira como musa para compor grande parte das suas criações, estreou-se em 1907, com o livro Poema Antigo. Mais tarde, deu à estampa Fructos (1920), Estela (1926) e Poemêtos da Ilha: Insulares (1929).

É o autor dos versos intitulados “Suave Responso”, que figuram no Monumento aos Mortos na Manhã de 3 de Dezembro de 1916, uma obra do escultor Francisco Franco, inaugurada a 3 de dezembro de 1917 no antigo cemitério das Angústias, à R. Imperatriz D. Amélia, e transferida em 1946 para o cemitério de N.ª S.ª das Angústias.

Em 1921, no Teatro Dr. Manuel de Arriaga, foram declamados os seus poemas “A Sombra”, numa festa de homenagem à atriz Maria Matos e “Último Dia na Madeira”, na despedida da companhia de teatro Maria Matos-Mendonça de Carvalho.

Em 1922, por ocasião das comemorações centenárias do descobrimento do arquipélago, Jaime Câmara colaborou, junto com outros intelectuais madeirenses, no opúsculo intitulado V Centenário do Descobrimento da Madeira, da responsabilidade da Comissão de Propaganda e Publicidade, com a coordenação do P.e Fernando Augusto da Silva.

Escreveu as peças de teatro Júnia: Episódio de Tragédia (1918), alusiva aos tempos do império romano, com música de César Santos e ilustrações de Alfredo Miguéis, que foi representada no Teatro Funchalense, e Auto dos Vilões. Nesta última, o poeta, inspirado na Madeira quinhentista, criou um original auto de Natal, cuja ação se desenrola em volta do presépio. A obra, composta em linguagem arcaica, mas de enredo simples, revela quadros de vida do povo madeirense, o seu falar pitoresco, os seus cantares, as suas festas e o seu forte espírito religioso. Estão, assim, reunidos na peça, elementos do folclore da Madeira, dos tempos da descoberta e do povoamento, que o autor recriou e contribuiu para preservar.

Na verdade, as suas composições literárias revelam interesse pela Madeira e pelo seu povo, destacando-se, neste sentido, os Ensaios de Etnografia (1931); as crónicas De San Lourenço: Prosas do Estio e do Outono (1932) e Senhora da Luz: Subsídios Etnográficos (1938), textos de teor etnográfico, nos quais Jaime Câmara retratou o povo ilhéu. Nestas narrativas, percorreu diferentes lugares do arquipélago, do campo à cidade, descrevendo paisagens e dando a conhecer alguns costumes e tradições, como as comemorações dos santos populares (S.to António, S. João e S. Pedro), entre outros festejos e arraiais típicos, realizados em diferentes épocas do ano. Nos textos sobre a vida na cidade, fez uma breve descrição de ruas do Funchal, a origem dos seus nomes, os serviços e os estabelecimentos comerciais ali existentes, a vida intelectual, o futebol, o teatro e o cinema, e demais aspetos da vida social e cultural do meio urbano. Estes escritos permitem conhecer vivências da população da Madeira em épocas passadas e contribuem para preservar uma parte da identidade cultural madeirense, firmando o nome do seu autor entre os intelectuais que trabalharam em prol da cultura do arquipélago.

Na sua atividade jornalística, dirigiu de 1908 a 1910, com António Feliciano Rodrigues (Rodrigues, António Feliciano), os três primeiros volumes do Almanach de Lembranças Madeirense, nos quais publicou poemas, biografias, informações diversas sobre a ilha e textos de teor etnográfico. Colaborou na imprensa madeirense, nomeadamente, no Heraldo da Madeira, no Diário de Notícias, no Diário Popular e no Diário da Madeira. Na imprensa nacional, foi colaborador nas revistas Ilustração Portuguesa, Renascença, Instituto e no Almanaque Bertrand.

Foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Santiago da Espada pelo Estado português e era sócio do Instituto de Coimbra.

Obras de Jaime Câmara: Poema Antigo (1907); Almanach de Lembranças Madeirense (1908-1910) (com António Feliciano Rodrigues); Sátira (1910); Versos Humorísticos (1914); Júnia: Episódio de Tragédia (1918); Fructos (1920); Carta em Prosa (1921); Auto dos Vilões (1923); Estela (1926); Poemêtos da Ilha: Insulares (1929); Ensaios de Etnografia (1931); De San Lourenço: Prosas do Estio e do Outono (1932); Senhora da Luz: Subsídios Etnográficos (1938).

Bibliog.: ARAGÃO, António de Freitas e VIEIRA, Gilda França, Madeira: Investigação Bibliográfica, vol. 2, Funchal, DRAC, Centro de Apoio de Ciências Históricas, 1984; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; Diário de Notícias, Funchal, Empresa do Diário de Notícias, 1920-1922; FIGUEIREDO, Fernando et al., Crónica Madeirense (1900-2006), Porto, Campo das Letras, 2007; GOUVEIA, Horácio Bento de, “Um Poeta Esquecido: Jaime Câmara”, Diário de Notícias, 13 dez. 1964, pp. 3-6; MARINO, Luís, Musa Insular, Funchal, Editorial Eco do Funchal, [1969]; “Jayme Câmara”, Diário de Notícias, 25 dez. 1946, p. 8; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, vol. 3, Funchal, CMF, 1953; id., “Das Letras, das Sciencias e das Artes”, Independência, n.º 3, 24 jun. 1928, p. 2; SILVA, Fernando Augusto da e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., 3 vols., Funchal, SRTC, 1998.

Sílvia G. Gomes

(atualizado a 07.07.2016)