câmara, luís gonçalves da

(Funchal, c. 1519-Lisboa, 1575) Padre da Companhia de Jesus, foi confidente de Inácio de Loyola, confessor e preceptor do príncipe herdeiro, D. João Manuel, e, anos mais tarde, mestre, encarregado da instrução moral e intelectual do filho daquele, D. Sebastião, tornando-se também seu confessor e o seu mais íntimo conselheiro. Privou e correspondeu-se com importantes figuras seiscentistas, sendo uma personagem ambígua – odiada e admirada – e cujos percurso e legado são de uma importância indiscutível para a história da sua Ordem e do seu país.

Palavras-chave: Companhia de Jesus; Jesuítas; Inácio de Loyola; D. Sebastião; Universidade de Coimbra.

Luís Gonçalves da Câmara nasceu na Madeira, por volta de 1519, e faleceu na capital do reino, em 1575. Padre da Companhia de Jesus, foi confidente de Inácio de Loyola, confessor e preceptor do príncipe herdeiro, D. João Manuel, e, anos mais tarde, mestre, encarregado da instrução moral e intelectual do filho daquele, o Rei D. Sebastião, tornando-se também seu confessor e o seu mais íntimo conselheiro. Privou e correspondeu-se com importantes figuras seiscentistas, sendo uma personagem tenaz que recolheu ódio e admiração, algo que Camões terá até referido nos seus cantos, e cujos percurso e legado são de uma importância indiscutível para a história da sua Ordem e do seu país.

Era trineto de João Gonçalves Zarco, o primeiro capitão do donatário do Funchal, e filho de João Gonçalves da Câmara, quarto capitão-donatário do Funchal, e de D. Leonor de Vilhena. Os seus avós paternos eram Simão Gonçalves da Câmara, terceiro capitão do Funchal, e D. Joana Valente, filha do primeiro governador da Casa do Cível. Os seus avós maternos, de ascendência nobre, eram D. João de Meneses, conde de Tarouca, prior do Crato e mordomo-mor dos Reis D. João II e D. Manuel I, e D. Joana de Vilhena. Era primo de D. João de Menezes, outro Jesuíta célebre. A vida religiosa também foi abraçada por outro dos seus irmãos, o P.e Martim Gonçalves da Câmara. Era sobrinho de D. Manuel de Noronha, bispo de Lamego, e o seu irmão Simão Gonçalves da Câmara tornou-se o quinto capitão do Funchal e, a partir de 1576, conde da Calheta – para a atribuição do título, além da sua participação na caça às armadas de corsários, foi decisiva a influência que os seus dois irmãos tinham na corte. No séc. XVI, em plena época de ouro da cana-de-açúcar madeirense, a família do capitão do Funchal foi alcançando notoriedade na corte.

Da sua juventude, nada é conhecido, até ingressar, em 1535, como bolseiro do Rei D. João III no Colégio de S.ta Bárbara da Universidade de Paris, cujo principal era o português Diogo de Gouveia, o Velho. Francisco Rodrigues, em História da Companhia de Jesus na Assistência a Portugal, confirma a sua naturalidade, “Lodovicus Goncalve de Camara nobilis funiculensis dioecesis” [“Luís Gonçalves da Câmara, nobre da Diocese do Funchal”], através do livro das atas reitorais da Universidade de Paris (RODRIGUES, 1931-1950, I, 1, 447). No tocante à sua ida para Paris, deveremos ter em consideração a importância que a rede de parentescos nisso desempenhou, numa altura em que esta cidade constituía um dos grandes centros de cultura europeia. Foi na capital francesa que Inácio de Loyola obteve o grau de mestre em Artes e de onde partiu, em fevereiro de 1535, sete anos após chegar a Paris, rumo à sua cidade natal. Será, portanto, pouco provável que o jovem Gonçalves da Câmara se tenha cruzado com Loyola nesse período, ao contrário da proximidade que estabeleceu com o francês Pedro Fabro, o único fundador da Companhia que era padre a 20 de agosto de 1534, a data de celebração da cerimónia que esteve na génese da futura Ordem. Em 1538, Câmara prestou juramento universitário.

Após a conclusão dos seus estudos em Paris, onde alcançou o grau de mestre, também em Artes, regressou a Portugal, indo para a Universidade de Coimbra. Segundo António Franco, em Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesus…, com a refundação da Universidade de Coimbra, D. João III mandou regressar os Portugueses que estudavam em Paris. Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, em Elucidário Madeirense, e Maria Augusta Cruz, em D. Sebastião, referem que Câmara foi um dos escolhidos pelo Rei para fazer parte do corpo docente da Universidade. Em 1544, reencontrou Fabro, que estava de visita a Coimbra, a quem foi atribuída a sua vocação. Depois desse encontro, Câmara retirou-se para a Vila de Coja, onde, afastado de tudo e de todos, pôde realizar os exercícios espirituais da Companhia. Ingressou na Ordem a 27 de abril de 1545, cinco anos depois do reconhecimento papal dessa jovem congregação. A sua entrada ocorreu um ano após ter sido revogado o limite de 60 professos na congregação, que tinha sido imposto por Paulo III na bula de fundação, possibilitando assim que a Companhia respondesse aos apelos de novos ingressos; nesse ano, começaram a chegar relatos de práticas penitenciais estranhas dos estudantes do Colégio de Coimbra, parcialmente instigadas pelo padre provincial português, o mestre Simão Rodrigues.

Gonçalves da Câmara fez o seu noviciado no novo Colégio de Valença, onde era reitor o P.e Diogo de Miró, retornando depois para Coimbra, devido a uma enfermidade nos olhos. Tendo de se deslocar a Madrid, o madeirense reencontra-se com o P.e Pedro Fabro, em janeiro de 1546. Regressa a Coimbra cinco dias depois do encontro, que parece ter sido proveitoso, como se depreende da carta de recomendação que ele e o seu companheiro de viagem, Gonçalo Fernandes, receberam para entregar ao reitor do Colégio de Jesus.

Em 1547, foi ordenado sacerdote e, no mesmo ano, nomeado reitor do Colégio de Coimbra, numa subida meteórica, substituindo o P.e Martinho de Santa Cruz, reitor quando Câmara ingressou na Companhia. Em pouco mais de dois anos, Luís Gonçalves da Câmara ingressa na Ordem e chega a reitor de um dos seus colégios. Já no séc. XVII o P.e António Franco relatava, na sua narrativa afetuosa e parcial, que Simão Rodrigues o retirou do cargo de reitor, atribuindo-lhe a função de cozinheiro, “no qual ofício se houve, como se só para ele entrara na Companhia” (FRANCO, 1930, 145). Aliás, o próprio Simão afiançava, em carta ao padre geral da Ordem, que “mais se gozava e maior contentamento recebia em ser cozinheiro da Companhia de Jesus do que mestre e confessor do príncipe”, num sinal que Rodrigues interpretou como de simples humildade, situação que Câmara, todavia, não iria reconhecer com complacência, e que seria o prefácio do confronto que iria abalar a província portuguesa (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 31).

Em 1547, quando o madeirense era o reitor, Loyola escrevia à comunidade do Mondego sobre as práticas adotadas por aqueles estudantes, parcialmente instigadas por Simão Rodrigues, como anteriormente referido, e que estavam a chocar a comunidade e a comprometer a posição da Ordem em Portugal. Inspirados por interpretações erradas de algumas passagens dos Exercícios inacianos, alguns estudantes desfilavam por Coimbra carregando crânios e vestidos de forma pouco séria, numa atitude excessiva que Loyola repudiava. A carta do geral atesta a preocupação do líder da Companhia perante os testemunhos que chegavam a Roma: “Quando tal moderação está ausente, o bem é transformado em mal e a virtude em vício” (Monumenta Ignatiana…, 1903, 504).

Em 1548, o padre madeirense parte para a primeira missão jesuíta em Tetuão (Marrocos), pretendendo prestar ajuda espiritual aos Portugueses e visitar os cristãos cativos, e acabando por regressar a Lisboa, novamente devido a doença. Francisco Rodrigues relata que, nesse ano, nascia em Roma a intenção de substituir o provincial português, cuja liderança não satisfazia inteiramente Loyola. Desde 1545, chegavam relatos da província portuguesa sobre a insubordinação de alguns membros da Companhia, incluindo do próprio provincial, perante as ordens oriundas de Roma. O P.e Simão, pela incoerência e pela imprudência que demonstrava ter em algumas das suas missivas – e de acordo com os relatos de outros padres –, estava a desagradar à cúpula da Companhia em Roma. A 9 de dezembro de 1550, quando Simão Rodrigues obteve do Rei a desejada licença para se ausentar para Roma, deixou o ofício de confessor do príncipe regente D. João ao P.e Gonçalves da Câmara, nomeado pelo próprio geral, que se ocuparia dessa missão até meados de 1552. O cargo conferia grande destaque à Ordem a que pertencesse o escolhido, e é certo que o confessor e o preceptor possuíam alguma influência nas decisões políticas que eram tomadas. Ampliava-se, deste modo, uma teia de interesses que criou muitos inimigos aos inacianos e lhes provocou muitos dissabores.

No início da déc. de 50 do séc. XVI, a província portuguesa da Companhia viveu um período de “grande tribulação” (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 10), com uma profunda cisão no seu seio, a qual teve dois protagonistas: o próprio Simão Rodrigues, provincial desde 1546 e um dos prime patris da Ordem, e Luís Gonçalves da Câmara. Confrontavam-se, assim, os partidários de uma posição mais moderada e os adeptos de uma linha mais rigorosa, onde se inseria o madeirense. O cisma instalado acabou por conduzir a uma divisão interna na Companhia, prolongando-se durante as décadas seguintes. A 18 de agosto de 1551, atendendo a um pedido de D. João III, o padre valenciano Diogo Miró chegou, por determinação do geral, a Coimbra, onde se inteirou sobre a veracidade das críticas dirigidas ao provincial. As acusações contra Simão acumulavam-se e Loyola decidiu, por fim, afastá-lo do governo da província, sendo expulso do reino em 1553. Não parece haver registo dos delatores e das acusações finais contra o provincial, pela ausência de correspondência conservada. No início de 1552, são remetidas as missivas de Loyola que depunham o provincial. Após o seu afastamento, o cargo transitou para Miró e Simão foi designado líder da nova província de Aragão, que foi propositadamente erigida neste contexto. Nesse período, outros Jesuítas tornaram-se confessores das personalidades mais influentes do reino, potenciando as tensões externas contra província portuguesa da Ordem, agravadas pela própria celeuma interna.

Alguns investigadores acusam Gonçalves da Câmara de desacreditar Simão Rodrigues perante a cúpula da Companhia, o que pode ser verificado nas críticas por ele enviadas a Roma, mediante as quais pretendia que o provincial, para além de deixar o governo da província, abandonasse Portugal. A (alegada) estima de outrora havia desaparecido por completo e a tensão entre ambos é relatada de tal forma que “só de ouvir o nome do P.e Simão Rodrigues, acendia-se de tal modo [Câmara], que parecia sair fora dos seus sentidos” (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 83). Nas cartas de Câmara estão patentes uma certa extrapolação que fez dos acontecimentos, o pendor negativo que conferiu à atuação do provincial e a interpretação fantasiosa das consequências do seu afastamento para a província. Nas suas palavras, os aliados do antigo provincial sairiam da Ordem ou seriam expulsos, por compactuarem com as suas ideias perversas. Após a expulsão de Rodrigues, pouco tempo passou até que o P.e Gonçalves da Câmara reincidisse na sua visão crítica sobre o governo da província e escrevesse para Roma, indicando a falta de habilidade de Miró para a liderança.

Em 1553, Câmara deixou Portugal, chegando a 23 de maio a Roma, onde executou um trabalho que o perpetuou na história da Companhia. Quando se encontra com Loyola, o impacto é tão grande que o próprio Pedro Fabro, tão admirado pelo madeirense, parecerá, aos seus olhos, uma criança em comparação com a grandiosa figura do geral. No início de dezembro, para esclarecer o diferendo contra Simão Rodrigues, Loyola estabeleceu um julgamento e nomeou Gonçalves da Câmara como um dos acusadores. A 7 de fevereiro de 1554, foi pronunciada a sentença que ratificava a saída de Rodrigues do reino e do cargo. O padre madeirense saiu, uma vez mais, vencedor.

A ida de Câmara a Roma estava relacionada com os problemas da província portuguesa, conforme amplamente relatado nas várias missivas trocadas entre Roma e Portugal ao longo dos anos, mas Câmara acabaria por ter aí uma missão ainda mais importante. O padre fundador recebia vários apelos para que deixasse um registo da sua vida, principalmente do período anterior ao reconhecimento da Ordem. O Jesuíta madeirense acabou por ser o escolhido – segundo alguns relatos internos, devido à sua memória prodigiosa – para o elaborar. Certamente, preferiu-se Gonçalves da Câmara devido ao seu empenho na resolução dos problemas da província portuguesa e à lealdade a toda rede de influências de que se cercava, e que crescia. As diligências e o comportamento de Câmara, durante todo o período de crise, e a sua intervenção na gestão desse processo turbulento foram decisivos para impedir uma cisão profunda entre Roma e Portugal, que comprometeria até a expansão da Ordem pelos novos domínios e a unidade e a continuidade de uma congregação tão jovem. A 26 de março de 1553, por sugestão do madeirense, Loyola escreve aquela que ficou conhecida como a “carta de obediência”, que selou o fim do conflito.

Em agosto, começa a escrever a narrativa ditada por Inácio de Loyola em três curtos períodos: de agosto a setembro de 1553, em março de 1555 e de setembro a outubro de 1555. Câmara ouviu as memórias do fundador, fez breves apontamentos e depois ditou-os a um cronista. O madeirense assumiu os papéis de confidente e secretário do geral da Companhia, além do de ministro da sua casa, a partir de setembro de 1554. Devido à ausência de título nos vários manuscritos de Câmara, a obra ditada por Loyola acabou por ser publicada com diferentes nomes ao longo do tempo: Atas do P. Inácio, Feitos do P. Inácio, Autobiografia, entre outros, sendo apenas citada como Autobiografia por J. F. O’Connor, em 1900. Os relatos ficaram, durante vários séculos, nos segredos da Ordem. Depois do último encontro entre os dois, que teve lugar entre os dias 20 e 22 de outubro de 1555, o madeirense deixa Roma e os relatos da entrevista acabam por ser transcritos na cidade de Génova, em italiano. Anos mais tarde, em 1566, o terceiro geral da Companhia, Francisco de Borja, mandaria recolher todos os relatos dos manuscritos inacianos, proibindo a sua leitura e difusão, alegadamente por estarem incompletos, e encarregou o P.e Ribadeneira de executar uma biografia, que acabou por se traduzir numa versão em castelhano, de estilo clássico, dos próprios originais de Câmara. Entre os vários aspetos a serem investigados na biografia do madeirense está a relação entre a desconsideração que os seus escritos tiveram no governo de Borja, que se propagou no tempo, e a fama que o cargo na corte portuguesa lhe deu.

Após quatro meses a desempenhar funções de secretário, em finais de janeiro de 1555, Câmara decidiu fazer o seu próprio registo acerca do que entendeu ser importante para ser recordado sobre o fundador, escrevendo o que seria o Memorial de lo que Nuestro Padre Me Responde acerca de las Cosas de Casa, Començado á 26 de Henero del Año de 1555, guardado, com alto secretismo, durante séculos. A sua presença discreta é mais importante do que se possa pensar. O Memorial assume-se como uma obra ímpar, que funciona como um precioso complemento da biografia inaciana. A 9 de março de 1555, poucos meses após a sua decisão sobre a escrita do Memorial, os trabalhos ditados por Loyola, que tinham sido interrompidos, recomeçaram. A partir desse momento, o tempo de escrita de Câmara foi repartido entre a Autobiografia e o Memorial. O labor foi interrompido com a morte do Papa Júlio III e retomado apenas a 22 de setembro. Em setembro e outubro, a narrativa da autobiografia absorveu Câmara quase por completo, devido ao ritmo acelerado imposto pelo fundador. Na véspera do seu regresso a Portugal, os relatos tinham fim. Cinco dia antes, a 18 de outubro, o Jesuíta interrompera os trabalhos do Memorial, retomados apenas em 1573, quando se encontrava em Évora. A narrativa ditada pelo fundador representa um documento histórico único, de valor incalculável, sendo a biografia espiritual de Loyola mais importante e a mais difundida. O método de trabalho para as duas obras foi distinto. Com Loyola, durante a preparação da Autobiografia, Câmara privou, por diversas vezes, na chamada “torre vermelha”, onde memorizava as conversas com o geral; após o encontro, recolhia-se na sua cela para ditar ao cronista o que tinha ouvido. Para a elaboração do Memorial, o madeirense registou o que viu e ouviu na presença do próprio Inácio, durante as atividades do quotidiano; posteriormente, também ditou estes escritos ao seu secretário pessoal; o objetivo foi a execução de um diário com o máximo possível de informações sobre o padre fundador, o qual foi composto durante pouco mais de seis meses.

Durante a sua estadia em Roma, Gonçalves da Câmara manteve correspondência com D. João III. O Monarca não escondeu o desejo de ver o madeirense de regresso a Portugal. Quando deixou Roma, a 23 de outubro de 1555, fez-se acompanhar de vários Jesuítas e levou consigo várias cartas de recomendação. Além disso, Loyola atribuiu-lhe importantes prerrogativas: nomeou-o colateral do provincial português, o castelhano Miguel de Torres, que passava assim a partilhar o governo da província com o madeirense; isentou-o da obediência a qualquer superior da província, respondendo apenas ao Rei D. João III; concedeu-lhe escolher a casa da Companhia em que preferisse residir; e deu-lhe poder para declarar e determinar sobre a missão na Etiópia. A combinação desse poder com o temperamento explosivo de Câmara acarretou muitos problemas e queixas, que tinham origem no provincial, referindo a natureza colérica do madeirense, e até nos seus companheiros de Ordem. Em 1556, um Jesuíta escreveu que o governo da província estava partido entre Miguel de Torres, Luís Gonçalves da Câmara e Inácio de Azevedo. Ao seu regresso, o madeirense visitou vários colégios e analisou os problemas que a Companhia, por se encontrar “bastante desacreditada”, enfrentava nos estudos cuja superintendência lhe fora confiada (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 362). As reformas que conduziu pareceram produtivas e acabou por desempenhar um papel importante junto do Rei na manutenção da tutela da Companhia sobre o Colégio de Jesus.

Em 1556, a Companhia perdeu o seu geral e idealizador, a 31 de julho, e o governo é entregue ao vigário geral, o P.e Diogo Laynez. A congregação que elegeu o segundo geral teve início a 19 de junho de 1558. A 9 de maio, chegaram a Roma os cinco padres eleitores portugueses, que se juntaram ao P.e Simão Rodrigues. Entre eles estava Luís Gonçalves da Câmara. Os enviados foram escolhidos, em novembro de 1556, na congregação provincial que foi celebrada na casa de S. Roque. O novo geral acabou eleito a 2 de julho de 1558, com 13 votos dos 20 eleitores. Poucos dias depois, o padre madeirense foi eleito para o Conselho Supremo da Ordem, com o cargo e o nome de assistente de Portugal. No final dos trabalhos, Câmara permaneceu em Roma. Ainda nesse ano, e no seguimento das decisões tomadas pela congregação, no sentido de organizar o governo da Companhia em “assistências”, Câmara foi nomeado um dos quatro assistentes.

Em 1557, a morte do Rei português deu outro rumo e outro impulso à posição de Câmara, mesmo que alguns autores afirmem que tais acontecimentos ocorreram contra a sua vontade. Três dias após a morte do Monarca, a Rainha D. Catarina reuniu o Conselho e assumiu a regência e a tutoria do futuro Rei. Enquanto o nome do aio do jovem D. Sebastião foi escolhido pacificamente, o do seu mestre, que seria o responsável pela sua instrução intelectual e moral, não teve a mesma sorte. Amador Rebelo, padre jesuíta que coadjuvou Gonçalves da Câmara no seu ofício, e autor da Relação da Vida d’El Rei D. Sebastião (1685-1700), refere que a escolha, tanto do aio como do mestre, correspondeu a um desejo expresso de D. João III e muito apoiado pelo seu irmão, o cardeal D. Henrique. A escolha do tio-avô de D. Sebastião “recaíra desde o início no padre Luís Gonçalves da Câmara” (CRUZ, 2012, 77), enquanto a Rainha preferiria um religioso de outra Ordem. A influência exercida pelo Jesuíta Miguel de Torres, que foi confessor da mãe de D. Sebastião, acabou ajudando as pretensões do cardeal para que a nomeação incidisse sobre o madeirense, mas há autores que afirmam que a Rainha “escolheu e preferiu de própria vontade aquele religioso” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 253-254). Em pouco tempo, D. Catarina arrepender-se-ia de tal decisão.

Em 1559, aquando da protelada deliberação dos governantes portugueses, Câmara estava, novamente, em Roma. Era certo que a presença de um Jesuíta num cargo de tamanha importância dava destaque à Ordem, mas também acarretava ódios e intrigas, e poderia fazer suspeitar da humildade que a Companhia pregava, dada a influência e dado o destaque da função. A 17 de abril desse ano, D. Catarina solicita ao geral, Diogo Laynez, a dispensa do madeirense, para que ele possa assumir e desempenhar as funções para as quais fora nomeado. O relevo e a preponderância que os Jesuítas ganham ao longo do tempo, acrescidos da juventude do instituto, irão contribuir para uma intensificação da oposição aos padres da Companhia. Em julho de 1559, Câmara parte de Roma rumo a Lisboa, onde só chega em dezembro. As funções iniciam-se apenas em meados do ano seguinte, quando o Rei já caminha para os seus sete anos. A relação estabelecida entre o mestre e o seu preceptor é descrita como sendo a “única afetivamente normal” de que pôde gozar o príncipe, “assumindo contornos de uma relação entre pai e filho” (CRUZ, 2012, 81).

O contacto do mestre com o herdeiro do trono – sempre acompanhado do seu aio, D. Aleixo – era frequente: “Duas vezes no dia passava lição ao rei, e lha tomava” (FRANCO, 1719, I, 49). O P.e Câmara foi coadjuvado pelo P.e Amador Rebelo, que, além de ser o “mestre do A. B. C.”, como ele próprio se intitulava, assumiu o encargo da catequese. A primeira confissão de D. Sebastião acontece nos primeiros meses de trabalho de Gonçalves da Câmara, sendo este o seu confessor (CRUZ, 2012, 82). Ao longo do tempo, com o contacto diário, aumentava a proximidade entre o Monarca e o seu mestre. À sua visão diminuída, provavelmente devido a uma doença contraída na missão em Marrocos, juntavam-se vários problemas de saúde, que acabariam por dificultar e condicionar as deslocações diárias do mestre do Colégio de Santo Antão-o-Velho até ao paço da Ribeira, onde as lições tinham lugar. Os dois Jesuítas teriam autorização para tomarem a refeição intermédia no paço (o chamado “jantar”) e, nas deslocações da corte para outros paços (Boavista, Xabregas, Almeirim, Sintra, etc.), integravam o séquito. A função do mestre do Rei não teve fim na fase de instrução literária, que terminou por volta dos 12 anos. Gonçalves da Câmara desempenhou funções até aos 20 anos do Rei, tornando-se “a pessoa que mais intimamente o conheceu”, sendo “o suporte da constância afetiva, da confiança tranquilizadora e da dedicação inabalável” (CRUZ, 2012, 88). Porém, em 1566, o madeirense afasta-se das funções que desempenhava, sendo substituído por Luís de Montoya, frade agostinho. Ainda nesse ano, em outubro, a Madeira sofre um ataque corsário francês, o que desperta no P.e Luís Gonçalves da Câmara e no seu primo, o P.e Leão Henriques (confessor do cardeal D. Henrique), o alegado desejo de embarcar na armada de socorro que foi enviada ao Funchal. Câmara acabou por não ser autorizado pelo Rei a fazê-lo, tal como não obteve autorização para realizar outras deslocações que o afastariam do Rei. Segundo alguns investigadores, os irmãos Câmara desempenhavam uma influência certeira para que o Rei preterisse o cardeal, na disputa que o tio-avô e a avó protagonizavam.

Após cerca de dois anos de ausência, o madeirense regressa ao cargo por insistência do Rei, quando este atinge a maioridade. Os historiadores diferem sobre o período de afastamento do P.e Gonçalves da Câmara, em que o agostinho desempenhou o cargo de mestre. A sua saída foi justificada, por um investigador americano, como relacionada com abusos sexuais infligidos pelo madeirense ao jovem Rei. Johnson, em “Um Pedófilo no Palácio…”, alega que a enfermidade de que o Rei sofria, relatada desde 1563 e relacionada com a “expulsão de pequenos cálculos renais” (CRUZ, 2012, 124), e que tem nos historiadores vários diagnósticos (espermatorreia, uretrite, infeção bálano-prepucial, crise renal, etc.), era uma doença venérea, gonorreia ou clamídia (ou ambas), causada por abusos sexuais perpetrados por Câmara, que teria sido contaminado na sua ida a Marrocos no final da déc. de 40. Considerada como uma versão apócrifa dos acontecimentos, não existem indícios credíveis que sustentem esta teoria, que está embrenhada e apoiada em algumas interpretações enganosas ou parciais e envolve contradições e erros na sua argumentação.

A 20 de janeiro de 1568, quando completou 14 anos, D. Sebastião assumiu o governo do reino; em maio, já havia notícias da reintegração do P.e Gonçalves da Câmara como seu confessor, adensando o confronto entre o cardeal e D. Catarina, que vinha desde as acusações da influência castelhana da Rainha-Mãe na luta pela regência, o que também refletia a disputa, dentro da Companhia, entre os partidários da linha próxima de Câmara e os seus opositores. Francisco de Borja, que se tornou o terceiro geral da Ordem, ainda tentou remover Câmara do cargo de confessor, mas sem êxito. Dentro da própria congregação, a posição e a influência do madeirense incomodavam. A carta do Jesuíta António Correia ao geral retratava as intrigas do reino: “Dizem que Luís Gonçalves governa, e o cardeal é seu instrumento” (ARSI, Lus. n.º 62, 274).

Em nada contribuiu para acalmar as hostes a ascensão a determinados cargos e a visibilidade do seu irmão, o P.e Martim Gonçalves da Câmara, que foi “sacerdote do hábito de S. Pedro [e, mais tarde, Jesuíta], doutor teólogo e antigo reitor da universidade” de Coimbra (ALMEIDA, 2003, 420), além de ser uma figura afeta ao círculo do cardeal. Martim assumiu a liderança da Mesa da Consciência (em 1564), do Desembargo do Paço e dos restantes tribunais e o cargo de escrivão de puridade (em 1569). Também foi vedor da Fazenda no Conselho Real. Com o protagonismo que Martim Gonçalves ganhava, muito por influência do cardeal, os ânimos de D. Catarina exasperam-se, em virtude da sua crescente aversão ao poder que os irmãos Câmara ganhavam. A ascensão do madeirense nos negócios do reino era justificada, por D. Henrique, pela importância que o jovem e inexperiente Rei tinha, fazendo-se cercar de ministros que zelassem pelos interesses do reino. Agora, eram dois Gonçalves da Câmara. Por altura da deslocação do Rei a Coimbra, chega às mãos do P.e Luís Gonçalves da Câmara uma carta anónima contra si, o seu irmão e a Companhia, em que se reflete toda esta celeuma, aguçada com as diligências em torno do casamento do Rei, e em que se defrontavam vários intervenientes, sendo cada vez mais forte a campanha de descrédito contra o madeirense. O confessor privava cada vez mais com o Rei, chegando às três horas por sessão, o que provocava e atiçava os seus críticos. Numa das deslocações à Universidade, a receção pouco amistosa que o Rei recebeu, com uma forte pateada, deve-se em parte aos irmãos Câmara. Os dois madeirenses eram personagens centrais na troça a D. Sebastião difundida nomeadamente nos pasquins da cidade, em que se justificava o facto de o Rei não contrair matrimónio com o estar abarregado (amigado) com os dois irmãos. Não podemos esquecer que já há muitos anos a Universidade e a Companhia estavam envolvidas em grandes disputas, que cessariam com a assinatura de um contrato, em 1572. Este documento assegurava que a Universidade pagaria uma renda ao Colégio das Artes, entre outras prerrogativas conseguidas para a Companhia. A intervenção do madeirense foi fulcral para o processo, o que terá fomentado os movimentos opositores e críticos à sua figura.

Sobre os matrimónios falhados do Monarca, interessa dissipar a maquinação criada para culpar os irmãos Câmara, difundida durante o reinado e ampliada nos séculos seguintes. Quando a esposa de Filipe II, Isabel de Valois, morreu, em 1568, seria natural que o Monarca desposasse a sua cunhada, Margarida. França enviou uma embaixada a Madrid, mas o Monarca de Castela mostrou-se pouco decidido no apoio à pretensão de Carlos IX, irmão de Margarida. Face a tão reservada resposta, o Rei de França buscou um enlace na corte portuguesa, o que agradou aos partidários do cardeal. A esse respeito, Fortunato cita um manuscrito da Biblioteca de Paris: “Martim Gonçalves da Câmara, e o Mestre seu irmão, […] foram de parecer que convinha muito ao reino de Portugal aquela aliança de parentesco com França” (ALMEIDA, 2003, 421 e 422). Tudo foi alterado quando Filipe II pediu a D. Sebastião que não aceitasse desposar a irmã do Rei francês. O Rei concordou e deixou ao seu primo o ónus da escolha da futura esposa. Estava combinado que D. Sebastião desposaria a arquiduquesa Isabel e Carlos IX a arquiduquesa Ana. Ambas eram filhas de Maximiliano, Imperador do Sacro-império Romano-Germânico e primo de Filipe II. A todos o arranjo pareceu bem e foi relatado que os irmãos Câmara concordavam com tal perspetiva. Tudo se alteraria, novamente, quando Filipe II decidia desposar Ana e ao Rei de França era deixada a prometida do Rei português, Isabel, sendo os matrimónios concretizados. D. Sebastião desposaria Margarida de Valois, que tinha sido por ele recusada a mando do seu primo. Fortunato volta a referir documentação coeva, indicando que o Rei português não respondeu, por conselho dos irmãos Câmara, a três cartas sobre a mudança de planos que Filipe II lhe remeteu. Além de Filipe II alegar que se tinha visto forçado a dar D. Isabel ao Rei de França, em prol do cristianismo, refere que se comprometeu, com o cardeal de Guise, em relação ao casamento de D. Sebastião com Margarida de Valois (CRUZ, 2012, 152-153). Tal ingerência, em favor do poder de Castela e do Sacro-Império nos negócios portugueses, provocou duras críticas até da Rainha D. Catarina, castelhana de nascimento. Quando D. Sebastião recusa o casamento proposto por Filipe II, os inimigos do P.e Luís Gonçalves da Câmara começam a imputar-lhe a culpa pela rejeição do Rei, esquecendo ou minimizando a intromissão do Monarca de Castela. Sobre as acusações recebidas, o padre madeirense responde ao geral, recordando o que já tinha manifestado aquando da sua escolha para mestre do Rei: “Dei por escrito muitas causas, para não dever tomar este cargo, e uma delas era que todas as coisas que não fossem bem recebidas do mundo, a culpa delas se daria aos que andassem junto do rei” (ARSI, Lus. n.º 64, fls. 98-99v.).

Ao contrário do que os seus críticos pregavam, para o Jesuíta os grandes problemas enfrentados pelo Rei estavam na sua política reformadora, conforme atestava a sua missiva ao geral em Roma. Tais reformas causavam ao Monarca fortes dissabores, agravados pela derradeira ameaça de D. Catarina se retirar para Castela, de acordo com o pedido feito pelo seu sobrinho. O madeirense, já muito doente e quase cego, referiu ao geral o seu cansaço e a sua vontade de permanecer retirado no Colégio de Coimbra por mais algum tempo, o que teria feito, não fosse a insistência do Rei para que regressasse à corte. Ainda nesse ano, o Jesuíta Miguel Torres foi dispensado do seu ofício de confessor, alegadamente pela influência nociva que Gonçalves da Câmara teve sobre ele. D. Catarina escreveu ao seu sobrinho, a 8 de junho de 1571, descrevendo um suposto complô que os três confessores jesuítas da corte desenvolveram para criar a discórdia entre o Rei, o seu tio-avô e ela própria. No mesmo dia, a Rainha enviou uma missiva ao Papa sobre a necessidade do matrimónio real para libertar o seu neto da sujeição aos irmãos Câmara.

A relativa acalmia nas relações entre o neto e a avó, após uma breve reaproximação, foi interrompida quando o Rei se recusou a cumprir os seus desejos, que incluíam o afastamento dos irmãos Câmara e do próprio cardeal, e quando esses pedidos vieram a público. Foi notório o apoio de Filipe II, que escreveu à sua tia indicando a premência em afastar Gonçalves da Câmara do Rei, sendo necessário reunir esforços e apoiantes, entre os quais o geral e o próprio Papa, para alcançar esse objetivo.

Em 1571, a Rainha D. Catarina escreve ao Papa Pio V, atribuindo ao madeirense a culpa pelo ódio generalizado à Companhia. A colagem ao poder e a alegada intromissão nos assuntos políticos estão entre as críticas dirigidas aos padres inacianos, conforme é manifesto na missiva da Rainha ao Papa: “Não posso deixar de sentir o ódio que também por esta causa têm geralmente à Companhia, sendo a culpa particular deste padre [Luís Gonçalves da Câmara]” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 625). E a contestação ao poder dos irmãos Câmara, segundo alguns dos seus detratores desse período, também está patente n’Os Lusíadas: “Nem Camenas, também, cuideis que cante/Quem, com hábito honesto e grave, veio,/Por contentar o Rei no ofício novo,/A despir e roubar o pobre povo” (VII, 85, 5-8, it. nosso); “Nem tão-pouco direi que tome tanto/Em grosso a consciência limpa e certa,/Que se enleve num pobre e humilde manto/Onde a ambição acaso ande encoberta” (VIII, 55, 1-4, it. nosso). Uma interpretação coeva, combatida por alguns, mas que encontra suporte até no séc. XXI, nomeadamente em Vítor Aguiar e Silva.

Apesar de a carta da Rainha ao Sumo Pontífice não ter tido o efeito esperado, o geral, seu amigo de infância, visitou, no final de 1571, as províncias espanhola e portuguesa, também movido pelos seus apelos, acompanhado do legado papal, o cardeal Alexandrino, que no futuro seria um fortíssimo crítico da presença dos irmãos Câmara na corte. Quando o P.e Francisco de Borja chegou a Madrid, D. Catarina enviou D. Juan de Borja, embaixador espanhol em Lisboa e filho do geral, para que ele pedisse a Filipe II que o P.e Luís Gonçalves da Câmara fosse chamado pelo geral, o que o Rei de Castela se recusou a fazer. Já em Portugal, o P.e Borja pede paciência à Rainha e promete enviar o madeirense para Roma, o que nunca se chegou a concretizar. O padre geral só chegaria a Roma a 28 de setembro de 1572 e faleceria passados três dias. Ainda durante a visita do legado papal a Portugal, o Jesuíta madeirense escreve a D. Sebastião, reiterando o cansaço já manifestado e a vontade de se retirar: “Parece que não me querem já matar, ando, todavia, sem gosto algum, ainda que trabalho pelo encobrir o mais que posso” (SERRÃO, 1987, 218).

Com a morte de Francisco de Borja, a 30 de setembro de 1572, a Rainha vê mais uma oportunidade para afastar, definitivamente, Câmara do Rei. Se o seu jogo de influências fosse vitorioso, conseguiria que o madeirense fosse eleito padre geral e rumasse, permanentemente, para Roma. Na congregação provincial celebrada em Évora durante o mês de dezembro foi debatida a antiga polémica envolvendo os primos Gonçalves da Câmara e Leão Henriques: “Se conviria que os dois […] se depusessem o cargo de confessores […] o que perturbava o sossego da vida regular, e desdizia inteiramente de nosso Instituto” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 388). A congregação conclui que os confessores não deveriam renunciar, ignorando as “murmurações do povo ignorante ou de homens sem religião” (Id., Ibid., 388). Para possível ressentimento do P.e Gonçalves da Câmara, e desespero da Rainha, D. Sebastião não autoriza a ida do padre jesuíta à terceira congregação geral, que elegeu o novo líder da Ordem, apesar de o madeirense ter sido um dos delegados designados para esse efeito na congregação provincial. A posição defendida pela comitiva portuguesa, liderada pelo seu primo, o P.e Leão Henriques, na qualidade de vice-provincial, era a de que o próximo padre geral não fosse castelhano nem cristão-novo, numa clara oposição à eleição do P.e Juan Afonso de Polanco, homem de confiança dos três anteriores gerais, que se enquadrava nesse retrato. Aliás, essa posição foi apoiada pelo Rei e pelo seu tio-avô, que remeteram missivas ao Papa Gregório XIII, a Filipe II e à congregação, nesse sentido. A congregação geral, que reuniu 47 religiosos da Companhia, acabou por ser favorável aos desejos dos Portugueses, apoiados pelos Italianos, defensores do processo de “des-Hispanización [desispanização]” (CASTRO, 2012, 199), e elegeu o P.e Everardo Mercuriano, belga, com 27 votos, a 22 de abril de 1573.

No início de 1574, a 11 de janeiro, um acontecimento perturbará e marcará o Rei: o P.e Luís Gonçalves da Câmara, alegando motivos de saúde e espirituais, parte para Évora, abandonando a corte. Alguns meses depois, Câmara remeteu uma missiva ao geral, referindo que se sentira preso nos seus 14 anos de serviço a D. Sebastião e que já não possuía “forças espirituais nem corporais para sofrer o cativeiro” (ARSI, Lus., n.º 65, 208). Estava-se, pois, perante um homem com grandes dotes intelectuais, descrito como feio, cego de um olho e extremamente gago, de “presença bruta” (CRUZ, 2012, 81), e completamente esgotado. Apesar dos constantes pedidos para se afastar da corte, nunca tal tinha sido autorizado, mas agora, logo após a eleição do novo geral, o seu desejo seria concretizado. Outra possibilidade é a de que o afastamento do preceptor não corresponderia a um verdadeiro desejo seu, mas sim a uma imposição por pressão da corte, em consequência de desgaste, ou mesmo pelo retorno de um antigo inimigo. Em abono desta interpretação, refira-se um acontecimento ocorrido no ano anterior. Em setembro de 1573, o P.e Simão Rodrigues, afastado há várias décadas da província portuguesa, num processo em que Câmara teve um papel decisivo, tinha regressado ao reino, motivado e legitimado pela missão de que o novo geral o incumbira, no sentido de o informar sobre o antigo desacordo existente na província. Continuavam a existir duas fações: na sua ala mais conservadora e rigorosa, destacava-se a influência do padre madeirense; na outra, liderava o P.e Manuel Rodrigues, que seria eleito padre provincial do reino.

Em Évora, em consonância com o pedido feito pelo geral da Companhia, e também pelo reitor do Colégio, o madeirense Manuel Álvares, o P.e Gonçalves da Câmara retoma os trabalhos do Memorial, interrompido há quase duas décadas. Conclui a sua redação por volta da Festa de Pentecostes de 1574. Apesar de fisicamente afastado da corte, a sua influência não se desvaneceu com facilidade. Afinal, o Jesuíta Maurício Serpe, que o substituiu como confessor do Rei, acompanhara o madeirense enquanto professor de Latim e responsável pelos moços fidalgos companheiros do Rei.

A posição de Câmara era contrária à incursão real em territórios africanos e coadunava-se com a política do cardeal D. Henrique, que defendia que o matrimónio deveria preceder qualquer campanha militar, para garantir que a linha de sucessão do trono não ficasse comprometida. Recolhido em Évora, o Jesuíta desloca-se ao paço da Boa Vista em Lisboa, por ordem do provincial, para tentar demover o Rei da sua incursão armada em África. Apesar das acusações de controlo do P.e Gonçalves da Câmara sobre o Monarca, o madeirense não terá sucesso na sua missão.

Em 1574, o P.e Simão Rodrigues escreve ao geral, a partir de Coimbra, retratando Câmara como um homem “excessivamente caprichoso, […] eficacíssimo em suas fantasias e apreensões”. Se a sua vontade não fosse atendida, tinha “desmaios, ânsias e dor de coração” (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 87). O tempo nunca sanaria as feridas das lutas do passado. No mesmo ano, D. Sebastião segue para África, apesar da forte objeção da sua avó, do seu tio-avô e do próprio Gonçalves da Câmara. O madeirense ruma para Coimbra, onde o seu estado de saúde se agrava. Escreve ao Rei, pedindo o seu regresso, o que acontece em novembro, quando o Jesuíta, já em Santo Antão, recebe a visita do Monarca. Entre as cartas enviadas a D. Sebastião, apelando ao seu retorno, nenhuma teve tanto impacto, e prova disso poderá ser o facto de a visita real acontecer no dia seguinte à atracagem em Lisboa.

Nos meses posteriores, a sua saúde degrada-se irremediavelmente, até que, a 15 de março de 1575, às 04:30 da manhã, morre em Lisboa. Um conterrâneo seu, o P.e Manuel Álvares, vice-reitor do Colégio, dá a notícia da sua morte a Roma. Durante os últimos meses de vida, o seu estado de saúde esteve sob os cuidados do seu “companheiro inseparável”, o P.e Amador Rebelo.

Certo é que a sua morte provocou grande consternação no Rei, que se fechou no quarto durante três dias, recusando falar. Depois, encerrou-se no mosteiro de N.ª Sr.ª do Espinheiro por cerca de mais 10 dias. “Que quereis que faça, se eu não conheci outro pai nem outra mãe, senão ao P.e Luís Gonçalves da Câmara”, terão sido, segundo o P.e António Franco, as palavras com que o Rei terá exprimido o seu desgosto (FRANCO, 1930, 148). O Monarca não demonstrou tamanha comoção com a morte da sua mãe, nem a demonstraria com a da avó ou a da tia, declarando, em jeito de epitáfio, que “ninguém sabia quanto devia ao padre Luís Gonçalves da Câmara, senão ele só” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 270-271). Em Lisboa, o Rei visitou a sepultura do madeirense no Colégio de S.to Antão e assistiu a uma missa em sua memória. Em maio de 1576, o seu irmão, Martim Gonçalves da Câmara, abandonou a corte e os cargos que desempenhava, numa posição que já estava muito desgastada.

Em 1578, a morte de D. Sebastião e a desastrosa missão africana, que acarretou a perda da independência, constituíram “um locus paradigmático utilizado de maneira recorrente pela literatura antijesuítica” (FRANCO, 1996, 1, 121). Essa crítica foi muito alimentada pelo poder, pelo protagonismo e pela influência dos irmãos Câmara. A sua influência e a sua posição na corte fomentaram o mito contra a Companhia, com vários autores a recorrerem à narrativa que lhes atribuía parte da responsabilidade (ou toda ela) pelo desastre de Alcácer-Quibir. Essas críticas foram potenciadas pela posição de destaque de outros Jesuítas que eram confessores na corte, o que, combinado com a política de apoio à Companhia, contribuiu para consolidar suspeitas e acusações.

Para além de tudo o que o P.e Luís Gonçalves da Câmara atingiu em vida, os seus escritos perpetuaram e difundiram elementos únicos da biografia inaciana. A sua atuação despertou sentimentos antagónicos, nunca sendo indiferente aos seus companheiros, amigos e inimigos.

Bibliog.: manuscrita: ARSI, Epistolae Lusitaniae (Lus.), n.º 62, 274, 3 out. 1568; n.º 64, fl. 98-99v., 17 set. 1570; n.º 65, 208, 13 jun. 1573; impressa: ALDEN, Dauril, The Making of an Enterprise. The Society of Jesus in Portugal, Its Empire, and Beyond, 1540-1750, California, Stanford University Press, 2012; ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal, vol. 1, Lisboa, Bertrand, 2003; CAMÕES, Luís de, Os Lusíadas, s.l., Moderna Editorial Lavores, 2000; CRUZ, Maria Augusta Lima, D. Sebastião, Maia, Círculo dos Leitores/Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, 2012; FRANCO, António, Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesus no Real Collegio de Jesus de Coimbra em Portugal, t. i, Évora, Officina da Universidade de Evora, 1719; Id., Ano Santo da Companhia de Jesus em Portugal, Porto, Editora Biblioteca do Apostolado da Imprensa, 1930; FRANCO, José Eduardo, O Mito dos Jesuítas. Em Portugal, no Brasil e no Oriente (Séculos XVI a XX), vol. 1, Lisboa, Gradiva, 1996; JOHNSON, Harold B., “Um pedófilo no palácio: ou o abuso sexual de el-rei D. Sebastião de Portugal (1554-1578)”, in Dois Estudos Polémicos, Tucson, Fenestra Books, 2004, pp. 45-83; MENESES, Carlos Azevedo de e SILVA, Fernando Augusto da, Elucidário Madeirense, vol. 1, Funchal, Secretaria Regional de Turismo e Cultura, 1998; Monumenta Ignatiana, ex Autographis vel ex Antiquioribus Exemplis Collecta, vol. 1, Matriti, Typis G. Lopez del Horno, 1903; O’NEILL, Charles E. e DOMÍNGUEZ, Joaquín M., Diccionario Histórico de La Compañía de Jesús, vols. 1-4, Roma, Institutum Historicum, S. I., 2001; RODRIGUES, Francisco, História da Companhia de Jesus na Assistência a Portugal, t. i, vols. 1-2, t. ii, vols. 1-2, t. iii, vols. 1-2, t. iv, Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1931-1950; SERRÃO, Joaquim Veríssimo, Itinerário de El-Rei D. Sebastião (1568-1578), Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1987; SILVA, Vítor Aguiar e, Dicionário de Luís de Camões, Lisboa, Caminho, 2011.

Luís Eduardo Nicolau

(atualizado a 25.01.2017)