câmara, matilde olímpia sauvayre da

Poetisa, dramaturga, compositora, charadista, cantora e intérprete de piano e guitarra, nasceu no solar dos Viscondes de Nogueiras, na rua da Mouraria, freguesia de São Pedro, Funchal, a 23 de março de 1871, filha de João Sauvayre da Câmara de Vasconcelos e Matilde Lúcia de Santana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt e irmã [mais nova] de Maria Celina Sauvayre da Câmara (1857-1929) e Maria das Dores Sauvayre da Câmara (1864-1941). Neta da escritora, poetisa e tradutora madeirense Matilde Isabel de Santana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt, viscondessa de Nogueiras (1805-1888) – autora de um opúsculo intitulado Diálogo de Uma Avó e Sua Neta publicado em 1862, escolhido pelo Conselho Superior de Instrução Pública para uso das escolas – com ela terá aprendido, tal como suas irmãs, as “arts d’agrement”, tendo recebido uma aprimorada formação literária e artística.

Maria Celina foi uma reconhecida autora literária. Maria das Dores dedicou-se sobretudo à prática pianística, tendo-se apresentado, desde criança, nos eventos musicais funchalenses de finais do séc. XIX. Matilde Sauvayre da Câmara dedicou-se a ambas as áreas artísticas – literatura e música – bem como ao charadismo. Apresentou-se primordialmente como cantora, em eventos semiprivados nos quais participava a sua irmã Maria das Dores, como, por exemplo, os saraus em casa do médico Adriano Augusto Larica e dos viscondes de Monte Belo, em janeiro de 1893. Na récita de Carnaval realizada no palácio dos Viscondes de Torre Bela em fevereiro de 1893, Matilde iniciou também, precocemente, a apresentação da sua própria produção musical e dramática, tendo sido interpretadas algumas das suas canções que integravam a opereta lírica Charada [em quatro sílabas] [também intitulada Charada característica em forma de sílaba], composta em coautoria com Carolina Dias de Almeida (?-1895). No concerto de amadores em benefício da Casa dos Pobres Desamparados e da Associação Protetora dos Estudantes Pobres, realizado a 20 de novembro de 1897 no Teatro D. Maria Pia, Matilde interpretou Acanhamento (monólogo e cançonetas), peça de sua possível autoria, bem como Parais à ta Fênetre, serenata para canto e piano de Antoine Queyriaux e Louis Gregh.

A demais produção teatral e dramático-musical de Matilde Sauvayre da Câmara compreende a opereta Dois Dias em Paris, estreada a 24 de junho de 1901 no Teatro D. Maria Pia, a comédia Morto à Força e o quadro Arraial Madeirense, estreados numa récita de gala dedicada ao rei D. Carlos e à rainha D. Amélia, realizada no mesmo Teatro a 20 de junho de 1901, aquando da visita dos monarcas à Região. A comissão responsável pela administração desta récita de gala, constituída pelos condes de Torre Bela (Thomas Russel Manners Webster Gordon), o barão de Uzel (Luís Alexandre Ribeiro de Mendonça), Nuno Jardim e o comendador Luís Vicente de Freitas Branco, terá determinado atribuir a direção do evento a Matilde Sauvayre da Câmara, à época a compositora diletante de maior renome no Funchal. A biografada foi responsável pela autoria, ensaio e interpretação da maior parte do repertório apresentado, tendo recebido pelo seu excelente desempenho os encómios do conde de Arnoso, secretário do rei. A primeira obra apresentada, a comédia Morto à Força, foi interpretada pela autora (no papel principal), por sua irmã Maria das Dores, pelos membros da comissão organizadora barão de Uzel e Luís Vicente de Freitas Branco e por Adelaide Pestana, Júlia Affonseca, João Teles de Menezes Cabral e Dr. João Leite Monteiro.

Arraial Madeirense, interpretado na terceira parte da récita, é uma obra de caráter ocasional, destinada à exibição das características folclorísticas regionais à comitiva real, bem como à laude da rainha. O quadro compreende uma cena campestre, com “jovens da mais alta sociedade” em trajes de “vilão” e “viloa”, com bailares e cantares, mormente “descantes ao desafio” acompanhados por violas e pela orquestra; danças regionais por 20 pares de crianças com acompanhamento de orquestra; e um coro dedicado à rainha D. Amélia, da autoria da biografada, interpretado por todos os intérpretes do quadro (NÓBREGA, 1901; FREITAS BRANCO, 1949-1953, III, 89). Terá cabido exclusivamente a Matilde Sauvayre da Câmara a interpretação dos números vocais que, a par de duas obras instrumentais, constituíram a segunda parte desta récita. A biografada cantou L’Averse e a Bluette C’est le Jeune Siècle. Embora o conde de Arnoso atribua ambas as peças a Matilde Sauvayre da Câmara, não foram ainda identificadas quaisquer obras de sua autoria para canto em língua francesa, o que sugere que se tratariam de obras de outros autores, como se verifica com L’Averse, possivelmente a chanson de Victorien Sardou e Louis Verney ou a chanson villageoise de Charles L’Expert e Jules Couplet. Pouco mais se sabe da atividade de Matilde Sauvayre da Câmara após 1901.

A composição para canto de Matilde Sauvayre da Câmara toma como fonte a sua própria produção poética, tendo sido apenas identificadas canções em língua portuguesa até 2014. A sua produção para canto com acompanhamento instrumental (caracterizada pelo uso de uma estrutura com estribilho a solo e refrão com coro) compreende O Meu Testamento; As Últimas Flores; Serenada (Folhas das Rosas Caídas); Alguém; Risos, Cantos, Saudades; Cantares (É nos Olhos Que se Espelha); Saudades; Balada (Se Uma Estrela me Pedisses); Nuvens; Os Três Corações; Ilusões; Perguntas ao Luar e Canção da Serra. Este conjunto de obras, que parece constituir apenas parte da produção da autora neste género, remanesceu em cópias limpas para canto e piano. Curiosamente, as 12 primeiras peças (para canto e piano) foram reunidas num ciclo de 12 canções para canto com acompanhamento de guitarra (Canções à Viola), o que sugere que a autora terá apresentado este repertório acompanhada ao piano e/ou à guitarra. Por outro lado, a designação do mesmo ciclo como Livro I, a par com a existência de outras obras conhecidas, como a Canção da Serra, permite inferir que várias outras canções terão sido compostas por Matilde Sauvayre da Câmara. Entre estas figurariam possivelmente O Último Dia do Ano e Oração, que conhecemos apenas na sua forma poética. Não é conhecido o período de produção ou de estreia do seu repertório para canto com acompanhamento, mas é crível que se tenha destinado sobretudo a uma realização semiprivada, no âmbito de eventuais saraus realizados nas suas moradias, na freguesia do Monte, na Qt. Florença ou na vila Acácia, nas Cruzes.

Matilde Sauvayre da Câmara foi reconhecida pela sua “cultura humanística muito fora do vulgar para a época” (CLODE, 1983, 182). Alfredo de Freitas Branco sublinhava o seu conhecimento das línguas estrangeiras e a sua atenção para com as correntes literárias coevas, fazendo notar, certamente acerca da sua produção teatral, o seu “notável espírito de crítica fina e […] humorismo impregnado de uma sensibilidade artística muito curiosa” (FREITAS BRANCO, 1949-1953, 89). Por sua vez, a sua produção para canto e piano/guitarra assevera o seu conhecimento e gosto pela produção musical francesa para canto da época, sobretudo as chanson e chansonette.

Matilde Sauvayre da Câmara morreu, solteira e sem descendência, no Funchal, a 11 de dezembro de 1957. O seu espólio foi legado ao compositor e professor Jorge Croner de Vasconcelos, filho do seu primo, Alexandre Moniz de Bettencourt (1868-1945) – neto dos viscondes de Nogueiras, professor de violino e de música de câmara do Conservatório Nacional de Lisboa. O seu espólio musical, que ficou ao cuidado de Laura Moniz de Bettencourt, sobrinha de Jorge Croner de Vasconcelos, em Oeiras, Lisboa, compreende a sua produção literária e musical, nomeadamente a sua obra para canto e piano/guitarra e a opereta Dois Dias em Paris, bem como as coleções de música e teatro musical de Carolina Dias de Almeida e de música da sua irmã Maria das Dores. A sua epistolografia está à guarda de Jacinto Moniz de Bettencourt.

Bibliog.: manuscrita: ARM, Primeira Repartição de Finanças do Funchal, Processo de sucessão de Matilde Sauvayre da Câmara: http://www.arquivo-madeira.org (acedido a 21 out 2014); Arquivo familiar da família Bettencourt, Oeiras, Fundo Musical Matilde Sauvayre da Câmara, Espólio de Jorge Croner de Vasconcelos; impressa: “Soirée”, Diário de Notícias, 2 fev. 1893, p. 2; “Festa encantadora”, O Direito, 15 fev. 1893, p. 2; “Récita e baile – grande festa no palácio Torre Bela”, Diário de Notícias, 18 fev. 1893, p. 3; “Concerto”, Diário de Notícias, 18 nov. 1897, p. 2; “Espectáculos. Teatro D. Maria Pia”, Diário de Notícias, 19-20 nov. 1897, p. 3; “Apontamentos da viagem de Sua Magestade”, Diário de Notícias, 24 jun. 1901; Bettencourt, J. Moniz de, Os Bettencourt: Das Origens Normandas à Expansão Atlântica, Lisboa, Edição do autor, 1993; Clode, Luís Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; Esteireiro, Paulo, 50 Histórias de Músicos na Madeira, Funchal, Associação de Amigos do Gabinete Coordenador de Educação Artística, 2008; Id., Emergência e Declínio do Piano na Vida Quotidiana Madeirense (1821-1930), Dissertação de Doutoramento em Ciências Musicais, especialidade Ciências Musicais Históricas, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, texto policopiado, 2011; Freitas Branco, Alfredo de [Visconde do Porto da Cruz], Notas & Comentário para a História Literária da Madeira, vol. III, Funchal, CMF, 1949-1953; Gomes, Alberto F., “Algumas Notas Sobre os Poetas das “Flores da Madeira”, Das Artes e da História da Madeira, n.º 15, 1953, p. 20; Nóbrega, Ciríaco de Brito, A Visita de Suas Majestades os Reis de Portugal ao Arquipélago Madeirense: Narração das Festas, Funchal, Tipografia Esperança, 1901; Silva, Fernando Augusto da, e Menezes, Carlos Augusto, Elucidário Madeirense, vol. I, Funchal, DRAC, 1998; digital: Esteireiro, Paulo, “Matilde Sauvayre da Câmara”, Dicionário de Músicos na Madeira. Séculos XIX e XX: http://www.recursosonline.org/index.php?option=com_sobipro&pid=54&sid=77:CAMARA-Matilde-Sauvayre-da&Itemid=0 (acedido a 21 out 2014).

Rui Magno Pinto

(atualizado a 29.08.2016)