canárias

A presença portuguesa nas Canárias aconteceu preferencialmente através da Madeira, pelo facto de ter sido o primeiro espaço de ocupação portuguesa, assim como um dos principais eixos do movimento de expansão de pessoas, produtos e técnicas no Atlântico. Os portugueses assumiram aí um lugar de relevo, situando-se entre os principais obreiros da valorização económica das ilhas, como agricultores, pescadores, pedreiros, sapateiros, mareantes e artesãos. Porque se integraram, desde o início, de forma pacífica, deixaram marcas indeléveis da portugalidade na sociedade das Canárias.

A verdadeira descoberta das ilhas foi obra de ingleses, alemães e franceses. Na segunda metade do séc. XVIII, a Madeira e as Canárias assumiram um novo papel para os europeus. O turismo desenvolveu-se em ambos os arquipélagos a par da busca de soluções para a cura da tísica pulmonar e dos estudos e trabalhos de recolha das espécies vivas indígenas do quadro natural, de acordo com as exigências da Ciência e das Instituições europeias. Esta proximidade da Madeira com as Canárias manteve-se no tempo. Ao impacto da presença portuguesa deveremos juntar as ligações que se sedimentaram por força das rotas de navegação marítima e aérea. Acresce que a entrada na Comunidade Económica Europeia – nomeadamente com o enquadramento no grupo das chamadas regiões ultraperiféricas – favoreceu este relacionamento, nomeadamente através de intercâmbio científico e institucional.

A História revelou que a complementaridade destes espaços insulares não é eterna e que depende quase sempre de razões conjunturais. A partir do séc. XIX, os caminhos dos dois arquipélagos deixaram de se cruzar e a complementaridade deixou de estar presente, dando lugar à concorrência entre os dois espaços pelo controlo da navegação no espaço atlântico e pelo turismo europeu. Esta parece ter sido uma luta inglória para os madeirenses. As Canárias ganharam-na porque souberam construir portos oceânicos e criar condições fiscais para atrair a navegação marítima, através da criação do porto e da zona franca, avançando, também, de forma rápida, com a aposta na navegação aérea como incentivo ao crescimento do mercado turístico.

No decurso do séc. XX, aconteceram vários intercâmbios culturais, nomeadamente com a ilha de Tenerife, com a presença da Filarmónica Artística Madeirense (1909), da Banda dos Artistas Funchalenses (1913), do grupo musical de Passos Freitas (1914 e 1922), do Trio Madeirense (1931) e do Orfeão Madeirense (1966 e 1971). No sentido contrário, em 1888 deslocou-se ao Funchal uma companhia de teatro e, em 1955, um grupo folclórico participou na Festa das Vindimas. A partir da década de 60, as Canárias adquiriram um papel de destaque como estância de veraneio e destino preferencial da viagem final dos setimanistas madeirenses. A descoberta da Madeira como destino turístico para as populações do arquipélago vizinho ganhou importância na década de 90 do séc. XX. A par disso, estreitaram-se contactos em termos políticos e empresariais, através de várias cimeiras; procuraram-se estabelecer, roteiros comuns para um turismo insular; abriram-se caminhos para um intercâmbio cultural e científico; pretendeu-se estabelecer uma rota de intercâmbio comercial entre os dois arquipélagos. Mas quase todas estas propostas foram adiadas ou ficaram por cumprir, por força dos condicionamentos políticos e comunitários.

O mundo insular atlântico, que se afirmou com os diversos arquipélagos, é uma realidade a partir do séc. XV, e resulta da partilha feita pelos reinos peninsulares, legitimada nos tratados estabelecidos para o controlo do espaço oceânico. A conjuntura política subjacente ao momento inicial de ocupação do espaço atlântico e as formas de relacionamento entre as coroas peninsulares foram importantes na forma como se estabeleceram e persistiram as conexões canário-madeirenses. No séc. XV, a vinculação da Madeira a Lanzarote filia-se na célebre disputa entre as coroas peninsulares pela posse das Canárias. Já em finais do século seguinte, a reafirmação e o alargamento dos contactos a todo o arquipélago canário foram resultado da ocupação da ilha da Madeira, em 1582, por D. Agustin Herrera, ato que materializou a união das coroas peninsulares e estreitou ainda mais os laços entre as comunidades das ilhas da Madeira e de Lanzarote. Estabeleceram-se vínculos familiares entre famílias madeirenses e alguns dos soldados das forças que o acompanharam, que acabaram por se casar na ilha.

Dois momentos pautaram a forma de relacionamento dos arquipélagos. O primeiro momento permitiu a afirmação madeirense em Lanzarote, enquanto o segundo, para além do reforço das ligações canário-madeirenses, condicionou a presença canária no Funchal, que nunca foi muito significativa. Se à componente política se deverá conceder o mérito de abertura e incentivo das ligações humanas, ao fator económico se atribuirá a missão de reforçar e sedimentar este relacionamento. Este intercâmbio só alcançou a plenitude nos sécs. XVI e XVII, incidindo preferencialmente no comércio de cereais dos mercados de Tenerife, Fuerteventura e Lanzarote, porque a Madeira tinha, nestas ilhas, o seu principal granero de cereais. Nas centúrias seguintes, o movimento continuou, mas sem a mesma pujança e dimensão deste primeiro momento. Pouco a pouco, cada um dos arquipélagos foi definindo rumos diversos que, em vez de propiciarem a complementaridade, conduziram ao confronto e à concorrência de produtos e serviços.

O papel da Madeira neste sistema de inter-relações e a importância da comunidade madeirense neste arquipélago são destacados por todos os autores que se têm dedicado ao tema: os inúmeros estudos realizados nos últimos anos vão no sentido desta valoração. É certo que estamos perante uma presença variada de portugueses de todas as regiões do país, mas esta familiaridade canário-madeirense foi dominante no quadro dos relacionamentos, desempenhando a ilha um papel chave.

Como referenciado acima, a intervenção madeirense na empresa canária conduziu a uma maior aproximação entre os dois arquipélagos, ao mesmo tempo que influenciou o traçado de vias de contacto e comércio entre eles. Pela Madeira houve, primeiro, o saque fácil de mão-de-obra escrava para a safra do açúcar e, depois, o recurso ao cereal e à carne, necessários à dieta alimentar do madeirense. Por seu turno, as Canárias foram refúgio para alguns dos primeiros conquistadores. Em 1476, com a conquista levada a cabo por Diego de Herrera, muitos colonos europeus saíram de Lanzarote para a Madeira ou Castela. Tenha-se em conta que, para muitos madeirenses, as Canárias foram também, desde o início, um espaço de fuga.

Aconteceu assim, no séc. XVI, com muitos judeus, mas também com outras situações, como foi o caso de António Gonçalves da Câmara, da Ribeira Brava que, homiziado, se refugiou neste arquipélago. Mais tarde, nos sécs. XVIII e XX, esta proximidade foi aproveitada, de novo, como trampolim para a fuga de maçons perseguidos pela Inquisição ou de prisioneiros de causas políticas, como aconteceu, em 1919, com um grupo de monárquicos da Revolta do Monsanto, presos no Lazareto de Gonçalo Aires, que, com ajuda de pescadores, se refugiaram em Tenerife.

A corrente migratória das Canárias para a Madeira, resultante do descontentamento gerado pelo processo de conquista e ocupação do arquipélago, havia começado já em meados do séc. XV, sendo arauto Maciot de Bettencourt, que, amargurado com a evolução do processo e em litígio com os interesses da burguesia de Sevilha, cedeu, em 1448, o direito de senhorio de Lanzarote ao Infante D. Henrique, mediante avultada soma em dinheiro, fazendas e regalias na Madeira. O sobrinho do conquistador de Lanzarote preferiu o sossego da vila do Funchal ao governo da sua ilha. Foi o primeiro passo de ramificação atlântica desta família normanda. Maciott de Bettencourt foi para o desterro acompanhado da sua filha Maria e dos seus sobrinhos Henrique e Gaspar; todos conseguiram uma posição de prestígio e avultadas fazendas, mercê do relacionamento matrimonial com as principais famílias da Madeira. Maria de Bettencourt, por exemplo, casou-se com Rui Gonçalves da Câmara, filho segundo do capitão donatário do Funchal. Iniciava-se, assim, uma nova vida para esta família de origem normanda que, das Canárias, passou à Madeira e aos Açores, relacionando-se aí com a principal nobreza da terra, o que lhe valeu uma posição destacada na sociedade madeirense e micaelense do séc. XVI. Os filhos de Maciot de Bettencourt, Henrique e João, evidenciaram-se, na época, pelos serviços prestados à coroa, tendo recebido, em troca, muitos benefícios. Henrique de Bettencourt preferiu o sossego das terras da Band’Além, na Ribeira Brava, onde vivia em riquíssimos aposentos; instituiu um morgadio e teve uma ativa intervenção na vida municipal e nas campanhas africanas. Os seus descendentes destacaram-se na vida local e em diversas campanhas militares em África, na Índia e no Brasil.

Se a primeira vaga migratória traçou o rumo e o destino madeirenses, a expedição pacificadora de D. Agustin Herrera, conde de Lanzarote, em 1582, sedimentou e estreitou os contactos entre a Madeira e as Canárias, de forma especial com a ilha de Lanzarote. O próprio conde de Lanzarote, na sua curta estadia na ilha, foi um dos arautos deste relacionamento, pois ligou-se aos Acciaioli, importante casa de mercadores e terratenentes florentinos, fixada na ilha desde 1515. As hostes seguiram-lhe o exemplo, tendo muitos dos 300 homens do presídio criado família na ilha. No período de 1580 a 1600, os espanhóis surgem em primeiro lugar na imigração madeirense. O fim da união peninsular e o descerco, em 1640, trouxeram consigo consequências funestas para tal relacionamento; os madeirenses residentes em Lanzarote foram alvo de represálias, sendo de referir o confisco dos bens do filho varão de Simão Acciaioli que se casara com a filha do conde de Lanzarote.

Desde muito cedo que está documentada a presença lusíada nas ilhas Canárias, em La Palma, Lanzarote, Tenerife e Grã Canária, tendo a Madeira como um dos principais eixos do movimento. Os portugueses assumiram um lugar de relevo, situando-se entre os principais obreiros da valorização económica das ilhas. A tradição bélica e aventureira de alguns madeirenses levou-os a participar ativamente nas campanhas de conquista de Tenerife, recebendo por isso, como recompensa, inúmeras dadas de terra. Daí resultou a forte presença lusíada nesta ilha, onde, em algumas localidades como Icode e Daute, surgem como o grupo maioritário. Aliás, Granadilla foi fundada por Gonzalo Gonzalez Zarco, filho de João Gonçalves Zarco, capitão donatário do Funchal.

A prova mais evidente da importância da comunidade lusíada na ilha está documentada nos Acuerdos del Cabildo de Tenerife, existentes desde 1947, onde são constantes as referências a portugueses com lugar de destaque na sociedade, sendo sempre referenciados em segundo lugar. O mesmo se poderá dizer sobre a ilha de La Palma, onde os portugueses marcaram uma presença muito forte, tendo a testemunhá-lo a existência de alguns registos paroquiais feitos em português. De acordo com uma relação de 1626, a maioria destes portugueses, não constando da relação as ilhas de Fuerteventura, La Gomera e El Hierro, residia na ilha de Tenerife e era maioritariamente da ilha de São Miguel, nos Açores. São insistentes as informações que testemunham uma incidência distinta deste grupo de insulares, donde se destaca uma maior incidência de madeirenses para as ilhas de Lanzarote e Grã Canária.

São múltiplos os testemunhos que atestam a importância da comunidade portuguesa nas diversas ilhas. O próprio Gaspar Frutuoso, que escreveu em finais do séc. XVI, chama a atenção para este facto, destacando a importância desta comunidade em Icod de Los Vinos em Tenerife, bem como em Garafia, Santa Cruz, Tazacorte, San Andrés e Los Sauces, na ilha de La Palma. Esta ilha foi uma das que recebeu maior número de judeus fugidos às perseguições da Inquisição portuguesa. Este aspeto particular da presença da comunidade judaica portuguesa em todas as ilhas das Canárias é, aliás, um dos aspetos muito salientados pela inquisição das Canárias que destaca a importância desta comunidade. A Madeira funcionou, assim, como um trampolim para a fuga dos judeus portugueses que chegaram às vizinhas Canárias, bem como a outros espaços no Atlântico, como o Brasil.

As mudanças operadas na conjuntura política a partir dos acontecimentos do ano de 1640 condicionaram a presença do madeirense que, até então, usufruía de um estatuto preferencial na sociedade e economia lanzarotenha, por exemplo, fazendo-o desaparecer paulatinamente do seu palco de ação. Não sabemos se isto tem algum significado, mas o certo é que, depois disso, os poucos madeirenses rastreáveis na documentação procuram ignorar ou apagar a sua origem, surgindo apenas como vizinhos, sem outra referência. A situação coincide com o fim das trocas comerciais incidindo sobre os cereais das Canárias pois, a partir de 1641, deixaram de aparecer no Funchal, tendo sido substituídos pelos açorianos ou pelos provenientes dos novos mercados, como a Berberia e a América do Norte. Não é evidente se esta ausência do cereal das Canárias terá sido resultado da crise da cultura cerealífera canária ou fruto da ambiência de mútua represália peninsular.

Os conflitos entre Portugal e Espanha prolongaram-se por algum tempo, mas com a assinatura das pazes, em Madrid, no ano de 1668, estava aberta a via para o restabelecimento dos contactos inter-arquipélagos. Entretanto, Portugal havia já firmado alguns compromissos com alguns aliados, nomeadamente com a Inglaterra, em 1661, que estabeleciam uma forma diferente de controlo e domínio do espaço atlântico, consolidando, assim, a hegemonia crescente dos ingleses. A partir do momento em que se abrem os portos dos arquipélagos a uma troca mútua isenta de entraves e embargos, estão criadas as condições para a mobilidade de gentes e produtos entre os arquipélagos. A História documenta esta continuidade mas não mais com a mesma pujança de momentos anteriores.

A Madeira desfrutava de condições de prosperidade com uma situação preferencial de exportação do seu vinho para o mercado colonial britânico e os madeirenses já não viam as Canárias como terra de promissão, pois que as portas do mercado do outro lado do Atlântico estavam abertas, sem necessidade de recurso às ilhas das Canárias. Mesmo assim, o movimento foi retomado nos dois sentidos. Assim, podem-se assinalar, para o séc. XVIII, os casos de Manuel Alvarez Pereira, importante mercador de Lanzarote, empenhado na troca de cereais por barrilha, assim como de Alvarez Rixo, entre 1812 e 1814.

A presença e influência portuguesa nas Canárias registou-se a vários níveis da sociedade e economia deste arquipélago. O movimento permanente de gentes portuguesas trouxe associado formas de falar, usos e costumes, mas também técnicas e produtos de que as mesmas acabaram por ser as promotoras, porque surgem também na qualidade de agricultores e operários especializados dedicados às diversas tarefas de transformação dos produtos. É evidente a associação dos madeirenses à divulgação das culturas do pastel, da vinha e da cana-de-açúcar. O leque de atividades em que os portugueses se empenharam é variado, indo desde o comércio às atividades produtivas ligadas ao sector agrícola e aos diversos ofícios.

A cana-de-açúcar, pelo alto valor económico no mercado europeu-mediterrânico, foi um dos primeiros e principais produtos que a Europa legou e definiu para as novas áreas de ocupação no Atlântico. O percurso iniciou-se na Madeira, alargando-se depois às restantes ilhas e ao continente americano. Na primeira experiência além Europa, a cana sacarina evidenciou possibilidades de desenvolvimento fora do habitat mediterrânico. Tal evidência catalisou os interesses do capital nacional e estrangeiro, que apostou no crescimento da cultura e do comércio. Em 1483, quando o governador D. Pedro de Vera quis tornar produtiva a terra conquistada nas Canárias, a Madeira disponibilizou as socas de cana para que aí surgissem os canaviais e o primeiro engenho em 1484. Todavia, o mais significativo foi a forte presença portuguesa no processo de conquista e adequação do novo espaço das Canárias à economia de mercado. Os portugueses, em especial os madeirenses, surgem com frequência nas ilhas, ligando-se ao processo de arroteamento das terras, como colonos que recebem dadas de terras na condição de trabalhadores especializados à soldada, ou de operários especializados que constroem os engenhos e os colocam em movimento. Alguns são trabalhadores sazonais que procuram estas ilhas em épocas de maior atividade agrícola. Em 1624, Miguel Rodrigues, do Estreito da Calheta, faleceu num naufrágio quando regressava duma dessas viagens a Lanzarote.

No caso de La Palma, refere-se um Leonel Rodrigues, mestre de engenho que ganhou o estatuto em 12 anos de trabalho na Madeira. Na lista dos madeirenses referenciados no tribunal da inquisição de Las Palmas, temos outros relacionados com o cultivo e safra açucareira. É de referir, também, idêntico papel para as ilhas Canárias na projeção da cultura às colónias castelhanas do novo mundo.

As Canárias são apontadas como uma das áreas concorrentes da Madeira, sendo o facto mais significativo o de terem sido os próprios madeirenses a promovê-la, estando a afirmação inegavelmente ligada à sua presença. Os incentivos à produção de canaviais nas ilhas de Grã Canária e de Tenerife permitiram que muitos madeirenses abandonassem a Madeira e nelas se fixassem. Foi no momento de crise do açúcar na Madeira que mais se notou aí a presença de madeirenses, o que prova a emigração orientada dos técnicos ligados à cultura. As socas de cana chegaram às ilhas de Grã Canária, Tenerife, La Palma e La Gomera, não alcançando as ilhas de Lanzarote, Fuerteventura e El Hierro, devido à sua esterilidade e, fundamentalmente, à falta de água.

Em Tenerife, a presença, nos livros de dadas de terras, de um grupo significativo de portugueses, certamente maioritariamente da ilha, tem a ver com esta situação. A crise da produção madeirense das primeiras décadas do séc. XVI refletiu-se no sistema de propriedade, tendo permitido um reforço dos grandes fazendeiros em detrimento dos demais que abandonam as terras, certamente rumo às Canárias.

O incremento da cultura dos canaviais em solo madeirense obrigou a avanços tecnológicos significativos que, a partir das décadas finais do séc. XV, só poderiam ser concretizados mediante a disponibilidade de mais terras por proprietário de engenho, o que não seria possível na Madeira, onde não havia mais terras para distribuir. Assim, abria-se uma nova possibilidade nas Canárias, de tal modo que aqueles que montavam um engenho tinham direito a um número determinado de fanegadas de terra e a água, precisamente para rentabilizar o novo projeto tecnológico de fabrico de açúcar, que teve aqui a plena concretização.

Uma análise sumária da carga fiscal que onerava os agricultores madeirenses nos primeiros anos da ocupação evidencia o seu peso excessivo sobre produtos agrícolas, como sucedeu com o açúcar; os direitos senhoriais oneravam o açúcar em cerca de 25% que, nas Canárias, não ultrapassavam, no início, os 5,5%. Na Grã Canária, os impostos resumiam-se a 2,5% do diezmo, mais 3% ad valorem na alfândega, que foi subindo até se situar em 6% no ano de 1528. Nas ilhas de La Palma e Tenerife, manteve-se o regime de isenção fiscal aduaneira até 1522. Esta constatação do peso dos encargos sobre a mesma cultura e o mesmo produto no arquipélago vizinho deverá ter influenciado o forte surto da emigração madeirense rumo ao novo espaço, onde os encargos fiscais eram menores e maiores as possibilidades de lucro da exploração, contribuindo para uma forte presença madeirense nestas ilhas, ligada à atividade agrícola.

A desigual situação dos encargos fiscais e, subsequentemente, dos lucros da exploração agrícola, refletiu-se, de igual modo, na evolução do sistema de exploração económico da cultura, colocando a Madeira numa posição desigual face à concorrência de mercado. Começou aqui o processo de concorrência económica entre os dois arquipélagos, que irá marcar, de forma clara, a sua vivência a partir de meados do séc. XIX. Não há dados documentais que corroborem a ida de cepas madeirenses para as Canárias, mas é muito natural que assim tenha acontecido. Os testemunhos da linguística e etnografia atestam diversas similitudes em algumas designações e técnicas, que deverão estar ligadas a esta influência de colonos madeirenses. Atente-se que, em finais do séc. XVIII, foi relevante o aporte madeirense ao processo de vinificação em Tenerife. Francisco Chacon, cônsul no Funchal, remeteu, a 20 de outubro de 1786, um relatório discriminado sobre o processo de vinificação do vinho da Madeira. Com data provável de 1784, há outro documento, referido por Guimerá Ravina e encontrado no Archivo Brier Ponte Ximénez, que descreve, de igual modo, o processo de vinificação madeirense, mas que não está assinado. Ambos os documentos revelam o interesse no arquipélago vizinho em adequar os processos de vinificação, de forma a poder concorrer em pé de igualdade nos mesmos mercados que o Madeira.

O aspeto mais evidente que une os dois arquipélagos em torno da cultura prende-se com a disputa do mercado e a posição preferencial que a Madeira assumiu no mercado colonial britânico, por força dos tratados luso-britânicos, dando azo às situações que se seguem. Já no séc. XV, o vinho das Canárias concorria de forma direta com o da Madeira no mercado britânico a atestar pelas referências de Shakespeare; o vinho dos Açores só começou a concorrer a partir do séc. XVII. A grande luta foi sempre entre o malvasia da Madeira e os caldos de Tenerife. Da disputa pelo mercado europeu passou-se ao colonial.

O séc. XVII foi o momento de viragem do mercado atlântico do vinho, conseguindo a Madeira a preferência do mercado norte-americano e suas colónias nas Antilhas. O vinho da Madeira estava na moda. Os viticultores e comerciantes de Tenerife, para poderem sobreviver, tiveram de se sujeitar ao fabrico de um vinho semelhante ao Madeira, ou à baldeação com o de Tenerife para, depois, o venderem com o rótulo de Madeira. O séc. XVIII foi, pois, a época de afirmação do falso e verdadeiro Madeira. Em princípios do séc. XVI, fala-se da malvasia das Canárias no mercado londrino, numa posição concorrencial com a da Madeira; mas só a partir de meados da centúria o vinho adquiriu dimensão de relevo nas exportações. Sabe-se, ainda que, até à década de 30, Tenerife necessitou de importar vinho, definindo-se medidas limitativas da sua importação desde meados da centúria. Deste modo, as Canárias, a exemplo da Madeira, repartem o vinho entre a velha Europa e os novos espaços de ocupação do outro lado do Atlântico, como Puerto Rico, República Dominicana e Cuba.

A partir de meados do séc. XVII, as Canárias competem diretamente com a Madeira no domínio do mercado do vinho britânico. A união peninsular não terá sido favorável ao vinho madeirense, uma vez que abriu as portas do mercado colonial ao vinho das Canárias. A conjuntura económica que se anunciou em 1640 abriu novas perspetivas para o malvasia da Madeira, com o retorno da posição de privilégio no mundo português e britânico. O seu competidor direto era apenas o vinho dos Açores, produzido nas ilhas da Graciosa e do Pico.

Os pactos de amizade entre as coroas de Portugal e Inglaterra sedimentaram as relações comerciais, favorecendo a oferta do vinho madeirense e açoriano nas colónias britânicas da América Central e do Norte, como determinavam as leis da navegação, aprovadas em 1641 por Carlos II. A situação de privilégio concedida ao vinho dos arquipélagos portugueses repercutiu-se negativamente na economia das Canárias, tendo sido um travão ao desenvolvimento da economia vitivinícola a partir de finais do séc. XVII. O casamento de Carlos II de Inglaterra com D. Catarina de Bragança foi o prelúdio da conjuntura favorável ao vinho Madeira, sendo referido por Viera y Clavijo como um “golpe tan feliz para la isla de la Madera como infausto para las Canárias [golpe tão feliz para a ilha da Madeira como infausto para as Canárias]” (LORENZO-CÁCERES, 1941, 19). A guerra de Cromwell contra Espanha levou ao encerramento do mercado londrino ao vinho das Canárias no período de 1655 a 1660, e ao estabelecimento de medidas preferenciais para o das ilhas portuguesas.

Com o fim da guerra de fronteiras entre Portugal e Espanha e a assinatura das pazes em Madrid, a 5 de janeiro de 1668, ratificadas a 13 de fevereiro em Lisboa, restabeleceram-se os contactos entre os dois arquipélagos. O reforço das relações é testemunhado pela presença de Bento de Figueiredo no Funchal como cônsul castelhano. Não acabaram aqui as dificuldades, pois apenas com as pazes de Ultrecht, em 1713, se abriram novas perspetivas de negócio, numa altura em que os vinhos madeirenses e açorianos haviam conquistado uma posição sólida no mercado colonial e britânico. A questão persistiu no decurso do séc. XVIII e, goradas as iniciativas diplomáticas, houve que esperar até 1778, quando se anunciou uma nova era para o vinho da Madeira, com o livre comércio para as Índias e a abertura do mercado norte-americano, em consequência da independência proclamada em 1776. A situação reflete-se, de forma positiva, nas exportações entre 1790 e 1814. Da parte das Canárias, há que referir a aportação da cochinilha, trazida em 1837 por Miguel Camacho Almeida. O comércio entre as ilhas dos três arquipélagos atlânticos resultou não só da complementaridade económica, definida pelas assimetrias propiciadas pela orografia e o clima, mas também da proximidade e assiduidade dos contactos. O intercâmbio de pessoas, produtos e técnicas dominou o sistema de contactos entre os arquipélagos. As relações comerciais aliaram-se à presença de madeirenses, ao serviço do infante D. Henrique, na disputa pela posse do arquipélago e à atração que as ilhas de Lanzarote e Tenerife exerceram sobre os madeirenses. O Funchal foi, por muito tempo, um porto de apoio aos contactos entre as Canárias e o velho continente. Se é certo que a maioria dos contactos com os arquipélagos advêm da posição privilegiada da Madeira entre as Canárias e a Europa, não é menos certo que o trato comercial resulta das necessidades e solicitações internas, que impelem para uma aproximação. É também a necessidade de recurso a uma nova fonte de provimento de cereais, face à recusa dos açorianos a esse fornecimento, a que podemos associar ainda as solicitações da comunidade portuguesa residente nas Canárias, de que fazia parte um grupo numeroso de madeirenses, que ansiavam por estabelecer contactos com os locais de origem.

O trigo foi, sem dúvida, o principal móbil do comércio canário-madeirense. Os cereais surgem como os principais ativadores e suportes do sistema de trocas entre a Madeira e as Canárias. De acordo com Giulio Landi, “a ilha produziria em maior quantidade se semeasse. Mas a ambição das riquezas faz com que os habitantes, descuidando-se de semear trigo, se dediquem apenas ao fabrico do açúcar, pois deste tiram maiores proveitos, o que explica não se colher na ilha trigo para mais de seis meses. Por isso há uma carestia de trigo pois em grande abundância é importado das ilhas vizinhas” (VIEIRA, 1987, 104). A Madeira surge, desde finais do séc. XV, como uma área carente em cereal, necessitando de importar mais de metade do que precisava para o seu consumo. A garantia do abastecimento interno de cereais, que havia sido uma palavra de ordem no início do povoamento da Madeira, não resistiu ao assalto das culturas europeias para exportação que, em pouco tempo, invadiram quase todo o território arável.

O arquipélago madeirense, composto apenas por duas ilhas, sendo uma delas de fracos recursos, tinha necessariamente de assegurar o abastecimento do exterior, socorrendo-se, para tal, das ilhas vizinhas. Em 1546, dos 12.000 moios consumidos, apenas 1/3 foi produzido localmente, sendo o restante importado das ilhas próximas ou da Europa. No séc. XVI, a oferta de cereal das Canárias e dos Açores representou cerca de metade das entradas. Para o caso açoriano, ele era quase todo proveniente de S. Miguel e do Faial, enquanto nas Canárias provinha maioritariamente das ilhas de Lanzarote, Fuerteventura e Tenerife. A rota de abastecimento de cereais‚ definida em princípios do séc. XVI, manteve-se com toda pujança até meados do século seguinte. As primeiras referências ao envio de trigo das Canárias para a Madeira surgem em 1504 para o trigo remetido de La Palma e em 1506 para o de Tenerife.

O comércio do cereal a partir das Canárias firmou-se através da regularidade dos contactos com a Madeira, sendo apenas prejudicado pelos embargos temporários, enquanto o dos Açores foi imposto pela coroa, uma vez que a burguesia e a aristocracia açorianas, nomeadamente de S. Miguel, não se mostravam interessadas em manter esta via. O cabildo da catedral de Grã Canária queixava-se de não receber a sua parte dos dízimos, que era escoada para a Madeira, tendo ordenado, em 1532, o seu embargo.

A rota canária impõe-se pela dominância dos contactos assíduos entre os dois arquipélagos, não os impedindo as crises de produção, nem as limitações impostas pelo cabildo de Tenerife. O cereal era o principal produto e a justificação para a permanência deste elo de ligação, traçado em princípios do séc. XV pela comunidade normanda daí oriunda.

A permanência desta rota implicou o alargamento das trocas comerciais entre os arquipélagos, uma vez que ao comércio do cereal se associaram outros produtos, como contrapartida favorável às trocas. A oferta madeirense alargou-se à fruta verde, às liaças de vime, ao sumagre e aos panos de estopa, burel ou liteiro. Nestas relações com as ilhas Canárias, o vinho surge, muitas vezes, aliado a outros produtos como moeda de troca dos cereais. Assim, em 1521, Juan Pomar, mercador vizinho da Madeira, enviou a Juan Garcia de Lós, mercador vizinho da Grã Canária, algumas pipas de vinho. E, em 1525, enviou uma pipa e 1/4 de vinho e 1/4 de vinagre. Entretanto, em 1523, sai do Funchal o navio de Lourenço Morais com vinte pipas de vinho para o mesmo destino; e, finalmente, em 1563, o mercador João Nunes envia ao seu cunhado, residente nas Canárias, três pipas de vinho para que este lhe enviasse trigo. Este comércio entre a Madeira e as Canárias remonta a meados do séc. XV, altura a partir da qual a Madeira passou a receber escravos canários, carne, queijo e sebo, trato que não era do agrado do Infante D. Fernando, senhorio da ilha, uma vez que recusou a solicitação dos seus naturais para isenção da dízima dos produtos que daí vinham, dizendo a propósito, “que tam bäo trauto e das minhas ylhas dos Açores e tam bõo retorno averem e milhor que de canaria se em elle quiserem emtrar” (VIEIRA, 1987,144), não obstante os vizinhos do Funchal insistirem em manter os seus contactos com as Canárias. Em 1477, Nuno Cayado, mercador madeirense, há mais de quinze anos ocupado nesse comércio, recebeu um salvo-conduto dos reis católicos para comerciar nessas ilhas. E, em 1513, ao ser apresada em Grã Canária uma caravela portuguesa que levava a bordo um malfeitor, o regedor local receou represálias por parte dos madeirenses.

Um dos mais importantes produtos fornecidos pelo mercado madeirense, e que tinha saída fácil nas Canárias, era o sumagre, que terá contribuído para o desenvolvimento da indústria de curtumes na Grã Canária. A uma primeira remessa‚ solicitada em 1569, seguiu-se, a partir de 1570, a intervenção da classe mercantil neste trato. Por exemplo, em 1571, Anton Solis e Juan de Cabrejas, mercadores vizinhos da Grã Canária, criaram uma companhia para comerciar o sumagre da Madeira. E, ainda nesta década, surgiram outras companhias com a mesma finalidade, o que atesta a importância deste produto no comércio com a Grã Canária. A documentação continua a ser incompleta no testemunho deste relacionamento comercial. Mesmo assim, para o período da primeira metade do séc. XVII, existem referências à saída de embarcações do Funchal com destino a Lanzarote, transportando vinho, sumagre, mel, tecidos, nozes, açúcar, conservas e marmelada.

As Canárias ofereciam à Madeira os produtos alimentares de que esta carecia e, em troca, recebiam, para além do vinho e sumagre, uma série de artefactos de produção local ou de importação. A Madeira tinha neste arquipélago vizinho não só o seu celeiro, mas também o seu açougue, fornecedor de gado e seus derivados, como a carne, o sebo e o queijo. Em 1527, Joana Falcão declarava, em vereação, que o seu marido, Joam Novo, que detinha o exclusivo da venda de carne no açougue municipal, estava ausente nas ilhas Canárias, onde fora buscar carnes, como era hábito. Esse gado e essa carne eram habitualmente adquiridos nas ilhas de Fuerteventura e Lanzarote.

O arquipélago canário afirmou-se, desde princípios do século XVI, como um novo celeiro do Atlântico, fornecendo o excedente necessário ao abastecimento do litoral africano, da costa peninsular e da ilha da Madeira. Do trigo saído no século XVI da ilha de Tenerife, cerca de 53% destinou-se a Portugal e à Madeira, o restante ao mercado insular canário e castelhano. O mercado peninsular totalizou 69% desse cereal, ficando apenas a parte sobrante para as ilhas. O cereal exportado para o litoral peninsular orientava-se no sentido das principais praças comerciais: Lisboa, Sevilha e Cádis. No caso de Castela, são as cidades gaditanas as principais consumidoras do cereal canário destinado a Espanha. Quanto ao comércio da cevada, o maior número de moios foi canalizado para Portugal, nomeadamente para o porto de Lisboa, sendo de salientar um único embarque de 66,5 moios de cevada para o arquipélago açoriano em 1511.

O ano de 1640 é apontado como o fim do relacionamento humano e comercial entre os dois arquipélagos portugueses e as Canárias, como consequência ou represália do fim do domínio filipino no império lusíada. É certo que a conjuntura político-institucional foi desfavorável aos relacionamentos entre os arquipélagos enquanto o conflito durou, rompendo os contactos entre estas ilhas vizinhas, por força das mútuas vindictas. Todavia, quando foram serenados os ânimos e levantados paulatinamente os embargos, o movimento de barcos, pessoas e mercadorias foi retomado, embora nunca mais com o anterior fôlego.

A Madeira havia, entretanto, assumido um papel distinto na economia atlântica, que lhe propiciava o acesso a outros mercados produtores de cereais, que complementavam o açoriano no seu abastecimento. As condições favoráveis para o comércio com as colónias norte-americanas propiciaram um novo mercado de acesso aos cereais em troca do vinho. Isto não significou o corte de relações comerciais com as Canárias, nem que a Madeira tivesse dispensado, de forma definitiva, o cereal deste arquipélago, pois à medida que as relações diplomáticas entre as duas coroas peninsulares se iam normalizando, os contactos comerciais eram restabelecidos.

Os escravos foram mais um produto no sistema de trocas entre a Madeira e o vizinho arquipélago das Canárias, com especial relevo para a ilha de Lanzarote. No período de 1619 a 1643, os documentos testemunham a troca de escravos por cereal. Tal recurso à mercadoria humana nas transações com Lanzarote resulta, não só da sua disponibilidade no mercado madeirense e da sua falta na sociedade lanzarotenha, mas, e acima de tudo, da necessidade de assegurar uma contrapartida vantajosa à rota do comércio de cereal com a ilha da Madeira. No período de 1619 a 1643, foram remetidos 44 escravos do Funchal para as Canárias, sendo a quase totalidade destinada a Lanzarote, pois apenas um foi vendido a um vizinho da Grã Canária. Os escravos eram maioritariamente (73%) de origem africana.

Para o período de 1695 a 1714, a informação consignada nas cartas comerciais de Diogo Fernandes Branco reporta o movimento de 11 barcos oriundos das Canárias contra 12 da Madeira, enquanto no período de 1695 a 1700, as cartas de William Bolton dão conta da entrada de dois navios das Canárias e da saída de oito, sendo sete para Las Palmas.

O séc. XVIII foi ainda um momento marcado por contactos assíduos entre os dois arquipélagos, mantendo-se a função abastecedora do celeiro das Canárias, a troco, muitas vezes, de manufaturas reexportadas, nomeadamente tecidos provenientes de Londres.

Para o período de 1731 até 1810, são apontadas diversas embarcações das Canárias para a Madeira, das quais 127 com cereal, destacando-se uma maior envolvência nas duas décadas finais do séc. XVIII. Assinale-se o movimento de mercadorias provenientes das Canárias e Berberia para este período de 1727 a 1810, em que se sublinha, de novo, a presença de cereais. Mas o elemento mais importante a destacar é o facto de um grupo significativo de embarcações, 28 %, vir a lastro, isto é, sem qualquer movimento de mercadoria associado, o que deverá ser demonstrativo de que as relações comerciais entre os dois arquipélagos deixaram de ser complementares e importantes. A presença do cereal, embora aqui ainda seja significativo no movimento entre os dois arquipélagos, uma vez que representa 27% das embarcações em movimento, não representa quase nada no conjunto das embarcações que atracaram ao Funchal com cereal, uma vez que fica apenas pelos 2%. Neste momento, o grande mercado fornecedor da ilha é definitivamente a América do Norte, representando 62% das embarcações entradas com cereais e farinhas, ficando as ilhas dos Açores com apenas 15%. A rota norte-americana do mercado do vinho madeirense abriu novas possibilidades de abastecimento de cereais e farinhas, e obrigou a alterações nas relações entre as ilhas. Embora no séc. XVIII já se fizesse sentir a concorrência do mercado das Canárias, por força do contrabando de vinho, um motivo de atrito que se prolonga pela primeira metade da centúria seguinte, o principal fator de confronto para os dois arquipélagos será a disputa pelo mercado de navegação e de turismo europeus.

A Madeira é um espaço atlântico que sempre apresentou uma identidade própria, mas que nunca se livrou da concorrência de outros espaços vizinhos, como as Canárias. Na verdade, a sua posição no mar Atlântico conduziu a que sempre se estabelecesse uma disputa pela melhor posição no apoio à navegação. Não o entendeu assim a metrópole e as políticas fiscais das diversas pautas e de obras públicas não tiveram em conta esta situação específica de disputa. Perdeu-se o porto oceânico, a zona franca, o turismo e a possibilidade de futuro. As principais  infraestruturas, que abriram as portas deste progresso, tardaram e, quando chegaram, as Canárias já haviam consolidado a sua posição de entreposto do Atlântico para a navegação marítima e para o turismo.

A possibilidade de trazer parte da navegação oceânica para a Madeira, como forma de aumentar o movimento do porto comercial, passava por medidas que favorecessem esta preferência, face às condições então oferecidas por outros portos, como os das Canárias. Era urgente o estabelecimento de condições mais favoráveis à entrada e saída no porto do Funchal, através da construção de infraestruturas e da criação de medidas fiscais que não fossem penalizadoras, nomeadamente quanto à entrada e saída do carvão.

O porto do Funchal perdeu importância e movimento comercial. A situação, embora  considerada como resultado das melhores condições oferecidas pelos portos das  Canárias, não demoveu as autoridades portuguesas no sentido da construção de um novo porto, do estabelecimento de medidas favoráveis e capazes de atrair a navegação, da criação do porto franco e a alteração das taxas alfandegárias sobre o carvão. Os comerciantes e os políticos madeirenses não conseguiram fazer vingar a política do Porto Franco, como forma de recuperação económica do arquipélago. Nas últimas décadas do séc. XIX, a questão continuava presente nos debates parlamentares, assim como na reivindicação por parte dos madeirenses, tornando-se cada vez mais pertinente.

Em 1921, os efeitos nefastos da política tributária niveladora eram evidentes na Madeira. O Decreto n.º 7822, de 22 de novembro, havia estabelecido um imposto de comércio sobre a navegação em que se incluía uma taxa de entrada para os turistas, com o imposto especial de 20% sobre o valor das passagens e o pagamento dos direitos em libras. No entanto, o imposto de farolagem foi suspenso na Madeira, e as leis de 23 de abril de 1880 e de 21 de maio de 1896 definiram vantagens especiais para os vapores que fizessem escala no Funchal.

Por fim, a mobilidade de gentes entre os arquipélagos propiciou múltiplas influências no quotidiano que podem ser testemunhadas de diversas formas, nomeadamente através da toponímia e da linguística. Em quase todas as ilhas, mas de forma especial em La Palma, são evidentes os portuguesismos na nomenclatura dos ofícios, utensílios e produtos a que os portugueses estiveram ligados: açúcar, vinho, pesca, construção civil e fabrico de calçado. Muitas das técnicas e da nomenclatura associada a estas atividades estão indissociavelmente ligadas aos madeirenses e mostram, na maioria dos casos, que são de proveniência portuguesa, quase sempre com passagem pela Madeira. Para a cana-de-açúcar, foram as técnicas de regadio, como também os engenhos de moenda, enquanto para a vinha são as latadas de La Palma, bem como as tipologias dos lagares. Recorde-se a este propósito que a Madeira fornecia estas ilhas de arcos e madeira para pipas.

Um dos aspetos mais destacados da presença da comunidade portuguesa nas Canárias está na sua capacidade de integração na sociedade local, sem que se tenham perdido alguns dos valores da sua cultura. Esta situação é relevada por diversos estudiosos e é quase sempre apontada como o fator de sucesso da presença e sobrevivência portuguesa na História e Cultura das Canárias. É significativo que esta situação tivesse conduzido a casos de bilinguismo, pois que, em algumas comunidades, as duas línguas eram faladas e entendidas por ambas as partes, existindo mesmo casos de registos paroquiais escritos em português em algumas paróquias de Tenerife, porque, na verdade, muitos dos clérigos eram portugueses. Esta situação do bilinguismo nesta época acontecia também na península, com casos paradigmáticos na literatura portuguesa, como Gil Vicente, Camões, André e Garcia de Resende, e João de Barros. Por outro lado, houve casos de portugueses de sucesso em diversas ilhas, quer na exploração da terra, quer no comércio. Esta integração da comunidade portuguesa é o prelúdio de um diálogo intercultural que tem por palco as ilhas e que está para além de todas as adversidades e conflitos materializados pelas coroas.

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Alberto Vieira

(atualizado a 14.12.2016)