carlos I, rei de portugal

D. Carlos I nasceu em Lisboa a 28 de setembro de 1863. Filho primogénito do Rei D. Luís I e da Rainha D. Maria Pia de Saboia, subiu ao trono em 1889, tendo sido o penúltimo Rei de Portugal. Morreu a 1 de fevereiro de 1908, quando foi atingido a tiro no Terreiro do Paço no momento em que seguia com a família em direção ao Palácio das Necessidades.

Sete anos antes, o monarca e a mulher, a Rainha D. Amélia, haviam realizado uma visita aos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Foi uma deslocação histórica, pois foi a primeira grande visita de Estado portuguesa do século XX.

A importância da deslocação dos monarcas a território insular está aliás bem patente nos relatos da imprensa da época. A visita dos soberanos à Madeira decorreu entre os dias 22 e 25 de junho de 1901, mas o assunto era já notícia nas semanas anteriores, com os jornais a comunicarem pormenores da agenda real e a vincarem a importância do acontecimento para as gentes insulares. Um dia antes da chegada do Rei, o Diário de Notícias, na sua edição de 21 de junho de 1901, escrevia que «a viagem de Suas Majestades às ilhas da Madeira e Açores constitui nos dois arquipélagos o assunto predominante em torno do qual volitam, como enxame em volta do cortiço, as discussões e comentários do público». O matutino explicava que o entusiasmo popular poderia trazer o benefício de «atrair as simpatias dos chefes de estado para esta formosa ilha, cuja recordação jamais se lhes olvidará», além de ser capaz de «insuflar na monotonia da vida normal da população uma atividade social e comercial, embora transitória, mas de gerais e benéficas consequências». O texto terminava realçando que «no estrangeiro, ministros e chefes de Estados conhecem perfeitamente todas as províncias dos seus países. Bom é que isto suceda igualmente na monarquia portuguesa» (DN, 21 jun. 1901, 1).

Um dia depois da chegada dos monarcas à Madeira, o mesmo Diário de Notícias, na edição de 23 de junho de 1901, fazia primeira página com uma gravura do Rei D. Carlos e da Senhora D. Amélia, num artigo que realçava a importância da deslocação oficial e o seu caráter inédito. Nessa edição, narrava-se uma cidade engalanada para corresponder à «altíssima honra de hospedar os Augustos Monarcas Portugueses». Afinal, «pela primeira vez, após quasi cinco séculos da sua feliz descoberta, pelos arrojados navegantes João Gonssalves Zargo e Tristão Vaz Teixeira, recebe a Madeira a inolvidável distinção da visita dos seus Reis». O longo artigo não se limitava, no entanto, a ser elogioso, mas deixava bem claras as condições de vida das populações e a necessidade de estas se tornarem conhecidas para o Reino: «Aqui verão Suas Majestades a exuberância fertilíssima deste solo, a ridente paisagem destas montanhas, a pureza deste céu, a amenidade deste clima. […] A Flor do oceano tudo deve à natureza e pouco ou nada à arte e proteção dos poderes públicos.» De qualquer modo, o jornal destaca que o povo humilde e trabalhador recebe em festa os seus monarcas, descrevendo «os rodilhões de fumo das salvas de artilharia que saudaram as Majestades […] e os brados d’entusiasmo unânime soltados por milhares de bocas». E acrescenta o matutino: «Um povo que mostra aos Reis que apesar dos justos motivos de queixa que tem contra os homens da publica governação, do abandono e esquecimento a que tem sido condenado, sabe manter-se com brio, à altura dos seus créditos de povo hospitaleiro e amante dos seus Monarcas». No artigo refere-se a visita como uma oportunidade para a Coroa ficar a conhecer o estado de abandono e atraso da terra. O artigo dirige-se diretamente ao Conselheiro Hintze Ribeiro, a quem apela para fazer eco dos queixumes do povo e acabar «com a triste lenda […] da Irlanda Lusitana» (DN, 23 jun. 1901, 1).

Pese embora as queixas, a verdade é que todos os jornais da época relatam uma cidade transformada para receber os soberanos, que percorreram vários locais do Funchal sempre seguidos por uma enorme multidão. O entusiasmo pela visita estava, aliás, bem patente nas primeiras páginas da imprensa. O Correio da Tarde, que se assumia como católico e noticioso, publicou mesmo, a 22 de junho de 1901, «um número especial destinado a consagrar e perpetuar esta honrosa e auspiciosa visita». Em várias páginas, nas quais também se reproduziam duas gravuras de D. Carlos I e da Rainha D. Amélia, descrevia-se que «nunca tamanha gala esta terra viu nem tamanho entusiasmo nela palpitou» (Correio da Tarde, 22 jun. 1901, 2).

Mas enquanto o povo palpitava de entusiasmo perante a inédita situação de hospedar em território insular tão real presença, os jornais dos dias seguintes não perdiam a oportunidade para, a par do relato da visita, chamar a atenção para as necessidades da terra e das suas gentes. Novamente o Diário de Notícias, na sua edição de 25 de junho de 1901, embora admitindo que a altura festiva não era propícia para os jornais estarem a reclamar das necessidades do povo, apelava ao conselheiro Hintze Ribeiro para «em qualquer oportunidade, pois que lhe escasseia o tempo de o fazer agora, percorrer esta ilha onde a par de muitas belezas naturais encontraria o mais deplorável atraso de melhoramentos públicos – especialmente no que respeita a estradas e levadas de irrigação, fatores indispensáveis de fomento agrícola, fonte primacial da riqueza d’esta ilha.» (DN, 25 jun. 1901, 1).

Fica claro que a visita do Rei D. Carlos I gerou grandes esperanças de uma maior consciência do poder central face às dificuldades insulares. Disso fizeram eco os jornais, embora toda a visita tivesse decorrido em ambiente de festa e sem qualquer reclamação ou manifestação por parte do povo.

Bibliog.: Diário de Notícias, Madeira, 21 jun. 1901, p. 1; Diário de Notícias, Madeira, 23 jun. 1901, p. 1; Correio de Tarde, Funchal, 22 jun. 1901, p. 2; Diário de Notícias, Madeira, 25 jun. 1901, p. 1.

Raquel Gonçalves

(atualizado a 26.08.2016)